Capítulo 188 – “O que fazer com a liberdade?”
Capítulo 188 – “O que fazer com a liberdade?”
Frank ainda estava sentado no mesmo lugar onde o tinham deixado, ao lado do cofre aberto, quando Zareph, Naira e Thamir voltaram para a sala da contabilidade.
O interior do cofre estava completamente exposto agora. Pilhas de ouro ocupavam as prateleiras inferiores, caixas de pedras preciosas dividiam espaço com pequenos cofres lacrados, mas nada daquilo parecia interessar ao rapaz.
Ele já havia puxado uma das pastas de registro.
Os olhos corriam pelas páginas numa velocidade absurda, folheando documentos como alguém procurando apenas palavras específicas.
De repente, soltou um assobio baixo.
— Rapaz… isso aqui tá melhor que novela.
Virou mais uma página.
— Tem comprador em Cervalhion… Altheria… até guarda da fronteira recebendo propina.
Olhou rapidamente para Naira, erguendo uma sobrancelha.
— Acho que vamos fazer bastante amigo nos próximos meses.
Frank levantou a cabeça imediatamente.
— Eu posso ajudar.
Ninguém respondeu.
Ele respirou fundo e tentou outra vez.
— Eu conheço esses registros. Sei ler os códigos internos, sei onde ficam os livros escondidos, os depósitos, as rotas…
Thamir virou outra página.
Nem parecia ter ouvido.
— Eu também sei quem comprava! — Frank insistiu, a voz falhando de desespero. — Nobres, comerciantes, chefes militares… eu posso identificar cada um deles.
Silêncio.
Zareph observou Frank por alguns segundos antes de voltar os olhos para Thamir.
— E ele?
Thamir fechou a pasta devagar.
— Não somos nós que vamos decidir isso.
Ela esperou que ele continuasse.
Ele apoiou a pasta sobre a mesa.
— Chamem quem viveu acorrentado aqui.
Zareph permaneceu em silêncio.
— Essa escolha pertence a eles.
Foi só então que Frank entendeu.
O sangue desapareceu do rosto dele.
— N-não…
Levantou tão depressa que quase caiu.
— Espera! Não faz isso!
Os dois meio-Rum’brath ao lado dele apenas o seguraram de volta no banco.
— Eles vão matar a gente!
Thamir finalmente olhou para ele.
Não havia raiva.
Nem satisfação.
Só uma tranquilidade desconfortável.
— Talvez.
A resposta saiu simples.
— Talvez não.
Frank ficou encarando aquele rosto, procurando qualquer sinal de piedade.
Não encontrou.
Thamir voltou a abrir outra pasta.
— Mas essa decisão nunca foi minha.
Os meio-Rum’brath começaram a conduzir os ex-escravos até o pátio da antiga fortificação.
Ninguém precisou dar ordens. O grupo apenas seguia, ainda em silêncio, como quem ainda não tinha certeza de que podia escolher outro caminho.
Frank e os poucos guardas sobreviventes vinham logo atrás, com as mãos amarradas e escoltados por dois Rum’brath cada um.
Quando chegaram ao espaço aberto, Naira observou rapidamente o grupo.
— Orof.
O Rum’brath voltou a atenção para ela.
— Leve as crianças para perto da cozinha improvisada. Deixe alguns adultos com elas. Só precisamos dos jovens e adultos aqui.
Orof fez um leve aceno de cabeça e caminhou na direção do grupo.
Mal os Rum’brath se aproximaram das quatro crianças, o pânico tomou conta do pátio.
Uma das mulheres puxou a filha para trás do próprio corpo.
— Não!
Outra agarrou os dois filhos contra o peito.
— Por favor… não leva eles!
Em poucos instantes, outras mães fizeram o mesmo, formando quase sem perceber um círculo ao redor das crianças.
Alguns homens também deram um passo à frente, como se estivessem prontos para impedir aquilo com as próprias mãos, apesar de estarem exaustos demais para oferecer qualquer resistência.
Naira sentiu um peso no peito.
Era tão óbvio que ela nem havia pensado nisso.
Durante anos, separar pais e filhos sempre fora o primeiro passo antes de vender alguém.
Zareph percebeu a tensão imediatamente.
Ergueu uma das mãos, pedindo calma.
— Ninguém vai separar famílias.
As mulheres permaneceram imóveis.
Ela esperou alguns segundos antes de continuar.
— Só não quero que crianças assistam ao que vai acontecer aqui.
O silêncio permaneceu, mas o medo começou a ceder lugar à hesitação.
— Elas ficarão a poucos metros daqui — continuou Zareph. — Com adultos que vocês escolherem para acompanhá-las. Assim que terminarmos, todos voltam a se reunir.
As mães trocaram olhares entre si.
Pouco a pouco, os braços foram relaxando.
Não porque confiassem nela.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém havia parado para explicar antes de simplesmente mandar.
Só então Orof conduziu as crianças até a antiga cozinha improvisada, acompanhado por alguns dos próprios ex-escravos que se ofereceram para ficar com elas incluindo algumas mães.
Quando o pátio voltou a ficar em silêncio, restavam apenas os jovens e os adultos diante dos prisioneiros ajoelhados.
Frank olhou ao redor e, pela primeira vez desde que saíra da sala do cofre, pareceu compreender exatamente quem decidiria seu destino.
Zareph falou de novo, a voz igualmente baixa de antes.
— Quem quiser decidir o que acontece com esses homens, pode decidir.
Não explicou mais do que isso. Não disse o que “decidir” significava, exatamente, deixando a interpretação em aberto.
A maioria não se moveu.
Alguns simplesmente deram as costas e começaram a caminhar em direção à trilha que levava para fora da clareira, sem olhar para trás uma única vez, como se decidir qualquer coisa relacionada àquele lugar fosse mais peso do que conseguiam carregar.
Uma mulher mais velha começou a chorar, baixinho, cobrindo o rosto com as duas mãos.
Um homem mais jovem, ainda com marcas de corrente recentes nos pulsos, olhou na direção de Frank por um segundo, e desviou o olhar imediatamente, como se não conseguisse sustentar aquilo por mais tempo que isso.
Naira sentiu o peso de cada uma dessas reações. Não era covardia. Era exaustão de um tipo que ela conhecia, a exaustão de quem passou tempo demais sem ter escolha nenhuma para agora, de repente, ter escolha demais de uma vez.
Foi então que três jovens deram um passo à frente.
Naira os reconheceu na hora, os mesmos três que, durante a confusão da libertação, tinham se colocado entre as crianças e a porta, formando uma barreira de corpo mesmo sem saber ainda se havia perigo real do lado de fora. Todos com traços que ela reconhecia bem. Os olhos ligeiramente felinos, a postura tensa e rápida de quem carregava sangue Kenzaru nas veias, ainda que nenhuma linhagem tivesse sido formalmente despertada neles.
O mais velho dos três, um rapaz magro com uma cicatriz recente na altura da têmpora, olhou para Zareph.
— Se fizermos isso — perguntou, a voz mais firme do que Naira esperava — ninguém vai nos impedir?
— Não — respondeu Zareph.
O rapaz olhou para Thamir, como se precisasse de uma segunda confirmação antes de acreditar na primeira.
— A decisão é de vocês — disse Thamir, simplesmente.
Ninguém mais precisou dizer nada.
Por alguns segundos, ninguém saiu do lugar, a maioria apenas olhava para os homens ajoelhados. outros desviavam os olhos.
Nenhum deles disse uma palavra, apenas caminharam até os corpos dos soldados espalhados pelo pátio. O primeiro se abaixou ao lado de um guarda morto e, depois de hesitar por um instante, puxou a espada ainda presa entre seus dedos rígidos.
O segundo fez o mesmo.
O terceiro precisou apoiar o pé sobre o peito de um guarda morto para arrancar a lâmina da bainha.
O aço deslizou com um som seco. Pela primeira vez desde que haviam sido capturados, eram eles quem seguravam o aço.
Os guardas ajoelhados entenderam o que aquilo significava.
— Espera! Nós só obedecíamos ordens!
Outro riu pelo nariz.
— Vai mesmo deixar um bando de mestiço decidir?
Cuspiu no chão.
— Olha pra vocês…
Sorriu.
— Continuam parecendo animais.
Um dos jovens Kenzaru parou diante dele.
Por um instante, Naira achou que ele fosse responder.
Não respondeu.
A espada desceu em um único golpe, o corpo tombou antes mesmo que o sangue terminasse de espirrar. O restante aconteceu quase ao mesmo tempo, dois guardas tentaram correr.
Os Rum’brath não se moveram, nem precisaram. Os próprios jovens os alcançaram antes que cruzassem metade do pátio.
O primeiro caiu com um corte nas costas.
O segundo ainda conseguiu dar mais dois passos antes de a lâmina atravessar seu pescoço.
Os outros guardas começaram a gritar.
Alguns imploravam.
Outros xingavam até o último instante.
No fim, não fez diferença.
Quando o silêncio voltou à clareira, os três rapazes permaneciam parados, as espadas pingando sangue, respirando pesadamente.
Nenhum deles parecia satisfeito.
Nenhum parecia aliviado.
Apenas… vazio.
Os corpos foram levados pelos próprios meio-Rum’brath, com o mesmo cuidado estranho de antes, o mesmo respeito reservado até para quem não tinha oferecido respeito nenhum em vida.
Um dos três jovens, o mais novo, ainda com o rosto quase infantil apesar de tudo que tinha acabado de fazer, se afastou alguns passos e vomitou na terra, o corpo inteiro tremendo com o esforço.
O segundo ficou parado, os ombros sacudindo, incapaz de esconder o tremor que tomava conta dele inteiro.
O terceiro o mais velho, o que tinha feito a pergunta, só ficou olhando pras próprias mãos, virando-as devagar, como se procurasse alguma marca que devesse estar ali e não estava.
Zareph se aproximou de Thamir, os olhos ainda nos três jovens ao longe.
— Você já sabia que seria assim? — perguntou.
Thamir observou os três por um momento antes de responder.
— Não — disse, finalmente. — Eu só sabia que essa decisão nunca deveria ser minha.
Zareph não respondeu na hora. Apenas ficou olhando para ele por alguns segundos antes de Thamir completar.
— Eu só sabia que, se eu escolhesse por eles…
Fez uma pequena pausa.
— …eles continuariam sendo prisioneiros.