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Capítulo 189 – O Rei sem Reino.

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Capítulo 189 – O Rei sem Reino.

O Salão do Conselho estava quieto de um jeito que incomodava mais que qualquer gritaria.

Não havia criados circulando com bandejas de vinho, nem o movimento apressado dos serviçais que normalmente preparavam tudo antes de uma reunião importante. Os estandartes recém-trocados, uma exigência que Varyn sempre fazia questão de manter, também não estavam ali. Alguns dos antigos ainda pendiam tortos das paredes, um deles com a borda queimada que ninguém se dera ao trabalho de substituir.

Metade dos assentos ao redor da mesa longa estava vazia. Algumas cadeiras sequer tinham sido puxadas de volta desde a última reunião, ficaram encostadas na parede, como se alguém já tivesse desistido de fingir que precisaria delas de novo.

Os nobres que restaram chegaram de maneiras diferentes. Alguns ainda traziam meia dúzia de guardas atrás de si, uniformes cuidadosamente limpos, como se a aparência pudesse provar que a própria casa continuava com alguma força. Outros vieram sozinhos, sem escolta nenhuma.

Todos olhavam para Mael.

Esperavam que ele tivesse uma resposta. Um plano. Alguma coisa guardada em algum canto daquela mente que, durante tanto tempo, sempre parecera encontrar saída onde ninguém mais parecia enxergar nada.

Havia uma ironia, que o próprio Mael percebeu antes de qualquer um dos outros. Pela primeira vez em vinte anos de serviço, ele não tinha um plano.

A reunião começou em caos, como as últimas três.

— Precisamos declarar guerra imediatamente — disse Lorde Hyrren, batendo a palma da mão sobre a mesa. — Cada dia que esperamos, perdemos mais força.

— Fechem as fronteiras — retrucou outro, do lado oposto. — Não vamos iniciar uma guerra que não temos condição de vencer. Precisamos estabilizar o reino antes.

— Estabilizar como, exatamente? — cortou um terceiro. — O reino já está entregue às traças.

— Essa é a melhor hora de atacar Cervalhion. Soube que Aedin atacou a comitiva de Altheria — provavelmente vão ter que lutar em duas frentes.

— Se atualize, meu amigo. — Um quarto nobre balançou a cabeça, quase com pena. — Estão negociando nesse exato momento, porque, ao que parece, Altheria perdeu uma Matriarca no ataque.

— Se estivéssemos minimamente unidos, essa seria uma ótima oportunidade…

— A culpa é dos traidores dentro dessa própria mesa — respondeu outro, olhando ao redor como se esperasse encontrar o culpado só de observar rostos por tempo suficiente.

Alguém murmurou o nome de Mael, baixo, quase sem coragem de dizer alto.

Ele não reagiu.

Não porque não tivesse ouvido. Ouvira. Vinte anos de serviço tinham lhe ensinado a separar informação útil do ruído produzido por homens assustados. E aquilo era ruído, cada um falando pela própria casa, sua terra ou o nome, ninguém falando por Elandor.

Elandor já não tinha nobreza.

Tinha sobreviventes com título.

Ele ergueu a mão.

As vozes foram diminuindo, uma a uma, até restar só o arrastar de uma cadeira e uma tosse abafada no fundo da sala.

Mael não fez discurso. Não tentou convencer ninguém de nada.

Só começou a organizar informação, do jeito que sempre fazia.

— Quantos homens ainda podemos reunir?

Hyrren respirou fundo antes de responder, o peito estufado como quem prepara um número que soe melhor do que é.

— Cinco mil.

— Cinco mil ao todo, ou cinco mil prontos pra marchar amanhã? — Mael nem levantou os olhos do papel.

O silêncio de Hyrren durou tempo suficiente para responder por ele.

— Dois mil e quinhentos — corrigiu, a voz mais baixa.

Outro lorde, mais adiante na mesa, evitou olhar para Mael quando foi sua vez.

— Setecentos — murmurou, os dedos batendo de leve na madeira, um gesto nervoso que ele parecia nem perceber que estava fazendo.

— Setecentos ao todo?

— Setecentos que ainda respondem ao meu nome sem hesitar. — O homem engoliu em seco. — O resto… já não sei dizer a quem responde mais.

Um terceiro tentou disfarçar, arredondando o número para cima

— mil, talvez mil e duzentos — até que Mael, sem qualquer acusação na voz, apenas repetiu a pergunta de outro jeito, e o próprio nobre acabou se corrigindo sozinho, envergonhado, como se a mentira tivesse murchado na própria boca antes de terminar de sair.

Mael anotava cada número, cada correção, sem comentar.

— Quanto alimento ainda temos estocado?

Dessa vez, dois lordes começaram a falar ao mesmo tempo, cada um tentando emendar a própria resposta na do outro antes que o silêncio entregasse tudo sozinho. Um deles chegou a mencionar reservas que, segundo ele, “ainda estavam sendo contadas”.

Mael esperou. Não insistiu.

O número, quando finalmente veio, era menor do que qualquer um ali estava disposto a admitir em voz alta.

— Quanto conseguimos arrecadar este mês?

Um lorde mais velho bateu de leve os nós dos dedos na mesa antes de responder, o mesmo gesto de alguém organizando uma desculpa antes de organizar um fato.

— As cobranças têm sido… difíceis. Os comerciantes reclamam das estradas.

— Isso não é resposta pra quanto — disse Mael, ainda sem erguer a voz.

O homem baixou os olhos.

A resposta real, quando saiu, foi seguida por um silêncio diferente dos anteriores — não vazio, mas pesado, como se todos na sala tivessem feito a mesma conta ao mesmo tempo e não gostado igualmente do resultado.

Mael continuou escrevendo por mais alguns minutos, organizando homens, alimento, dinheiro e rotas em colunas cada vez mais estreitas.

Não precisou de ábaco nem de pergaminho extra. Os números já estavam organizados na própria cabeça antes de terminar de anotá-los.

Pousou a pena sobre a mesa.

— Mesmo que todos entreguem cada homem que possuem — disse, olhando pros números — ainda seremos menores que Cervalhion.

Hyrren cruzou os braços, o rosto vermelho de uma raiva que não tinha mais para onde apontar.

— Então o que você propõe? Que a gente simplesmente se ajoelhe?

— Eu não propus nada ainda. — Mael se levantou e caminhou até o mapa estendido na parede lateral. — Só estou garantindo que ninguém aqui vá pra guerra achando que os números são outros.

Tocou Cervalhion primeiro. Depois Kharun. Passou o dedo pelas estradas que ligavam os dois pontos.

— Perdemos Kharun. Perdemos parte da arrecadação. Perdemos homens, produção, rotas comerciais. — O dedo parou sobre uma região agrícola marcada em verde desbotado. — E já estamos na metade do estoque da colheita deste ano.

Não precisou dizer o resto. Cada perda significava outra coisa em cadeia, menos soldado alimentado, menos imposto, menos comércio, menos tempo para reconstruir qualquer coisa depois.

— Mesmo que consigamos vencer Cervalhion — continuou —, quem vai proteger Elandor depois?

Foi um dos lordes mais jovens quem quebrou o silêncio dessa vez, a voz um pouco insegura, como se soubesse que a pergunta ia soar covarde antes mesmo de terminar de fazê-la.

— Então… não atacamos?

Mael olhou para ele por um instante mais longo do que a pergunta exigia.

— Atacamos.

— Isso é suicídio — disse Hyrren, sem tentar disfarçar o desprezo.

— Talvez. — Mael voltou para mesa e se sentou de novo. — Mas esperar também é. Cervalhion tem comida, soldados, dinheiro, rotas abertas e tempo. Nós não temos nenhum dos quatro. — Fez uma pausa, deixando o peso da frase se assentar antes de continuar. — Então precisamos de uma vitória rápida. Entrar, quebrar a capacidade deles de reagir, obrigá-los a negociar antes que consigam mobilizar tudo que possuem. As tropas deles ainda estão distraídas contendo o aumento de bestas — é a única vantagem real que ainda temos, e ela não vai durar.

— E se não conseguirmos? — perguntou Hyrren, mais baixo dessa vez.

— Então Elandor acaba.

A frase não saiu dramática. Era só a verdade, dita sem nenhum ornamento.

Mael baixou os olhos pros próprios números. Pela primeira vez, não estava tentando encontrar uma forma de vencer.

Estava tentando encontrar uma forma de perder mais devagar.

Isso o incomodava mais do que ele gostaria de admitir para sala inteira mas, se aquela era a única jogada que restava, precisava fazê-la funcionar mesmo assim.

Ele voltou ao mapa.

— Não podemos avançar pela fronteira inteira. Seria lento demais, e quanto mais tempo nossas tropas ficarem espalhadas, mais fácil pra Cervalhion nos cercar. — Moveu o dedo pro sul. — Entramos por aqui.

Alguns nobres se inclinaram sobre a mesa.

— A primeira força atravessa a fronteira e vai direto pros depósitos de abastecimento. Não perde tempo com cidades pequenas, postos de guarda ou propriedade nobre nenhuma. Se não estiver no caminho, não paramos.

— E depois? — perguntou Hyrren.

— A segunda força corta as rotas entre os depósitos e o interior. Não precisamos tomar cidade nenhuma. Precisamos impedir que Cervalhion consiga abastecê-las. — O dedo parou sobre três pontos marcados no mapa. — Se derrubarmos esses três, metade da resposta deles vai bem mais lenta.

Os nobres começaram a discutir entre si, quem comandaria cada flanco, quantos homens cada casa mandaria, quem ficaria responsável pela retaguarda.

Foi Varyn quem interrompeu.

— Isso é tudo muito bonito no mapa. — A voz do rei cortou a discussão, seca, e todos na mesa se calaram, o tipo de silêncio que só existe quando quem fala é quem tem, de fato, poder de mandar cortar uma cabeça. — Mas alguém aqui vai me explicar por que é meu conselheiro quem está desenhando a guerra, e não eu?

Mael parou, a mão ainda sobre o mapa.

— Porque Vossa Majestade me pediu números, e eu trouxe números. O plano nasceu deles.

— Eu pedi uma reunião — disse Varyn, se levantando devagar da cabeceira, a autoridade voltando ao corpo dele de um jeito que Mael reconheceu, com certo alívio silencioso, como o rei que ele conhecia antes de tudo aquilo começar a desmoronar. — Não pedi que outro homem decidisse por mim onde meus soldados vão morrer.

A sala inteira prendeu a respiração.

— Vossa Majestade está certo — disse Mael, sem hesitar, curvando a cabeça o suficiente para ser respeitoso sem parecer submisso. — A decisão final é sua. Eu só trouxe o que a decisão precisa pra não ser tomada no escuro.

Varyn olhou para ele por um longo momento, a raiva ainda visível na tensão da mandíbula, mas já se acomodando em algo mais parecido com exaustão do que fúria.

— Marcharemos — disse, finalmente, a voz recuperando o peso de comando que tinha faltado a reunião inteira. — Não porque os números decidiram por mim, Mas por ser a única opção de defendermos nossa cultura e estilo de vida, marcharemos por nossas famílias.

Dessa vez, a voz veio um pouco mais firme.

Ninguém respondeu.

Mael observou os rostos ao redor da mesa.

Desconforto.

Irritação.

Medo.

Alguns já nem tentavam esconder o cansaço. Outros trocavam olhares rápidos, como se estivessem começando a perceber que obedecer poderia ser tão perigoso quanto desobedecer.

Mas ninguém enfrentou Varyn.

Ainda.

Mael voltou os olhos para o rei.

Durante anos, Mael havia transformado as decisões daquele homem em estratégias possíveis. Agora começava a perceber algo que jamais imaginara precisar admitir: Varyn já não sabia reconhecer quando uma decisão deixava de ser uma escolha e passava a ser apenas teimosia.