Capítulo 190 – “Erro Amador”
Capítulo 190 – “Erro Amador”
Mael estava em pé sobre a própria cama, olhando pro chão do quarto como quem olha para um campo de batalha em miniatura.
O assoalho inteiro tinha desaparecido debaixo de papel. Mapas desenhados à mão, cada um marcado com datas e setas. Relatórios de perda copiados de próprio punho espalhadas entre tudo aquilo, sem ordem aparente para quem entrasse ali sem saber o que estava vendo.
Ele ficou ali, imóvel, os olhos correndo pela bagunça organizada no chão, com os olhos se focando em algumas cartas que destoavam de todo o material. Mael analisava todo o material tentando fazer o que sempre fazia quando não conseguia resolver um problema: recomeçar do início, devagar, sem pular nenhum passo, era a melhor forma de achar a resposta.
A primeira carta ficava mais perto da porta, no canto que representava o Salão de Vidro.
Ele desceu da cama sem pressa e se agachou para pegá-la, embora já soubesse de cor cada palavra escrita nela.
“Jura? Precisa de uma carga maior se quiser me chocar.”
A armadilha do lustre. uma das ciladas mais elaboradas que ele já tinha montado em vinte anos de serviço, runas de arcos elétricos escondidos na estrutura, cristais de contenção disfarçados de ornamento, todo o sistema calibrado para prender um invasor por tempo suficiente para cercá-lo. Tinha funcionado exatamente como planejado, exceto pela única variável que importava.
Os invasores escaparam.
Maek escapara.
Mael tinha esperado, depois daquilo, que o próximo movimento fosse um golpe direto, algo rápido, devastador, um ataque relâmpago na própria capital, do jeito que qualquer inimigo racional faria depois de destruir duas fortalezas inteiras.
Mas nada daquela escala aconteceu.
Em vez disso, as rotas ao norte e ao oeste começaram a sofrer ataques pequenos, dispersos. Assaltos de contrabandistas, emboscadas de bandidos que normalmente não tinham coragem de se aproximar tanto das estradas principais. Levou dias para Mael perceber o padrão por trás daquilo, porque o padrão não fazia sentido nenhum enquanto ele insistisse em pensar que estava lidando com um único inimigo.
Foi aí que Mael percebeu o primeiro erro que reconhecia como próprio.
Ele estava tentando encaixar todos aqueles ataques no mesmo padrão.
Não funcionava.
Alguns eram brutais demais. Outros, precisos demais. Havia ataques que destruíam tudo pelo caminho e outros que pareciam escolher exatamente o que levar e o que deixar para trás.
Estratégias diferentes.
Objetivos diferentes.
Talvez até inimigos diferentes.
Na época, Mael não tinha certeza.
Só sabia que alguém estava aproveitando o caos melhor do que ele.
A pergunta que ficou martelando durante semanas era simples de formular e impossível de responder na época: qual organização tinha aproveitado a brecha?
Ele não sabia ainda.
Mas já suspeitava, mesmo sem provas, que era a mesma organização que acabaria derrubando o Véu de Safira inteiro. O padrão de eficiência era parecido demais para ser coincidência.
A segunda carta estava um pouco mais adiante no chão, marcando o ponto onde ficavam os armazéns de seiva refinada.
“Boa tentativa, mas da próxima vez coma algo mais leve no café da manhã. Um bife logo cedo te deixou lento.”
Mael tinha antecipado corretamente que o próximo alvo seriam os armazéns, dobrara a guarda, reforçara as rotinas de vigia, chegara a reorganizar pessoalmente os turnos para fechar qualquer brecha óbvia demais.
Não importou.
De alguma forma, Maek entrara e saíra sem deixar rastro de como.
Foi nesse ponto que Mael entendeu, com a clareza fria e desconfortável de quem finalmente reconhece o próprio erro, que estava sendo observado. Não em geral, como conceito abstrato de espionagem inimiga, mas especificamente, pessoalmente, de perto o suficiente para alguém saber que café da manhã ele tomava.
Ele tomou contramedidas, começou o pente-fino.
Interrogou, ao longo de duas semanas, cada funcionário do castelo com acesso a informação sensível. Encontrou oito possíveis vazamentos: dois provavelmente ligados a Cervalhion, embora nenhum tivesse admitido nada sob pressão; três conectados aos povos nômades do deserto, cuja lealdade já era instável havia meses; o resto espalhado entre organizações criminosas menores, cada uma vendendo informação pro maior comprador disponível naquela semana.
Fechou o que pôde fechar.
E, naquela época, ainda havia tempo.
Elandor ainda podia ser recuperado. As rotas ainda podiam ser reconstruídas. Os cofres ainda tinham reservas suficientes para sustentar uma campanha de reconstrução, até os nobres ainda podiam ser pressionados a permanecer ao lado da Coroa.
Mael ficou alguns segundos olhando para a segunda carta.
O mais irritante era aquilo.
Naquela época, Elandor ainda podia ser salvo.
Não estava bem, nem estava seguro. Mas ainda havia caminhos a tomar.
Ele simplesmente não tinha percebido que alguns deles estavam sendo fechados enquanto ele procurava os responsáveis.
A terceira carta ele encontrou pregada na própria porta do quarto, a informação mais desconfortável de todas, porque significava que Maek tinha estado ali, naquele corredor, perto o suficiente para matá-lo enquanto dormia, e escolhera não fazer isso.
Mael segurou aquele pedaço de papel por mais tempo do que os outros dois, lendo de novo, mesmo já sabendo cada palavra.
“Se quiser me encontrar, vai ter que desistir. Mas se quiser saber o quão burro você está parecendo, basta deixar uma carta no batente que o vento cuida do resto.”
No início, achou que fosse zombaria pura, o tipo de provocação vazia que qualquer inimigo mandaria só para desestabilizar. Levou um dia inteiro para perceber que não era isso.
Era um convite.
Mael percebeu então uma coisa desconfortável.
Maek não estava apenas provocando, estava esperando uma resposta. Não precisava daquela carta. Não precisava daquela informação. Se quisesse apenas desestabilizá-lo, havia maneiras muito mais simples de fazer isso.
Mas aquilo era diferente.
Maek queria saber se Mael continuaria jogando, e contra todo bom senso, Mael queria descobrir até onde aquele jogo iria.
Foi aí que ele mudou de estratégia.
Escreveu uma carta própria, curta, provocando de volta, testando se aquilo funcionava como via de comunicação real, ou se era só mais uma armadilha psicológica para fazê-lo baixar a guarda.
Deixou no batente da própria porta, como instruído.
Na manhã seguinte, a conexão com os nobres do deserto caiu por completo, três rotas inteiras de suprimento simplesmente cortadas, sem aviso, sem confronto direto registrado por nenhum vigia.
Olhando para trás, com o mapa inteiro estendido no chão do quarto, o padrão ficava óbvio de um jeito que doía reconhecer: tinha sido um golpe cirúrgico, exato, sem o desperdício de força que caracterizara os primeiros ataques contra Kharun e Sal-Reth.
Mael ainda não entendia por que Maek tinha escolhido precisão em vez de força bruta daquela vez, por que gastar menos poder num alvo que, em teoria, merecia o mesmo tratamento devastador dos primeiros dois.
A resposta veio na quarta carta.
Ele tinha perguntado, na própria mensagem deixada no batente, exatamente isso… por que a mudança de método.
A resposta de Maek foi curta.
“Nhã. Dá muito trabalho.”
…
Mael ficou olhando para aquela frase por alguns segundos.
Leu outra vez.
Depois soltou uma risada curta, sem humor.
Claro.
Não havia estratégia grandiosa por trás daquilo. Nenhuma mensagem escondida. Nenhuma tentativa de impressioná-lo. Maek simplesmente não via motivo para gastar mais esforço do que o necessário.
Mael dobrou a carta devagar.
Aquilo, de alguma forma, era mais irritante do que qualquer provocação.
Isso o trouxe de volta pro presente, pro chão do quarto coberto de papel, para cama onde ele ainda estava de pé, para quinta e última carta que ainda segurava fechada na mão, aparentemente ela foi “entregue” durante a reunião.
Ele começou a desdobrar o papel.
Uma batida na porta o interrompeu antes que conseguisse ler a primeira palavra.
Mael desceu da cama, guardou a quinta carta no bolso interno do casaco sem terminar de lê-la, e atravessou o quarto até a porta.
Do outro lado estava um dos guardas mais jovens do castelo, um dos poucos que fazia parte da rede pessoal de informantes de Mael, gente que ele próprio recrutara e pagava do próprio bolso, fora da estrutura oficial da guarda real, porque confiança institucional já tinha deixado de significar alguma coisa fazia muito tempo.
O rapaz não disse nada de imediato. Só estendeu a mão, com três pequenos bilhetes dobrados.
Mael pegou os três, um de cada vez.
Abriu os três lentamente.
Três nomes e um texto.
Três nobres. Três conspirações separadas, ou talvez a mesma conspiração vista de três ângulos diferentes, ele ainda não sabia dizer ao certo, e essa incerteza específica era o tipo de coisa que normalmente o deixava curioso, não gelado por dentro.
Três nomes, todos já discutindo, em algum canto daquele mesmo castelo, a forma mais simples de resolver o problema de Elandor.
Não vencer Cervalhion.
Matar o próprio rei antes que a guerra sequer começasse.
Mael olhou pro rapaz na porta, depois pros três bilhetes na própria mão, depois por reflexo, quase sem querer, pro chão do quarto atrás dele, coberto de mapas, cartas, e semanas inteiras tentando entender um único inimigo externo.
Mael permaneceu imóvel por alguns segundos.
Olhou para os três bilhetes, depois para o chão do quarto. Mapas, relatórios, cartas, meses inteiros tentando descobrir como Maek conseguira fazer Elandor sangrar sem nunca mostrar a mão.
E, durante todo aquele tempo, havia outro problema crescendo dentro das próprias muralhas.
Mael ergueu os olhos para o guarda.
— Quem mais da corte sabe disso?
— Ninguém, senhor.
Mael dobrou os três bilhetes e os guardou no bolso interno do casaco.
— Então continue assim.
O rapaz assentiu.
Mael caminhou até a janela, lá fora, Elandor ainda parecia inteira sob a luz fraca da noite.
Pela primeira vez, ele percebeu que talvez essa fosse apenas a aparência.
— Feche as portas do castelo.
O guarda hesitou.
— Todas?
Mael demorou alguns segundos para responder.
— Todas.