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Capítulo 191 – Entre Escolhas e Decisões.

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Capítulo 191 – Entre Escolhas e Decisões.

A notícia chegou ao esconderijo pouco depois do anoitecer.

O homem que voltara da estrada ainda carregava lama até os joelhos. O cheiro de terra molhada e suor de cavalo chegou antes dele à clareira, misturando-se à fumaça das fogueiras e ao cheiro de madeira recém-cortada.

— Alto Lírio foi lacrado.

Thamir estava sentado sobre uma tora cortada, perto o suficiente da fogueira principal pra sentir o calor sem precisar se aproximar, uma faca pequena girando entre os dedos com a mesma displicência de sempre.

Girou a lâmina uma vez. O metal pegou um reflexo alaranjado do fogo.

— Lacrado como?

— Todos os portões do castelo. Passagens internas. Aquedutos. Ninguém entra ou sai do castelo.

Thamir parou de girar a faca.

— Interessante.

O homem esperou, o peso alternando de um pé pro outro, ainda sem coragem de sacudir a lama que grudava nas botas.

— Isso é bom ou ruim? — perguntou.

Thamir olhou pra ele.

— Depende. Você gosta de estar dentro de um castelo quando alguém decide trancar todas as portas?

O homem não respondeu.

— Então é ruim.

Ele voltou a olhar pra faca.

— Pode ir.

O homem assentiu e desapareceu entre as árvores, os passos afundando na terra encharcada até o som sumir devagar.

Por alguns segundos, Thamir permaneceu sentado, deixando o som do bosque preencher o espaço que o mensageiro tinha ocupado.

Ao redor, o esconderijo continuava funcionando, indiferente à notícia que acabara de chegar. Homens atravessavam a clareira carregando caixas, as botas afundando de leve na terra ainda mole da chuva do meio da tarde. Alguns dos Rum’brath cuidavam das feridas dos libertados perto da cabana médica improvisada, o cheiro de ervas e resina misturado ao da fumaça. Outros verificavam, em voz baixa, quais rotas ainda permaneciam abertas, os dedos correndo por mapas iluminados só pela luz irregular de lampiões pendurados em ganchos de ferro.

Mais ao fundo, a fogueira principal queimava diante da cabana principal, alta o suficiente pra lançar sombras compridas e tremeluzentes por entre os troncos.

Tudo continuava se movendo, do jeito organizado e silencioso que já tinha virado rotina naquele lugar.

Mas alguma coisa no ar tinha mudado, uma tensão nova flutuando por cima do cheiro de fumaça e terra molhada, como o momento exato antes de uma tempestade decidir se vai ou não descer.

Thamir guardou a faca na bainha presa à perna.

— Finalmente.

Zareph, que estava alguns passos atrás dele, entre a sombra da cabana e o alcance da luz do fogo, ergueu os olhos dos papéis que segurava. O vento fraco da noite balançava as bordas das folhas, e ela precisou prender uma delas com o polegar pra não perder a página.

— Você parece satisfeito — disse ela.

— Estou.

— Por quê?

— Porque agora não preciso mais me preocupar com eles.

Zareph ergueu os olhos.

— Você acha que acabou?

— Para mim?

Ele deu de ombros.

— Quase.

Ela ficou olhando para ele.

Thamir levantou-se.

— As defesas externas já caíram. As rotas estão quebradas. Os nobres estão mais preocupados em salvar o próprio pescoço do que o reino.

Ele pegou uma caneca esquecida perto da fogueira e examinou o conteúdo.

— E agora Mael trancou todo mundo lá dentro.

Fez uma careta.

— Isso nunca é um bom sinal.

Zareph não respondeu.

Thamir bebeu um gole.

— Frio.

— Está frio há horas.

— Então alguém deveria ter me avisado.

— Você pegou a caneca.

— Detalhes.

Ele deixou a caneca sobre o tronco.

Zareph voltou aos papéis.

— Então você vai embora.

Não era uma pergunta.

Thamir olhou para ela.

— Pretendo.

Os dedos dela pararam sobre uma folha, só por um instante.

Mas ele viu.

— Algum problema?

— Nenhum.

— Ótimo.

Thamir começou a se afastar.

— Thamir.

Ele parou.

Zareph ainda estava olhando para os papéis.

— Você vai para Cervalhion?

— Provavelmente.

— E depois?

Ele sorriu de lado.

— Você está fazendo um interrogatório?

— Estou perguntando.

— Então sim. Depois eu vou para Altheria.

O silêncio veio rápido.

Zareph assentiu.

— Certo.

Thamir esperou.

Ela não disse mais nada.

— Só isso?

— O que você queria que eu dissesse?

— Não sei. Algo dramático. Talvez “não vá, Thamir, o reino precisa de você”.

Zareph finalmente ergueu os olhos.

— O reino não precisa de você.

Ele levou a mão ao peito.

— Finalmente alguém reconhece meu verdadeiro valor.

— Eu quis dizer…

Ela parou.

Thamir sorriu.

— Eu sei.

Ele começou a andar novamente.

Zareph desviou o olhar.

— Você poderia ficar.

A frase saiu tão baixa que quase se perdeu no barulho da fogueira.

Thamir parou.

Não se virou imediatamente.

— Poderia.

— Não estou falando de alguns dias.

Agora ele se virou, Zareph parecia arrependida de ter começado aquela conversa.

Ela respirou fundo.

— As coisas estão mudando.

— Estão.

— E eu quero aproveitar isso.

Thamir soltou uma risada.

— Aí está.

— O quê?

— A parte em que você tenta transformar isso em trabalho.

Zareph ficou em silêncio.

Ele continuou sorrindo, mas menos.

— Não funciona muito bem quando você está nervosa.

Ela apertou os papéis.

— Eu não estou nervosa.

— Está.

— Não estou.

— Zareph.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Eu não quero que você vá.

A brincadeira desapareceu do rosto dele.

Dessa vez, Thamir não respondeu.

Zareph olhou para o fogo.

— É só isso.

Ele continuou parado.

— Não precisa responder agora.

Thamir olhou para ela por alguns segundos.

Depois para a floresta.

— Eu tenho uma promessa.

Zareph assentiu.

— Eu sei.

Ele esperou que ela dissesse alguma coisa.

Ela não disse.

— E você está me pedindo para quebrá-la?

— Não.

— Então o que está pedindo?

Zareph demorou.

— Estou pedindo para você decidir se ainda quer cumpri-la.

Thamir ficou imóvel.

— Esquece.

— Não.

Ele caminhou até ela.

Parou perto o bastante para que precisasse abaixar um pouco a voz.

— Vou pensar.

Zareph assentiu.

— Certo.

Ele caminhou alguns passos.

— E, Zareph?

Ela olhou para ele.

— Não faça essa cara.

— Que cara?

— Essa de quem já sabe a resposta.

Ela franziu a testa.

— Eu não sei.

Thamir sorriu.

— Melhor assim.

E continuou caminhando até desaparecer entre as árvores.

O Salão do Corvo estava mais silencioso do que Lysvallis esperava para uma reunião daquela importância.

As arquibancadas elevadas que cercavam o recinto estavam ocupadas por nobres, conselheiros e oficiais de Cervalhion, mas os cochichos habituais haviam desaparecido desde que a negociação recomeçara naquela manhã. A tensão acumulada dos últimos dois dias parecia ter consumido a disposição de todos para discursos inflamados.

No centro do salão, as mesas curvas continuavam organizadas da mesma forma que haviam sido durante o encontro entre os três reinos.

Uma para Cervalhion.

Uma para Altheria.

A terceira permanecia vazia.

Um lembrete silencioso da ausência de Elandor.

Ou talvez um presságio.

Lys permaneceu sentada sozinha diante da corte, as cadeiras ao seu lado estavam vazias. Os nobres haviam notado o contraste daquilo desde o momento em que ela entrara.

Kael não estava presente.

Nenhum Guardião ocupava aquela mesa.

Apenas ela.

Mas estranhamente ela não parecia nervosa como se tudo estivesse correndo exatamente como ela havia planejado.

Do outro lado, o rei Aedin observava a rainha sem demonstrar pressa. A postura permanecia impecável, as mãos apoiadas sobre a madeira escura da mesa e o olhar atento de alguém acostumado a procurar armadilhas em cada palavra.

Talvez porque existissem armadilhas.

Lys quase sorriu, Kael passara boa parte da viagem de retorno discutindo aquela negociação.

Não os termos.

Os termos já estavam definidos.

O importante era a ordem, a forma e o ritmo.

Primeiro ela precisaria lembrar Cervalhion do custo de dizer não, somente depois poderia oferecer uma alternativa. Se cedesse cedo demais, pareceria desesperada, se demorasse demais, pareceria irracional.

Era um equilíbrio delicado e para a surpresa dela, Kael estava certo.

Novamente.

— Altheria mantém sua posição original.

A declaração percorreu o salão como uma pedra lançada em água parada.

Alguns nobres suspiraram.

Outros reviraram os olhos.

Um ou dois nem tentaram esconder a irritação.

Lys continuou como se nada tivesse acontecido.

— Acho que vocês ainda não compreenderam o problema que começaram. Vocês nos convidaram em tom de convocação para tratar um ataque de bestas que ainda está ocorrendo em suas terras.

Ela passou os olhos lentamente pelos nobres até parar em Aedin.

— Nós lhes estendemos a mão. Em resposta, fomos traídos. Um ataque sujo. Na calada da noite. Como ladrões.

Um dos nobres bateu a mão na mesa.

— COMO OUSA?

— Como ousa você? — Lys respondeu sem elevar a voz. — Um simples nobre tentando alterar o tom com uma rainha.

O homem congelou.

— Não confundam as coisas. Esta tentativa de diálogo não é medo. Altheria defendia suas fronteiras quando Cervalhion ainda não existia. Se é guerra que desejam, terão guerra.

Ela apoiou os dedos sobre a mesa.

— Eu apresentei os termos para a paz. Vocês os chamam de absurdos enquanto tentam justificar atrocidades muito maiores.

O salão voltou a mergulhar no silêncio.

Aedin observou a rainha por alguns segundos, a postura dela permanecia inabalável. Nenhuma hesitação ou sinal de dúvida, não parecia uma ameaça vazia, não parecia alguém procurando uma saída, parecia alguém perfeitamente disposta a levantar daquela mesa e ir embora.

Foi um dos conselheiros militares que rompeu o silêncio.

— Então não existe negociação.

— Minha simples presença aqui ao invés de um exército já mostra que há margem para negociação. — respondeu Lys.

Alguns rostos se voltaram para ela.

— Então o que de fato a rainha deseja?

Lys manteve a expressão neutra, por dentro, quase sorriu. Era exatamente o ponto ao qual queria chegar.

— Altheria exige as terras ao norte das Montanhas Centrais.

— Isso é Inaceitável.

— Então continuamos onde estamos.

— Está pedindo território demais.

— Estou cobrando o justo.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Se quisesse ser injusta, estaria pedindo as planícies férteis do leste.

Aedin se inclinou para frente.

— E se Cervalhion reconhecer formalmente a soberania de Altheria no norte, mas sem entregar toda a extensão exigida?

Lys não respondeu imediatamente.

Os dedos permaneceram imóveis sobre a mesa.

— Está me pedindo para reduzir a compensação pelo assassinato de uma Matriarca?

— Estou pedindo para encontrarmos uma solução.

Lys permaneceu em silêncio por alguns segundos, tempo suficiente para todos acreditarem que ela estava considerando.

— De quanto território estamos falando?

O salão pareceu despertar, os olhares dos nobres começaram a mudar. Até que três nobres se moveram.

— Majestade, isso é inaceitável.

— Estamos falando de território de Cervalhion.

— Estamos falando de evitar uma guerra. — respondeu Aedin sem sequer olhar para o homem.

— Majestade… Entendemos que essa negociação e necessária — Mas se ceder território nossas casas podem deixar de ter terras a governar.

Aedin olhou de lado para os nobres antes de voltar a atenção para Lysvallis.

— Podemos rearranjar isso depois, mas agora precisamos entender o quanto vamos ceder a Altheria e onde.

Pela primeira vez desde o início da reunião, a maioria dos nobres começaram a discutir números em vez de insultos.

— A metade norte da região.

— Não. — Rebateu um dos nobres do norte.

— Quarenta por cento.

— Não.

— Trinta.

— Você realmente acha que ela vai concordar?

— Estamos sem tempo.

Lys deixou a discussão se prolongar.

— Continuem.

Aedin percebeu imediatamente, ela estava cedendo. Pouco, mas estava e isso mudou completamente o clima da sala. Os nobres começaram a trocar olhares discretos, anotações surgiram os conselheiros passaram a cochichar entre si.

Pela primeira vez, a negociação parecia avançar.

Foi então que as grandes portas do salão começaram a se abrir.

O som das dobradiças ecoou pelo recinto e imediatamente chamou a atenção de todos os presentes.

Lys não precisou olhar.

O momento estava calculado.

Kael.

Pontual como sempre.

Agora a segunda parte do plano finalmente começava, enquanto ela assumiria o papel da governante severa mas razoável, Kael se tornaria a pressão.

O homem impaciente, o Guardião disposto a acabar com toda a mesa, e estava trajado para tal com sua armadura de placas como escamas.

Um discreto sentimento de satisfação surgiu dentro dela, até aquele momento, tudo seguia exatamente como Kael havia previsto. A corte acreditava que estava arrancando concessões, Aedin acreditava que estava conduzindo a negociação.

E ela estava prestes a oferecer a última proposta antes da entrada definitiva do Guardião na conversa. Foi quando, por trás de Kael um homem entrou em passos rápidos.

Um mensageiro, vestindo as cores reais de Cervalhion, carregando uma carta selada com uma expressão apreensiva.

E naquele instante, antes mesmo de ver a expressão de Aedin, Lysvallis soube que alguma coisa havia saído dos trilhos.