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Capítulo 192 – “Acordo territorial”

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Capítulo 192 – “Acordo territorial”

A carta chegou às mãos de Aedin enquanto os nobres do salão se rearrumavam nas cadeiras após a entrada de Kael.

O mensageiro permaneceu imóvel ao lado do rei depois da entrega, a cabeça baixa e os ombros rígidos, como se desejasse desaparecer dali antes que alguém lhe fizesse perguntas.

Kael lançou um olhar rápido para o selo real antes de voltar a atenção para a mesa de negociações.

— Então? — perguntou enquanto removia o capacete. — Como anda a negociação?

Alguns nobres franziram o cenho imediatamente.

— Ainda não avançamos o suficiente. — respondeu um dos conselheiros.

— Eles não querem abrir mão do território. — completou Lysvallis sem desviar os olhos da mesa.

— Claro que não.

Kael puxou uma das cadeiras vazias ao lado dela sem pedir permissão. Arrastou-a alguns centímetros pelo piso de pedra e sentou-se.

— Tenho certeza de que estavam prestes a convencê-la a entregar metade de Altheria também.

Alguns rostos ficaram vermelhos, outros simplesmente reviraram os olhos.

Lys ignorou a provocação, sua atenção havia se fixado em outro lugar.

Em Aedin.

O rei havia rompido o selo e estava lendo, a princípio não havia nada incomum. Depois seus olhos desaceleraram, a mandíbula travou, as sobrancelhas se aproximaram e algo endureceu em sua expressão.

Lys sentiu um leve aperto no estômago.

Aquilo não era somente preocupação, parecia pior. Era o rosto de alguém observando um problema, e dos grandes, crescer além do esperado.

Kael ainda trocava provocações com alguns nobres quando ela percebeu.

— Guardião.

Ele se virou.

— O quê?

Lys fez um movimento discreto com os olhos.

Aedin.

Kael olhou, imediatamente deixou de sorrir. O silêncio começou a se espalhar, primeiro entre os conselheiros mais próximos, depois entre os nobres.

Até que um deles finalmente falou.

— Majestade?

Nenhuma resposta.

— Majestade Aedin… Está tudo bem?

Aedin terminou a leitura.

Permaneceu alguns segundos observando o documento, então estendeu a carta à Lady Emil Avelor que assumiu a posição de Conselheira-Mor na ausência de Melissa.

Ela leu rapidamente.

Sua expressão mudou.

— Isso é autêntico?

— Foi enviada há menos de uma hora.

Emil entregou a carta ao Marechal da Fronteira Sul, Valcir. Ele por sua vez leu uma vez, depois uma segunda, quando ergueu os olhos, sua expressão estava tão sombria quanto a do rei.

— Quantas confirmações?

— Três.

Valcir fechou os olhos por um instante, aquela resposta parecia ser pior do que a própria notícia. Os nobres mais próximos começaram a perceber, as conversas desapareceram.

Aedin permaneceu imóvel por mais alguns segundos, Valcir dobrou a carta inspirando profundamente e a entregou ao nobre mais próximo.

Sem dizer uma palavra.

O homem recebeu o documento confuso, começou a ler em silêncio. A cor desapareceu de seu rosto quase imediatamente.

Outro nobre tomou a carta, Depois outro e outro.

Enquanto isso, Aedin se levantou lentamente, a cadeira deslizou para trás o som da madeira ecoou pelo salão. Ele desceu os poucos degraus que separavam sua mesa do centro do recinto e caminhou até parar diante de Kael.

Lysvallis compreendeu o gesto e se levantou também, posicionando-se ao lado do Guardião.

Nenhum dos dois falou, atrás de Aedin, os murmúrios começaram. Primeiro discretos, ficando cada vez mais altos e preocupados.

— Não…

— Isso não pode estar certo…

— Eles não fariam isso agora…

— Temos que reunir os soldados…

O tumulto cresceu, mas, ao contrário do que acontecera durante a negociação, não era um coro de vozes indignadas. Era uma corte inteira tentando calcular um desastre.

Lady Emil tomou a palavra.

Não para todos, apenas para os homens mais próximos. Mas o silêncio do salão permitiu que todos ouvissem.

— A guarda da capital de Elandor está marchando em direção a fronteira.

Os murmúrios cessaram.

— A Quinta também.

Alguns nobres se entreolharam.

Foi Dorwain um dos conselheiros quem completou o raciocínio.

— Isso não é uma patrulha.

— Não. — respondeu o marechal.

Outro nobre passou a mão pelo rosto.

— Eles estão reunindo um exército.

O salão explodiu em agitação, alguns nobres se levantaram. Outros começaram a discutir imediatamente, perguntas surgiram de todos os lados seguidas de acusações aos nobres que tentaram aproximar os laços com a comitiva de Elandor.

— Eu avisei que a aproximação com Elandor era um erro!

— Não temos confirmação de invasão!

— Mobilização não é guerra!

— E se não for blefe?

— Quantos soldados já deslocamos contra as Grandes Bestas?

— Quantas fronteiras conseguimos proteger ao mesmo tempo?

Pela primeira vez desde que chegara a Cervalhion, Lys percebeu uma divisão real dentro da corte. Hipóteses cheias de medo e preocupação. Mas no centro do salão apenas três pessoas permaneceram em silêncio.

Aedin.

Kael.

Lysvallis.

Os três já haviam entendido o significado da carta e nenhum deles precisava ouvir os detalhes, Aedin passou a mão pelo rosto, parecia mais cansado do que durante toda a negociação.

— Preciso de mais tempo.

Kael nem piscou.

— Não.

O rei ergueu os olhos.

— Guardião…

— Vocês tiveram dois dias.

A voz do Guardião saiu firme, sem agressividade. Mas sem espaço para discussão.

— Tiveram dois dias para tratar desta crise.

Ele apontou para a carta.

— Isso é outra crise.

— As duas estão conectadas.

— Não estão.

O salão continuava mergulhado no caos atrás deles.

Mas a atenção dos três permanecia fixa.

— Cervalhion precisa reavaliar sua posição.

— Cervalhion já teve tempo para isso.

Aedin pareceu prestes a responder, mas foi Lys quem falou primeiro.

— Ele está certo.

O rei voltou o olhar para ela, a rainha aproximou-se. A armadura prateada refletiu a luz das tochas enquanto ela se colocava de pé diante dele.

— De qualquer forma, partirei para Altheria hoje.

O salão começou a silenciar novamente, os nobres mais próximos escutavam.

— A única questão restante é como retornarei.

Aedin permaneceu imóvel.

— Como assim?

— Como uma aliada.

Ela fez uma pausa.

— Ou como uma inimiga.

Um dos nobres do norte elevou a voz levemente abafando os murmúrios.

— Majestade, se Elandor está realmente se mobilizando, então ceder território agora é loucura. Se entregarmos o norte e o sul entrar em guerra, estaremos diminuindo nossas próprias linhas defensivas.

Antes que Aedin respondesse, outro conselheiro interveio.

— E se não cedermos?

O homem apontou para Kael.

— Mobilização não é guerra. Estamos prestes a entregar décadas de vantagem estratégica baseados em uma única carta.

— Quantos soldados precisaremos manter na fronteira norte?

Ninguém respondeu, porque todos sabiam a resposta.

Muitos, mais do que Cervalhion podia se permitir naquele momento.

Lys não desviou os olhos de Aedin. Nem por um instante.

Ambos sabiam que ela realmente iria embora naquele dia, com ou sem acordo.

Os protestos continuaram, mas já não possuíam força. Todos ali compreendiam a situação, Elandor ao sul, bestas de leste a oeste e Altheria ao norte.

Cervalhion não podia lutar em quatro direções, Aedin fechou os olhos por um breve momento, quando voltou a abri-los, seus olhos estavam frios, sem nenhum traço de emoção.

— Cervalhion aceita os termos.

O salão congelou.

— Todos os três.

Alguns nobres simplesmente o encararam, outros pareciam incapazes de acreditar no que tinham ouvido.

Aedin ignorou todos eles.

Seu olhar permaneceu em Lysvallis.

— Em troca do apoio de Altheria contra Elandor.

O silêncio caiu sobre o salão, por um instante os nobres pareceram mais aliviados, mas durou apenas um instante.

Então Lys respondeu.

— Não.

Aedin franziu o cenho.

— Não?

— Receberá exatamente o mesmo apoio que Cervalhion ofereceu a Altheria durante a última crise das bestas no norte.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável, nenhum nobre falou.

Até Kael permaneceu imóvel, Aedin continuou encarando Lysvallis. Os olhos da rainha não vacilaram, Assim como os dele não havia nenhuma emoção ou satisfação. Apenas uma resposta fria,

Quando Altheria precisou de ajuda, Cervalhion não enviou soldados, recursos ou apoio. Ficou em silêncio e era exatamente isso que receberia agora.

O rei sustentou o olhar dela por alguns segundos, depois assentiu uma única vez. Um movimento pequeno e rápido.

Sem dizer mais nada, virou-se e caminhou em direção à saída do Salão do Corvo, atrás dele, os nobres começaram a segui-lo. Alguns indignados.

Outros preocupados.

Outros simplesmente derrotados.

Mas nenhum ousou questionar sua decisão.

Quando as portas finalmente se fecharam atrás da comitiva de Cervalhion, apenas Lysvallis e Kael permaneceram no centro do salão.

Lysvallis caminhava pelo corredor principal do castelo acompanhada por Kael que mantinha o elmo preso sob o braço.

Por alguns instantes nenhum dos dois falou, então Lys soltou uma pequena risada.

Foi tão inesperado que até ela pareceu surpresa.

— O que foi?

— Foi muito melhor do que imaginamos.

Kael arqueou uma sobrancelha.

— Imagino que as outras Matriarcas vão ficar satisfeitas com o resultado.

— Com toda certeza, praticamente dobramos nossas áreas agrícolas, fora os outros termos.

Ela lançou um olhar atravessado para ele.

— Nosso plano funcionou.

— Funcionou.

— E mesmo assim você não parece muito feliz.

— Eu estou feliz por você, se mostrou uma ótima monarca.

Lys balançou a cabeça.

— Passei dois dias inteiros executando cada etapa daquela negociação, você deveria ter visto a cara deles quando comecei a discutir porcentagens.

— Eu posso imaginar.

O sorriso de Lys diminuiu conforme ela olhava os decretos assinados por Aedin em seus braços.

— Mas é estranho… saber que coloquei um preço na vida de Alexia.

Kael permaneceu em silêncio por alguns passos.

— Todo governante faz isso.

Lys voltou os olhos para ele.

— O quê?

— Dar valor às vidas.

O Guardião observou os decretos nos braços dela.

— A diferença é que a maioria descobre tarde demais que perdeu pessoas por quase nada.

Ele apontou para os documentos.

— Você conseguiu fazer a morte dela mudar o destino de um reino inteiro.

— …. Odeio quando você está certo.

— Então vai me odiar bastante.

Lys ignorou o comentário.

Desceram uma escadaria larga enquanto criados e soldados se afastavam para abrir passagem.

— Ainda assim, é difícil acreditar.

— Acredite.

Ela olhou para ele.

— Acha que Aedin pode atacar o meu comboio?

— Aedin não é estúpido.

O tom dele ficou mais sério.

— Orgulhoso, sim. Teimoso também. Mas não é estúpido.

— Ele não parecia ter aceitado.

— Não.

Kael balançou a cabeça.

— Ele estava encurralado.

Aquilo fez Lys permanecer em silêncio por alguns segundos, porque era verdade. Aedin não tinha cedido porque perdera a negociação, tinha cedido porque não havia outra alternativa.

Quando chegaram ao pátio interno, a carruagem de Altheria já aguardava preparada.

Os cavalos estavam sendo ajustados. Servos terminavam de organizar os últimos baús enquanto soldados ocupavam discretamente as posições ao redor do comboio.

Perto da carruagem, Aura observava os preparativos.

Ela percebeu a aproximação dos dois antes mesmo de erguer os olhos.

— Majestade.

Lys assentiu.

— Guardiã.

Os olhos de Aura passaram por kael e desceram para os documentos que a rainha carregava, mesmo à distância, era impossível não reconhecer os selos reais de Cervalhion.

— Então conseguiram.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Lys.

— Conseguimos.

Aura observou o volume de pergaminhos por alguns instantes.

— Pela sua expressão, imagino que mais do que esperavam.

— Acertou.

Kael permaneceu em silêncio enquanto as duas se observavam olhares.

Aura percebeu primeiro.

— Isso me preocupa um pouco.

— A mim também.

A resposta arrancou uma pequena risada pelo nariz da Guardiã. Lys lançou um olhar para os documentos.

O sorriso diminuiu.

— Ainda temos um problema.

Aura percebeu imediatamente a mudança de tom.

— Elandor.

— Elandor.

Lys suspirou.

— Eu sei.

— Se Elandor avançar, esses acordos podem se tornar inúteis.

Kael esperou.

Lys cruzou os braços.

— Você vai precisar agir em breve.

— O quê?

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Com a movimentação de Elandor, você vai ficar em uma situação de risco.

Aura permaneceu em silêncio, não havia resposta adequada para aquilo.

Lys continuou.

— Vou enviar ajuda a Cervalhion.

Aura ergueu uma sobrancelha.

— Mesmo depois do que aconteceu?

— Justamente por causa do que aconteceu.

Ela voltou os olhos para os muros distantes.

— Não lutei dois dias inteiros por esses acordos para vê-los desaparecer em uma guerra.

Kael assentiu.

— Quando Altheria precisou deles, recebemos silêncio.

— Eu sei.

— Hoje eles receberam o mesmo.

Aura deixou o olhar percorrer o pátio.

Os servos continuavam carregando baús para a carruagem enquanto um dos cavalos batia a pata contra o chão de pedra, impaciente.

Curiosamente, nem Lys nem Kael pareciam satisfeitos.

— Mas não sou estúpida o suficiente para deixar Elandor crescer.

Kael ajustou o elmo sob o braço.

— Que bom que já decidiu isso.

Uma rajada de vento atravessou o pátio, fazendo uma das bandeiras estalar acima dos muros.

Foi Lys quem quebrou o silêncio.

— E Ian?

— Vivo.

— Isso eu já sabia.

Kael sustentou o olhar dela.

— Então sabe tanto quanto eu.

Lys não pareceu satisfeita.

— Traga-o para Altheria. Eu tenho que voltar mas ele vai receber o melhor tratamento lá.

Kael não respondeu.

Por alguns segundos, apenas observou as duas.

Então trocou o elmo sob o braço.

— Preciso resolver uma última coisa antes de partir.

Lys pareceu entender imediatamente.

— Tem certeza que vai voltar para dentro do castelo?

— Sim.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Cuide-se, Rainha Lysvallis.

— Você também, Guardião.

Então se afastou.

Nenhuma das duas falou enquanto Kael desaparecia pelos corredores internos do castelo.

O som dos passos dele desapareceu aos poucos, engolido pelo movimento do pátio.

Um cocheiro terminou de ajustar uma das correias dos cavalos e bateu duas vezes na lateral da carruagem.

Só então Aura voltou a falar.

— Isso parece preocupante.

Lys demorou alguns segundos para responder.

— Normalmente é.

Aura acompanhou seu olhar.

— Vai deixá-lo sozinho?

Um pequeno sorriso surgiu no rosto da rainha.

— Tenho a impressão de que ele ignoraria qualquer tentativa de interferência.

A Guardiã soltou uma breve risada pelo nariz.

— Justo.

O silêncio voltou por alguns instantes.

Então Lys subiu os degraus da carruagem.

Antes de entrar, voltou-se para Aura.

— Você deveria começar a pensar no que fará quando essa guerra começar.

Aura franziu levemente a testa.

— Acredita que será tão ruim assim?

— Acredito que ninguém reúne um exército daquela forma para fazer ameaças.

Os olhos de Aura se perderam por um instante nos muros do castelo.

— Entendo.

Lys apoiou uma das mãos na porta da carruagem.

— Se precisar de abrigo, Altheria estará aberta para você.

Dessa vez Aura realmente pareceu surpresa.

Não pela oferta.

Mas pela naturalidade com que ela foi feita.

— Fico grata, Lys.

A rainha sorriu discretamente ao ouvir o próprio nome.

— Apenas pense no assunto.

Aura assentiu.

Lys já estava entrando na carruagem quando voltou a falar.

— E mais uma coisa.

A Guardiã ergueu os olhos.

— Algumas oportunidades desaparecem quando esperamos tempo demais.

Aura não respondeu imediatamente.

Ao longe, os portões internos do castelo se abriram para a passagem de uma patrulha que retornava das muralhas.

Não era necessário mencionar nomes.

As duas sabiam exatamente do que estavam falando.

Depois de alguns segundos, Aura assentiu uma única vez.

— Vou me lembrar disso.

— Espero que sim.

Lys acomodou os decretos assinados sobre o colo.

— Boa sorte, Aura.

— Boa viagem, Lys.

A porta da carruagem se fechou.

Pouco depois, os cavalos começaram a se mover.

Aura permaneceu parada observando o comboio atravessar os portões de Cervalhion.

Somente quando a última bandeira de Altheria desapareceu de vista ela voltou-se para o castelo.

E para as decisões que não poderiam mais ser adiadas.