Capítulo 193 – Máscaras de Guerra.
Capítulo 193 – Máscaras de Guerra.
O jardim interno era silencioso.
Depois do caos que tomara conta do Salão do Corvo, aquele lugar parecia pertencer a outro castelo.
A água da pequena fonte continuava correndo entre as pedras . Algumas aves pousavam nos galhos mais altos das árvores enquanto a luz do fim da tarde atravessava as folhas, desenhando sombras irregulares sobre os caminhos de pedra branca .
Melissa estava sentada à mesa. Apenas observando o horizonte, enquanto desfrutava de uma xícara de chá.
Os guardas próximos perceberam a aproximação de Kael imediatamente, mas nenhum se moveu . Kael também não lhes deu atenção .
— Rainha Melissa .
Ela ergueu os olhos; por um instante parecer surpresa, mas depois apenas assentiu .
— Guardião .
Kael parou próximo à mesa .
— O rei ?
— Um dos guardas foi buscá-lo .
— Entendo .
O silêncio se prolongou por alguns segundos; Melissa observou os homens posicionados ao redor do jardim .
— Não se incomode com eles; estão aqui para tentar me proteger .
Kael acompanhou seu olhar .
— Imagino .
— Embora não tenham muito o que fazer se você decidir me matar .
A observação veio com um humor tão seco que pareceu séria . Kael concordou .
— Realmente… não teriam .
Isso arrancou dela um pequeno sorriso involuntário . O Guardião apontou para a cadeira vazia à sua frente . Melissa assentiu .
— Claro .
Kael sentou-se. Por alguns instantes, ele apenas observou o jardim, as árvores frutíferas que possuíam ninhos em seus galhos e as tulipas que adornavam toda a lateral e a fonte central.
— É um lugar bonito .
Melissa suspirou .
— Guardião .
— Sim ?
— Vá direto ao assunto, por favor .
Kael voltou os olhos para ela .
— Direta .
— Você me disse na ponte que voltaria para conversar, o que me faz ter certeza de que não são boas notícias.
Ela cruzou os braços .
— Então converse .
— E se eu já estiver conversando ?
— Então está começando muito longe do ponto principal .
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dele .
— De fato .
O silêncio retornou . Dessa vez foi Kael quem o rompeu .
— A vida é uma coisa curiosa .
Melissa fechou os olhos por um instante . Kael apenas continuou:
— Sabia que, quando se vive por muito tempo, fica fácil perder de vista o real peso das coisas?
Isso a fez rir pelo nariz, enquanto batia com a ponta dos dedos na borda da xícara.
Kael apoiou a xícara de chá entre as mãos.
— Passei muito tempo pensando sobre a vida .
— Imagino .
— A maioria das pessoas trata a própria vida como algo garantido, quase como se ela fosse apenas uma consequência das suas ações diárias .
Ele observou a superfície do chá .
— E assim o tempo avança: mais um dia, um ano… Mais uma oportunidade perdida .
Melissa ouviu sem interromper .
— Mas basta perder alguém para perceber o que ela realmente é .
— E o que ela realmente é para você, Guardião ?
Kael demorou alguns segundos para responder .
— Um tesouro de valor inestimável .
O jardim permaneceu silencioso .
— Algo impossível de substituir, não importa o que faça ou quanto tempo passe .
Melissa permaneceu observando-o, sem entender exatamente onde ele queria chegar .
— Não posso dizer que estou compreendendo o seu ponto, Guardião .
Kael olhou para a vista da cidade abaixo enquanto o vento forte sacudia seus cabelos . Era uma sensação boa; ele respirou fundo antes de seguir .
— Nesse caso, me permita. — Ele olhou diretamente para ela. — Imagine que você vive em um mundo onde as joias possuem prazo; elas brilham intensamente por um curto período, mas logo se vão. Me diga uma coisa, Rainha: quanto valeria uma joia que nunca perdeu seu brilho, mesmo com a passagem das eras?
Ele ergueu os olhos .
— Não apenas isso, mas imagine que essa joia foi usada para cuidar de você e ficou ao seu lado em praticamente todos os momentos da sua vida… Se alguém tentasse roubar essa joia do tesouro real… o que você, como uma Rainha, faria com o ladrão ?
Ela arqueou uma sobrancelha .
— Isso depende .
— Depende ?
— Sou uma rainha. — A resposta veio sem hesitação. — Não posso responder apenas como uma pessoa.
Ela cruzou as mãos sobre a mesa .
— Dependendo das circunstâncias, do motivo, das consequências… talvez houvesse perdão .
Kael pareceu genuinamente surpreso; ele pegou a xícara e tomou um pequeno gole .
— Interessante .
Melissa percebeu .
— Não era a resposta que esperava ?
— Não .
— Então fez a pergunta errada .
Kael ficou alguns segundos em silêncio . Depois assentiu .
— Talvez . — Apoiou novamente a xícara . — Então permita-me perguntar de outra forma .
Melissa aguardou .
— Como mãe .
O silêncio mudou; ela percebeu isso imediatamente .
— Como mãe ?
— Sim .
Kael não desviou o olhar .
— Se alguém tentasse tomar de você aquilo que possui de mais precioso …
Dessa vez ela não precisou pensar; a resposta veio imediatamente :
— Eu o mataria .
O Guardião permaneceu imóvel . Melissa continuou:
— Mesmo que isso me custasse a vida .
O jardim voltou a ficar silencioso .
— Entendo .
— Está surpreso ?
— Não, na verdade, fico feliz que compreenda.
Ela soltou o ar lentamente .
— Que eu compreenda o quê?
Kael colocou o capacete sobre a mesa .
— Que há coisas nesta vida para as quais não há perdão .
— Ah… isso eu entendo bem. Na verdade, se houvesse como, talvez eu vingasse a morte do meu irmão .
— Viu? Então você compreende a minha vinda .
— O quê?
— Se para você, uma rainha que acabou de perder o irmão, existe esse desejo… — Ele apoiou o pires sobre a mesa . — Então o que exatamente você esperava que eu fizesse… — Ele apoiou a xícara sobre a mesa — …quando alguém tentou tirar a vida do meu irmão ?
O silêncio que se seguiu durou apenas um instante . Melissa sustentou o olhar dele .
— Aedin não acordou querendo matar Ian ou realizar um ataque .
— Não ?
— Não. — A resposta veio firme . — Eu estava lá .
O Guardião permaneceu imóvel . Melissa apoiou as mãos sobre a mesa .
— Eu vi meu marido lutar contra aquilo durante semanas, sendo atacado lentamente . — Sua voz não aumentou. Ela respirou fundo . — Então, não. Não vou fingir que ele é inocente, porque não é…
Kael ouviu em silêncio .
— …mas também não é culpado . — A rainha desviou os olhos para a fonte por um instante . — Pessoas morreram .
O nome de Dan não foi mencionado; não precisava . Os dois pensaram nele .
— Concordo que deveria haver uma punição para as ações, mas também não vou aceitar que você o trate como um homem que fez aquilo por vontade própria .
Kael permaneceu observando-a .
— Interessante o seu ponto, se não fosse por uma situação. Eu encontrei meu irmão quase morto: joelho quebrado, braço partido em dois, várias marcas de espancamento… — Ele se inclinou levemente para a frente. — …coberto do próprio vômito.
Melissa soltou uma pequena risada amarga .
— E você matou o meu irmão, sem nem mesmo me dar o direito a ter um corpo para chorar ou enterrar. — Ela encarou Kael diretamente . — Eu entendo o seu ponto, Guardião, mas, por favor, que tipo de jogo doentio é esse? Veio me ameaçar? Se quer me matar, me mate logo, mas nunca vou concordar com você querer matar o meu marido se ele nem sequer estava raciocinando por si mesmo!
Aquilo fez Kael estreitar levemente os olhos.
Pela primeira vez, ela parecia cansada.
— Então, por favor, só peço que, se for me matar pelo que aconteceu a Ian, apenas faça logo.
Ela baixou os olhos para a xícara.
— Eu esperava que você, com todas as eras de conhecimento, entendesse a diferença entre um homem são e um que está sendo usado como marionete. — Ela abaixou o tom . — Eu vi ele esquecer conversas. Vi ele acordar em meio a pesadelos que agora vejo que foram criados. Vi ele se tornar alguém que mesmo eu não reconhecia.
Passos ecoaram pelo jardim. Melissa virou o rosto primeiro.
Aedin finalmente havia chegado; parecia levemente ofegante.
Ele observou os dois por alguns segundos antes de se aproximar.
— Guardião.
Kael não respondeu imediatamente. Apenas permaneceu sentado, ainda olhando para algumas tulipas.
Aedin percebeu a tensão imediatamente.
— O que aconteceu?
— Nada. — Melissa respondeu primeiro. — Estávamos conversando.
O rei puxou uma cadeira, mas, antes que pudesse se sentar, Kael falou:
— Eu vim até aqui matar você. — A voz de Kael permaneceu calma. — Vim para Cervalhion disposto a arrancar sua cabeça.
Aedin permaneceu imóvel por alguns segundos enquanto Kael se levantava da cadeira e caminhava até parar a poucos passos dele.
Melissa congelou.
— O que disse, Guardião?
— Você me ouviu bem.
— Nós acabamos de fechar um acordo com Lysvallis para remediar os danos a Altheria.
— Não se trata de Altheria.
— Então por quê?
— Porque você tentou matar meu irmão.
Melissa levantou-se imediatamente; a cadeira raspou contra a pedra.
— Guardião…
Ele continuou olhando apenas para Aedin.
Melissa deu um passo à frente.
— Você não vai resolver nada assim.
— Talvez.
Aquilo fez Aedin finalmente entender. Não era sobre política, nunca havia sido… Aquilo era pessoal.
Melissa posicionou-se entre os dois, instintivamente.
Kael percebeu e, curiosamente, não pareceu surpreso; apenas manteve os olhos fixos.
Aedin respirou fundo, como se aceitasse o fardo, e colocou uma mão no ombro dela.
— Melissa.
— Não, Aedin.
— Melissa.
Ela não se moveu.
— Você também não.
O rei suspirou, então gentilmente afastou a mão dela.
— Está tudo bem.
— Não está. — A voz dela falhou enquanto finalmente encarava Kael. — Primeiro foi o meu Moris. — Ela apontou para o chão. — Depois, Dan. — As lágrimas começaram a surgir. — E agora você quer levar ele também?
Kael não respondeu. Melissa deu mais um passo à frente.
— Eu não vou assistir a isso acontecer de novo!
— Melissa.
Dessa vez ela ergueu os olhos.
— Vá para dentro.
— Não.
— Vá.
— Não vou deixar você sozinho com ele.
— E eu não vou deixar você ficar aqui.
— Eu não vou aceitar isso! — Melissa pegou uma das xícaras e a arremessou contra Kael; o objeto se quebrou ao bater na armadura.
Aedin segurou o pulso dela.
— Melissa, não faça isso. Olhe para mim.
Ela ergueu os olhos.
— Vai ficar tudo bem.
— Você não sabe disso.
— Eu sei. — Aedin segurou o rosto dela por um instante. — Confie em mim. — Então voltou-se para os guardas: — Levem a rainha para dentro.
Ninguém se moveu.
— Isso foi uma ordem. Levem a rainha! Nos deixem a sós!
Os soldados hesitaram por alguns instantes, mas levaram Melissa enquanto ela tentava resistir.
— Por favor, não a puna pela xícara.
Kael permaneceu em silêncio.
Aedin respirou fundo.
— Eu não escolhi aquilo.
Os olhos dele baixaram por um instante.
— Mas fui eu quem empunhou a espada.
Silêncio.
— Fui eu quem deu as ordens.
— Fui eu quem feriu Ian.
Ele ergueu os olhos novamente.
— E fui eu quem falhou em proteger meu próprio reino.
Aedin deu um passo à frente. Agora, ele estava a dois passos de Kael.
— Eu não escolhi aquilo. Mas também não vou fingir que não tenho responsabilidade.
— Se veio por mim… — Aedin sustentou o olhar do Guardião. — …então não envolva minha família.
Então Kael soltou uma breve respiração. Não parecia irritado, parecia cansado.
— Você devia agradecer todos os dias por ter alguém assim ao seu lado.
Aedin franziu a testa.
— O quê?
— Sua esposa. — Kael continuava de pé, observando-o.
O rei permaneceu em silêncio.
Kael lançou um olhar para a direção por onde Melissa havia sido levada.
— Ela passou a última hora defendendo você, mesmo quando eu dei motivos para ela me odiar.
Aedin não respondeu.
— Mesmo sabendo que podia falhar.
O silêncio voltou a se instalar entre os dois.
— Ela estava pronta para morrer no seu lugar.
Pela primeira vez desde que chegara ao jardim, a expressão de Aedin vacilou.
Kael observou aquilo por alguns segundos. Então assentiu levemente.
Aedin abriu a boca.
— Guardião, eu…
O punho de Kael atingiu seu abdômen, o impacto arrancou todo o ar de seus pulmões.
O rei dobrou o corpo instantaneamente e caiu de joelhos sobre a pedra.
Nenhum guarda se moveu.
Nenhum som além do esforço desesperado de Aedin para voltar a respirar.
Kael recolheu o capacete da mesa.
— Isso foi pelo Ian.
O rei continuava tentando respirar.
Kael colocou o elmo sob o braço.
— Se ela não estivesse aqui… — A voz permaneceu calma. — …eu teria arrancado a sua cabeça.
Aedin ergueu os olhos com dificuldade.
Kael sustentou o olhar dele por alguns segundos.
— Então faça valer a pena.