LNCrawler

Capítulo 194 – As Portas da Névoa.

Guardião — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 194 – As Portas da Névoa.

Kael atravessou o pátio sem pressa, o elmo preso sob o braço. Não olhou para trás.

Os corredores do castelo estavam mais vazios do que deveriam. Criados se afastavam ao vê-lo passar. Soldados evitavam cruzar seu caminho. Os poucos nobres que ainda circulavam pelo palácio fingiam interesse repentino em qualquer outra coisa.

Os passos dele seguiram no mesmo ritmo, indiferentes a cada um deles.

Os portões se abriram antes que precisasse pedir.

A cidade além dos muros ainda carregava as marcas do ataque. Andaimes recortando o céu ao longe. Carroças empilhadas de escombros nos cantos das ruas. Kael atravessou tudo aquilo devagar, como se o próprio corpo ainda não tivesse decidido se aquilo havia realmente terminado.

Traga-o para Altheria.

A voz de Lys ainda ecoava, clara demais para ser ignorada.

Um cavalo o aguardava junto à muralha.

Quem o havia preparado entendera rapidamente que aquele não era um dia para perguntas. Kael montou sem diminuir o passo, a viagem até Altheria, com Ian, levaria semanas.

Deixou o galope se firmar assim que cruzou os portões.

Seu destino já estava definido, as Montanhas Centrais.

A toca.

Ian continuava lá, protegido pelo isolamento que durante séculos afastara curiosos, exércitos e problemas maiores do que eles desejavam enfrentar.

Levá-lo para Altheria era tentador, mas o norte significava reis, exércitos, política e uma guerra prestes a começar.

A toca significava paz.

Por enquanto, aquilo bastava.

Afinal, pela primeira vez em muito tempo, Ian não precisava estar no centro de nada.

A neblina de Altheria chegou antes da cidade em si, um véu cinzento que engolia as torres aos poucos, como se a própria capital hesitasse em se revelar.

Elenys sentiu o frio se instalar muito antes de a comitiva cruzar o primeiro posto avançado.

Ninguém falou durante o último dia de viagem.

Serena mantinha os olhos fixos na janela da carruagem, os dedos entrelaçados com força demais para ser calma. Isla, ao lado, alternava entre olhar para a tia e olhar para o chão, como se procurasse a pergunta certa e nunca a encontrasse.

Até que ela finalmente quebrou o silêncio, a voz baixa demais, quase um sussurro.

— Eles já sabem. Não sabem?

— Sabem — respondeu Elenys, sem desviar o olhar da névoa. — A notícia deve ter chegado antes de nós por mensageiros.

Isla engoliu em seco e não insistiu. A carruagem que seguia logo atrás carregava o corpo de Alexia, o gelo que os magos da comitiva haviam erguido na pressa daquela noite ainda a mantinha intacta, adiando o avanço da morte para permitir à antiga matriarca a decência de um enterro adequado. Elenys não tinha coragem de olhar para trás e ver o brilho baço daquele bloco através da lona, já bastava saber que estava ali.

Os portões de Altheria se abriram sem cerimônia.

Não havia bandeiras ou música.

Apenas guardas de rosto fechado, moradores parados nas esquinas com os braços cruzados e um silêncio que pesava mais do que qualquer grito teria pesado.

A cidade sabia.

E estava de luto pela Matriarca que nunca mais voltaria a sentar à mesa do Círculo, Elenys desceu da carruagem primeiro. Sentiu os olhares antes de vê-los: pesar, sim, mas também um cálculo silencioso, o tipo de olhar que já tentava adivinhar o que aquela morte custaria ao reino.

Serena parou ao lado dela.

— Eles vão te cercar antes que você tenha tempo de tirar a poeira da estrada do vestido.

— Eu sei.

E foi exatamente o que aconteceu, não demorou dez minutos até que a figura de Ydrine surgisse no pátio. O manto permanecia impecável apesar da umidade. O rosto, não.

Havia uma raiva ali enquanto ela passava os olhos pelas carruagens como se procurasse por algo ou nesse caso alguém.

Ydrine não correu. Não apressou o passo.

Chegou como sempre chegava, no tempo dela, como se a cidade inteira devesse esperar pela sua conveniência.

— Matriarca Elenys.

A voz era formal, mas os olhos já mediam.

— Uma tragédia. Sinceras condolências à Casa Vallen. E a todos nós.

— Obrigada, Matriarca Ydrine.

Elenys manteve a postura, mesmo sentindo o corpo pedir descanso.

— O corpo de Alexia precisa ser entregue à família dela com urgência. O gelo não vai se sustentar para sempre.

— Já providenciamos.

Ydrine fez um gesto breve, dois guardas se aproximaram da segunda carruagem.

— O Lorde Vallen foi avisado. Estará esperando no templo inferior.

Havia algo de eficiente demais naquela resposta, Elenys arquivou a observação sem comentar. Ydrine então voltou o olhar para Serena e Isla. E em seguida voltou a olhar em direção das carruagens.

— Onde está Lysvallis?

— Ela ficou em Cervalhion.

— Bom… que seja então. — Ydrine franziu a testa por alguns segundos antes do semblante finalmente relaxar, para algo quase próximo ao de um leve sorriso.

— Você chegou em boa hora. O Círculo vai se reunir em poucos instantes. Você me acompanha?

Ela não formulou como pedido.

Elenys sentiu o peso da palavra reunir como quem sente o peso de uma lâmina sendo apoiada, ainda sem cortar, apenas sobre a pele.

Pensou em Lys.

Na advertência antes da separação, não dar nenhuma declaração até a situação se resolver. Ela não sabia se Lys tinha conseguido cumprir a parte dela naquela negociação, não sabia sequer se a negociação tinha terminado.

E não sabia o que acontecera com Ian.

Mas sabia que, naquele momento, Altheria não queria saber de nenhuma dessas coisas e que talvez ela não tivesse escolha a não ser dar uma declaração diante do Circulo.

Eles iriam querer uma resposta ou um culpado.

— Estarei lá — respondeu, por fim. — Preciso apenas de tempo para me trocar e garantir que minha sobrinha e minha administradora estejam instaladas.

Ydrine assentiu em um gesto econômico quase satisfeito.

— Uma hora, então.

Ela já se virava para partir quando parou, a voz baixou um grau quase gentil.

— Sinto muito por Alexia, Elenys. De verdade.

E se foi com o manto arrastando pela pedra molhada, Serena esperou até que Ydrine estivesse fora de alcance antes de murmurar:

— “De verdade.”

Ela bufou.

— Ela já está calculando como vai se aproveitar de ausência de Lys, nem se quer disfarçou.

Serena ergueu uma sobrancelha.

— A cadeira de Alexia não está vaga… Ainda.

Elenys olhou para ela.

Serena sustentou o olhar.

— Desculpe.

— Não precisa, você está certa.

Isla ainda observava o caminho por onde Ydrine havia desaparecido.

— Ela estava com raiva.

— Está — respondeu Elenys.

— De Cervalhion?

— De muita coisa.

Isla ficou em silêncio por alguns segundos.

— E da rainha?

Elenys não respondeu imediatamente, a pergunta era simples. mas a resposta não era.

— Vamos entrar, ainda temos que lidar com Vaynar.

O caminho até a casa Seryn foi tranquilo, apesar do clima ambíguo da cidade. A presença da névoa cobrindo a paisagem trazia de volta uma sensação de pertencimento, diferente das belas paisagens ao sul, onde quase não havia neblina para atrapalhar a visão.

A residência da Casa Seryn surgiu através da névoa pouco depois do templo.

As portas já estavam abertas.

Duas fileiras de guerreiras esperavam no pátio, lanças apoiadas junto ao corpo, armaduras escuras cobertas por uma fina camada de umidade.

Elenys reconheceu todas elas.

Algumas haviam servido sob seu comando durante anos.

A capitã deu um passo à frente quando a carruagem parou.

— Matriarca.

Elenys desceu.

— Capitã.

A mulher inclinou a cabeça.

— Bem-vinda de volta.

Foi uma frase simples, ainda assim, Elenys sentiu o peso dela.

De volta.

Ela não sabia mais se aquela palavra significava o mesmo que antes.

Serena desceu logo depois. Isla foi a última. Do alto da escadaria, Vaynar esperava acompanhado de duas das anciãs da Casa Seryn. Elenys as conhecia, afinal eram sua avó e uma antiga conselheira, nenhuma delas sorria.

Vaynar, por outro lado, sorria.

Pouco.

O suficiente.

Ele desceu os degraus com a postura impecável de sempre e parou diante dela.

— Elenys.

A voz era calma, mantendo o tom familiar. Por um instante, foi mais estranho ouvir aquilo do que teria sido qualquer acusação.

— Vaynar.

Ele olhou para ela por alguns segundos, depois para Serena e então para Isla.

— Vocês chegaram em segurança.

— Chegamos.

— Ouvi sobre o ataque.

A expressão dele mudou pouco.

— Lamento por Alexia e pelo Guardião.

Elenys sustentou o olhar.

— Obrigada.

Vaynar aproximou-se mais um passo, a palavra veio acompanhada de uma pausa.

— Ainda não há notícias?

— Não.

— Uma situação lamentável, mas que bom que você voltou bem mesmo enfrentando os caçadores de magos de Cervalhion.

Ele disse aquilo como quem avaliava uma peça importante desaparecida de um tabuleiro.

Elenys percebeu.

A avó de Elenys aproximou-se e segurou a mão de Elenys entre as suas.

— É bom tê-la de volta.

— Também é bom estar em casa.

A mulher apertou os dedos dela.

— A cidade está diferente.

Elenys olhou para além dos portões.

— Eu percebi.

A outra anciã observou Serena e Isla antes de falar.

— Devem estar exaustas. Mandamos preparar os aposentos.

— Obrigada — respondeu Serena.

Vaynar voltou a atenção para Elenys.

— Você deve descansar.

— Tenho uma reunião.

O sorriso dele desapareceu por uma fração de segundo.

— Já?

— Ydrine me encontrou na entrada.

As duas anciãs trocaram um olhar, Vaynar não.

— O Círculo.

— Sim.

— Imagino que seja sobre o ataque, ao menos vai poder esclarecer as coisas junto a Rainha.

— Entre outras coisas.

Ele assentiu lentamente.

— Naturalmente.

Havia algo na maneira como dizia aquilo, não parecia preocupação.

Era cálculo, Elenys conhecia aquele tom. Vaynar já estava tentando descobrir o que Ydrine queria, Ela também.

Serena deu um passo discreto para perto.

— Ydrine quer uma reunião em uma hora.

Vaynar virou o rosto para ela.

— Você não precisa entrar nessa discussão agora.

Elenys ergueu uma sobrancelha.

— Não?

— Você acabou de chegar. Está cansada. Perdeu uma amiga, ninguém vai lhe culpar se decidir não comparecer

A voz dele permaneceu gentil.

— Não seria prudente tomar decisões enquanto ainda está sob o impacto do que aconteceu.

Era uma frase perfeitamente razoável, também era exatamente o tipo de frase que Vaynar usaria quando queria transformar uma decisão de outra pessoa em uma reação emocional.

Elenys sentiu o polegar tocar o anel no dedo médio.

— Eu não pretendo tomar nenhuma decisão hoje.

Vaynar pareceu satisfeito.

— Ótimo.

Elenys sustentou o olhar dele.

— Pretendo ouvir.

O sorriso dele voltou.

— Ainda assim, é melhor do que decidir.

Ela não respondeu, Isla observava os dois.

Vaynar percebeu.

O olhar dele suavizou quando encontrou a sobrinha.

— Isla.

— Senhor Vaynar.

A fala dela foi formal mais distante do que o normal.

Ele não pareceu notar.

— Soube que esteve bastante ocupada em Cervalhion.

— Estive com minha tia.

— Naturalmente.

Vaynar sorriu.

— Imagino que ela tenha mantido você longe de problemas.

Serena olhou para Elenys.

Elenys quase suspirou.

Quase.

— Sim Tio, a Tia cuidou de mim — respondeu Isla.

Vaynar sorriu.

— Ainda bem.

Ele voltou para Elenys.

— Vamos entrar. Vocês merecem um pouco de descanso.

Elenys assentiu.

As duas anciãs seguiram para dentro com Serena e Isla, deixando a conversa do pátio para trás. Elenys acompanhou Vaynar pelo corredor principal da residência.

O silêncio entre os dois não era desconfortável, na verdade era o normal.

Talvez esse fosse o problema.

Durante anos, ela havia aprendido a conviver com aquele silêncio. Sabia quando Vaynar estava pensando, quando estava avaliando uma situação e quando apenas esperava que ela chegasse à mesma conclusão que ele.

Naquele momento, não sabia mais qual dos três estava acontecendo, mas não estava muito interessada em avaliar.

Eles passavam pelo primeiro corredor quando Vaynar falou sem olhar para ela.

— Recebi algumas cartas durante a viagem.

Elenys sentiu o corpo ficar ligeiramente mais rígido.

— Sobre o ataque?

— Não.

Uma pausa.

— Sobre você.

Ela virou os olhos para ele.

Vaynar continuou andando.

— Alguns soldados que acompanharam a comitiva escreveram para pessoas da Casa. Nada particularmente importante. Impressões da viagem, movimentações das casas, pequenas observações, o curioso é o que da para perceber quando juntamos varias cartas.

Elenys ficou em silêncio.

Vaynar parou diante da porta que levava ao corredor dos aposentos.

— Parece que o Guardião do Oeste esteve bastante próximo de você.

Elenys não respondeu, o corpo endureceu levemente e ela sentiu as mãos ficarem suadas mesmo no frio.

O coração bateu uma vez mais forte, não por medo. Mas pelo incômodo de ter sido descoberta antes de estar pronta para agir.

Vaynar finalmente olhou para ela.

— Eu não esperava que você permitisse tanta proximidade.

Elenys sustentou o olhar.

— E por que não permitiria?

Ele pareceu surpreso com a pergunta.

— Porque você sempre foi cuidadosa.

Elenys esperou.

Vaynar respirou lentamente.

— E porque Isla estava tentando se aproximar dele.

Ela ficou imóvel.

Foi como se uma peça tivesse sido retirada do lugar e, de repente, o restante do tabuleiro ficasse mais claro.

— Isla… Ah, fala do seu pedido sorrateiro à minha sobrinha?

— Sim, não diria sorrateiro mas sim.

Vaynar falou com a tranquilidade de quem estava explicando algo óbvio.

— As cartas mencionavam algumas tentativas dela. Conversas, encontros durante a viagem. Nada concreto, mas suficiente para perceber a intenção.

Elenys sentiu uma vontade absurda de rir.

Não riu.

Vaynar continuou:

— Você aparentemente interveio.

— Ah, sério?

— Isso segundo os relatos.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Parece que não queria que ela se envolvesse com ele.

Elenys precisou de um segundo, para se recompor. Era isso, ele não sabia.

— Entendo, mas acredito que fui clara com você antes da caravana partir, eu rejeitei essa ideia e você a executou mesmo assim.

Vaynar não pareceu satisfeito com a reação.

— Eu sei que Isla é importante para você. E talvez seja justamente por isso que eu esteja dizendo isso agora.

Ele retomou o caminho.

— Tudo bem que agi de forma errada ignorando sua autoridade mas, se ela realmente está interessada nele, você deveria deixar que ela faça suas próprias escolhas.

Elenys caminhou ao lado dele.

— Você ainda está me aconselhando a permitir que Isla se aproxime de Thamir?

— Estou aconselhando você a não interferir, pelo que pude notar pelas cartas, ele se manteve constantemente próximo a vocês durante a caravana.

A resposta veio sem hesitação.

— Ele não é um homem simples. Isso é evidente. Mas também não me parece alguém que possa ser conduzido facilmente. Isla quer descobrir isso por conta própria, você vai conseguir ajuda-la caso ele faça algo?

Elenys colocou a mão em sobre o rosto por alguns segundos tentando parecer cansada.

Era difícil não apreciar a ironia.

Vaynar estava lhe dando exatamente o conselho que ela precisava ouvir, sem perceber que estava falando de uma situação completamente diferente.

— Você parece bastante interessado nas escolhas de Isla.

— Ela é minha sobrinha.

Vaynar reduziu o tom da voz.

— Uma aproximação com alguém como o Guardião do Oeste poderia ser útil para a casa. Mesmo que não resulte em nada.

Elenys parou.

Vaynar deu mais dois passos antes de perceber.

Virou-se.

— O que foi?

Ela o observou por alguns segundos, havia algo reconfortante naquela ignorância. Não porque quisesse enganá-lo, o que ela de fato queria. Mas porque, pela primeira vez, ela tinha uma informação que ele não possuía, e isso mudava o equilíbrio.

— Nada.

Vaynar estreitou os olhos.

— Você parece diferente.

— Estou apenas cansada.

Ele aceitou a resposta, ou decidiu aceitar.

— Descanse.

Elenys voltou a caminhar.

— Farei isso.

Chegaram à porta de seus aposentos.

Vaynar parou diante dela.

— E Elenys.

Ela se virou.

— Sim?

— Não seja dura demais com Isla.

O conselho veio com uma gentileza que, em outro momento, talvez tivesse funcionado.

— Ela está crescendo. Precisa cometer os próprios erros e aprender com as consequências.

Elenys sustentou o olhar dele.

— Talvez.

Abriu a porta.

— Talvez todos nós precisemos.

Entrou sem esperar resposta, a porta fechou atrás dela. Elenys permaneceu imóvel por alguns segundos, Então soltou o ar que nem havia percebido estar prendendo.

Ela apoiou a mão sobre a madeira da porta.

Pela primeira vez desde que deixara Cervalhion, sentiu que tinha uma vantagem.

Pequena.

Mas sua.