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Capítulo 195 – Primeira Peça.

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Capítulo 195 – Primeira Peça.

Elenys fechou a porta dos aposentos atrás de si.

Por alguns segundos, permaneceu parada.

Depois atravessou o quarto e foi até a mesa junto à janela. Sobre ela havia uma pilha de documentos recentes, provavelmente separados por alguma das auxiliares de Serena durante sua ausência.

Ela puxou a primeira pasta.

Não deveria fazer aquilo agora. Afinal, tinha uma reunião em menos de uma hora.

Precisava descansar.

Precisava se preparar para explicar a morte de Alexia, o ataque, o desaparecimento de Ian e, principalmente, descobrir até onde Ydrine pretendia levar aquela reunião.

Ainda assim, abriu a pasta.

Porque havia uma coisa que não podia mais adiar.

A separação.

Elenys permaneceu alguns segundos olhando para as primeiras páginas sem realmente enxergá-las.

Aquilo não era por Thamir.

Essa era a parte que precisava deixar clara para si mesma.

Se Thamir nunca tivesse entrado em sua vida, se jamais tivesse caminhado ao lado dela pelas ruas de Altheria, se nunca tivesse olhado para ela daquela maneira e dito, sem medo algum, aquilo que ninguém ousava dizer… ela ainda teria chegado à mesma conclusão.

Talvez demorasse mais.

Talvez encontrasse outra desculpa.

Talvez não tivesse visto aquilo como um problema.

Mas agora via.

E sabia que havia começado muito antes de Cervalhion.

Depois de seis anos, finalmente compreendia que não precisava aceitar a mesma sentença pelo resto da vida. Ela queria mais.

Queria escolher.

Queria poder voltar para casa e não sentir que estava entrando em uma instituição da qual também fazia parte apenas porque seu nome estava gravado na porta.

Talvez Thamir a tivesse enganado, talvez as doces promessas tivessem sido apenas isso: promessas.

E, no fundo, ela ainda desejava que ele não a tivesse usado por um mero momento.

A possibilidade ainda doía, mais do que admitiria em voz alta. Mas nem mesmo isso mudava a resposta.

Elenys não estava deixando Vaynar para correr atrás de outro homem. Estava deixando Vaynar porque, pela primeira vez, compreendia que queria ser dona da própria vida.

O problema era tudo que existia ao redor daquela decisão.

Demorei muito para ver isso… Agora, como eu saio disso sem perder tudo o que construí?

Vaynar não era apenas seu marido.

Era uma das vozes que o Conselho escutava.

Um homem que aprendera a circular entre as casas menores de Altheria com uma facilidade desconcertante. Havia comerciantes que tratavam diretamente com ele. Algumas anciãs buscavam sua opinião antes de tomar decisões que, em teoria, deveriam passar primeiro pela Matriarca.

Pessoas que talvez já nem lembrassem como a Casa Seryn funcionava antes de Vaynar começar a preencher os espaços.

Se eu disser amanhã que quero me separar… o que acontece depois?

Elenys apoiou a testa na palma da mão.

Contou até cinco.

Depois se endireitou.

Ela precisava de um plano.

Precisava saber quais aliados ainda eram dela. Quais contratos dependiam de sua assinatura. Quais decisões podiam ser tomadas pelas anciãs. Quais ainda lhe pertenciam.

E, acima de tudo, precisava descobrir quanto espaço Vaynar havia ocupado dentro da Casa enquanto ela estava longe.

Foi por isso que começou pelos registros financeiros.

Números não precisam ser convencidos.

Elenys passou as primeiras páginas rapidamente.

Receitas, despesas, produção e distribuição. Os resultados eram bons, na verdade, melhores do que esperava.

Ela franziu a testa.

Voltou duas páginas.

Depois avançou novamente.

A Casa Seryn estava lucrando mais com os cristais.

Não havia um único salto que pudesse ser atribuído a uma venda excepcional. O crescimento aparecia distribuído pelos últimos meses, mas o maior aumento se dera enquanto ela ainda estava em Cervalhion, consistente o bastante para parecer resultado de uma política deliberada.

Ela procurou as assinaturas.

Reconheceu a caligrafia inclinada de Vaynar em quase todas as páginas.

Ao lado dela apareciam as rubricas das anciãs.

Elenys continuou analisando.

Na terceira folha, parou.

Substituição do cargo de Chefe de Exploração.

O nome abaixo fez com que voltasse ao início da linha.

Brany Oswic — afastada da chefia de exploração após revisão de eficiência e segurança das expedições.

Elenys ficou imóvel.

Brany estava com a Casa havia quase dez anos. Ela mesma a havia colocado naquele cargo, era competente, cuidadosa e, mais importante, confiável. As equipes que trabalhavam com ela permaneciam com a Casa mesmo quando outras famílias ofereciam mais.

Não era apenas mais uma funcionária. Era uma peça importante que Elenys conhecia.

Uma peça que agora havia desaparecido.

Ela leu a linha seguinte.

Derik Voss — nomeado para o cargo.

O nome não significava nada para ela.

Elenys voltou algumas páginas dos relatórios.

Nada.

Procurou nos registros antigos até finalmente encontrar um pequeno relato de exploração com o nome dele.

“Voss salvou seu esquadrão durante a expedição para a chamada Zona das Prisões quando uma série de armadilhas de contenção foram acionadas. Graças ao seu raciocínio rápido, conseguimos recuar. Recomendo sua efetivação como explorador da Casa.”

— Sussy Willer

Elenys franziu a testa.

Sussy Willer.

Ela conhecia aquele nome antes mesmo de conhecer o homem que o carregava nos relatórios.

Sussy havia transformado pequenas expedições em rotas permanentes e encontrado algumas das galerias que ainda sustentavam parte da riqueza da Casa.

Se ela havia recomendado Derik, então ele não era um aventureiro qualquer.

Elenys deixou o documento aberto.

Abriu outra pasta e continuou, não demorou para encontrar outros relatos semelhantes. Até chegar ao contrato de Derik assinado por Vaynar.

Ela estreitou os olhos.

Havia mais, um registro de apadrinhamento de Vaynar para Derik.

Armaduras, armadilhas, artefatos, armas e até magos auxiliares. Elenys passou os olhos pela lista uma segunda vez.

O quê?

Ela sentiu a testa franzir.

Desde quando ele usa os recursos da Casa com tanta liberalidade?

Aquilo já não parecia apenas uma contratação.

Elenys fechou aquela pasta e puxou outra.

Cinco páginas depois encontrou a resposta parcial.

Era um novo contrato de comércio, novamente assinado durante sua ausência. A Casa Seryn negociava cristais havia gerações com os Marren, era um acordo antigo, previsível e suficientemente estável. Elenys gostava de acordos estáveis de longa duração.

Duas semanas antes, alguém havia decidido que aquilo não era mais suficiente, o novo comprador era uma companhia que ela nunca tinha ouvido mencionar.

Companhia Thessarin.

Elenys releu o nome. Ela conhecia praticamente todas as casas comerciais importantes que operavam em Altheria.

A Thessarin não estava entre elas.

— O que você está planejando, Vaynar?… — sussurrou, lendo os documentos.

Voltou aos termos do contrato, então entendeu por que as anciãs haviam aprovado o contrato sem resistência. Quinze por cento a mais por cristal, lotes maiores com o risco do transporte assumido pelo comprador, sem nenhuma exigência de exclusividade.

Era um bom contrato.

Bom demais para ser descartado por princípio. Elenys permaneceu alguns segundos encarando a assinatura.

— Elenys?

Serena bateu à porta de forma leve.

— Faltam vinte minutos.

Elenys fechou a pasta.

— Já vou.

— Ydrine mandou avisar que espera você pontualmente.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca de Elenys.

— É claro que mandou.

Ela se levantou, ainda mantendo os olhos nos papéis, antes de finalmente ir até o trocador.

Naquela noite, precisaria primeiro sobreviver ao Círculo.

Depois poderia pensar em suas contramedidas.

Elenys chegou ao salão do Círculo faltando poucos minutos para o horário marcado. Ela não precisou perguntar se a reunião já havia começado. As vozes atravessavam as portas fechadas, altas demais.

O salão, normalmente silencioso, parecia ter se tornado uma arena. Elenys parou diante das portas por um instante e ajustou o manto sobre os ombros.

Respirou fundo.

Depois entrou.

Havia apenas três cadeiras desocupadas ao redor da mesa. A dela, a de Lysvallis e a de Alexia.

O assento da antiga Matriarca permanecia exatamente como sempre estivera. A cadeira de madeira escura, adornada pelos símbolos da Casa Vallen, agora parecia maior do que deveria.

Elenys desviou os olhos. Não precisava olhar para saber que aquele vazio estava sendo sentido por todos. O salão estava longe da solenidade habitual. Alguns membros do Círculo discutiam de pé; outros permaneciam sentados, mas nenhum parecia disposto a ceder espaço ao silêncio.

O Círculo estava dividido.

Vaeryn permanecia de pé ao lado da mesa, os braços cruzados sobre o peito.

— Uma guerra não começa quando o primeiro golpe é dado — dizia ela. — Começa quando alguém acredita que você não vai revidar.

Orven soltou um suspiro impaciente.

— E uma guerra também começa quando alguém decide que armazéns, rotas comerciais e homens mortos são meros detalhes secundários.

— Está sugerindo que não devemos responder?

— Estou sugerindo que saibamos o preço da resposta antes de anunciá-la. Nós compramos praticamente toda a comida que vai para a nossa mesa deles.

— Eles mataram uma Matriarca, Orven.

— Não foi Cervalhion quem matou Alexia — respondeu Orven, seco. — Eu li as declarações feitas pela corte sobre o ataque da besta.

Ydrine soltou uma risada curta.

— Ainda estamos nisso?

Seralyth permanecia sentada, os dedos apoiados sobre um conjunto de documentos.

— Sim.

Ydrine virou-se para ela.

— Porque ainda acredita que existe alguma explicação que torne isso menos grave?

— Não. Também concordo que precisamos de uma resposta.

Seralyth levantou os olhos.

— Afinal, independente de a declaração deles ser verdade ou não, o fato é que uma Matriarca sob a proteção deles morreu. Mas ainda não sabemos o que aconteceu exatamente.

Alguns membros se entreolharam.

— O anúncio de Cervalhion fala em uma besta de caudas — continuou Seralyth. — Uma criatura capaz de atravessar a cidade e atacar tanto a população quanto a comitiva. Isso é uma informação. Não é uma conclusão.

— Uma informação conveniente demais quando a besta se parece tanto com a transformação do “nosso Guardião” — respondeu Ydrine.

— Conveniência não torna uma informação falsa.

— Nem verdadeira.

Seralyth apenas voltou os olhos para os documentos.

— Exatamente.

Thalien estava sentada na posição que normalmente pertenceria a Lys. A diferença era evidente, não apenas porque parecia desconfortável.

Mas porque todos naquela sala sabiam que, naquela noite, Thalien não estava falando em nome próprio.

Estava ocupando o lugar da irmã.

Elenys conhecia aquela expressão, ela estava tentando manter o controle.

— Precisamos separar duas coisas — disse Thalien. — O ataque e a responsabilidade pelo ataque. Não podemos transformar a primeira em prova da segunda.

Ydrine inclinou a cabeça.

— É fácil falar em cautela quando sua irmã não está aqui.

O silêncio caiu por um instante.

Thalien sustentou o olhar dela.

— Minha irmã não está aqui justamente porque foi chamada a Cervalhion para negociar com eles.

— E como resposta nós recebemos um corpo de volta.

A voz de Ydrine endureceu.

— Ela foi para Cervalhion na companhia de três Guardiões e ainda permitiu que algo assim acontecesse. E pior, agora estamos recebendo notícias de que o Guardião do Norte pode ter morrido…

Ela fez uma pausa.

— Nossa lenda que ressurgiu dos mortos agora está ausente.

Malrik se reclinou na cadeira enquanto passava a mão pelo cabelo.

— Ele desapareceu depois de enfrentar a criatura.

— Exatamente.

— O que não significa que tenha sido levado por Cervalhion ou morto.

— Não significa que não tenha sido.

— E também não significa que devamos mandar tropas para uma cidade que acabou de sofrer um ataque da mesma criatura.

Ydrine virou o rosto para ele.

— Você sempre encontra um motivo para esperar.

Malrik não se alterou. Olhou para Ydrine por cima das lentes escuras dos óculos.

— Só não sou louco de deixar nosso povo entrar em uma guerra sem ter certeza.

Um murmúrio percorreu a mesa.

Gil ergueu os olhos.

— Chega.

Não foi alto.

A autoridade em sua voz fez a discussão diminuir.

— Se começarmos a transformar cada discordância em ofensa pessoal, não precisaremos de Cervalhion para destruir esta cidade.

Elenys deu mais um passo para o centro da sala, foi então que Malrik a viu, seguindo a direção do som.

Seu semblante mudou imediatamente.

— Matriarca Elenys, que bom que pode comparecer.

As conversas cessaram pouco a pouco enquanto Elenys caminhava até sua cadeira, ela sentiu os olhos acompanhando cada passo.

Não eram apenas olhares de curiosidade, ela era uma das poucas pessoas naquela sala que estivera lá. Uma das poucas que podia dizer o que realmente acontecera.

E todos sabiam disso.

Malrik esperou que ela se sentasse antes de falar.

— Acho que devemos parar por um momento.

Ydrine apoiou-se contra o encosto da cadeira.

Thalien permaneceu em silêncio.

Malrik voltou-se para Elenys.

— Você estava com a comitiva.

Elenys assentiu.

— Estava.

— Então precisamos ouvir sua versão antes de decidirmos qualquer coisa.

Orven fez um pequeno gesto de concordância, Vaeryn também se sentou, Seralyth fechou os documentos diante de si, até Gil voltou toda a atenção para Elenys.

Ydrine, porém, apenas observava.

Elenys conhecia aquele olhar, ela não queria apenas informações.

— Imagino que tenha sido uma viagem difícil — disse Ydrine.

Elenys encontrou seus olhos.

— Foi.

— E imagino também que tenha sido bastante confusa.

A palavra foi escolhida com cuidado.

— Ataques acontecem rápido. Pessoas entram em pânico. É fácil não compreender exatamente o que se viu.

Thalien lançou um olhar para Ydrine.

— O que está tentando dizer?

Ydrine sequer olhou para ela.

— Estou dizendo que talvez devêssemos ouvir tudo o que Elenys tem a dizer. Sobre a chegada deles em Cervalhion, em detalhes.

Elenys percebeu a armadilha.

Era uma frase perfeitamente razoável, quase generosa, mas havia algo por trás dela.

Ydrine acabara de criar uma situação onde Elenys teria mais dificuldade em direcionar o discurso, criando assim mais oportunidades para atacar a conduta de Cervalhion.

E, se não falasse, poderia usar qualquer hesitação contra ela.

Elenys olhou novamente para a cadeira vazia de Alexia.

Depois para Thalien, a irmã de Lys não desviou os olhos.

Elenys respirou lentamente.

Não podia contar tudo.

Mas permanecer em silêncio também não era mais uma opção, Ydrine inclinou-se ligeiramente para frente.

— Afinal, você estava lá.

Elenys sustentou o olhar dela.

— Estava.

— Então talvez possa nos explicar — continuou Ydrine, com uma calma quase provocadora — como uma comitiva enviada para representar Altheria terminou com uma Matriarca morta, um Guardião desaparecido e Cervalhion anunciando ao mundo que tudo não passou de um ataque de uma besta.

A sala ficou completamente silenciosa.

Elenys sentiu o peso daquela última frase, não era uma pergunta. Era uma acusação esperando que ela escolhesse para quem apontá-la.

Ela pousou as mãos sobre a mesa.

Não havia resposta simples, mas havia uma verdade que aquela sala precisava ouvir.

Elenys respirou fundo.

— Tudo começou na chegada da comitiva a Cervalhion…