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Capítulo 198 – Caminhos Nublados.

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Capítulo 198 – Caminhos Nublados.

A carruagem avançou pela névoa durante boa parte do caminho de volta.

Malrik permaneceu calado, com o olhar perdido através da janela. As ruas passavam do outro lado do vidro como manchas indistintas de luz e sombra, mas ele não prestava atenção nelas. Quando a carruagem finalmente parou diante da Casa Krosys, ele já havia tomado uma decisão.

Não iria dormir.

Não naquela noite.

Desceu da carruagem e atravessou a entrada da propriedade sem diminuir o passo. Criados e funcionários que cruzavam seu caminho apenas se afastavam para deixá-lo passar, acostumados à maneira como Malrik se movia quando tinha alguma coisa em mente.

Um dos serviçais veio logo atrás.

— Deseja que preparem alguma coisa para o senhor?

Malrik continuou andando.

— Não.

O homem inclinou a cabeça.

— Como desejar.

Malrik voltou a caminhar.

Subiu as escadas que levavam aos aposentos de trabalho e entrou na sala onde costumava analisar os relatórios da Casa. A iluminação foi acesa por um criado, que saiu logo depois de deixar uma bandeja com água sobre a mesa.

Malrik retirou o manto e o deixou sobre uma cadeira.

Então começou a trabalhar.

Os primeiros documentos eram relatórios comerciais, correspondências de outras Casas e registros que aguardavam sua assinatura. Ele passou por todos sem muita atenção, resolvendo em poucos minutos aquilo que normalmente ocuparia boa parte da noite.

Quando terminou, abriu uma gaveta lateral da escrivaninha.

Retirou de dentro um conjunto de mapas.

Eram os mapas mais recentes das ruínas.

Malrik os espalhou sobre a mesa.

Durante algum tempo, permaneceu inclinado sobre eles, comparando as marcações novas com as antigas. Algumas passagens haviam sido alteradas. Túneis que antes terminavam em paredes agora apareciam ligados a outros corredores, enquanto determinadas áreas estavam marcadas como instáveis ou inacessíveis.

Ele puxou outro mapa.

Depois outro.

Mas um conjunto específico de novos mapas continuava a incomodá-lo.

Não apenas pelo que havia sido encontrado neles, mas pelo que ainda não fazia sentido.

Malrik passou o dedo sobre uma das marcações e acompanhou o traçado de um túnel até uma região que permanecia praticamente sem informações.

Foi ali que a última exploração de grande porte havia parado.

Ele se recostou na cadeira.

Por alguns segundos, fechou os olhos.

Então tornou a se inclinar sobre os mapas.

Se havia alguma coisa que aprendera ao longo dos anos, era que as perguntas mais perigosas eram justamente aquelas que permaneciam sem resposta.

Pegou um dos sinetes da Casa Krosys e pressionou-o sobre um pedaço de papel.

— Chame Dorman e Nyr.

O criado que aguardava próximo à porta recebeu a ordem e saiu.

Malrik voltou aos mapas.

O tempo passou sem que ele percebesse.

Quando ouviu passos no corredor, já havia reorganizado quase todas as marcações sobre a mesa.

A porta se abriu.

Nyr entrou primeiro, seguida por Dorman.

Malrik ergueu os olhos dos mapas espalhados sobre a mesa.

— Nyr. Dorman.

Os dois se aproximaram.

— Parece que finalmente decidiu nos chamar para falar sobre isso — comentou Dorman, lançando um olhar para os mapas.

Malrik deixou escapar um breve sorriso.

— Eu deveria ter chamado antes.

— Provavelmente — disse Dorman, puxando uma das cadeiras. — Mas imagino que tenha tido motivos.

Nyr sentou-se ao lado dele.

Malrik não respondeu imediatamente. Empurrou um dos mapas mais recentes na direção dos dois.

— Comparei os registros das três últimas incursões.

Dorman inclinou-se sobre a mesa.

— E?

— Os túneis continuam mudando.

Nyr examinou as marcações.

— Continuam.

Não havia surpresa na voz dela. Aquele já era um problema que os três conheciam.

— Quanto? — perguntou Malrik.

Dorman apontou para uma das passagens.

— Aqui, pouco. Talvez alguns metros. O suficiente para tornar a marcação anterior inútil, mas não para alterar completamente a rota.

Moveu o dedo pelo mapa.

— Aqui é diferente.

Malrik acompanhou o movimento.

— O corredor deveria seguir para oeste. Na incursão seguinte, encontramos a passagem alguns graus ao sul.

— Alguns graus?

— O bastante para nos levar a outro ponto.

Malrik assentiu lentamente.

— E vocês confirmaram as marcações?

— Mais de uma vez — respondeu Nyr. — Também deixamos marcas físicas nas paredes antes de sair.

— E quando voltaram?

— Algumas estavam fora do lugar.

Malrik levantou os olhos.

Dorman apoiou os braços sobre a mesa.

— Não temos uma explicação satisfatória.

Malrik ficou em silêncio por alguns segundos.

— E a mana?

Nyr olhou para ele.

— A região continua saturada.

— Talvez tenha até aumentado — completou Dorman, pegando um pedaço de bolo da bandeja de Malrik. — O suficiente para que até pessoas sem treinamento avançado percebam.

Malrik recostou-se na cadeira.

— Isso não existia na primeira expedição.

— Não — disse Dorman, dando uma mordida. — Pelo menos não daquela maneira.

Malrik passou os olhos pelos mapas.

Na primeira vez em que Dorman tentara sentir a estrutura, a mana simplesmente não havia se comportado como deveria. Agora havia mana demais naquela região.

Alguma coisa havia mudado.

— Vocês conseguiram determinar quando começou?

Nyr balançou a cabeça.

— Não exatamente. Na primeira incursão depois da queda, já havia sinais. Na segunda, a concentração era maior. Na terceira, ficou impossível ignorar.

Malrik juntou as mãos sobre a mesa.

— Então temos duas possibilidades.

Dorman ergueu uma sobrancelha, soltando um grunhido baixo de concordância.

Malrik apontou para o mapa.

— A primeira é que as alterações das rotas estejam relacionadas ao acúmulo de mana. Como uma espécie de veia natural surgindo sob a estrutura e alterando o que existe ao redor dela.

Dorman mastigou devagar antes de responder.

— É possível.

Malrik então passou o dedo para outra região do mapa.

— A segunda, e talvez mais provável, é que exista alguma coisa interferindo na estrutura enquanto as equipes estão lá embaixo.

Nyr permaneceu pensativa.

— Uma equipe.

— Ou qualquer outra coisa capaz de produzir o mesmo resultado.

Dorman olhou novamente para o mapa.

— Nas últimas incursões, não encontramos ninguém.

— Eu sei.

— Também não encontramos sinais claros de outra equipe.

Malrik soltou o ar pelo nariz.

— Eu sei. Com toda essa saturação de mana no terreno, eu ficaria surpreso se conseguíssemos perceber alguma coisa antes de estar praticamente em cima dela.

Dorman assentiu.

Malrik puxou outro documento.

— Foi por isso que voltei ao caso de Karl e chamei vocês.

Os dois ficaram em silêncio.

Malrik abriu o documento sobre a mesa.

— Investiguei os registros dele. Treinamento, tutores, qualquer coisa que pudesse indicar que ele tivesse aprendido a manipular mana.

Dorman observou o relatório.

— E?

— Nada.

Nyr compreendeu antes dele.

— Karl nunca aprendeu.

— Não.

Malrik fechou o documento.

— Não recebeu treinamento mágico. Não havia conhecimento técnico ou teórico. Nada que indicasse que ele soubesse usar mana.

Dorman assentiu lentamente.

— Isso não muda o que vimos.

— Eu sei.

Malrik sustentou o olhar dele.

— Mas muda a forma como eu estava vendo o ocorrido.

Dorman permaneceu em silêncio.

— E se Karl não tivesse provocado a reação do cristal conscientemente?

Nyr franziu a sobrancelha e olhou para Malrik.

— Você acha que poderia ter sido involuntário?

— É uma possibilidade.

Malrik voltou os olhos para o mapa.

— Os Cristais do Véu armazenam mana bruta. Se Karl possuía uma reserva natural muito maior do que qualquer um sabia, talvez o cristal quebrado tenha absorvido parte dessa mana antes de quebrar.

Dorman ficou alguns segundos em silêncio.

— Um prodígio natural.

— Talvez.

— Mas ele nunca demonstrou nada parecido.

— Porque nunca foi treinado — respondeu Malrik. — E passou a maior parte da vida na parte inferior dos túneis. Talvez simplesmente nunca tenha tido uma razão para perceber o que carregava dentro de si.

Nyr apoiou uma das mãos sobre a mesa.

— É uma teoria interessante, mas não temos como confirmar.

— Não — concordou Malrik. — Karl está morto.

A frase saiu sem dramatismo.

Era simplesmente o que todos acreditavam.

Malrik fechou o relatório.

— E eu não estou dizendo que você tomou a decisão errada, Dorman.

Dorman sustentou seu olhar.

— Eu sei.

— Se havia a possibilidade de alguém estar sabotando a expedição e você viu um homem provocar aquela reação em um Cristal do Véu, era razoável tratá-lo como uma ameaça.

Dorman assentiu.

— Eu faria a mesma coisa novamente.

— Eu esperaria isso de você.

Nyr observou os dois por um instante antes de voltar aos mapas.

— Então Karl não é o motivo desta reunião.

Malrik sorriu de leve.

— Não mais.

Ele puxou o mapa mais recente para o centro da mesa.

— Quero saber o que vocês viram nas últimas incursões.

Dorman aproximou-se.

— Tudo?

— Tudo que pareceu estranho.

Nyr ergueu os olhos.

— Isso pode levar algum tempo.

— Temos tempo.

Dorman apontou para uma das passagens.

— Então começamos por aqui.

Malrik inclinou-se sobre a mesa.

— Comecem.