Capítulo 197 – Despedidas.
Capítulo 197 – Despedidas.
As portas do salão do Círculo se fecharam atrás de Malrik.
Por alguns instantes, ele permaneceu parado no corredor.
Não porque tivesse esquecido para onde deveria ir, mas porque precisava de um momento antes de voltar a caminhar. A reunião havia terminado, mas as vozes ainda pareciam presas à sua cabeça. As acusações veladas, as cautelas, os cálculos de Ydrine, a ausência de Lysvallis. Tudo continuava se misturando, como se o salão ainda estivesse às suas costas.
Malrik passou uma das mãos pelo rosto e soltou lentamente o ar.
Alexia.
O nome surgiu sem que ele o procurasse.
Ele fechou os olhos por um instante.
Quando tornou a abri-los, encontrou o Administrador Sênior da Casa Krosys alguns passos adiante, esperando por ele. O homem não perguntou como havia sido a reunião. Também não perguntou se Malrik precisava de alguma coisa. Limitou-se a inclinar levemente a cabeça, como fazia sempre que aguardava uma ordem.
— Devemos retornar diretamente à Casa?
Malrik olhou para ele.
— Antes, precisamos passar na casa dos Vallen.
O administrador o encarou brevemente.
— Tem certeza?
Malrik não respondeu de imediato. Ajustou as luvas, embora elas já estivessem perfeitamente colocadas.
— Não. Mas vou assim mesmo.
O administrador voltou a olhar para frente.
— Claro.
Começaram a caminhar pelo corredor.
Malrik manteve os olhos à frente. Não havia muito mais a dizer.
Alexia estava morta.
Durante a reunião, ele conseguira falar sobre outras coisas. Sobre Cervalhion. Sobre Lysvallis. Sobre a ameaça que poderia nascer de uma ausência de quatro semanas. Conseguira permanecer sentado à mesa enquanto o nome dela era mencionado entre as consequências políticas, enquanto Ydrine conduzia seu jogo em torno de tudo o que havia acontecido.
Agora, longe do Círculo, a realidade encontrava espaço para alcançá-lo.
O Administrador Sênior caminhava alguns passos atrás, respeitando o silêncio.
Ao chegarem às escadarias, Malrik parou.
Por um instante, pareceu considerar alguma coisa.
Então desceu.
Não havia nenhuma razão política para que ele próprio fosse até a casa do marido de Alexia. Um representante da Casa Krosys poderia ter levado as condolências em seu nome.
Mas não seria suficiente.
Malrik sabia disso.
E talvez fosse justamente por saber que não seria suficiente que decidiu ir pessoalmente.
Quando deixaram o edifício do Círculo, a névoa já havia tomado as ruas de Altheria. Ela descia das partes mais altas da cidade e se espalhava entre as construções, cobrindo telhados, varandas e pontes, enquanto as lanternas acesas ao longo das ruas projetavam círculos difusos no branco. As pessoas surgiam e desapareciam poucos metros adiante, e até o som das conversas e dos passos parecia mais distante sob aquela umidade fria.
Malrik puxou o manto para mais perto do corpo enquanto seguia pelo distrito nobre ao lado do Administrador Sênior da Casa Krosys.
Ele conhecia aquelas ruas, mas ainda havia algo nelas que o fazia se sentir um pouco deslocado. As vias largas e bem cuidadas, as fachadas imponentes e os portões guardados por homens uniformizados pertenciam a uma parte de Altheria que, durante muitos anos, existira acima dele em todos os sentidos.
Malrik havia crescido no subsolo da cidade.
Durante boa parte da vida, aqueles salões, casas e jardins tinham sido apenas algo que existia acima das ruas onde ele vivia. A névoa chegava até lá como umidade fria pelas entradas e túneis, mas nunca com a mesma presença que tinha na superfície. Havia aprendido a conhecer Altheria de baixo para cima, pelos caminhos que a maioria dos moradores da parte nobre sequer sabia que existiam.
Anos depois, sua situação havia mudado. Tinha construído a própria casa praticamente sozinho e conquistado respeito suficiente para que seu nome fosse reconhecido entre as famílias importantes da cidade. A Casa Krosys lhe dera posição, mas o lugar que ocupava agora também era resultado de tudo o que havia construído por conta própria.
Mesmo assim, caminhar pelo distrito nobre ainda despertava uma sensação difícil de explicar. Não era ressentimento, tampouco vergonha daquilo que havia sido. Era apenas a consciência persistente de que ele havia aprendido a sobreviver em uma Altheria diferente daquela que aquelas famílias conheciam.
Algumas pessoas voltaram os olhos para eles enquanto passavam. O brasão da Casa Krosys era reconhecido, assim como o próprio Malrik por aqueles que acompanhavam os assuntos do Círculo. Ele não deu importância aos olhares e continuou caminhando até a carruagem que os aguardava mais adiante, parcialmente encoberta pela névoa.
Parou diante dela por um instante, observando as ruas que desapareciam no branco.
Por mais que os anos tivessem passado e por mais que tivesse conquistado um lugar entre aqueles que um dia pareciam pertencer a outro mundo, ainda havia momentos em que Altheria lhe lembrava de onde ele viera.
Malrik entrou na carruagem.
— Vamos.
O Administrador Sênior entrou logo depois, e a carruagem começou a avançar lentamente pela névoa, seguindo em direção à casa dos Vallen.
A carruagem deixou o distrito nobre e seguiu por algumas ruas antes de parar diante da residência dos Vallen.
A névoa ainda cobria parte da fachada, escondendo os detalhes mais altos da construção. Havia movimento junto à entrada, com criados recebendo pequenas comitivas e guardas abrindo passagem para representantes de outras Casas que vinham prestar condolências pela morte de Alexia.
Malrik desceu da carruagem acompanhado pelo Administrador Sênior da Casa Krosys.
Os dois seguiram até os portões. Um dos guardas reconheceu imediatamente o brasão de Krosys e depois voltou os olhos para Malrik. Não houve necessidade de anúncio. Desde a morte de Alexia, visitas como aquela haviam se tornado parte da rotina da residência.
O guarda apenas se afastou para lhes dar passagem.
Malrik atravessou os portões sem dizer nada.
No interior da propriedade, pequenos grupos de nobres e criados circulavam pelos caminhos que levavam à entrada principal. Alguns chegavam, outros partiam, e as conversas permaneciam baixas, como se até as vozes precisassem respeitar o luto que havia tomado a casa.
O Administrador Sênior acompanhou Malrik até a entrada, mas não avançou quando um criado veio recebê-los.
— Senhor Malrik — disse o homem, inclinando a cabeça. — Por favor, acompanhe-me.
Malrik fez apenas um gesto breve com a cabeça.
O criado o conduziu para dentro.
A casa parecia diferente de como se lembrava. Não havia sinais evidentes de abandono, mas faltava alguma coisa àqueles cômodos. Talvez fossem os pequenos objetos que antes ocupavam os lugares de sempre, talvez a presença de Alexia, que ele conhecera ali apenas em momentos que nunca deveriam ter pertencido àquela casa.
O criado o levou até uma sala mais reservada.
Rodrik estava junto à janela.
Ele não se virou imediatamente.
Era um homem acostumado a passar longos períodos fora de Altheria, e isso ainda podia ser percebido nas roupas de couro e na maneira como se movia. A postura firme contrastava com o cansaço que carregava no rosto. Os equipamentos de caça permaneciam organizados em um canto da sala, enquanto mapas enrolados ocupavam parte de uma mesa e uma velha capa de viagem estava pendurada junto à parede.
Quando finalmente se voltou, seu olhar encontrou o de Malrik.
Nenhum dos dois falou por alguns segundos.
— Rodrik.
— Malrik… ao que devo esse desprazer?
Rodrik colocou a taça de vinho sobre a mesa.
— Vim prestar minhas condolências — disse Malrik.
O homem sustentou seu olhar.
— Não precisava ter vindo.
— Eu sei.
A resposta pareceu incomodá-lo. Rodrik se afastou da janela e caminhou até a mesa, pegando a garrafa de vinho, que já estava quase vazia.
— E mesmo assim veio.
Malrik permaneceu imóvel.
Rodrik levou a garrafa aos lábios e tomou um longo gole antes de colocá-la novamente sobre a mesa.
— Acho que sei por quê.
Malrik baixou os olhos por um instante.
Rodrik voltou a encará-lo.
— Alexia nunca foi boa em esconder aquilo que realmente importava para ela.
Malrik não respondeu.
— Eu sabia que ela estava com você.
A frase saiu sem alteração na voz.
Malrik permaneceu em silêncio.
Rodrik passou por ele e voltou até a janela. Ficou alguns instantes olhando para a névoa do lado de fora antes de falar novamente.
— Passei tantos anos viajando que me acostumei a voltar e encontrar as coisas exatamente onde havia deixado.
Malrik ergueu os olhos.
Rodrik apoiou uma das mãos na moldura da janela.
— Ela sempre reclamava disso. Dizia que eu tratava esta casa como uma hospedaria.
Um breve sorriso apareceu no rosto de Rodrik, mas desapareceu quase no mesmo instante.
— Talvez tivesse razão.
Ele se afastou da janela e caminhou até a mesa onde estavam os mapas.
— Desta vez foi diferente.
Malrik o observou.
— Eu fiquei.
Rodrik passou os dedos sobre um dos mapas, sem desenrolá-lo.
— Pela primeira vez em muitos anos, não fui eu quem partiu.
Seus olhos permaneceram sobre a mesa.
— Ela disse que voltaria antes de eu ter tempo de reclamar da casa vazia.
Malrik não respondeu.
Rodrik soltou uma pequena respiração pelo nariz, quase uma risada, mas sem humor.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Ele abriu um dos mapas e ficou olhando para as marcações, embora claramente não estivesse vendo nenhuma delas.
— Você sabe o que é curioso? Durante muito tempo, achei que conhecia todos os lugares onde Alexia poderia estar. As pessoas que procuraria, as Casas que frequentaria, os assuntos que tomariam seu tempo.
Ele ergueu os olhos para Malrik.
— Eu conhecia a vida dela.
Uma pausa.
— Ou pelo menos a parte que ela trazia para casa.
Malrik sustentou o olhar.
Rodrik enrolou novamente o mapa.
— Não vou pedir que me conte nada. Já não importa.
Colocou o mapa sobre a mesa.
— Só não espere que eu consiga olhar para você e fingir que não sei.
Malrik assentiu muito levemente.
Rodrik pegou a garrafa outra vez, mas não bebeu. Seus olhos foram até um pequeno objeto sobre a mesa, uma peça que claramente pertencia a Alexia.
— Ela costumava mexer nas minhas coisas quando eu voltava de viagem.
Malrik acompanhou seu olhar.
— Nunca encontrava meus mapas onde os deixava. Nem minhas anotações. Uma vez, ela reorganizou todo o equipamento de caça e depois passou dois dias me ouvindo reclamar que nada estava no lugar.
Dessa vez, o sorriso foi um pouco mais evidente.
— Ela achava engraçado.
Rodrik tocou o objeto sobre a mesa e então retirou a mão.
— Eu também achava. Na época.
O sorriso desapareceu.
Ele voltou a olhar para Malrik.
— De todas as pessoas que eu poderia imaginar entrando por aquela porta depois da morte dela, você era a última.
Malrik não respondeu.
Não havia defesa que pudesse oferecer sem transformar aquele momento em algo menor do que era.
Rodrik pareceu entender.
— Talvez seja isso que mais me incomode.
Malrik sustentou seu olhar por alguns segundos e então fez uma breve inclinação de cabeça.
— Meus sentimentos.
Rodrik não respondeu.
Malrik se virou e deixou a sala.
O Administrador Sênior estava esperando no corredor. Não perguntou como havia sido a conversa. Apenas acompanhou Malrik de volta até a entrada.
Quando chegaram à carruagem, Malrik subiu sem olhar para trás.
— Vamos para a Casa.