Capítulo 199 – “Preparativos Familiares”.
Capítulo 199 – “Preparativos Familiares”.
Karl saltou sobre o corrimão, apoiando a mão no metal apenas o suficiente para mudar o eixo do corpo. Os pés encontraram o piso do outro lado e ele continuou correndo.
Não era uma corrida comum. Ele estava tentando descobrir quanto tempo levava para atravessar aquela parte da mansão sem diminuir o ritmo, quais escadas permitiam subir dois degraus de uma vez, onde podia usar uma parede para ganhar altura e quais corredores tinham espaço suficiente para mudar de direção sem perder velocidade.
Já havia repetido aquele percurso tantas vezes que conhecia quase todas as respostas, mas ainda assim continuava treinando.
Ao passar por uma mesa baixa, desviou o corpo e apoiou uma mão na borda para contorná-la sem tocar nos objetos que estavam sobre ela. Não precisava fazer aquilo. Os autômatos haviam reparado praticamente tudo que fora danificado desde que chegaram, incluindo móveis quebrados, portas, partes das paredes e mecanismos internos. Mesmo assim, Karl não gostava de derrubar as coisas.
Saltou os últimos três degraus e aterrissou no corredor do segundo andar. Diminuiu o passo até parar e apoiou as mãos nos joelhos enquanto recuperava o fôlego. O peito subia e descia com força e o suor já escorria pela nuca, mas a respiração não estava mais tão descontrolada quanto antes.
Meses atrás, aquele percurso teria sido suficiente para deixá-lo parado por vários minutos. Agora, apesar do cansaço, ainda conseguia sentir as pernas trabalhando.
Melhorei.
Karl endireitou o corpo e foi então que ouviu a música.
Era baixa e vinha de algum lugar acima. Uma sequência suave de notas se misturava a uma voz que acompanhava a melodia, quase num cantarolar. Karl reconheceu Gustav e subiu mais alguns lances de escada até chegar ao terceiro andar, onde encontrou a porta da varanda aberta.
Gustav estava sentado próximo ao parapeito, com o instrumento apoiado sobre as pernas.
De costas, quase não parecia o mesmo homem.
Os ombros estavam mais largos e o corpo havia deixado para trás a magreza que carregava quando chegaram. O cabelo escuro estava maior do que de costume, preso de qualquer jeito atrás da cabeça. A postura, porém, continuava sendo a mesma, simplesmente funcional, embora agora houvesse menos tensão nela.
Gustav terminou uma sequência e percebeu a presença atrás de si. Olhou rapidamente por cima do ombro antes de voltar os olhos para o jardim.
— Vai ficar aí parado?
Karl entrou na varanda.
— Estava tentando descobrir se era você ou se outra pessoa tinha assumido o seu lugar.
Gustav olhou novamente para ele.
— Engraçado.
— É sério.
— Eu sei.
Karl caminhou até o parapeito e olhou para o instrumento.
— Está ficando bom.
Gustav voltou os olhos para as cordas.
— Bom em machucar os ouvidos, isso sim.
— Pra quem nunca tocou nenhum instrumento na vida, eu tô surpreso de ainda não ter feito o ouvido de ninguém sangrar.
— Vai se lascar, rapaz.
Karl sorriu.
Gustav tocou duas notas antes de perguntar:
— Quer ouvir ou veio só atrapalhar?
— Posso fazer os dois.
— Então senta.
Karl se apoiou no parapeito, mas não se sentou. Ficou ao lado de Gustav enquanto ele tocava por mais alguns segundos. Quando a música terminou, Gustav deixou os dedos descansarem sobre as cordas e olhou para a cidade além dos jardins.
— Você acha que vai funcionar?
Karl acompanhou o olhar.
— O quê?
— Tudo.
A pergunta demorou a receber resposta. Gustav passou o polegar pelas cordas sem produzir uma melodia.
— Sair daqui. Chegar no círculo mais profundo. Encontrar o lugar que Khalm falou. Fazer aquele portal funcionar.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— Eu não estou dizendo que não devemos tentar. Só não sei se quatro pessoas conseguem atravessar uma cidade dessas.
Karl olhou para ele.
— Talvez não.
Gustav franziu a testa.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Não.
Karl cruzou os braços.
— Mas, cara, ficar aqui também não é uma opção.
Gustav permaneceu olhando para a cidade.
— Eu sei.
— A casa está funcionando melhor depois dos reparos. Os autômatos não estão nos atacando. Temos comida, água e um lugar seguro para dormir. — Karl fez uma pausa antes de completar: — Mas continuamos presos.
— Eu sei.
— Então a escolha é simples.
Gustav soltou uma risada curta.
— Você chama isso de simples?
— Não. Só não tem outra.
Gustav ficou olhando para o instrumento.
— Se alguma coisa der errado…
Karl não deixou que terminasse.
— Vai dar.
Gustav levantou os olhos.
Karl deu de ombros.
— Alguma coisa sempre dá errado.
Por um instante, Gustav pareceu querer rir.
— Você é péssimo para tranquilizar alguém.
— Nunca fui bom nisso.
Os dois ficaram em silêncio por mais algum tempo. Karl então olhou para o corredor.
— Vou comer alguma coisa.
Gustav fez que sim.
— Depois eu vou.
Karl observou o rosto dele por um segundo, mas não insistiu.
— Certo.
Saiu da varanda e, quando chegou ao corredor, percebeu o suor escorrendo pela lateral do rosto. Olhou para a própria roupa e viu que estava completamente encharcada.
— Merda.
Voltou para o quarto.
O banho demorou mais do que deveria. Karl ficou alguns minutos sob a água quente, deixando o corpo relaxar antes de sair. Passou a mão pelo cabelo e parou diante do espelho.
A imagem ainda era estranha.
Estava mais alto e o rosto parecia mais marcado. O cabelo havia crescido muito durante aqueles meses, enquanto a barba cobria boa parte da mandíbula e começava a subir pelas bochechas.
Karl passou os dedos pelo queixo desembaraçando a barba.
A porta abriu.
— Karl, preciso—
Laura parou ao vê-lo.
Karl olhou para ela.
— Mãe.
— Sim?
— Pelo menos avisa antes de entrar.
Laura olhou para ele, depois para as roupas espalhadas pelo quarto e novamente para o filho.
— Você que deveria trancar a porta.
Ela entrou e começou a puxar uma das mochilas para cima da cama. Karl pegou uma toalha e a enrolou rapidamente na cintura.
— Você podia fechar a porta.
— Fecha você. Eu preciso terminar isso.
Karl pegou a primeira peça de roupa que encontrou.
— Você podia ter esperado.
— Você podia ter se vestido antes de ficar parado olhando para o espelho.
Karl preferiu não responder.
Laura abriu a mochila.
— Comida?
— Já separada.
— Água?
— Também.
— Ferramentas?
— Estou organizando a mochila há duas horas.
Ele olhou para ela.
— Então por que a senhora está perguntando?
— Porque quero saber se você sabe o que está levando.
Karl vestiu a calça.
— Claro que sei.
Laura continuou organizando as coisas antes de perguntar:
— Você tem certeza de que consegue reparar o sistema?
Karl parou por um instante.
— Não.
Ela levantou os olhos.
— Não?
— Eu não tenho certeza.
Laura assentiu devagar.
— Por quê? O que mudou?
Karl puxou a blusa pela cabeça.
— Nada mudou, Khalm me passa os comandos. Eu só executo.
— E você entende o que fez?
— Poucas partes.
Laura soltou uma respiração pesada.
— Sei o suficiente para saber onde mexer.
Ela fechou a mochila.
— Isso não me deixa nem um pouco tranquila.
— Somos dois.
Laura ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu não confio nele.
Karl olhou para a mãe.
— Eu também não.
— Ele esconde alguma coisa.
Laura voltou a mexer nas coisas.
— E mesmo assim vamos fazer isso.
— Não temos muita escolha.
Ela assentiu. Karl terminou de se vestir e ficou observando a mãe por um instante antes de chamá-la.
— Mãe.
Laura continuou trabalhando.
— Hm?
— Vai ficar tudo bem.
Ela parou e olhou para ele.
— Não prometa algo que você não pode controlar, garoto.
Karl ficou quieto.
— Só me promete que vai ser prudente.
Karl sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de assentir.
— Prometo.
Ela pareceu aceitar. Então abriu uma pequena gaveta e tirou uma navalha.
Karl olhou para o objeto.
— Não.
— Seu cabelo.
— Sai dessa.
— Ele está grande demais.
— Eu sei, mas gosto assim.
Laura ergueu a navalha.
— E essa barba?
Karl passou a mão pelo rosto.
— Também gosto.
— Ela vai atrapalhar e está te deixando com cara de velho.
Ele voltou a olhar para o espelho e ficou alguns segundos pensando.
— Só o cabelo.
Laura inclinou a cabeça.
— Os dois.
Karl suspirou.
Ela sorriu quase imperceptivelmente.
— Senta.
Quando voltou ao corredor, Karl já não tinha mais barba. O cabelo estava molhado e penteado para trás.
Vestia roupas encontradas em um dos quartos da mansão, muito diferentes das roupas esfarrapadas que usava quando haviam chegado. A blusa parecia ser feita de algum tipo de algodão e a calça cinza era do mesmo tecido. Era folgada e definitivamente não servia para combate, mas era confortável.
Karl desceu as escadas de forma acelerada e, na metade do caminho, quase bateu em alguém.
— Ei.
Lyra parou.
Ela estava saindo de um dos quartos com três livros debaixo do braço e uma folha cheia de anotações na mão. As mãos estavam sujas de tinta, e os cabelos castanhos pareciam estar mais avermelhados do que da última vez.
Karl olhou para ela.
— Bom dia.
Lyra piscou, como se só então tivesse percebido quem estava diante dela.
— O quê? — Ela jogou rapidamente o cabelo de lado, cobrindo a área sem cabelo devido à cicatriz da queda. — Karl? Bom dia.
Ela olhou para os livros, segurando-os com mais firmeza, depois para a folha e, por fim, voltou os olhos para Karl.
— Ah.
Parecia ter acabado de lembrar que havia outra pessoa no mundo.
— V-você tá diferente.
Karl olhou para a própria roupa e depois passou a mão pelo cabelo.
— Ah, sim. Cortei o cabelo. Ficou estranho?
— Não.
Ela balançou a cabeça rapidamente, analisando a si mesma de forma breve.
— Ficou bem.
Karl notou as bochechas de Lyra ficando levemente rosadas.
— Esquece.
Ela virou-se rápido demais e voltou para o quarto de onde tinha acabado de sair. A porta fechou com força, deixando Karl parado no meio do caminho.
Ele não sabia se havia entendido exatamente o que tinha acontecido e, para o bem do próprio estado emocional, decidiu deixar o pensamento para depois.
Continuou descendo as escadas, passando por alguns autômatos que permaneciam ocupados com sua eterna limpeza. Quando chegou à cozinha, sentiu diferentes aromas no ar. Havia carne assada, frutas, grãos cozidos e diferentes tipos de pão, em uma quantidade maior do que os quatro conseguiam consumir em uma única refeição.
Karl se sentou, pegou um prato e começou a comer.
Não demorou muito até Gustav aparecer. Ele tinha trocado de roupa e carregava o instrumento debaixo do braço.
Laura veio logo depois.
Gustav olhou para Karl e abriu um sorriso.
— Caramba, quem é o invasor?
Karl passou a mão pela cabeça enquanto continuava comendo.
— Arte da minha mãe.
— Ela fez milagre.
Laura riu brevemente.
— Você também está todo falante demais hoje — falou Karl, mordendo um pedaço de carne.
Gustav se sentou.
— Só tô curtindo um pouco com a sua cara. Relaxa aí, penteado da mamãe.
Laura colocou a mão sobre a mesa.
— Se continuar, você vai ser o próximo.
— Se reproduzir o milagre que tu fez nele, eu vou é agradecer.
Os três riram, e Gustav e Karl continuaram trocando algumas provocações enquanto comiam.
Alguns minutos depois, Lyra entrou.
Karl olhou para ela.
Ela havia tomado banho e penteado o cabelo, mantendo-o arrumado de forma que escondesse a área da cabeça onde os fios ainda não haviam voltado a crescer. A cicatriz permanecia parcialmente escondida pela franja lateral.
Vestia um vestido claro que encontrara em algum dos quartos da mansão.
Parecia outra pessoa.
Lyra sentou-se sem dizer nada e começou a se servir.
Karl voltou ao prato.
Laura esperou os quatro começarem a comer antes de colocar os talheres sobre a mesa.
— Antes que Khalm apareça, quero falar com vocês.
Gustav assentiu. Lyra largou o garfo, enquanto Karl terminou de mastigar.
Ninguém respondeu imediatamente.
Por alguns segundos, apenas o som dos talheres ocupou a cozinha.
Era a última vez que fariam aquele plano dentro da segurança da mansão.
Da próxima vez, precisariam fazê-lo funcionar.