Capítulo 200 – Comunicação Afiada.
Capítulo 200 – Comunicação Afiada.
Por alguns instantes, ninguém falou.
A comida continuava sobre a mesa, mas nenhum dos quatro parecia mais interessado nela. O plano já estava decidido havia algum tempo. Não precisavam repeti-lo inteiro para saber o que cada um faria quando chegasse a hora.
O problema era o que eles ainda não sabiam.
Laura passou os olhos pelos outros três.
Gustav mexia os dedos, Lyra havia voltado a olhar de forma distraída para Karl, ja Karl parecia mais preocupado em observar a porta do que à sua frente.
— Tem uma coisa que eu quero deixar clara antes de começarmos — disse Laura.
Os três olharam para ela.
— A névoa.
Gustav parou de mexer os dedos.
Lyra desviou o olhar.
Karl apenas assentiu.
Laura apoiou os braços sobre a mesa.
— Khalm não explicou o que aquela coisa faz ou o que de fato aquilo é.
— Talvez ele só não saiba — disse Lyra.
Laura balançou a cabeça.
— Não. Ele explicou o que devemos fazer quando ela aparecer. É diferente.
Lyra ficou em silêncio.
— Prender a respiração e correr — continuou Laura. — Foi praticamente tudo o que ele disse.
— Ele também falou que ela foi responsável pelo que aconteceu com essa cidade — acrescentou Karl. — falou que ela enlouqueceu eles, mas não explicou tudo.
Laura olhou para ele.
— Exatamente.
Gustav recostou-se na cadeira.
— Talvez ele não saiba.
Laura virou o rosto para ele.
— Talvez. Ou talvez saiba e não queira contar.
Ninguém respondeu.
Laura olhou para Karl.
— Você quase morreu quando tentou sair daqui.
— Eu sei.
— E só descobrimos depois que havia uma barreira de mana em volta da propriedade.
Karl assentiu.
— Se Khalm tivesse contado antes…
— Não sabemos se ele sabia — disse Lyra.
Laura encarou a estudiosa por alguns segundos.
— E é justamente esse o problema.
Lyra baixou os olhos.
Laura respirou fundo.
— Eu não estou dizendo para ignorarmos o que ele fala. Ele nos ajudou. Sem ele, provavelmente ainda estaríamos tentando descobrir como essa casa funciona e sem uma fora para irmos embora desse lugar maldito.
Karl concordou com um movimento discreto da cabeça.
— Mas isso não significa que devemos acreditar em tudo que ele diz.
Gustav apoiou os braços sobre a mesa.
— Eu não confio nele.
— Nenhum de nós deveria confiar cegamente nele — respondeu Laura encarando Lyra que desviou o olhar.
Karl ficou alguns segundos olhando para a mesa.
— Ainda precisamos dele.
— Eu sei.
— Então não temos muita escolha.
Laura sustentou o olhar do filho.
— Temos escolha sobre uma coisa. Podemos ouvir o que ele diz e ainda pensar antes de fazer.
Karl assentiu.
Lyra parecia querer acrescentar alguma coisa, mas não chegou a falar.
Foi então que um som atravessou a cozinha.
Laura ergueu a cabeça.
O som começou antes que o autômato aparecesse.
Laura ouviu primeiro um pequeno tilintar vindo da mesa. Uma das colheres vibrava contra o prato. Depois um copo tremeu ao lado dela, fazendo a água em seu interior formar pequenas ondas.
Ela ergueu os olhos.
As outras peças de prata começaram a responder ao mesmo som. Talheres, pratos e pequenos objetos decorativos vibravam sobre as superfícies, produzindo um ruído metálico que se espalhava pela cozinha. Laura já conhecia aquele sinal.
Khalm estava tentando falar.
Gustav foi o primeiro a se levantar. Lyra fechou os livros que estavam ao seu lado e os afastou da mesa, enquanto Karl apenas voltou os olhos para a entrada da cozinha.
As pratarias continuaram ressoando até que a porta se abriu.
O autômato entrou.
Depois de tantos meses, Laura já estava acostumada com aquela estrutura metálica, mas ainda percebia uma diferença quando Khalm estava presente. Os movimentos pareciam mais precisos, como se houvesse alguém dentro daquela máquina escolhendo cuidadosamente cada gesto.
Ele parou diante da mesa.
O cristal em seu corpo começou a emitir uma luz fraca.
Então veio a voz.
— @#!09%… vocês… $#@!% preparados?
Laura reconheceu apenas algumas palavras.
Lyra respondeu quase imediatamente. Karl falou logo depois, e os dois continuaram a conversa com o autômato enquanto Gustav acompanhava atentamente.
Laura olhou para ele.
— O que ele está dizendo?
Gustav demorou alguns segundos antes de responder.
— Está perguntando se estamos preparados.
Laura voltou a atenção para o autômato.
— E agora?
— Sistema.
Uma nova sequência de palavras veio do cristal.
Karl respondeu.
Lyra acrescentou alguma coisa e Khalm tornou a falar.
Laura acompanhou as expressões dos três. Karl parecia concentrado; Lyra, por outro lado, fazia perguntas com uma segurança que ainda impressionava Laura. Gustav escutava em silêncio, tentando acompanhar o ritmo da conversa.
As pratarias continuavam vibrando sobre a mesa.
Então Laura reconheceu uma palavra.
Barreira.
Pouco depois, outra.
Névoa.
Ela olhou para Gustav.
— Isso é sobre a proteção da casa?
Ele assentiu.
— É.
Khalm continuou falando. A voz atravessava o cristal com pequenas oscilações, fazendo alguns dos objetos metálicos sobre a mesa responderem em intervalos irregulares.
Karl perguntou alguma coisa.
O autômato respondeu.
Lyra falou novamente.
Laura não precisou entender as palavras para perceber que aquela parte da conversa havia deixado os três mais sérios.
— O que ele está dizendo?
Gustav ainda observava o autômato.
— Ele parece estar repetindo o aviso sobre a névoa.
— De novo?
Gustav esperou Khalm terminar antes de responder.
— Algo sobre se a barreira cair e a névoa entrar, é para correr.
Laura franziu a testa.
— Só correr?
Ela ficou olhando para o autômato.
Era uma instrução simples demais para algo que Khalm havia tratado como uma questão de vida ou morte.
A conversa continuou por mais alguns instantes. Lyra respondeu, Karl fez outra pergunta e Khalm tornou a falar. Laura reconheceu novamente algumas palavras espalhadas no meio da fala, mas não o suficiente para reconstruir o sentido.
Do outro lado da mesa, Gustav permanecia atento.
Laura deixou a mão repousar sobre a colher ao lado do prato. A vibração metálica atravessava seus dedos.
— Ele falou mais alguma coisa?
Gustav demorou a responder.
— Falou.
— E?
— Ainda estou tentando entender.
Laura assentiu.
Não insistiu.
Olhou para Karl e Lyra mais uma vez. Os dois continuavam conversando com Khalm, aparentemente discutindo alguma coisa importante.
Ela respirou fundo.
Aquela era a parte que não gostava.
Não saber exatamente o que estava sendo dito enquanto os outros três decidiam o que fazer.
Depois de meses vivendo naquela mansão, ela já havia aprendido a confiar nos companheiros. Em Khalm, porém, ainda não.
E agora estavam prestes a atravessar a única barreira que os mantinha vivos dentro daquele lugar.
Laura voltou os olhos para o autômato.
A voz de Khalm continuava ecoando pela cozinha enquanto as peças de prata tremiam sobre a mesa.
Ela só esperava que, quando chegasse a hora, eles soubessem exatamente no que estavam confiando.
Lyra acompanhou a conversa em silêncio, os olhos presos no autômato.
A voz de Khalm ainda não era completamente natural para ela. Havia algo diferente na forma como as palavras chegavam através do cristal, como se cada frase carregasse uma segunda camada escondida nas vibrações. Mesmo assim, depois de tantos meses, já conseguia separar os sons e compreender o sentido sem precisar reconstruir cada palavra.
Karl foi o primeiro a tocar no assunto.
— Você falou da névoa várias vezes. Quero saber o que exatamente existe lá fora.
O autômato permaneceu imóvel por alguns segundos.
O cristal em seu corpo brilhou novamente, e uma sequência de vibrações percorreu os talheres sobre a mesa.
Lyra inclinou levemente a cabeça.
Khalm respondeu.
— A névoa vermelha que vocês vão encontrar no caminho, pensem nela como veneno, se entrar no seu corpo as reações não serão nada boas.
Karl franziu a testa.
— Alguma coisa mais?
— Não posso explicar tudo daqui.
— Por quê?
O cristal oscilou.
— Porque parte do que sei está ligada à própria cidade. E porque certas informações levariam tempo demais, tempo que não tenho nessa forma.
Lyra estreitou os olhos.
Aquilo não parecia uma resposta completa.
Karl também percebeu.
— Então você sabe o que tem lá fora.
— tenho uma ideia.
— Mas sabe o que acontece quando alguém entra naquela névoa.
Houve uma pequena pausa.
— Sei.
Karl apoiou os braços sobre a mesa.
— E ainda assim só nos disse para correr.
Khalm permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Eu prometo, pelo meu nome, que contarei tudo o que sei. Mas antes vocês devem sair desta casa.
Lyra ergueu os olhos.
A escolha das palavras chamou sua atenção.
Karl pareceu pensar sobre aquilo.
— Tudo?
— Tudo o que puder ser contado.
Karl soltou o ar pelo nariz.
— Certo.
Ele se recostou na cadeira.
— Mas vamos deixar uma coisa clara.
Lyra olhou para ele.
Karl manteve os olhos no autômato.
— Nós precisamos da sua ajuda para sair daqui. Isso é verdade.
O cristal continuou brilhando.
— Mas você também precisa da nossa.
Dessa vez, Khalm não respondeu imediatamente.
Karl continuou:
— Você também está preso aqui. E, pelo que entendi, somos os únicos que podem ajudá-lo.
Lyra percebeu que Gustav havia parado de mexer nos talheres.
Karl cruzou os braços.
— Então não somos os únicos que estão pedindo alguma coisa.
O autômato inclinou levemente a cabeça.
— Prossiga.
— Nós vamos sair da casa. Vamos atravessar a barreira. Vamos cruzar a cidade.
Karl fez uma pausa.
— Mas depois disso, não vamos continuar avançando às cegas.
Lyra ficou imóvel.
— Quando estivermos do lado de fora, você vai nos contar tudo o que sabe sobre a névoa, sobre o caminho e sobre o que existe entre esta casa e o círculo mais profundo.
O cristal pulsou uma vez.
— Concordo.
Karl sustentou o olhar do autômato por alguns segundos.
— Então temos um acordo.
Khalm respondeu com uma sequência curta de vibrações.
Lyra reconheceu as palavras antes mesmo de Karl reagir.
— Temos. Então se preparem. Quando eu voltar, será o momento da fuga.
O autômato permaneceu diante deles por mais alguns instantes.
Depois, as vibrações começaram a diminuir.
As peças de prata sobre a mesa perderam o movimento uma a uma.
Antes que o cristal apagasse completamente, Lyra ainda ouviu Khalm dizer:
— Quando a barreira cair… não parem.
Então o autômato ficou em silêncio.