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Capítulo 201 – “Descendo ao Abismo I”

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Capítulo 201 – “Descendo ao Abismo I”

Lyra continuou olhando para os autômatos espalhados pelo jardim.

O gramado era baixo e bem cuidado, estendendo-se por quase toda a área externa da mansão. Pequenas torres de pedra se erguiam em alguns pontos, servindo como postos para os autômatos de segurança. Fora isso, não havia muito onde se esconder.

Laura segurou o arco com as duas mãos e observou a área por alguns segundos.

— Eles não mudaram de posição.

— …

— Se precisarmos intervir, vou priorizar o da torre da esquerda. Você cuida do da direita.

Lyra assentiu.

— Sem problema.

Laura estreitou os olhos.

— Isso não está me tranquilizando.

— O quê?

— Você. Está falando menos que o normal.

Lyra soltou um suspiro curto.

— É… só o nervosismo.

As duas permaneceram em silêncio.

O arco nas mãos de Lyra parecia mais pesado do que durante os treinamentos. Ela já havia aprendido a usar aquela arma meses atrás, assim como Laura. As únicas coisas que precisaram fazer foram trocar as cordas antigas e praticar.

Agora, porém, não havia alvo de palha esperando alguns metros à frente. Havia autômatos.

Laura olhou de relance para Lyra.

— Você está bem?

— Estou.

— Isso é só por causa dos autômatos?

Lyra demorou um pouco para responder.

— Também.

Laura não insistiu e voltou a olhar para o jardim. As duas estavam vestidas de maneira simples e leve, usando roupas de algodão encontradas nos quartos da mansão. Laura usava uma blusa clara e calças folgadas, enquanto Lyra vestia uma camisa leve e calças ajustadas o suficiente para não atrapalhar seus movimentos. Os cabelos das duas estavam presos para trás, deixando o rosto livre.

Apesar das roupas novas, ainda carregavam partes do que haviam usado quando chegaram. Braçadeiras de couro, já gastas pelo tempo e pelo uso, permaneciam presas aos braços e serviam como proteção improvisada.

O silêncio voltou a se estender enquanto Lyra ajeitava os dedos na corda do arco.

— Sobre o que aconteceu antes…

Laura virou o rosto para ela.

Lyra hesitou antes de continuar.

— Dona Laura, eu… eu queria dizer…

Laura observou a garota por alguns segundos.

— Não precisa falar disso agora.

Lyra assentiu, e Laura voltou a atenção para o jardim.

— Khalm falou alguma coisa nova sobre a névoa?

— Não.

— Nada?

— Nada além do que já sabíamos.

Laura soltou o ar devagar.

— Ótimo.

Lyra quase sorriu.

— Você não parece muito convencida.

— Não estou.

Mais alguns segundos se passaram. Lyra observou as pequenas torres em busca de algum movimento, mas nenhum autômato havia deixado seu posto. Ela então se virou em direção à casa.

— Talvez…

O alarme soou.

As duas se viraram ao mesmo tempo. Dentro da mansão, uma sequência de ruídos mecânicos começou a ecoar, acompanhada pelos sons dos autômatos deixando seus postos.

Laura apertou o arco.

— Agora!

A voz de Karl chegou antes dele. Ele apareceu saltando da sacada do primeiro andar e correu em direção à entrada da mansão, enquanto Gustav vinha logo atrás.

— CORRAM!

Laura e Lyra não esperaram outra ordem. Respiraram fundo e atravessaram a divisa da área interna.

O gramado se estendia diante delas, aberto e sem nenhum lugar para se esconder. Um dos autômatos de espada mais próximos deixou sua pequena torre e avançou em sua direção. Lyra ergueu imediatamente o pulso, mostrando a autorização de convidado.

O autômato parou diante dela e uma luz percorreu a pulseira, analisando o símbolo por alguns segundos. Depois, a espada baixou lentamente e a máquina se afastou, deixando o caminho livre.

Lyra continuou correndo, e Laura passou logo atrás.

Por um instante, pareceu que havia funcionado.

Então o autômato virou a cabeça na direção de Karl e Gustav. Os dois haviam acabado de atravessar a divisa e ergueram os braços para mostrar suas autorizações, mas a máquina permaneceu imóvel apenas por um segundo antes de o cristal preso ao seu peito começar a brilhar.

A espada subiu de uma vez, acompanhada pelo som metálico das peças internas se ajustando.

Nas pequenas torres, os outros autômatos começaram a reagir. Um girou o corpo em direção aos dois, seguido por outro e depois por todos os demais. Em poucos segundos, as máquinas haviam abandonado seus postos e se espalhado pelo jardim, formando posições que impediam qualquer tentativa de avanço ou retorno.

Os cristais das armas começaram a emitir uma luz cada vez mais intensa. Os autômatos equipados com arcos puxaram as cordas, enquanto os que carregavam armas de cristal apontaram seus equipamentos para os dois. Os de espada avançaram alguns metros, fechando o espaço entre Karl e Gustav e o restante do grupo.

Nenhum deles olhou para Laura ou Lyra.

Todos estavam voltados para Karl e Gustav.

Um dos autômatos ergueu a arma e a apontou diretamente para Karl. Os demais fizeram o mesmo quase no mesmo instante, como se estivessem seguindo uma única ordem.

Lyra sentiu o estômago apertar e ergueu o arco.

— Karl!

Karl e Gustav avançaram ao mesmo tempo, mas os autômatos já haviam fechado praticamente todas as rotas de fuga. Alguns permaneciam próximos às pequenas torres, mantendo os pontos mais altos do jardim sob controle, enquanto outros haviam avançado para o gramado e formado uma linha diante deles. Duas máquinas ocupavam a passagem pela esquerda, outras três fechavam o lado direito e, mais atrás, os autômatos equipados com arcos e armas de cristal mantinham distância suficiente para atacar sem precisar se aproximar.

Karl conhecia aqueles modelos e sabia que não conseguiria atravessar aquela formação à força. Também não precisava destruir nenhum deles. Se conseguisse apenas abrir uma passagem por alguns segundos, seria suficiente para os dois alcançarem a barreira.

Um autômato de espada avançou contra ele, e Karl desviou do primeiro golpe antes de firmar os pés no chão. Em vez de tentar passar pela máquina, concentrou toda a força no braço e atingiu a blindagem do peito com um soco.

O golpe não destruiu o autômato. Karl já esperava por isso. A estrutura apenas absorveu parte do impacto, mas o corpo metálico foi arremessado para trás com força suficiente para atingir os dois autômatos que estavam logo atrás. As três máquinas se chocaram e perderam a formação, uma delas caindo sobre o gramado enquanto as outras precisavam se afastar para recuperar o equilíbrio.

A abertura apareceu e Gustav já estava correndo por ela.

Karl o acompanhou imediatamente, mas um disparo de mana atingiu o gramado alguns metros à frente. A explosão abriu um buraco na terra e lançou grama, pedras e uma nuvem de poeira sobre os dois. Karl virou o rosto para proteger os olhos, mas ainda sentiu pequenos pedaços de terra atingirem sua bochecha.

Outro disparo passou atrás de Gustav e explodiu alguns metros depois, fazendo o chão tremer sob os pés deles.

— Continua! — Karl gritou.

Um assovio cortou o ar e, quase no mesmo instante, uma flecha passou diante de Karl. Ele se abaixou e continuou correndo enquanto outra atravessava o espaço onde seu ombro estivera um instante antes.

Os autômatos arqueiros haviam começado a disparar.

Karl fez a mana circular pelo corpo e sua percepção mudou imediatamente. Os movimentos das máquinas ficaram mais lentos, as flechas pareciam avançar pelo ar em um ritmo que ele conseguia acompanhar e os cristais das armas de mana começaram a acumular energia diante de seus olhos.

Ele viu dois autômatos preparando disparos.

— Esquerda! — gritou.

Laura e Lyra já haviam percebido o que estava acontecendo. As duas puxaram as cordas quase ao mesmo tempo e dispararam contra os alvos.

Uma flecha atravessou o cristal de uma das armas antes que ela completasse o carregamento. A outra atingiu o visor do segundo autômato, fazendo a máquina perder o equilíbrio. Karl não soube dizer qual das duas havia acertado cada alvo, mas não teve tempo para descobrir.

Os demais continuaram disparando.

Karl e Gustav mudavam constantemente de direção para evitar as flechas, enquanto os disparos de mana destruíam o gramado ao redor deles. Um feixe atingiu o chão à esquerda e abriu uma cratera que lançou terra contra o rosto de Gustav. Outro explodiu atrás de Karl, cobrindo suas costas e a parte inferior da mochila com poeira e pequenos pedaços de grama.

O assovio de outra flecha chegou aos ouvidos de Karl.

Ele saiu da trajetória quase imediatamente, mas então percebeu que Gustav ainda estava no caminho.

Karl acelerou o máximo que conseguiu.

A mana fazia o mundo parecer mais lento, mas mesmo assim ele percebeu que não chegaria a tempo. Gustav estava longe demais.

Então Gustav desviou.

Ele mudou o corpo apenas o necessário para deixar a flecha passar por seu lado e continuou correndo sem perder o ritmo. Karl mal teve tempo de registrar o movimento antes de um disparo de mana passar zunindo ao lado de sua cabeça.

O calor do projétil atingiu seu rosto e Karl abaixou o corpo por instinto. O disparo continuou até atingir o chão alguns metros atrás, abrindo outra cratera e espalhando terra sobre os dois.

Karl olhou para a origem do ataque e viu o autômato de cristal preparando outro disparo.

Antes que a máquina pudesse completar o movimento, uma flecha atingiu diretamente seu visor. O autômato cambaleou e caiu para trás.

Os arqueiros restantes continuaram disparando enquanto Karl e Gustav se aproximavam da formação quebrada. Os dois autômatos que haviam se chocado ainda estavam no chão, parcialmente sobrepostos, e Gustav passou por cima de uma das carcaças. Karl saltou logo depois, usando o corpo metálico como apoio para ganhar velocidade.

— CORRAM! — Gustav gritou para Laura e Lyra.

As duas entenderam imediatamente e pararam de atirar. Guardaram os arcos enquanto corriam em direção à saída, com Laura alguns passos à frente de Lyra.

A barreira da mansão estava próxima.

Laura foi a primeira a atravessá-la e Lyra passou logo depois, sem encontrar qualquer resistência. Karl e Gustav vieram em seguida, e a mesma barreira que havia impedido Karl de sair semanas antes permitiu que os dois passassem como se nunca tivesse existido.

Faltava apenas o muro, um pequeno muro mais ornamental do que funcional, que não deveria representar qualquer dificuldade para eles.

Karl acelerou e calculou rapidamente a distância. Com a mana circulando pelo corpo e sua percepção desacelerada, sabia que conseguiria saltá-lo sem dificuldade. Bastava alcançar o topo e passar para o outro lado.

Então percebeu um movimento atrás deles.

Um dos autômatos havia parado de perseguir. O cristal de sua arma começava a acumular mana e Karl acompanhou a direção do equipamento até perceber que o alvo era Gustav.

— Gus…!

Gustav já estava saltando. Ele apoiou as mãos sobre o muro e impulsionou o corpo para o outro lado, mas naquele instante ficou completamente exposto no ar e não teria como mudar de direção.

O disparo veio.

Karl mudou de trajetória imediatamente e concentrou toda a mana que conseguia reunir nas pernas. Seu corpo avançou com força, mas, conforme acelerava, a sensação de lentidão aumentava. Era como tentar correr dentro d’água, exigindo cada vez mais força para conseguir avançar enquanto o projétil continuava se aproximando.

O brilho azulado da mana iluminava o caminho até as costas de Gustav. Karl conseguia acompanhar perfeitamente sua trajetória, mas seu corpo ainda parecia lento demais.

Ele estava quase alcançando Gustav quando percebeu que não chegaria a tempo.

Então se lançou para a frente e atingiu Gustav com o ombro no último instante, empurrando-o para fora da trajetória.

O feixe passou pelo espaço onde Gustav estivera e atingiu Karl.

O impacto acertou sua mochila com violência e o lançou por cima do muro. Karl caiu na rua e rolou vários metros pelo chão, enquanto perdia completamente o controle da mana.

A percepção voltou ao normal de uma vez.

— Karl!

A voz de Gustav chegou abafada, seguida pela de Lyra. Karl tentou se mexer, mas o corpo parecia pesado demais. Aos poucos, sua visão voltou e ele percebeu que estava deitado de bruços sobre uma estrada de pedra, iluminada fracamente pelas construções ao redor.

Antes que conseguisse entender o que havia acontecido, alguém o virou.

Laura se ajoelhou ao lado dele e começou a examiná-lo dos pés à cabeça, passando as mãos pelos braços, pelas pernas e pelo peito enquanto procurava algum sinal de fratura ou outro ferimento grave.

Karl piscou algumas vezes.

— Estou bem, mãe…

A voz saiu mais fraca do que esperava, mas ele tentou se levantar mesmo assim.

Laura segurou seu ombro.

— Não se mexe.

— Eu estou bem.

Karl conseguiu ficar de joelhos e tentou recuperar o equilíbrio. Gustav e Lyra estavam próximos, ambos cobertos de poeira e pequenos pedaços de grama. Laura, porém, continuava olhando para ele.

— Tira a mochila.

Karl levou a mão até as alças e só então percebeu que havia algo estranho. A mochila parecia mais pesada de um lado, como se alguma coisa dentro dela tivesse sido esmagada. Ele puxou uma das alças e conseguiu removê-la dos ombros.

Quando a mochila caiu no chão, o buraco aberto pelo disparo ficou visível.

O feixe havia atravessado o tecido de um lado ao outro.

Karl ficou olhando para aquilo por alguns segundos.

— Que merda…

Ninguém respondeu.

Ele levantou os olhos e percebeu a expressão dos outros. Gustav estava pálido, Lyra havia levado uma das mãos à boca e Laura permanecia imóvel, olhando para o corpo do filho.

Karl franziu a testa.

— O quê?

Laura tentou segurá-lo quando ele começou a virar o corpo.

— Karl, não precisa…

Mas ele já havia conseguido olhar por cima do próprio braço.

A roupa estava rasgada na lateral do tronco e uma faixa extensa da pele havia sido arrancada pelo impacto. A carne estava exposta e coberta de sangue, estendendo-se das costas até a lateral do corpo.

Karl ficou imóvel.

Por alguns segundos, ainda não sentiu dor.

Então ela chegou de uma vez.

Seu corpo inteiro se contraiu e a respiração falhou. Karl tentou apoiar uma das mãos no chão, mas os dedos perderam a força enquanto Laura o segurava para impedir que caísse.

A visão começou a escurecer pelas bordas.

Ele ainda conseguiu perceber Laura chamando seu nome e Gustav se aproximando para ajudar, mas os sons foram ficando cada vez mais distantes, até sobrar apenas o silêncio.