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Capítulo 202 – “Descendo ao Abismo II”

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Capítulo 202 – “Descendo ao Abismo II”

Lyra permaneceu imóvel.

O corpo de Karl estava diante dela, mas por alguns segundos ela não conseguiu compreender o que estava vendo. A mochila destruída continuava caída sobre a estrada de pedra, o tecido rasgado encharcado de sangue, parte dele escorrendo e se acumulando entre as pedras. Os sons ao redor pareciam ter se afastado. Laura dizia alguma coisa, Gustav também, e Lyra via os dois se movimentando, mas as vozes chegavam abafadas, como se viessem de muito longe. Ela continuou olhando para a mochila.

Não.

Karl estava ali segundos antes. Estava correndo. Tinha acabado de empurrar Gustav para fora da trajetória do disparo.

Não pode ser.

— Lyra!

Ela não reagiu.

Gustav segurou seu ombro.

— LYRA!

Ela finalmente piscou. O rosto de Gustav apareceu diante dela, coberto de poeira, a respiração pesada.

— Você está me ouvindo?

Lyra olhou para ele sem responder. Só então percebeu Laura, ajoelhada ao lado de Karl, pressionando um pedaço de tecido contra o ferimento enquanto avaliava a extensão da lesão. O sangue continuava escorrendo entre seus dedos.

— Ele perdeu muito — disse Laura, sem levantar os olhos. — Precisamos sair daqui.

A voz estava firme, mas as mãos tremiam, e Laura nunca tremia.

Karl tentou se mover.

— Não se mexe. — Laura segurou seu ombro. — Fica parado.

— Eu consigo andar…

— Não consegue, não.

Karl respirou fundo, soltando um grunhido baixo de dor.

— A gente precisa continuar.

— Eu sei.

Laura abriu a bolsa médica presa à cintura. Afastou instrumentos, procurando entre os compartimentos até encontrar um pequeno estojo envolto em tecido.

Gustav se aproximou.

— Tem alguma coisa?

— Tenho.

Quando Laura abriu o estojo, havia dentro um cristal branco, quase translúcido. Lyra o reconheceu de imediato.

— O cristal de regeneração.

Laura assentiu.

— Consegui pegar um daquela máquina.

Ela o colocou diretamente sobre o ferimento. Karl estremeceu quando a superfície branca tocou a pele ensanguentada. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então o cristal começou a emitir uma luz suave, e a carne ao redor da lesão começou a se fechar.

Não foi instantâneo. O processo era lento, mas rápido o bastante para Lyra acompanhar: os vasos rompidos se recompunham pouco a pouco, e o sangue que escorria pelo flanco diminuiu até restarem algumas gotas.

Karl soltou o ar devagar.

Laura manteve uma das mãos sobre o cristal.

— Acho que isso vai puxar a mana dele.

Gustav olhou para Karl e depois para os lados.

— Isso é um problema?

— Agora, não.

Laura pegou as bandagens e começou a envolver o tronco de Karl, prendendo o cristal contra a ferida.

— O problema seria ele continuar perdendo sangue.

O cristal seguiu brilhando através das faixas. A regeneração não fechou a lesão por completo. O corte ainda era profundo e a pele continuava vermelha ao redor, mas o sangramento havia parado.

Laura terminou o curativo e passou os dedos pelo pescoço de Karl, verificando a pulsação.

— Melhor.

Ela respirou fundo.

— Mas ele precisa de tratamento de verdade. Isso só vai manter o corpo funcionando até chegarmos a um lugar seguro.

Karl abriu os olhos.

— Então vamos logo.

— E você fica acordado.

— Estou acordado.

— Continua assim. Não dorme.

Gustav olhou para a mochila de Karl, rasgada no chão. Recolheu o que ainda prestava, dois frascos e um rolo de corda, e enfiou tudo na própria mochila. Depois a tirou dos ombros e a estendeu para Laura.

— Leva essa. Eu fico com ele.

Laura a colocou sobre o ombro, junto da bolsa médica. Gustav passou o braço de Karl por trás do pescoço e o ergueu, tomando quase todo o peso para si.

— Deixa de ser teimoso e apoia em mim.

Karl tentou firmar as pernas por conta própria. Os joelhos cederam, e Gustav o sustentou.

Eu estava na linha , pensou Gustav. Eu podia ter sido mais rápido. Meio segundo antes e ele não estaria assim. Guardou o pensamento onde guardava todos os outros e olhou para Lyra.

— Você conhece o caminho. Vai na frente.

Ela ergueu os olhos.

— O quê?

— Khalm. Você estudou os mapas com ele.

Lyra olhou para as ruas ao redor. A cidade continuava exatamente como parecera desde dentro da mansão: enorme demais para ser compreendida de uma vez, construída em camadas que desapareciam umas dentro das outras. Torres de pedra branca e escura se erguiam entre edifícios antigos, ligadas por passarelas e estruturas metálicas. Cristais embutidos nas fachadas espalhavam uma luz azulada pelas ruas, iluminando estátuas, varandas e antigas inscrições.

Nenhum céu podia ser visto. Nenhum vento passava. A cidade parecia suspensa em um tempo que não pertencia mais ao mundo de fora. As únicas exceções eram as árvores retorcidas, que se curvavam em direção ao brilho dos cristais.

Lyra respirou fundo.

— Eu vou na frente.

Ela apontou.

— Por ali.

Gustav ajustou Karl contra o corpo.

— Quanto tempo até o próximo ponto?

— Não sei.

Laura olhou para o filho. O cristal continuava emitindo uma luz fraca por baixo das bandagens.

— Então vamos nos apressar.

Lyra começou a correr, e os outros a seguiram. Não podiam voltar. A mansão estava atrás deles, e os autômatos ainda permaneciam do outro lado do muro. Alguns continuavam se movendo no jardim, mas nenhum havia atravessado a barreira.

Ela manteve o passo rápido, tomando as ruas mais estreitas sempre que possível. A estrutura da cidade mudava conforme avançavam. As casas ficavam mais próximas umas das outras. As ruas principais eram largas, mas expostas, e torres surgiam em intervalos regulares, erguidas junto às entradas dos distritos.

Lyra reduziu a velocidade ao chegar à primeira grande avenida.

Gustav quase esbarrou nela.

— O que foi?

Ela ergueu uma mão.

— A Sentinela.

No fim da avenida havia uma torre. Era diferente das pequenas estruturas de segurança da mansão: muito maior, construída com pedra clara e placas metálicas encaixadas umas sobre as outras. Um cristal vertical ocupava o centro, emitindo uma luz fraca que percorria as runas gravadas ao redor.

Laura olhou para ela.

— Essa é uma das torres que Khalm mencionou?

— Sim.

Gustav olhou para Karl. A cabeça dele estava apoiada contra seu ombro.

— Tudo bem aí?

Karl suspirou.

— Só dói. E o sono está chegando.

— Então precisamos passar.

— Não agora. — Lyra apontou para uma passagem lateral. — O cristal dela varre a avenida inteira. Se atravessarmos, ela nos detecta antes de chegarmos à metade.

Laura apertou os olhos na direção da torre.

— Não era agora que ele ia nos ajudar?

— Foi o que ele disse. — Lyra tirou um cristal alaranjado da bolsa e o apontou para a torre.

— Como?

Lyra hesitou.

— Ele não explicou. Só pediu para fazer isso.

Gustav soltou um suspiro.

— Claro que não.

Lyra os conduziu para uma construção parcialmente aberta, talvez uma oficina ou uma pequena loja. Restavam parte das paredes e uma fileira de colunas, o suficiente para escondê-los da linha direta de visão da torre.

Gustav deitou Karl no chão com cuidado. Laura se ajoelhou ao lado dele.

— Está sentindo alguma coisa?

Karl abriu os olhos com esforço, como se precisasse fazer força para mantê-los abertos.

— Na verdade, não. Só estou meio tonto.

Laura tocou o cristal preso ao flanco dele. A luz havia diminuído bastante.

— Vou tirar o cristal.

Ela olhou para o rosto do filho e depois para as bandagens.

— Você deve estar quase sem mana.

Karl assentiu.

Gustav se ajoelhou para dar apoio enquanto Laura removia as faixas. Ela trabalhou devagar, tentando não mexer demais no corpo de Karl. Quando a última camada se soltou, sua mão parou.

— Espera.

— O que foi?

Laura não respondeu de imediato.

O cristal não estava mais sobre a pele. Parte dele havia desaparecido dentro do ferimento.

A superfície branca, antes inteira, tinha penetrado na carne durante a regeneração. As bordas da lesão haviam se fechado ao redor, prendendo-o parcialmente.

Laura franziu a testa.

— Isso não deveria estar assim.

Karl virou a cabeça, tentando enxergar por cima do ombro.

— O quê?

— O cristal.

Ela tocou a região ao redor com cuidado. A pele já tinha se regenerado em parte, envolvendo a superfície cristalina.

Laura nunca havia aprendido a usar aquele tipo de cristal. Só repetira o que vira os autômatos da casa fazerem: colocá-lo sobre o ferimento e deixá-lo acelerar a regeneração. Não sabia que ele podia penetrar no corpo daquela maneira.

— Merda. Ele entrou na pele — disse Gustav, tocando a parte lisa do cristal.

— Eu estou vendo.

Laura examinou a área por alguns segundos. Puxá-lo direto poderia reabrir a lesão, mas deixá-lo ali também não parecia opção. A luz que restava era fraca, e Karl já mostrava sinais claros de exaustão.

Ela tomou uma decisão.

— Karl, vai doer.

Ele abriu os olhos.

— O quê?

Laura tirou uma pequena faca da bolsa médica.

Gustav percebeu na hora o que ela pretendia.

— Você vai tirar com isso?

— Tem outra forma?

Ela se posicionou e segurou o cristal com os dedos.

— Segura nele.

Gustav passou um braço por trás de Karl para mantê-lo firme.

— Pronto.

— Quando eu puxar, não se mexa.

Karl assentiu.

Laura enfiou a ponta da faca entre o cristal e a carne regenerada, cortando o tecido que havia começado a se fechar. Karl apertou os dentes assim que a lâmina tocou a região.

— Só mais um pouco.

Ela fez mais um corte e segurou o cristal com firmeza.

— Agora.

Laura puxou.

Karl gritou, o corpo inteiro se contraindo. Gustav precisou segurá-lo com força para impedir que ele se debatesse. O cristal saiu de uma vez, arrastando um pequeno pedaço de tecido que havia se formado ao redor. O sangue voltou a escorrer, embora bem menos que antes.

Laura pressionou um pano limpo contra o local.

— Acabou, Karl. Respira.

Karl permaneceu curvado, ofegante, os dedos cravados no chão.

— Mas que…

Ele não conseguiu terminar.

Gustav olhou para o cristal na mão de Laura.

— Espera. Ele não era maior antes?

Laura o virou entre os dedos.

O cristal ainda era branco, mas estava visivelmente menor do que quando saíra do estojo. As bordas pareciam desgastadas, como se alguma coisa tivesse consumido parte de sua estrutura.

— Realmente.

— Então não é só a mana dele — disse Gustav, olhando de Karl para o cristal. — Ele gasta a si mesmo para curar.

Laura guardou o cristal de volta no estojo.

— Precisamos ficar atentos. Não sabemos quanto ele ainda consegue fazer.

Lyra olhou para a rua.

— Gente, acho que Khalm vai ajudar.

Ninguém respondeu. Laura continuou observando a torre, como se esperasse algum sinal de que aquilo realmente estivesse prestes a acontecer.

Karl encostou a cabeça na parede e abriu os olhos um pouco mais, lutando para ficar consciente.

— Está vindo. Ele avisou.

Lyra voltou os olhos para a avenida. No começo, não ouviram nada além do estalar metálico das placas da torre se ajustando. Então uma vibração baixa atravessou o chão, quase imperceptível, como se algo enorme se movesse muito abaixo deles. As pedras sob seus pés começaram a tremer, e em poucos segundos a sensação subiu pelas pernas e atravessou o corpo inteiro. Não era um tremor comum. Era uma frequência que parecia atravessar a matéria em vez de simplesmente chegar aos ouvidos.

Ressonância , pensou Lyra, e a palavra veio acompanhada de outras três perguntas: qual escala, qual alcance, e como alguém afinava aquilo sem estar presente.

As runas da Sentinela se acenderam. A estrutura inteira começou a estremecer, emitindo um som grave.

Placas metálicas sacudiram nos encaixes, e uma fina camada de poeira se desprendeu das construções vizinhas. Uma janela estalou do outro lado da avenida. Algumas pedras se soltaram de uma fachada antiga.

Gustav encarou a torre.

— É um terremoto? Isso não pode ser ele… pode?

Ninguém respondeu.

O som subiu. As placas se soltaram uma após a outra, e a pedra começou a esfarelar nas juntas, desmanchando-se em pó antes mesmo de cair. O cristal central oscilou violentamente dentro da estrutura, lançando reflexos cada vez mais intensos pela avenida.

Então a torre cedeu.

Desabou sobre si mesma com um estrondo ensurdecedor. Pedra, metal e fragmentos de cristal despencaram sobre a rua, levantando uma nuvem de poeira que engoliu as construções mais próximas. O chão tremeu. Gustav se curvou sobre Karl, protegendo o rosto dele com o próprio braço, enquanto Lyra e Laura cobriam o rosto.

Quando o estrondo diminuiu, restou apenas o som de pedras menores rolando entre os destroços e o brilho dos cristais atravessando a poeira fina.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

A poeira pairava sobre a avenida, escondendo parte das ruínas. Lyra olhava para aquilo sem conseguir conciliar o que acabara de ver com a imagem que tinha de Khalm. Uma voz que dava comandos técnicos não devia ser capaz de derrubar uma torre inteira.

O espanto mal começava a virar compreensão quando um som agudo rasgou a avenida.

Uma sirene.

No alto de uma construção, um dos cristais mudou de cor. O brilho azul desapareceu, substituído por um amarelo intenso. Outro cristal respondeu. Depois outro. E outro. Em poucos segundos, dezenas deles estavam acesos em amarelo, espalhando uma luz pulsante pela avenida enquanto a sirene se multiplicava pelos corredores da cidade, cada vez mais alta e mais próxima.

Gustav empalideceu.

— Merda…

Ao longe, de uma das ruas, veio um ruído metálico.

Karl já estava se afastando da parede. Cambaleou, apoiou uma mão no flanco, e o curativo escureceu sob seus dedos. Mesmo assim firmou os pés e agarrou o ombro de Gustav ao passar por ele.

— Vamos! Gustav, comigo! Mãe, pega a Lyra! Não parem!

Ele deu três passos antes de o joelho ceder. Gustav o segurou pelo braço e o arrastou de volta ao ritmo.

Lyra, já em movimento, apontou para a rua mais estreita.

— Por ali!

— Rápido! — gritou Karl, sem olhar para trás.