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Capítulo 203 – “Descendo ao Abismo III”

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Capítulo 203 – “Descendo ao Abismo III”

Laura manteve a atenção dividida entre a rua à frente e os sons metálicos que vinham da direção por onde haviam acabado de passar. Distante, irregular, difícil de situar, mas o timbre metálico não deixava dúvida de que eram máquinas.

Os autômatos. Talvez os de segurança que Khalm havia mencionado, talvez apenas as máquinas de manutenção da cidade. Não importava ainda. O importante era que continuavam se afastando.

Gustav corria à frente, conferindo cada cruzamento antes de avançar. Karl seguia ao lado dele, rápido demais para alguém que, minutos antes, mal conseguia manter os olhos abertos.

Laura fixou as costas do filho.

A roupa rasgada deixava à mostra a lombar, logo acima do quadril, onde o disparo havia arrancado a pele sobre o músculo quadrado lombar. Laura conhecia aquela lesão de perto o bastante para saber que Karl não deveria estar correndo. Mesmo assim, as bordas continuavam se fechando diante dela. Não tão rápido quanto sob o cristal, mas rápido o bastante para ser impossível ignorar.

O cristal.

A primeira hipótese veio sozinha: algum fragmento ficara dentro da carne e continuava curando enquanto sugava mana. Era a explicação mais simples. Ela não gostava dela.

Vou verificar quando estivermos seguros.

Por enquanto, Karl continuava correndo. Isso também era um dado. Laura não ia inventar uma resposta enquanto uma cidade inteira tentava matá-los.

Gustav não os levava às cegas. Cada rua era checada antes de ser atravessada, e Lyra corrigia a rota sempre que reconhecia alguma referência das instruções de Khalm. A fuga era rápida, mas ainda havia escolha.

Foi Lyra quem diminuiu o passo.

— Esperem.

Laura parou e virou o rosto. O som metálico seguia ecoando pelas ruas, mas agora dava para distingui-lo: pequenos impactos repetidos, seguidos do arrastar de mecanismos sobre pedra.

— São as aranhas de manutenção — disse Lyra.

Gustav a encarou.

— Tem certeza?

— Elas estavam trabalhando nas casas quando passamos antes.

Laura escutou mais um pouco. Lyra tinha razão: o som não se aproximava. Nas torres distantes, os cristais amarelos ainda pulsavam, mas num ritmo lento, sem a urgência de antes.

Ela voltou a olhar para Karl. A ferida ainda fechava. Agora já cabia sob a palma de uma mão.

Seguiram em direção ao centro. Depois de algumas ruas, Laura se permitiu olhar em volta.

Já haviam cruzado trechos daquela cidade, sempre fugindo ou sendo arrastados por alguma coisa. Nunca com espaço para olhar. Colunas sustentavam entradas largas, terraços avançavam sobre as ruas, passagens de pedra ligavam uma casa à outra. Numa delas, a fachada estava intacta, com relevos ainda nítidos. Na vizinha, o segundo andar havia sido partido ao meio. Sobre algumas portas, barreiras ainda faiscavam em azul fraco.

Antigo demais para continuar de pé, avançado demais para pertencer a um passado tão distante. Nada daquilo se encaixava no que Laura conhecia das ruínas de Altheria.

Por um instante, ela esqueceu de ter medo. Só por um instante.

— É maior do que eu imaginava — disse Karl.

— Você passou meses dentro de uma casa — respondeu Gustav. — O que achava que tinha lá fora?

— Sabia que era grande. Nem sei se ainda dá para chamar isso de ruína.

— Tecnicamente pode — disse Lyra. — Conservada e antiga ainda é ruína. Embora “sítio histórico” seja mais correto. Ou “cidade perdida”. — Ela franziu o nariz. — Mas está habitada, então não é perdida.

Gustav soltou uma risada curta.

— Máquinas contam como habitantes?

— Acho que sim.

— Não contam — disse Karl.

Laura sorriu antes de voltar os olhos para a estrada. Era estranho vê-los conversando assim depois do que acontecera. Talvez fosse por isso mesmo. Nenhum deles queria falar da Sentinela, do alarme, de quantas máquinas poderiam estar procurando por eles.

— Você acha que todas as casas eram grandes assim? — perguntou Lyra, olhando para uma fileira de colunas.

— Acho que algumas pessoas aqui gostavam de espaço — disse Gustav.

— Isso é uma conclusão baseada em quê?

— No tamanho das casas.

Lyra considerou a resposta com seriedade.

— Faz sentido.

— Vocês dois são estranhos — disse Karl.

— Só percebeu agora?

— Justo.

A conversa morreu aos poucos. A curiosidade cedeu lugar à busca por uma passagem para o nível inferior: cruzamentos verificados, entradas examinadas, qualquer sinal de escada ou rampa. O tempo era difícil de medir. Sem relógios, sem céu, com as luzes artificiais sempre iguais, só perceberam quanto tinham andado quando o cansaço começou a pesar nas pernas e manter a atenção passou a exigir esforço.

Gustav estava mais silencioso. Lyra já não parava para observar cada detalhe. Até Laura economizava movimentos e palavras. Continuar assim só aumentaria a chance de erro.

Encontraram uma casa onde podiam parar. Já haviam percorrido boa parte da região central sem achar passagem viável.

Ficava numa rua lateral, meio escondida pela fachada desabada da vizinha. Uma das paredes externas tinha cedido, expondo parte dos cômodos, mas o resto parecia firme. Nenhuma luz acesa, nenhuma barreira ativa.

Gustav verificou a entrada e os cômodos antes de deixar os outros entrarem. Karl observou a rua pelas aberturas da parede, atento a qualquer movimento. Só havia sombras e o trabalho distante das máquinas.

— Podemos ficar aqui um tempo — disse Gustav. — Mas vamos nos revezar.

Ninguém discordou.

Acomodaram-se no cômodo menos danificado. Lyra tirou da mochila de Gustav, que Laura vinha carregando, o que restava dos mantimentos e dividiu a comida sem comentários. Karl comeu sentado contra a parede, sem pressa. Laura não tocou na porção dela.

— Filho. Vem aqui.

Ele ergueu os olhos.

— Estou bem.

— Eu não perguntei isso.

Karl suspirou, mas obedeceu. Laura o fez sentar de lado e afastou o tecido rasgado. O sangue havia secado em crostas escuras que colavam a roupa à pele. Ela umedeceu um pano e limpou devagar, camada por camada.

Embaixo, a pele estava lisa.

Ela repetiu o movimento. Palpou a região com os dedos, procurando um nódulo duro, uma borda, qualquer relevo que denunciasse um fragmento. Nada. Checou o pulso no pescoço: firme. A pele estava fresca, sem febre. Nenhuma marca, nem cicatriz.

Karl olhou por cima do ombro.

— O que foi?

— O ferimento desapareceu.

— Como assim?

— Literalmente. Não tem nem cicatriz.

Gustav se aproximou com Lyra e examinou as costas de Karl.

— Você perdeu muito sangue. Mal ficava consciente. E está correndo há horas como se nada tivesse acontecido.

— Estou bem. Nem me sinto cansado.

— Esse é o problema.

— Pode ter sido o cristal — disse Gustav.

— Talvez.

— Isso não precisa ser ruim, certo? — perguntou Lyra, desviando o olhar. Depois voltou a encarar Karl. — Ele parece bem. A mana dele não está sendo sugada. Pode ser algo bom, dada a nossa situação.

Laura respirou fundo.

— Garota, eu fui quem mais ficou aliviada quando o ferimento fechou. Me assusta muito mais não saber por quê.

— Agora não dá para investigar, Laura — disse Gustav.

— Eu sei. Mas se ficou algum fragmento…

— Mãe.

Karl se levantou e segurou a mão dela antes que continuasse.

— Quando sairmos daqui, a gente investiga com calma. Agora você precisa comer. Não tocou em nada.

Laura o encarou por um longo momento. Os olhos estavam marejados, mas ela assentiu.

— Vou olhar os arredores com o Gustav — disse Karl. — Rapidinho.

— Posso ir junto? — Lyra já segurava o bloco de anotações.

Os dois olharam para Laura. Ela assentiu sem encarar nenhum deles.

— Podem ir.

A voz embargada fez Karl hesitar na porta. Depois saiu.

* * *

Os três chegaram ao fim da rua e começaram a examinar as casas próximas. Gustav espiava o interior de uma delas por uma janela quebrada quando falou, sem se virar:

— Fala a verdade. Está sentindo alguma coisa.

Karl parou ao lado dele.

— Por que acha isso?

Gustav se virou e segurou o ombro dele, obrigando-o a encará-lo.

— Porque conheço você. Ou me conta, ou eu descubro sozinho.

— Não estou sentindo nada. — Karl ergueu as mãos. — É esse o problema.

— Como assim?

— Eu devia estar morto de cansaço e de fome. Estou inteiro. Acho que conseguiria escalar essa parede na unha.

Os três se entreolharam. Lyra deu um passo à frente.

— E a mana? Mudou alguma coisa?

— Agora que aprendi a sentir o fluxo, é como se estivesse mais cheia do que nunca.

Karl baixou a voz.

— Falei aquilo pra minha mãe só pra ela ficar tranquila. Preciso saber se ainda tem algum fragmento do cristal em mim.

— Ela já passou a mão e não achou nada — disse Gustav.

— Eu sei.

Gustav esfregou os olhos.

— Estamos isolados, sem saída conhecida, tentando não morrer. E você quer parar tudo para investigar por que está bem.

— Quero.

— Tá.

Gustav puxou uma pequena faca da cintura.

— Vira de costas.

Karl parou de falar.

— O quê?

— Espera, Gustav — disse Lyra, aproximando-se.

— Espera o quê? Ele pediu.

Karl recuou dois passos, os olhos na lâmina.

— Calma. Eu pedi para investigar.

— E como você quer que eu investigue? — Gustav deu um passo à frente. — Se sua mãe não achou nada com a mão, só resta abrir e olhar.

O canto da boca dele tremeu.

Os três voltaram pelo mesmo caminho. Karl caminhava entre Gustav e Lyra, ainda com a imagem da faca na cabeça.

Foi Gustav quem rompeu o silêncio.

— “Preciso da tua ajuda, mano. Precisamos saber se ainda tem algum fragmento do cristal em mim.” — Imitou a voz de Karl, afinando-a de forma exagerada enquanto levava a mão ao peito. — “É uma questão de vida ou morte”

Karl virou o rosto para ele.

— Tu tá pedindo pra apanhar?

— Ué, eu só tô tentando ajudar. Tu pediu uma investigação, eu ofereci um método.

— Com uma faca.

— Não vi tu apresentar uma alternativa melhor.

Lyra soltou uma risada curta e tentou disfarçá-la. Karl lançou a ela um olhar indignado.

— Não incentiva.

— Desculpa. É que, olhando de fora, vocês dois são muito difíceis de entender.

— Não tem nada pra entender — disse Gustav. — Ele é um idiota que quer descobrir o que tem dentro dele, e eu fui louco o suficiente pra me oferecer pra olhar.

— Tu não ia olhar. Ia me retalhar, isso sim.

— Detalhes.

Karl balançou a cabeça e voltou a olhar para a frente. O canto de sua boca se ergueu por um instante.

Lyra ajeitou o bloco de anotações debaixo do braço enquanto seguiam pelo corredor.

— Obrigada por ter desistido de fazer aquilo, Gustav.

Ele olhou para ela, genuinamente confuso.

— Eu desisti?

— Gustav.

— Tá bom, tá bom.

Karl passou a mão pelo rosto.

— Escutem, vocês dois. Não contem nada disso pra minha mãe.

— O quê? Que tu pediu pra eu te dar uma facada? — perguntou Gustav.

— Tu sabe muito bem o que eu quis dizer.

Gustav continuou andando por alguns passos antes de dar de ombros.

— Não vou falar nada. Tua mãe me mataria.

Lyra assentiu.

— Nem eu. Ela já está preocupada o suficiente.

Karl não respondeu. Retomou o passo, deixando os dois acompanhá-lo.

Quando chegaram à casa, Laura terminava de improvisar três camas no cômodo onde haviam deixado os mantimentos. Reunira tecidos, mantas e o que restava de algumas almofadas, distribuindo-os pelo trecho menos danificado do chão. A porção de comida que separara para Karl estava ao lado da mochila dele.

Laura ergueu os olhos quando os três entraram.

— Encontraram alguma coisa?

— Nada de novo, felizmente — respondeu Gustav.

Karl foi até a mochila e pegou a comida. Gustav não acrescentou nada, e ele também não.

Laura pareceu aceitar a resposta. Ainda assim, seu olhar demorou um pouco mais sobre o filho antes de voltar às mantas.

— Precisamos descansar. Não sabemos quanto tempo vamos levar pra encontrar uma passagem, e não podemos nos dar ao luxo de cometer erros por exaustão.

— Eu fico de vigia primeiro — disse Lyra, deixando o bloco de anotações junto à mochila.

Gustav olhou para as três camas improvisadas.

— Então nós três dormimos agora. Depois trocamos.

— Karl primeiro — decidiu Laura. — Você é quem mais precisa recuperar as forças.

— Eu estou bem, mãe.

Ela o encarou.

Karl sustentou o olhar por um instante.

— Tá bom… Eu vou primeiro, mãe.

Gustav soltou uma risada pelo nariz e se sentou numa das camas.

— Impressionante como tu aprende rápido quando quer.

Karl se inclinou na direção dele.

— Eu ainda vou te moer na porrada.

— Depois de dormir, de preferência — respondeu Gustav, ajeitando-se sobre as mantas.

Laura fingiu não ouvir. Terminou de conferir a roupa de cama e se aproximou de Karl.

— Me chama se sentir qualquer coisa diferente.

— Chamo.

Ela pareceu prestes a acrescentar algo, mas apenas assentiu e se deitou na cama ao lado. Gustav já estava acomodado na terceira, com um braço sobre os olhos.

Lyra ficou perto da entrada, de onde podia observar a rua através de uma abertura na parede. Antes de se sentar, conferiu o mecanismo simples que Gustav havia improvisado para alertá-los caso alguém tentasse entrar.

— Podem dormir. Eu aviso se ouvir alguma coisa.

A casa se aquietou aos poucos. Do lado de fora, as máquinas continuavam a trabalhar entre as ruínas, seus ruídos metálicos chegando abafados pelas paredes.

Karl fechou os olhos. Não sentia o cansaço esperado depois de tantas horas de caminhada, nem a fraqueza que deveria acompanhar a perda de sangue. O corpo parecia disposto a continuar, mas as vozes dos companheiros foram ficando distantes à medida que ele se acomodava sob a manta.

Só preciso descansar um pouco.

Ouviu Lyra mudar de posição perto da entrada. Uma manta roçou o chão, e Gustav resmungou alguma coisa antes de se calar outra vez.

Karl permaneceu de olhos fechados.

Quando tornou a abri-los, estava de pé sobre a água.

A superfície se estendia em todas as direções, lisa como um espelho. Sob suas botas, não cedia nem ondulava. Seu reflexo aparecia logo abaixo, nítido o bastante para distinguir cada detalhe do rosto. Ao redor, a penumbra se confundia com a água, escondendo qualquer limite entre uma coisa e outra.

Karl olhou para os próprios pés e depois para o horizonte escuro. Não havia margem à vista.

Abaixou-se devagar e estendeu a mão. Seus dedos tocaram a superfície fria, mas nenhuma onda se formou.

Recolheu a mão. O reflexo repetiu o movimento, acompanhando-o com precisão. Por um instante, parecia haver outro Karl sob uma camada transparente, olhando de volta para ele.

— Que lugar é esse?

Sua voz soou baixa e distante. Não houve eco.

Karl se levantou e girou o corpo, procurando alguma referência. Nada que reconhecesse se destacava na escuridão. Nenhuma construção, nenhuma luz, nenhum ruído de máquinas. Até o silêncio parecia diferente daquele que encontrara nas ruínas de Altheria.

Voltou a olhar para a água.

Não se lembrava de ter chegado ali. A última coisa de que se recordava era de estar deitado na casa, ouvindo os outros se acomodarem.

Estou sonhando.

Deu um passo. A superfície permaneceu imóvel sob sua bota.

Karl franziu a testa. Mesmo sabendo que sonhava, sentia o peso do próprio corpo e a firmeza da água sob os pés. Abaixou-se mais uma vez, mas não voltou a tocá-la.

Foi quando ouviu seu nome.

— Karl…

A voz feminina veio de algum lugar à sua frente, suave e distante. Sob ela, outras vozes se misturavam num murmúrio quase imperceptível, como se muitas bocas pronunciassem as mesmas palavras ao mesmo tempo.

Karl ergueu a cabeça.

— Quem está aí?

Ele ficou imóvel, atento a qualquer som que pudesse indicar de onde tinham vindo. Por um instante, não ouviu nada além do próprio silêncio.

Então, algo sussurrou atrás dele.

Karl se virou.

A poucos passos, havia uma mulher. Ou algo que tinha a forma de uma mulher. Sua figura emitia um brilho esverdeado e vacilante, os contornos borrados como se Karl a observasse através de um vidro coberto por uma espessa camada de névoa. Ele conseguia distinguir a silhueta, o rosto e a forma como ela parecia estender-se em sua direção, mas nenhum detalhe permanecia nítido por muito tempo.

Karl não se moveu. A mulher inclinou ligeiramente a cabeça, e as vozes que antes se misturavam ao redor dele voltaram a se agitar, baixas e indistintas.

Quando ela falou, sua voz pareceu atravessar uma distância muito maior do que aquela que os separava.

— Finalmente… você consegue me ouvir.