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Capítulo 71 – Segundo vilarejo

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Capítulo 71 – Segundo vilarejo

O vilarejo de Noren ainda cheirava a terra molhada e sangue.

Os soldados terminavam de prender as carroças, revisar equipamentos, ajustar cordas e limpar lâminas. O som metálico das fivelas se misturava ao burburinho da multidão. Rostos sujos, olhares ansiosos, todos fitando Ian como se estivessem diante de uma lenda viva atravessando a rua principal.

Ele fingia não notar. Ajustou o sobretudo, verificou o cavalo da carruagem e esperou em silêncio.

— Guardião! — chamou o capitão da guarnição, apressado. — Ainda não sei como agradecer… sem você, teríamos perdido metade do destacamento.

— Não precisa agradecer. — Ian respondeu com a mesma calma indiferente de sempre.

— Mas—

Antes que o capitão terminasse, o líder do vilarejo subiu numa carroça e ergueu as mãos, a voz cortando o pátio como um trovão.

— Povo de Noren! — bradou. — Ontem vimos a sombra da morte, e com ela, a força do Norte! O Guardião Ian ergueu lanças de gelo contra as feras! Nenhuma vida foi perdida sob sua vigília!

Um coro de gritos e aplausos percorreu a multidão. Ian fechou os olhos por um instante e suspirou.

Mais um discurso.

— Acho que ganhou outro memorial. — murmurou Naira, divertida, atrás dele.

— Tomara que escolham um nome melhor que Lança do Norte. — respondeu, seco.

Naira riu alto demais, atraindo olhares. Ian apenas seguiu até a carroça, ignorando as reverências que o seguiam como uma sombra.

Quando o discurso terminou, ele acenou brevemente para o povo e subiu. O vilarejo foi ficando para trás, envolto pelas muralhas de pedra escura que pareciam absorver o sol.

De frente para ele, Lysvallis o observava com um meio sorriso.

— A essa altura, metade de Cervalhion já deve saber quem você é.

Ian arqueou uma sobrancelha. — Ótimo. Assim não terei paz nem quando chegar lá.

— Não parece o tipo de homem que foge da atenção. — Lys cruzou as pernas, ajeitando o cabelo sobre os ombros.

— Não fujo. Evito. — Ian olhou pela janela, o tom contido. — Gente demais olhando costuma significar problemas.

Lys riu. — Sabe que essa sua pose de desinteressado não engana ninguém, certo?

— Engana o suficiente. — respondeu ele, e um leve sorriso escapou no canto dos lábios.

Desde a última conversa, a presença de Lys ao seu lado havia se tornado quase… confortável.

A carroça seguia num ritmo constante. O vento frio entrava pelas frestas da janela, trazendo o cheiro de terra úmida e folhas esmagadas. Ian quebrou o silêncio:

— Por que não aproveita o tempo e treina?

Lys arqueou uma sobrancelha. — Aqui dentro?

— Não me diga que a grande Rainha de Altheria não consegue se concentrar em uma carroça em movimento.

Ela estreitou os olhos, divertida.

— Não foi você quem disse que não queria perturbar a mana aqui dentro pra não destruir a carroça?

Ian coçou a cabeça, resignado.

— …Você tem um ponto. — Então indicou o espaço à frente dela. — Comece com a mana bruta. É mais estável de lidar.

Lys respirou fundo e fechou os olhos. O ar vibrou levemente não o bastante para gerar forma, mas suficiente para Ian perceber o esforço.

— Está empurrando demais. — ele disse. — Deixa fluir.

— Fluir? — Lys abriu um olho, confusa. — Isso não é água.

— É mais próximo disso do que imagina. — Ian ergueu a mão e deixou uma linha de gelo surgir entre os dedos antes de dissipá-la. — A mana não gosta de ser forçada.

— Você tem noção de que eu faço isso a vida inteira? — ela retrucou, impaciente. — Desde o início, todos aprendem a empurrar a mana pra controlar. E agora você me diz que é errado?

Ian sorriu de leve. — Eu só disse que existe um jeito melhor.

Lys tentou novamente, mais concentrada. O ar tremeu, e um brilho azul começou a tomar forma.

— Melhor. — Ian observou. — Mas ainda mistura emoção demais.

— Difícil não fazer isso quando se trata de gelo. — Lys resmungou. — A mana reage ao que eu sinto, não dá pra desligar.

— Você não precisa desligar. — Ian inclinou-se um pouco à frente. — Só não pode deixar que ela siga o fluxo das emoções. Você conduz o fluxo, não o contrário.

Ela o olhou de lado, cética. — E é assim tão simples?

— É simples. — Ian respondeu. — Só não é fácil.

O silêncio que veio depois foi confortável. Apenas o som das rodas sobre a terra e o vento nas árvores. Lys respirou fundo e tentou de novo.

O brilho azul retornou mais limpo, mais firme. Pequenos flocos se formaram entre os dedos dela, dançando no ar.

Ian observou, atento.

— Melhor. Agora ouça. — A voz dele tornou-se baixa, quase didática. — A mana bruta é o início. Quando você a estabiliza, ela assume uma natureza. A sua é o gelo; esqueça fogo, vento, o que for. Foque no frio.

Lys manteve o olhar nos flocos. — Nunca ouvi falar disso.

— Bom… agora ouviu. — disse Ian, com naturalidade.

— E o que essa natureza tem de especial? — ela perguntou, curiosa.

Ian apoiou os cotovelos nos joelhos, analisando-a.

— A mana de gelo é moldável. Responde ao pensamento. Se ajusta à forma que você imaginar. Pode criar e moldar com precisão, mas tem um preço: amplifica o que você sente.

Lys desviou o olhar. — Isso explica algumas coisas.

— Por isso eu disse pra não usar emoção como combustível. — Ian comentou, quase divertido. — O gelo não precisa de raiva, nem medo. Só de foco.

— E se eu perder o controle? — Lys perguntou.

— As emoções te engolem. — respondeu ele, sem hesitar. — Ilusões, dor, lembranças distorcidas. Tudo o que você teme, o gelo devolve em dobro.

Lys ficou em silêncio, observando o floco derreter na palma da mão. — E mesmo assim você usa isso como se fosse natural.

— Tenho anos de prática. — Ian deu de ombros. — Esqueceu?

Ela tentou outra vez. O ar ficou mais frio. Um cristal de gelo pequeno surgiu sobre sua palma… trêmulo, mas firme.

Ian sorriu de canto.

— Agora sim. Está sentindo a diferença?

— É mais… leve. — Lys respondeu, surpresa. — Como se o ar se movesse junto comigo.

— Isso é controle. — Ian cruzou os braços. — Quando dominar isso, a força vem sozinha.

Lys sorriu, ainda concentrada no cristal.

— Então quer dizer que estou melhorando.

— Um pouco. — Ian respondeu, seco.

Ela riu. — Esse foi o elogio mais generoso que já ouvi de você.

— Aproveite. — Ian encostou-se no assento. — Não vai acontecer de novo tão cedo.

A carroça seguiu seu caminho, embalada pelo vento frio que soprava das colinas. Lys voltou ao treino, a respiração calma, o olhar firme.

Ian a observava em silêncio e pela primeira vez em muitos dias, permitiu-se relaxar.

Sabia que muito em breve, a calmaria teria fim.