CAPÍTULO 16 – VISITA INESPERADA
CAPÍTULO 16 – VISITA INESPERADA
Oliver voltou para casa em silêncio.
O lado esquerdo do rosto ainda latejava, e a cada passo ele revivia o momento em que o soco de Jonathan o havia alcançado. Não era a dor que o incomodava, era o fato de não ter conseguido evitar.
Eliandris o viu assim que ele cruzou a porta. O olhar dela desceu direto para o rosto do filho, para o inchaço que já despontava na maçã do rosto e o fio ressecado de sangue no canto dos lábios.
“Por Aelyndor, o que aconteceu com você?”
“O garoto loiro. Jonathan.” Oliver largou-se numa cadeira. “Veio procurar problema.”
A confusão era visível no rosto dela. Em todas as brigas anteriores, Oliver havia voltado inteiro. Nunca assim.
“Ele aprendeu a usar magia,” Oliver explicou, antes que ela perguntasse. “Eu não tive como reagir a tempo. E olha… se ele tivesse controle sobre o que estava fazendo, talvez eu não estivesse vivo…”
O silêncio que se seguiu foi curto.
Eliandris não disse nada, mas Oliver viu a mudança com clareza. A alma dela, que quase sempre irradiava tons suaves, acendeu num vermelho genuíno e sólido. Era uma cor que ele raramente via nela. Uma cor que ele associava a outras pessoas, não à mãe.
Ela estava com raiva.
Não uma raiva histérica, nem explosiva. Era a raiva fria de quem pesa uma situação e chega a uma conclusão ruim. Eliandris roía a unha do dedo indicador, o olhar perdido em algum ponto do chão.
“Precisamos nos mudar?” Os pensamentos dela estavam claramente agitados, embora ela não dissesse nada em voz alta.
Oliver não soube o que responder. Não era comum vê-la assim.
Antes que qualquer um dos dois pudesse falar, batidas na porta cortaram o silêncio.
Não era raro que alguém batesse. As cortesãs do bordel às vezes precisavam de Eliandris por algum motivo menor, um conselho, uma conversa, uma companhia entre um turno e outro. Eliandris se levantou e abriu a porta sem hesitar.
E ficou surpresa.
Erina estava lá, mas isso não era surpreendente. A surpresa era o homem ao lado dela: meia-idade, barba bem aparada, vestindo roupas de qualidade evidente num azul que combinava com o longo cetro que segurava. Era Archibald.
“Caramba, garoto.” O mago olhou diretamente para Oliver, sobrancelhas levantadas. “Você está acabado.”
Oliver reconheceu o homem num segundo. Era difícil esquecer quem o havia mandado embora com tanta facilidade.
“Sim, um pirralho gordo me deixou nesse estado, senhor.” Não havia hesitação na voz de Oliver. “Por favor, me ensine magia para que eu possa me vingar.”
Eliandris quase engasgou. Não era a primeira vez que o filho a surpreendia, mas ela não conseguia antecipar o quão descarado Oliver poderia ser às vezes.
Erina tampouco disse nada. Conhecia Oliver bem o suficiente para saber que comentários eram desnecessários.
Archibald, por sua vez, abriu uma gargalhada franca.
“Hahahaha! Você é realmente descarado, garoto. Mas não desgosto disso.” Ele ainda sorria quando acrescentou, com um tom mais direto: “Vou te ensinar. Mas só por dois dias.”
Oliver piscou. “Hmm?”
“Na verdade, eu já ia te dar essas aulas de qualquer jeito.” Archibald deu de ombros.
Oliver não perguntou por quê. Olhou para Erina, que permanecia ao lado do mago com a expressão neutra de quem não pretendia se explicar.
“A tia Erina fez algum tipo de acordo com ele? Preciso agradecer ela depois.”
“Ótimo.” Archibald varreu o casebre com um olhar rápido e discretamente desgostoso. “Mas eu me recuso a te ensinar aqui. Amanhã, vá à residência da família Venn. Pela manhã. Não se atrase.”
“Residência da família Venn?”
Oliver conhecia o lugar. Era onde Jonathan morava.
“Jonathan melhorou na magia. Sr. Archibald disse que veio para ensinar alguém. Provavelmente ele é o professor de Jonathan.” Oliver rapidamente ligou os fatos, fazia sentido.
Archibald se despediu sem cerimônia e foi embora. Erina o acompanhou sem dizer uma palavra sequer desde que havia chegado.
Oliver ficou olhando para a porta fechada.
Ir à casa de Jonathan. À casa onde Garet trabalhava. Ao mesmo lugar que havia originado tudo aquilo.
“Devo ir?”
Eliandris ainda estava parada onde havia ficado. Quando Archibald foi embora e a tensão da visita se dissipou, algo nos ombros dela afrouxou.
“Ufa.” Ela respirou fundo, devagar. “Ele não parece ser uma pessoa ruim. Erina estava certa.”
Ao contrário do filho, Eliandris era uma elfa da alma completa e experiente. Não enxergava apenas emoções, via as almas de uma maneira mais profunda, mais completa. O que havia visto em Archibald a havia tranquilizado.
Então ela voltou o olhar para Oliver.
“Meu filho.” A voz tinha voltado ao tom firme de sempre, a raiva substituída por algo mais próximo de exasperação. “O que foi aquilo? Como você pode falar desse jeito com um mago?”
“Não se preocupe, mãe.” Oliver não recuou. “Eu já havia observado o tipo de pessoa que ele é antes. E ele estava de bom humor agora. Não ia explodir do nada.” Fez uma pausa. “Se eu não for um pouco descarado às vezes, não consigo o que quero.”
Eliandris ficou olhando para ele por um momento.
Depois suspirou, balançou a cabeça e não disse mais nada.
Era mais fácil assim.
…
A centenas de milhas dali, na capital Eldravin , o palácio real se erguia de forma magnífica.
Colunas altas sustentavam um teto abobadado onde relevos antigos contavam vitórias e juramentos de reis mortos há séculos. Tapeçarias pesadas desciam pelas paredes, bordadas com fios dourados que captavam a luz das tochas e dos candelabros de cristal, iluminando o salão com um brilho solene. O ar tinha cheiro de cera, metal polido e incenso caro.
No centro da Sala do Trono, acima de degraus largos de mármore escuro, o rei estava sentado. A luz caía sobre ele.
À frente do trono, dois homens ajoelhavam-se sobre o piso polido.
A diferença entre eles era tamanha que, em um outro contexto, poderia até parecer engraçado.
O primeiro parecia incapaz de conter a satisfação de estar vivo. Sorria com uma sinceridade quase indecente para um lugar tão sério. Alto, corpo atlético, ombros abertos, barba perfeita e cabelo negro bem alinhado. A postura parecia de alguém que gosta de ser visto.
O segundo transmitia a impressão oposta: entediado, exausto, como se aquela audiência fosse apenas mais uma obrigação num dia que já havia sido longo demais. Tinha olheiras marcadas e um rosto jovem e limpo, sem barba. O cabelo liso caía para frente, sombreando parte da expressão. Vestia um robe negro que absorvia a luz em vez de refletir, e segurava um cetro com firmeza. Na haste, uma gema branca emitia um brilho frio e constante, o único ponto luminoso naquele conjunto deliberadamente sombrio.
Os guardas de armadura completa formavam um círculo ao redor do rei. Ninguém se movia.
A voz do rei foi a primeira a quebrar o silêncio:
“Chamei vocês dois aqui porque encontramos rastros daquele necromante. Eliminem-o o mais rápido possível, não importa o custo. Destruam ele e toda a sua pesquisa.”
O homem atlético respondeu sem hesitar.
“Vossa Majestade. Por favor, nos dê mais detalhes sobre a missão. Iremos executá-la com maestria.”
O rei bateu palmas. Um pergaminho de papiro enrolado surgiu diante dele e, em vez de entregá-lo ao homem sorridente, ele o estendeu diretamente ao segundo, o de robe negro.
“Todos os detalhes estão aqui. Vão. Não podemos deixar que esse homem continue vivendo.”
Com uma reverência simples, os dois se levantaram.
Eles partiriam numa jornada.