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CAPÍTULO 64 – ÂNCORA TEMPORAL

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CAPÍTULO 64 – ÂNCORA TEMPORAL

As garras espectrais de Orson desceram na direção do pescoço de Alexander.

O artista marcial ainda tentava mover o próprio corpo à força, mas o feitiço [Marionete de Sangue] o mantinha ajoelhado, rígido e impotente. Cada músculo tremia sob esforço extremo. Cada tendão parecia prestes a se romper. Ainda assim, nada bastava para devolver a ele o controle do próprio corpo.

Orson já estava perto demais para que Alexander pudesse desviar.

Tudo parecia perdido, era o fim para Alexander.

Entretanto, repentinamente, uma ponta incandescente atravessou o peito de Orson pelas costas e rompeu para fora com uma explosão de fogo e carne queimada.

O necromante congelou.

Seus olhos se arregalaram.

Sangue escuro escorreu pelo canto de sua boca antes de jorrar em um acesso violento. O golpe interrompeu por completo o movimento final de suas garras, e o corpo de Alexander, enfim livre da pressão invisível, tombou para a frente com um baque seco, apoiando as mãos no chão para não cair de rosto na rua destruída.

Por um instante, nem Alexander compreendeu o que havia acontecido.

Orson cambaleou um passo, depois outro, olhando para a haste flamejante que saía de seu peito. O calor era tão intenso que a carne ao redor do ferimento sibilava e queimava, espalhando um cheiro acre pelo ar carregado de poeira e sangue.

O necromante tossiu novamente, expelindo mais sangue.

Só então virou o rosto para trás.

Seu choque foi genuíno.

Até aquele momento, Orson mantivera a concentração inteira fixada sobre o feitiço que controlava Alexander. [Marionete de Sangue] era uma magia de 5º ciclo poderosa demais para ser usada com descuido. Não era o tipo de técnica que alguém conjurava contra vários oponentes ao mesmo tempo. Enquanto manipulava o sangue de outro combatente, Orson precisava direcionar atenção absoluta ao feitiço. Isso o deixava vulnerável.

Esse era precisamente o motivo de ele só ter usado aquela técnica quando restara apenas Alexander.

Num confronto um contra um, o risco valia a pena.

Mas alguém havia surgido em seu ponto cego.

Alguém rápido o suficiente.

Letal o suficiente.

E impossível o bastante para fazer o mundo parecer errado por um breve segundo.

Orson fitou a figura atrás de si e sua expressão, já abalada pela dor, se distorceu em incredulidade absoluta.

[MAGIA DE 5º CICLO – LANÇA DE FOGO]

Victor segurava com as duas mãos uma longa lança feita de chamas condensadas. O fogo não se agitava como labaredas comuns. Permanecia comprimido, denso, quase sólido, como se tivesse sido forçado à forma de uma arma de execução. A ponta atravessava o torso de Orson por completo.

O mago do tempo cravou a lança ainda mais fundo com um impulso seco, os olhos frios e fixos no inimigo.

A magia de sangue cessou por completo.

Alexander puxou ar de forma brusca e finalmente recuperou o domínio sobre os braços, as pernas e o pescoço. A sensação foi tão repentina que por um momento pareceu irreal, como se tivesse acabado de emergir da água após ficar tempo demais sem respirar.

Orson encarava Victor sem conseguir aceitar o que via.

“V-você não estava morto?”

A voz saiu falha, grossa de sangue.

Victor não respondeu de imediato. Apenas sustentou a arma flamejante, impedindo que Orson se afastasse facilmente.

Alexander ergueu o olhar na mesma direção e sentiu o próprio coração falhar uma batida.

Era Victor.

Sem dúvida alguma.

Não havia ilusão, não havia cadáver animado, não havia truque visual simples. O executor real estava ali, de pé, vivo, segurando uma magia de fogo que queimava o corpo de Orson por dentro e por fora.

Alexander lançou um olhar instintivo para o ponto da rua onde o cadáver estivera antes.

Nada.

O corpo que até então permanecia caído já não estava mais lá.

O cajado de Victor, que havia sido deixado perto do cadáver, também desaparecera.

Victor enfim falou.

“Sim, eu morri”, disse com tranquilidade assustadora. “Mas isso não significa que eu ficaria morto para sempre.”

Os olhos de Orson estremeceram.

Mesmo ferido, mesmo empalado, sua mente continuava afiada o bastante para perseguir a única explicação plausível.

Victor deu um passo à frente, mantendo a lança presa no peito do necromante como um prego ardente atravessando uma fera ainda perigosa.

[HABILIDADE DE ASSINATURA – ÂNCORA TEMPORAL]

O ar ao redor de Victor sofreu uma distorção breve e sutil. Não foi uma explosão de mana nem uma onda de poder ostensiva. Foi algo mais estranho, mais silencioso. Como se a realidade, por um instante, tivesse deslizado sobre um trilho invisível e retornado ao encaixe correto.

Orson arregalou ainda mais os olhos.

“Uma habilidade de assinatura…” Ele tossiu sangue outra vez. “Nunca ouvi falar de uma habilidade tão absurda.”

Naquele instante, a compreensão caiu sobre ele com peso suficiente para rivalizar a própria ferida em seu peito.

Aquilo explicava tudo.

Victor era um mago da escola do tempo.

Orson sempre soubera disso.

Também sabia que magos especializados em magia temporal eram raros, mesmo entre conjuradores de alto nível. Suas técnicas exigiam compreensão precisa, controle fino e um talento pouco comum até entre prodígios. Mas raros de verdade eram aqueles que, além disso, possuíam acesso a uma habilidade de assinatura como aquela.

[Âncora Temporal]

Uma técnica capaz de devolver o corpo do conjurador a um estado previamente marcado no fluxo do tempo.

Victor não precisava necessariamente morrer para ativá-la.

Poderia usá-la após um envenenamento, uma mutilação irreversível ou qualquer dano incapaz de ser tratado em combate. Ainda assim, era óbvio qual era a aplicação mais aterrorizante daquele poder.

Ressurreição condicional.

Um retorno preparado com antecedência, amarrado ao instante da própria morte.

Victor falava enquanto mantinha a pressão da lança, como se quisesse garantir que Orson entendesse exatamente por que havia perdido a vantagem naquele momento decisivo.

“Eu deixei a âncora preparada muito antes desta missão”, disse. “Alguns instantes depois que meu coração parou, meu corpo foi trazido de volta ao ponto que eu havia marcado.”

Alexander ouviu aquilo com espanto silencioso.

Ele conhecia a reputação da escola do tempo. Sabia que seus praticantes eram problemáticos, imprevisíveis e difíceis de enfrentar. Sabia que uma pequena distorção de ritmo podia decidir uma batalha inteira. Mas aquilo…

Aquilo estava em outro nível.

Voltar da morte daquela forma não era apenas poderoso. Era monstruoso.

Victor continuou:

“Mas não é um poder sem custo. Uma vez usada, a âncora não pode ser ativada novamente por um ano inteiro.”

Orson apertou os dentes, entendendo a dimensão do que isso significava.

Um ano.

Para alguém cercado de inimigos e forçado a operar nas sombras, aquilo era uma limitação brutal. Uma carta absoluta que só podia ser jogada uma única vez em doze meses. Victor não a desperdiçaria levianamente.

Isso significava que ele entrara naquela missão preparado para morrer.

Preparado para trocar a própria vida por uma abertura perfeita.

Preparado para enganar até alguém como Orson.

Alexander ainda estava de joelhos, respirando com força, mas seu olhar oscilava entre os dois magos. Ele nunca ouvira falar daquela habilidade antes. Nunca sequer considerara que alguém pudesse retornar dos mortos desse modo sem recorrer a necromancia, pactos ou artefatos proibidos.

Era magia temporal levada a um grau insano.

Orson soltou um som baixo, quase um riso sem humor, e levou as duas mãos até a lança flamejante atravessada em seu peito. O calor queimou suas palmas no mesmo instante, mas ele ignorou a dor e tentou arrancá-la para fora.

Sem sucesso.

Victor a mantinha firme.

Além disso, as chamas pareciam aderidas ao próprio ferimento, como se estivessem selando a carne destruída ao redor da arma apenas para mantê-la enterrada por mais tempo.

O necromante vacilou.

Pela primeira vez desde o início da batalha, sua presença pareceu de fato instável.

Não era só o dano físico.

Alexander percebeu outra coisa.

A armadura que até então era resultado da habilidade [Assimilação de Almas] demonstrou sinais claros de colapso. O fluxo ao redor do corpo de Orson perdeu consistência. As ondulações de poder tornaram-se irregulares. Pequenos estalos espirituais se propagaram por sua pele e pelas escamas dracônicas amareladas, como se algo internamente costurado à força estivesse começando a rasgar.

[Assimilação de Almas]

Mesmo sem que o nome da habilidade fosse pronunciado, ambos sabiam o que estava desmoronando.

A habilidade de assinatura de Orson.

O poder que lhe permitira absorver e sustentar fragmentos de outras existências dentro do próprio corpo.

Aquilo já parecia instável antes.

Agora, empalado por uma lança de 5º ciclo e obrigado a dividir a atenção entre dor, regeneração, controle de mana e risco de morte imediata, ele claramente se aproximava do limite.

Victor notou o mesmo.

Seu olhar endureceu ainda mais.

Se havia um momento para matar Orson, era aquele.

Mas o necromante pareceu chegar à mesma conclusão antes deles.

Os dedos de Orson se contraíram ao redor da haste de fogo. Veias escuras se projetaram por seu pescoço e rosto. Seu peito subiu num fôlego áspero, e então sua expressão mudou.

Não para desespero ou pânico, Orson parecia decidido.

“Uma pena…” ele murmurou.

Sangue caiu de seus lábios enquanto falava, fumegando ao tocar a lança flamejante.

“Uma pena…” repetiu, mais baixo.

Seus olhos passaram por Victor e então por Alexander.

“Não tenho escolha.”

No segundo seguinte, uma energia avassaladora começou a emanar de seu corpo.

Não se espalhou de forma gradual.

Não cresceu em camadas previsíveis.

Explodiu para fora como se alguma barreira interna tivesse sido brutalmente rompida.

Mana opressiva carregada de morte irrompeu ao redor de Orson em torrentes selvagens. O chão sob seus pés rachou ainda mais. As pedras soltas saltaram. As paredes já danificadas das construções próximas estremeceram como se um terremoto tivesse nascido no centro da rua.

Alexander sentiu a pele inteira se arrepiar.

Victor percebeu o perigo no mesmo instante.

Ambos tentaram se mover.

Mas Orson foi mais rápido.

Muito mais rápido.

Seu corpo inchou de energia por um único e aterrador instante.

Então explodiu.