CAPÍTULO 65 – SEM TESTEMUNHAS
CAPÍTULO 65 – SEM TESTEMUNHAS
A vila de Corval já havia sido destruída quase pela metade pela batalha entre os executores reais e Orson.
Onde antes ainda existiam ruas quebradas, fachadas partidas e ruínas fumegantes do combate, agora havia apenas uma cratera gigantesca aberta no coração de Corval.
Orson não havia usado uma habilidade de assinatura.
Também não fora um feitiço formal, estruturado segundo os princípios normais da magia regular.
Se aquilo precisasse receber um nome, o mais adequado seria magia irregular.
Dobrar o mundo à força.
Impor a própria vontade sobre a realidade sem seguir o caminho estável de uma fórmula refinada.
Mas manipular o mundo dessa forma exigia entendimento real daquilo que se queria moldar.
E Orson entendia.
Entendia a alma.
Entendia o corpo.
Entendia o fluxo de energia, o atrito entre vida e morte e a entropia liberada quando forças incompatíveis eram comprimidas além do limite.
Por isso, no último instante, fizera a coisa mais brutal e simples possível.
Inflamara tudo.
A alma do dragão.
O próprio corpo.
E explodira.
Foi um ato rude, direto e suicida.
Também foi devastador.
Ao custo da própria vida, Orson produziu uma explosão cujo poder destrutivo rivalizava com o de uma magia de 6º ciclo.
O raio não alcançou a vila inteira.
Metade de Corval ainda permanecia de pé.
Mas todos os que foram pegos no centro daquela detonação morreram.
Todos, com exceção de dois homens.
Alexander continuava ajoelhado no ponto mais próximo do epicentro.
Orson se explodira em uma fração de segundo. Não houve tempo para cálculo, fuga ou resposta consciente. O corpo do artista marcial apenas reagiu por puro instinto, encolhendo-se e endurecendo os músculos em um reflexo final.
Ainda assim, foi pouco.
Seu lado direito havia sido devastado.
O braço desaparecera até a altura do ombro.
A perna fora arrancada até acima do joelho.
A carne restante estava chamuscada, rasgada e coberta por sangue enegrecido. Partes do tronco exibiam ferimentos tão profundos que pareciam ter sido cavados por uma fera faminta.
Alexander mal conseguia manter a consciência.
Sua cabeça pendia.
O mundo ao redor surgia em flashes desconexos de fumaça, fogo e dor.
Se ainda estava vivo, era por duas razões.
Primeiro, porque conseguira se contrair a tempo e expor menos áreas vitais à onda destrutiva.
Segundo, porque a aura ainda percorria o corpo.
Enquanto a aura circulava, artistas marciais possuíam corpos absurdamente resistentes. Ossos, músculos e órgãos eram fortalecidos por uma vitalidade que ultrapassava muito a de um homem comum.
Foi essa resistência monstruosa que impediu Alexander de morrer no mesmo instante.
Não o salvou por completo.
Apenas adiou o fim.
A algumas centenas de passos dali, na borda do raio de destruição, outro sobrevivente observava o resultado em estado de choque irritado.
Grim permanecia de pé entre pedras espalhadas e fuligem, com a capa encapuzada queimada em vários pontos e as roupas internas parcialmente rasgadas.
Fora pego pela explosão mesmo depois de ter se afastado.
Seus instintos haviam percebido que a luta escalava para um nível perigoso muito antes do desfecho, e por isso ele começara a circular aura e a recuar em busca de uma distância mais segura.
Ainda assim, não se afastara o bastante.
Se tivesse sido apenas um pouco mais descuidado, teria morrido.
O motivo de continuar inteiro não era sorte.
Era um item mágico de Rank 5.
Um de seus trunfos mais valiosos.
Agora destruído.
Grim olhou para a própria mão, como se ainda pudesse sentir os fragmentos invisíveis do item mágico que havia acabado de ser consumido para protegê-lo.
“Merda… merda… merda!”
A voz saiu abafada, mas carregada de revolta genuína.
“Eu não acredito que esse item foi gasto desse jeito. Salvou minha vida, claro, mas eu nem estava participando dessa batalha… isso é o que eu ganho por ficar bisbilhotando onde não fui chamado.”
Seu humor piorou ainda mais ao recordar o valor real do objeto.
Não se tratava de uma proteção qualquer.
Aquele item mágico poderia defendê-lo até mesmo de um ataque desferido por alguém de Rank 6.
Perder algo assim só para escapar como espectador de uma explosão alheia era o tipo de insulto material que Grim levaria para o túmulo.
No centro da cratera, Alexander continuava ajoelhado.
O sangue escorria em filetes grossos pelos restos do corpo.
Seu braço desintegrado terminava num vazio horrível à altura do ombro. A perna direita, reduzida a um toco mutilado, mal parecia parte de um ser humano ainda vivo.
O artista marcial estava perto de apagar de vez quando sentiu uma mão tocar seu ombro esquerdo.
O contato foi firme e seguro, quase casual.
Alexander ergueu o rosto com enorme dificuldade.
Acima dele estava um homem que aparentava juventude, embora a serenidade do olhar sugerisse algo mais antigo do que a idade permitia. Era moreno, tinha cabelos pretos lisos, traços bem definidos e olhos azuis de uma nitidez desconfortável.
“Senhor Elias…”
A voz de Alexander mal saiu.
Elias o observou por um breve instante antes de responder:
“Você e Victor foram bem. Cumpriram o papel de vocês.”
Não havia calor na frase.
A avaliação saiu com frieza administrativa, então ele acrescentou:
“Mas seu serviço ainda não acabou.”
Com a outra mão, Elias retirou um pequeno frasco de vidro do manto.
No interior havia um líquido esverdeado, espesso e borbulhante, como se algo vivo estivesse preso ali dentro e tentasse escapar pela superfície.
Sem pedir permissão, ele inclinou o frasco sobre a boca de Alexander.
O artista marcial engoliu por reflexo.
O efeito foi imediato.
Um calor violento percorreu sua garganta, desceu pelo peito e se espalhou pelo corpo em ondas rápidas. Os ferimentos começaram a se fechar diante de seus olhos. Carne queimada se regenerou. Rasgos profundos se costuraram. O sangramento perdeu força até cessar quase por completo.
Em poucos instantes, Alexander já não parecia um homem à beira da morte.
Parecia apenas um mutilado gravemente ferido.
O braço perdido não voltou.
A perna arrancada também não.
Milagres daquele tipo exigiam recursos muito acima de uma poção daquela.
Alexander respirou fundo, sentindo a consciência se estabilizar à força. A dor permanecia, mas agora era suportável o bastante para pensar.
“Preciso que você elimine os aldeões que sobreviveram”, disse Elias. “Não pode haver testemunhas desta operação.”
Alexander piscou, ainda assimilando a ordem.
Matara muita gente ao longo da vida.
Mas a forma como Elias falou aquilo, sem hesitação, como se estivesse pedindo a remoção de destroços inconvenientes, fez algo dentro dele se retrair.
“Senhor Elias…” Alexander engoliu em seco. “Eu mal consigo me mover.”
Elias assentiu levemente, como se já esperasse essa objeção.
[MAGIA DE 3º CICLO – VOAR]
Mana se reuniu ao redor do corpo destruído de Alexander e o ergueu alguns centímetros do chão. A sensação foi estranha no mesmo instante. Sem a perna direita, seu equilíbrio natural havia sido destruído, mas a magia compensava isso com uma sustentação invisível e estável.
Logo ele já pairava no ar com apoio completo do feitiço.
“Isso resolve sua limitação de movimento”, disse Elias. “Victor não sobreviveu. Com ele vivo, isso seria mais rápido.”
Houve um breve silêncio.
Alexander baixou o olhar para a cratera.
Victor havia desaparecido por inteiro.
Não restara cadáver.
Não restara sequer um fragmento reconhecível que pudesse contar a história de sua morte.
O mesmo valia para Orson.
O necromante se extinguira na própria explosão de modo tão absoluto que nenhum vestígio visível permanecia no centro da devastação.
Estavam mortos.
Verdadeiramente mortos.
Alexander não respondeu.
Talvez porque não houvesse nada a dizer.
Talvez porque compreendesse, naquele instante, que a morte de Victor incomodava Elias apenas como atraso operacional.
O artista marcial apertou os dentes, firmou a empunhadura da espada com a mão que lhe restava e se virou na direção da metade intacta da vila.
Casas ainda de pé.
Ruas que não haviam sido varridas.
Pessoas que talvez ainda estivessem escondidas, feridas, apavoradas ou simplesmente incapazes de entender o que acabara de acontecer.
Ele recebeu uma ordem.
E partiu para cumpri-la.
Impulsionado pela magia de voo, Alexander avançou pelo céu baixo de Corval como um presságio de morte e destruição, com sangue seco pelo corpo e o olhar endurecido pela obrigação.
Do outro lado da área destruída, Grim viu Elias chegar.
Bastou um olhar para sentir um arrepio subir pela espinha.
Grim reconheceu instintivamente o perigo que aquele homem representava.
Alexander, mesmo reduzido àquele estado miserável, ainda exalava a pressão de um executor real. No entanto, o homem que acabara de aparecer ao lado dele parecia de outra categoria.
Era difícil de medir.
Esse tipo de gente raramente era menos perigoso do que aparentava.
Geralmente era pior.
Grim não ficou para confirmar nada.
Tocou um pequeno objeto preso ao interior da manga e ativou outro de seus recursos.
Um item mágico de invisibilidade.
Seu corpo desapareceu da vista quase no mesmo instante, engolido por uma distorção discreta que apagou sua presença visual do cenário devastado.
Nem Alexander, já se afastando pelos ares, nem Elias, ainda de pé no centro da cratera, pareceram notá-lo.
Grim soltou o ar devagar.
“A casa de Balthazar ficava dentro do raio da explosão…” murmurou para si mesmo enquanto recuava com cuidado. “Acho que ele não sobreviveu. Uma pena.”
Seu tom não deixava claro se lamentava a morte do homem ou a perda do que quer que pudesse ter conseguido com ele.
Em seguida, Grim se virou para a parte intacta de Corval.
Se Balthazar estava morto, insistir naquela direção não lhe renderia nada.
Ainda havia outro lugar da vila que poderia esconder respostas, oportunidades ou ao menos diversão suficiente para justificar o caos daquele dia.
Sem emitir ruído, invisível sob o efeito do item mágico, Grim passou a se mover em direção à metade não atingida da vila.
Mais especificamente.
Na direção do bordel Cauda de Sereia.