CAPÍTULO 66 – O QUE RESTOU
CAPÍTULO 66 – O QUE RESTOU
Alguns instantes antes do fim da luta entre Orson e os executores reais, Jonathan atravessava as ruas de Corval com uma determinação que mal conseguia esconder o medo.
Eliandris havia “roubado” o dinheiro de seu pai.
Mesmo depois de tudo o que acontecera naquele dia, esse pensamento continuava preso em sua mente como uma pedra pesada. Balthazar passara anos construindo a própria fortuna. Jonathan sabia que o pai era duro, egoísta e muitas vezes injusto, mas ainda era seu pai. Não podia simplesmente permitir que uma desconhecida aparecesse, tomasse uma quantia tão grande e saísse impune.
“Mesmo que ela seja uma artista marcial de Rank 4… eu vou fazê-la devolver.”
Repetir aquilo em silêncio era mais fácil do que acreditar de verdade.
Jonathan não era um artista marcial.
Não possuía aura, mal dominava magias de 1º ciclo e nunca precisara enfrentar alguém capaz de quebrar ossos com um único golpe. Ainda assim, não podia voltar para casa sem tentar. Se o fizesse, o pai jamais o veria como alguém útil.
O destino dele era o bordel Cauda de Sereia, ele seguia naquela direção sem permitir que a própria coragem esfriasse. O problema era que Corval parecia determinada a não deixá-lo caminhar em paz.
Explosões ecoavam vindas do outro lado da vila.
O chão tremia a cada impacto mais forte. Em algum lugar distante, algo enorme desabou com um estrondo de madeira partindo e pedra se chocando contra pedra. Gritos surgiam, desapareciam e voltavam misturados ao som seco de combate.
Jonathan evitava olhar para aquela direção.
“O que quer que seja isso, não deve ter relação nenhuma comigo”, murmurou, acelerando o passo. “Basta ficar longe.”
Era uma conclusão simples e, acima de tudo, conveniente.
Ele não fazia ideia de que o combate que destruía Corval estava muito mais próximo da casa de sua família do que imaginava.
Quando enfim alcançou o bordel Cauda de Sereia, Jonathan parou no meio da rua.
O bordel não estava intacto.
Uma das paredes laterais havia sido destruída por completo. Havia um buraco enorme onde antes deveria existir um quarto, grande o bastante para que uma fera gigantesca passasse. Reboco quebrado, vigas lascadas e pedaços de madeira cobriam o chão. O interior do estabelecimento estava exposto como uma ferida aberta, e uma nuvem fina de poeira ainda pairava entre os destroços.
Jonathan ficou encarando a cena, incapaz de decidir se devia entrar ou fugir.
“O que aconteceu aqui?”
Ele jamais gostara daquele tipo de lugar.
As janelas chamativas, as mulheres nas portas e os clientes bêbados sempre lhe causavam desconforto. Balthazar dizia que aquilo era apenas outro negócio da vila, mas Jonathan preferia passar pelo outro lado da rua quando precisava cruzar aquela região.
Naquele momento, porém, sua aversão parecia pequena diante da necessidade de provar alguma coisa.
Ele respirou fundo e entrou pela porta aberta.
Com alguns passos, ele chegou ao primeiro andar, no quarto de Erina.
Do outro lado havia uma sala ampla, antes escondida pelos quartos destruídos. A mobília fora empurrada contra as paredes ou quebrada durante a confusão. Havia pessoas demais ali para que Jonathan compreendesse de imediato quem pertencia ao grupo e quem apenas buscara abrigo.
No centro da sala, uma gaiola estranha repousava sobre o chão.
Não era feita de ferro comum. As barras escuras possuíam inscrições apagadas e pequenas protuberâncias semelhantes a espinhos. A estrutura parecia sinistra mesmo imóvel, como se tivesse sido construída para prender algo que não deveria existir. Ao lado dela, havia um anel de de metal com símbolos luminosos.
Perto da gaiola, Archibald conjurava com rapidez.
O homem de meia idade segurava um pergaminho aberto diante do rosto e lia palavras em uma língua que Jonathan não conhecia. O som saía baixo, mas firme, e a mana se acumulava ao redor de seus dedos em fios vermelhos. Sua expressão concentrada deixava claro que qualquer interrupção seria uma péssima ideia.
Mais afastada, Eliandris estava sentada junto à parede, ao lado de Oliver.
Ela parecia muito pior do que Jonathan esperava.
Uma das mãos permanecia pressionada contra um ferimento no corpo. O tecido de suas roupas estava rasgado e marcado de sangue, e seu rosto havia perdido parte da cor habitual. Mesmo ferida, porém, a postura dela ainda transmitia uma firmeza difícil de ignorar.
Oliver permanecia desacordado ao seu lado.
O jovem suava frio. A pele tinha adquirido um tom avermelhado preocupante, e sua respiração era irregular, por vezes tão fraca que Jonathan precisava olhar duas vezes para ter certeza de que ele ainda estava vivo.
Talvez estivesse com febre.
Erina tentava acalmar Agatha alguns passos adiante. A mulher mais velha gesticulava com nervosismo e exigia explicações, mas Erina só conseguia responder em frases incompletas. Era evidente que ela também não compreendia por inteiro o que estava acontecendo.
Jonathan ficou parado perto da entrada improvisada por tempo demais.
Alguns olhares se voltaram para ele.
Ainda assim, nenhum teve o mesmo efeito do olhar de Eliandris.
Ela o reconheceu quase no instante em que ele apareceu. Seus olhos se estreitaram levemente, e Jonathan sentiu um frio desagradável percorrer a espinha. Não era preciso que ela se levantasse ou ameaçasse fazer algo. Bastava recordar a facilidade com que ela havia enfrentado homens adultos para que suas pernas ameaçassem ceder.
Mas ele já chegara até ali.
Jonathan engoliu em seco e caminhou na direção dela.
Eliandris não se moveu. Apenas o acompanhou com os olhos enquanto ele se aproximava, parecendo tentar entender por que o filho de Balthazar apareceria no meio daquele caos.
Jonathan parou a poucos passos de distância.
“D-devolva o dinheiro que pegou de meu pai!” A primeira parte saiu trêmula, mas ele reuniu toda a coragem que ainda possuía e elevou um pouco a voz. “Esse dinheiro não é seu.”
O ambiente pareceu mais silencioso por um instante.
Erina olhou para Jonathan, depois para Eliandris. Agatha, confusa demais para acompanhar o assunto, franziu a testa. Archibald continuou a ler o pergaminho, embora um breve movimento dos olhos mostrasse que também escutara.
Eliandris permaneceu séria.
Ela não era alguém que guardava rancor com facilidade. Mesmo diante de pessoas que a haviam prejudicado, raramente permitia que a mágoa se transformasse em ódio. Alguns chamariam isso de bondade. Outros, de fraqueza.
Contudo, Jonathan era uma exceção incômoda.
Desde que soubera da briga de Oliver com o garoto loiro e, depois, do incidente envolvendo Garet, Eliandris formara uma opinião pouco favorável sobre o filho de Balthazar. Para ela, Jonathan era uma criança mimada, protegida pela posição do pai e convencida de que o mundo existia para ceder a seus caprichos.
Por isso, esperava que ele se escondesse quando a situação ficasse perigosa.
Não que viesse sozinho até ela.
Por um breve momento, sua expressão perdeu parte da rigidez. Não era admiração plena, mas surpresa. O garoto estava assustado. Ela via isso na cor de sua alma.
Ainda assim, estava ali.
“Garoto”, disse Eliandris em tom calmo, “você não faz ideia da situação em que está, não é?”
Jonathan abriu a boca, mas ela continuou antes que ele pudesse responder.
“Venha conosco. Estamos indo embora de Corval. Esta vila estará condenada em breve.”
Não havia dureza na voz dela.
Por mais que não gostasse de Jonathan, ele ainda era apenas uma criança. Não merecia ser abandonado em uma vila tomada por gente perigosa, monstros e uma batalha capaz de derrubar prédios inteiros.
Jonathan hesitou.
A resposta não era o que esperava ouvir.
Eliandris não tentara intimidá-lo, não negara o dinheiro e nem sequer parecera irritada com sua acusação. Em vez disso, falava como se o problema dele fosse insignificante perto de algo muito maior.
“O que você quer dizer com a vila vai ser…”
Antes que pudesse terminar, os sons de luta vindos do outro lado de Corval mudaram.
Até então, as explosões haviam sido fortes, mas ainda pareciam parte de um combate distante. Um golpe aqui. Um estrondo ali. Energia se chocando contra energia em algum ponto que Jonathan preferia não imaginar.
Agora, porém, houve um silêncio curto e antinatural.
Então uma luz amarela, brilhante e cegante inundou a vila.
Ela atravessou as rachaduras das paredes, entrou pelo buraco do quarto destruído e tomou cada canto da sala. Jonathan instintivamente levou um braço aos olhos. Por uma fração de segundo, o mundo inteiro se resumiu àquela cor intensa.
O estrondo veio logo depois.
Não pareceu uma explosão comum.
Pareceu o céu desabando sobre Corval.
O impacto abalou o bordel inteiro. As vigas gemeram. Poeira caiu do teto, e pequenos pedaços de reboco se soltaram das paredes. A gaiola no centro da sala vibrou com força, suas barras emitindo um ruído metálico agudo. Agatha gritou e se agarrou a Erina, enquanto Archibald quase perdeu o controle do pergaminho.
Jonathan foi jogado para o lado e precisou apoiar uma mão no chão para não cair.
Por alguns instantes, ninguém falou.
Todos apenas olharam na direção da origem daquele clarão.
Os sons de batalha já eram poderosos o bastante para assustar qualquer pessoa. Aquilo, entretanto, ultrapassava tudo o que Jonathan conhecia. Não era o tipo de força que derrubava uma casa ou destruía uma rua.
Era algo capaz de apagar uma parte inteira da vila.
Quando a luz enfraqueceu, uma coluna de fumaça e poeira subia no horizonte.
Jonathan encarou aquela direção, e seu rosto perdeu a cor.
“I-isso foi na direção da minha casa.”
A voz dele quase não saiu.
Ele conhecia as ruas de Corval bem o bastante para saber onde ficava cada telhado, cada esquina e cada caminho que levava de volta para casa. A luta já acontecia nas proximidades da residência de Balthazar.
Mas aquela explosão não deixara apenas uma rua destruída.
Ela havia evaporado metade da vila.
Onde antes existiam construções, famílias e caminhos conhecidos, restara uma cratera colossal escondida sob fumaça e fogo.
Jonathan caiu de joelhos.
Sua mente se recusava a aceitar o que os olhos mostravam, dali do primeiro andar, era possível ver com clareza o vastidão da cratera. Não conseguia imaginar alguém sobrevivendo no centro de algo assim. A chance de qualquer pessoa apanhada pela explosão sair viva era inexistente.
Seu pai estava naquela direção.
Sua casa estava naquela direção.
E, pela primeira vez desde que decidira cobrar Eliandris, o dinheiro deixou de significar qualquer coisa.
Jonathan permaneceu imóvel, com o olhar incrédulo e vazio fixado na devastação distante.
No canto da sala, depois da explosão, Oliver abriu os olhos.