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CAPÍTULO 67 – A HERANÇA

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CAPÍTULO 67 – A HERANÇA

Oliver viveu cada lembrança que Orson decidira lhe mostrar.

Não como alguém que observava uma história distante, protegido pela separação confortável entre o passado de outra pessoa e o próprio presente.

Ele sentira o frio das torres de Osteria.

Sentira o entusiasmo de Orson ao descobrir algo novo sobre a alma. A solidão do laboratório antes de conhecer Grace. O alívio silencioso que a presença dela trazia aos seus dias. Também sentira o horror, a culpa e o desespero que vieram depois.

Por um tempo impossível de medir, Oliver não fora apenas Oliver.

Fora o jovem necromante que acreditava poder entender a morte.

Fora o marido que viu a própria esposa morrer.

Fora o homem que se recusou a deixá-la partir.

Quando abriu os olhos, uma única palavra escapou de seus lábios.

“Grace…”

A voz saiu tão baixa que quase se perdeu entre os ruídos ao redor.

Oliver permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando o teto do quarto de Erina sem realmente enxergá-lo. Seu corpo estava deitado no sofá, mas sua mente ainda parecia presa em algum lugar entre os últimos momentos de Orson e a dor contida nas memórias que recebera.

Então percebeu onde estava.

O quarto era uma bagunça sem tamanho.

Parte da parede havia desaparecido, destruída durante o confronto anterior. Pedaços de madeira, reboco e objetos quebrados estavam espalhados pelo chão. Havia pessoas demais no aposento, todas exaustas, feridas ou preocupadas demais para falar alto. Uma fina camada de poeira ainda pairava no ar, iluminada pela pouca luz que entrava pela abertura na parede.

Foi nesse instante que Oliver sentiu a explosão.

Não a viu.

Sentiu-a.

O impacto atravessou o chão, subiu pelas pernas do sofá e atingiu seu peito como uma onda pesada. As vigas do bordel gemeram. A poeira caiu do teto. Em algum lugar da vila, algo enorme desabara com um estrondo tão forte que por um breve momento ninguém no quarto conseguiu fingir que aquilo era apenas parte de uma luta distante.

Corval inteira havia tremido.

Antes que Oliver pudesse se sentar direito, braços o envolveram num abraço apertado.

“Filho… você está bem? O que aquele velho fez com você?”

Eliandris o segurava com cuidado, mas a preocupação em sua voz era impossível de esconder. O rosto dela estava pálido por causa dos ferimentos e da exaustão, porém seus olhos permaneciam atentos a cada reação dele.

Oliver piscou algumas vezes.

Seu olhar parecia vazio.

Os lábios estavam secos, a pele sem cor e os ombros pesados, como se ele tivesse passado dias sem dormir. Havia algo apático em sua expressão, uma tristeza silenciosa que não combinava com alguém da idade dele.

“Eu estou bem…” respondeu baixinho.

A frase saiu quase como um sussurro.

Eliandris se afastou só o bastante para encará-lo.

“Tem certeza?”

Oliver não respondeu de imediato.

Seu olhar percorreu o quarto outra vez. Passou por Erina, que ainda mantinha Agatha próxima de si. Passou por Jonathan, ajoelhado perto da abertura destruída na parede, incapaz de tirar os olhos da fumaça que subia ao longe. Passou por Archibald, curvado sobre um pergaminho e murmurando palavras em uma língua desconhecida.

Então encontrou aquilo que procurava.

A gaiola repousava no chão.

Era feita de um metal negro e raro, escuro demais para refletir a luz comum. As barras eram finas e firmes, cobertas por inscrições antigas que pareciam quase apagadas. A alça no alto da estrutura estava dobrada contra o metal, e pequenas pontas se projetavam nas junções, claramente não era uma gaiola comum.

Ao lado dela havia um anel de prata.

Ninguém havia tocado nos dois itens.

Archibald e Erina tinham sido os únicos a ouvir Orson dizer que ambos eram destinados a Oliver. Ainda assim, nenhum dos dois considerara necessário anunciar aquilo em meio ao caos. Havia coisas mais urgentes acontecendo. Ferimentos para tratar. Uma vila destruída. Uma rota de fuga que precisava ser aberta antes que os inimigos voltassem.

Oliver se levantou devagar.

As pernas vacilaram por um instante, mas ele recuperou o equilíbrio antes que Eliandris precisasse ajudá-lo. Caminhou até a gaiola sem dizer nada, como se alguma força invisível o puxasse para lá.

No momento em que seus dedos tocaram o metal negro, ele parou.

Uma sensação estranha percorreu seu corpo.

Não era dor ou medo.

Era reconhecimento.

Sua alma se agitou no peito, respondendo à presença da gaiola com uma familiaridade que ele não sabia explicar. Por um breve instante, Oliver teve a impressão de que o objeto o observava. Não com olhos ou pensamento, mas através de algo muito mais profundo, como uma ferramenta antiga que finalmente encontrara a pessoa a quem deveria obedecer.

As inscrições apagadas nas barras brilharam fracamente.

Então a sensação desapareceu.

Oliver fechou a mão sobre a alça.

“Ela me reconheceu…” murmurou.

Eliandris ouviu, mas não insistiu em uma explicação que ele claramente não conseguiria dar.

Oliver pegou o anel de prata em seguida.

O metal era frio, simples e sem pedras preciosas. Ele o colocou no dedo, mas o anel era grande demais para sua mão. Bastou um pequeno movimento para que escorregasse até a ponta do dedo.

Com cuidado, Oliver o retirou e o guardou no bolso do manto.

Orson tinha usado um cinto para prender a Gaiola de Almas junto ao corpo. Oliver não possuía nada parecido. Por isso, carregou a gaiola pela alça e voltou para o sofá onde estivera deitado.

Ela parecia pesada.

Mas não tão pesada quanto deveria.

Eliandris continuava a observá-lo atentamente.

“Filho”, ela disse, em voz baixa. “Tem certeza de que está bem? Quem é Grace?”

Oliver olhou para a mãe.

Por um instante, a tristeza em seu rosto se aprofundou. Ele se lembrou de Grace sorrindo no laboratório. Lembrou-se do jeito como ela organizava os frascos, das perguntas que fazia e da paciência que tinha com Orson quando ele se perdia por horas nos próprios estudos.

Também se lembrou do momento em que ela morreu.

Oliver apertou os dedos ao redor da alça da gaiola.

Depois sorriu levemente.

“Não se preocupe comigo, mãe. Eu realmente estou bem.” Sua voz ainda parecia cansada, mas havia mais firmeza nela. “Mas acho que precisamos sair daqui. Como vamos fazer isso?”

Eliandris respirou fundo, prestes a responder.

Não teve tempo.

No outro lado do quarto, Archibald concluiu a leitura do pergaminho.

As últimas palavras do encantamento saíram rápidas, carregadas de urgência. Em seguida, inúmeras runas gravadas no papel se acenderam ao mesmo tempo. A luz ciano se espalhou por seus dedos, desceu até o assoalho e avançou em linhas finas pelo quarto.

Uma claridade intensa tomou o aposento inteiro.

Por um instante, foi tão forte que todos precisaram fechar os olhos ou proteger o rosto. O brilho atravessou a abertura na parede destruída e se projetou para fora do bordel, visível de longe no meio do dia tomado por fumaça.

Jonathan ergueu a cabeça, assustado.

Erina puxou Agatha para mais perto.

Oliver apertou a gaiola contra o corpo.

Quando a luz finalmente diminuiu, Archibald abaixou o pergaminho. O homem de meia idade estava suando e respirava com dificuldade, mas um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto.

“Consegui, consegui”, declarou, incapaz de esconder a alegria. “Está quase pronto!”

Todos voltaram a atenção para ele.

Mas, pouco depois, outro som começou a se misturar ao silêncio nervoso do quarto.

Passos lentos e regulares vinham do assoalho.

O estranho era que, onde os passos soavam, não havia ninguém.