CAPÍTULO 68 – A ADIVINHAÇÃO
CAPÍTULO 68 – A ADIVINHAÇÃO
Os passos continuaram soando sobre o assoalho.
Lentos, regulares e próximos.
Cada ruído parecia surgir de um ponto diferente da sala, como se alguém circulasse entre os destroços sem que ninguém pudesse vê-lo. O silêncio que tomou o aposento foi pesado. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo no centro da explosão que abalara Corval, mas a comoção, os combates e a barreira que agora cercava a vila deixavam uma coisa clara.
Precisavam sair dali o mais rápido possível.
Archibald segurou o cajado com uma das mãos e assumiu uma posição defensiva. O pergaminho que mantinha na outra ainda emitia um brilho ciano intenso, iluminando as paredes quebradas e os destroços espalhados pelo chão. As letras gravadas no papel se moviam de maneira sutil, como se estivessem vivas, saltando entre uma linha e outra enquanto o encantamento continuava ativo.
O homem de meia-idade não soltou o pergaminho em nenhum momento.
Mesmo assim, seu olhar varria a sala com atenção, pronto para reagir ao menor movimento.
Agatha e Erina se abaixaram atrás do sofá onde Oliver e Eliandris estavam sentados. Erina tentou manter Agatha protegida, embora suas próprias mãos tremessem. Agatha segurava o braço da cornídea com força, pálida demais para fazer perguntas ou reclamar da situação como teria feito pouco tempo antes.
Jonathan finalmente pareceu sair do estupor.
Ele se levantou devagar, olhou para a abertura destruída na parede e depois para Archibald. Ainda não entendia o que estava acontecendo, mas compreendia que permanecer sentado não o ajudaria em nada. Com passos inseguros, tomou posição ao lado do homem de meia-idade.
Os únicos que não demonstravam medo eram Oliver e Eliandris.
Ou, pelo menos, não do modo comum.
Eliandris mantinha a coluna reta apesar dos ferimentos e do cansaço. A mão permanecia perto da arma, enquanto seus olhos percorriam o quarto em busca da origem dos passos. Oliver continuava sentado ao lado dela, com a Gaiola de Almas apoiada junto ao corpo. Sua expressão parecia tranquila, quase vazia, mas a mente dele não havia parado de trabalhar desde que despertara das memórias de Orson.
Antes que qualquer um pudesse dizer algo, a fonte dos passos se revelou.
Uma silhueta surgiu perto da parede destruída.
O ar ao redor dela ondulou por um instante, como se uma camada transparente estivesse sendo removida. Em seguida, Grim voltou a ficar visível. O mercenário ainda usava as roupas escuras de antes, mas seu rosto tinha perdido toda a leveza habitual.
“Vocês não fazem ideia da merda que acabaram de fazer, fazem?”
A voz dele carregava fúria.
Mas havia algo ainda mais preocupante por trás dela.
Medo.
Eliandris e Jonathan, que haviam convivido mais tempo com Grim, ficaram surpresos. Ele era um mercenário perigoso, alguém que aceitava quase qualquer trabalho desde que a quantia oferecida fosse alta o bastante. Ainda assim, Grim costumava agir como se nada no mundo merecesse ser levado a sério. Sorria durante lutas, fazia piadas ruins diante de ameaças e escondia toda preocupação atrás de sarcasmo.
Vê-lo daquela maneira tornava a situação muito pior.
“O que quer dizer com isso?” perguntou Eliandris.
Grim apontou para o pergaminho nas mãos de Archibald.
“Essa merda de pergaminho. Droga, Eliandris, aquela luz podia ser vista de muito longe.” Ele passou uma mão pelos cabelos, irritado. “Seja lá o que vocês estejam fazendo, não temos muito tem-“
Ele não terminou a frase.
No instante seguinte, uma nova presença entrou no quarto.
O homem atravessou a abertura na parede parou sobre os escombros como se tivesse acabado de chegar a uma reunião comum.
Ele etava flutuando levemente, quando pousou no chão do quarto.
Uma das mãos estava posicionada atrás das costas. Sua postura era elegante demais para alguém que acabara de entrar em um bordel parcialmente destruído.
Ele possuía pele morena, cabelos negros e lisos que caíam até os ombros e olhos azuis. Vestia um robe branco de mago, adornado com detalhes dourados que pareciam limpos apesar da poeira e da fumaça que cobriam Corval. Em uma das mãos, carregava um cajado longo. Uma gema verde estava incrustada na ponta, irradiando uma luz fraca e constante.
“Interessante”, disse ele, observando cada pessoa dentro da sala. “De fato, um grupo interessante.”
A mão que estivera escondida atrás de suas costas subiu até o queixo.
Ele não demonstrava pressa.
Nem preocupação.
Parecia apenas curioso.
Grim sentiu o suor frio escorrer pelas costas.
Mais cedo, ele havia visto o homem chamado Elias seguir em uma direção diferente quando deixaram o bordel. Por alguns instantes, acreditara que tinham conseguido despistá-lo. Porém, a ativação do pergaminho mudara tudo. O clarão ciano atravessara a parede destruída e se espalhara pelo dia como um sinal. Qualquer pessoa nas proximidades poderia tê-lo percebido.
Elias, evidentemente, percebera.
Oliver e Eliandris também ficaram tensos.
Eliandris era uma elfa da alma veterana. Seus instintos eram mais aguçados do que os de um humano comum, e sua experiência lhe permitia reconhecer certos perigos antes mesmo que eles se revelassem por completo. O homem à sua frente possuía uma presença que a fazia querer atacar primeiro e perguntar depois.
Era como encarar uma lâmina escondida sob um tecido fino.
Oliver, por sua vez, não precisava apenas confiar na intuição.
Ele havia visto as memórias de Orson.
Vira Elias em Osteria, ouvira seu nome e sentira, através dos olhos do velho necromante, a ameaça que aquele homem representava. Seu humor, que já não estava bom depois das lembranças recebidas, afundou ainda mais.
Pensamentos surgiam um após o outro.
Fugir pela parede destruída não seria possível. Levar Erina e Agatha diminuiria a velocidade do grupo.
E, acima de tudo, ele não podia permitir que Elias percebesse o quanto sabia sobre ele.
Archibald notou a reação de Oliver, Eliandris e Grim.
O velho não conhecia Elias, mas conhecia bem o suficiente a expressão de alguém que percebia estar diante de um inimigo muito acima de suas forças. Sem chamar atenção, aproximou-se de Erina e colocou o pergaminho em suas mãos.
As inscrições ciano iluminaram o rosto da jovem.
“Nos tire daqui”, sussurrou Archibald. “Vamos ganhar tempo. Você só precisa pensar no lugar mais distante daqui que conhece e recitar estas palavras.”
Ele apontou rapidamente para uma linha no centro do pergaminho.
Erina olhou para as letras vivas, nervosa.
“Eu… eu consigo fazer isso?”
“Consegue. Não deixe a mente se distrair.”
Ela respirou fundo e assentiu.
Agatha permaneceu atrás dela, tremendo em silêncio. O medo havia deixado claro que aquela situação estava além de qualquer coisa que ela pudesse compreender ou controlar.
Eliandris se levantou.
Mesmo ferida, assumiu uma postura de combate. Grim fez o mesmo ao lado oposto da sala, segurando as cimitarras com força. Archibald ergueu o cajado e começou a conjurar em voz baixa, acumulando mana ao redor da ponta de madeira.
Oliver seguiu o exemplo.
Ele colocou a Gaiola de Almas no chão, mantendo-a perto de um dos pés, e estendeu uma das mãos. A mana em seu interior se moveu lentamente, ainda instável depois das memórias que recebera, mas obediente.
Jonathan olhou para todos os lados.
Por alguns segundos, pareceu considerar voltar a se esconder atrás do sofá. Então viu Erina segurando o pergaminho, Agatha encolhida atrás dela e Oliver, alguém mais jovem do que ele, preparando-se para lutar.
Jonathan engoliu em seco.
Depois levantou as mãos e tentou imitar a postura de Archibald, embora não soubesse o que faria caso o combate realmente começasse.
Elias observou cada movimento.
Seu olhar passou por Grim, demorou-se em Eliandris e então analisou Archibald, Oliver e Jonathan. Ele parecia prestar atenção aos mínimos detalhes: a maneira como seguravam as armas, a direção dos pés, o fluxo de mana, o medo contido nos rostos de Erina e Agatha.
Apesar disso, não atacou.
“Uma magia de nível transcendente está contida nesse pergaminho”, comentou, em um tom quase admirado. “Mas não parece nada letal. Uma pena que já tenha sido ativado. Caso contrário, eu poderia levá-lo embora.”
Archibald apertou o cajado.
Elias inclinou levemente a cabeça.
“Mas uma coisa me intriga. Por que acham que sou seu inimigo? Não precisamos lutar.”
“Corta esse papo furado!” Eliandris gritou. “Eu consigo sentir sua intenção assassina de longe!”
Por um breve instante, o sorriso de Elias desapareceu.
Então ele soltou um pequeno suspiro e voltou a sorrir.
Dessa vez, porém, não havia gentileza alguma em sua expressão.
“Tsc. Malditos elfos da alma”, murmurou. “Vocês realmente acabam com toda a diversão.”
O olhar dele se fixou em Eliandris.
Depois se moveu para Oliver.
O garoto sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Elias o encarou por mais tempo do que deveria. Seus olhos azuis se estreitaram, e a curiosidade tranquila em seu rosto deu lugar a algo mais atento. Quase desconfiado.
Como se ele tivesse acabado de encontrar a peça que faltava em um quebra-cabeça.
“Você…” Elias começou, a voz mais baixa. “Você é o motivo da minha adivinhação não estar funcionando direito?”