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CAPÍTULO 69 – CÉU E TERRA

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CAPÍTULO 69 – CÉU E TERRA

A pressão dentro da sala mudou imediatamente.

Até aquele instante, todos haviam compreendido que o homem diante deles era perigoso. A maneira como Elias entrara sem demonstrar preocupação, o controle que possuía sobre a própria mana e o modo como observara cada um deles já deixavam isso claro.

Mas compreender uma ameaça e senti-la sobre o próprio corpo eram coisas muito diferentes.

O ar pareceu afundar.

Não houve grito, movimento brusco ou qualquer aviso. Elias apenas continuou olhando para Oliver, e a mana espalhada pela atmosfera respondeu à sua vontade. Era uma quantidade quase imperceptível, diluída em proporções microscópicas entre o ar, a poeira e a fumaça que invadiam a sala destruída.

Ainda assim, para alguém como ele, aquilo bastava.

Uma pressão avassaladora caiu sobre todos os presentes.

[MAGIA IRREGULAR DE 4º CICLO – GRAVIDADE AUMENTADA]

O assoalho estalou.

Archibald foi o primeiro a cair de joelhos. O cajado escapou parcialmente de sua mão e bateu contra a madeira, enquanto o homem tentava respirar sob o peso invisível que esmagava seus ombros. Jonathan desabou logo em seguida, com as duas mãos apoiadas no chão e os dentes cerrados.

Agatha soltou um grito curto ao ser forçada para baixo. Erina conseguiu segurá-la antes que ela batesse o rosto no chão, mas acabou ajoelhada ao seu lado. O pergaminho continuava emitindo sua luz ciano, porém suas inscrições tremeluziam de maneira instável.

Oliver sentiu os músculos gritarem.

Seus joelhos tocaram o assoalho, e uma de suas mãos foi imediatamente ao chão para impedi-lo de cair por completo. A Gaiola de Almas, ao seu lado, pareceu pesar várias vezes mais do que antes. Ele tentou mover os dedos, tentando alcançar a mana dentro de si, mas até aquele gesto simples se tornou difícil.

Eliandris não se ajoelhou.

Seu corpo curvou-se sob a pressão, e a ponta de sua rapieira desceu até quase tocar o chão, mas a elfa cravou os pés entre os destroços e permaneceu de pé. Veias saltaram em seu pescoço, e sua respiração se tornou pesada.

Grim também resistiu.

Ao contrário de Eliandris, porém, o mercenário parecia lidar com a magia com mais facilidade. Seus joelhos dobraram apenas alguns centímetros antes que ele firmasse a postura. A expressão brincalhona tinha desaparecido por completo de seu rosto.

Os olhos de Elias se encheram de fúria.

Ele não desviou o olhar de Oliver nem por um segundo.

“Sim, sim… você é a raiz disso, mas como exatamente pode estar interferindo na MINHA magia? Isso não faz sentido algum…”

Elias falou em tom calmo, mas o ódio contido em cada palavra era impossível de ignorar. Então começou a caminhar na direção de Oliver, pisando entre os escombros como se a gravidade aumentada não afetasse a ele próprio.

Grim se colocou em seu caminho no mesmo instante.

Uma aura intensa explodiu de seu corpo.

O ar da sala ondulou sob a presença do artista marcial. Uma cor amarelada, pura e vibrante, espalhou-se pela pele de Grim e envolveu seus braços, pernas e torso. Por um breve momento, aquela energia pareceu disputar espaço com a mana de Elias e suprimiu parte da pressão que esmagava os demais.

Oliver conseguiu erguer um pouco a cabeça.

Grim levou a mão até o objeto preso às próprias roupas. O item ativou-se sem produzir ruído, e sua figura desapareceu diante de todos. Onde antes havia um homem envolto por uma aura amarelada, restou apenas o vazio.

Elias parou.

No instante seguinte, uma explosão de ar atravessou a sala.

Ninguém viu Grim se mover.

Ninguém viu o momento em que o golpe foi desferido.

Mesmo invisível, sua presença podia ser sentida na violência do ataque. Uma onda de choque comprimida surgiu do nada e avançou diretamente contra Elias. A força contida nela era monstruosa, densa o bastante para destruir uma parede de pedra sem perder velocidade.

Oliver prendeu a respiração.

O golpe atingiria Elias.

Então, uma barreira invisível surgiu diante do mago.

O impacto não foi bloqueado de forma comum. A onda de choque se chocou contra algo que ninguém conseguia enxergar e mudou de direção como se tivesse batido em um espelho inclinado. Ela atravessou a abertura da parede destruída e desapareceu.

[MAGIA IRREGULAR DE 5º CICLO – ESCUDO REFLETOR]

Um estrondo assustador soou do lado de fora.

Depois outro.

E mais outro.

O golpe desviado atravessou as casas próximas como uma força da natureza. Telhados foram arrancados, paredes desmoronaram e pedaços de madeira e pedra voaram pela rua. Gritos distantes se misturaram ao som da destruição.

Dentro da sala, Elias nem sequer havia se movido.

Ele continuava em pé, com uma das mãos apoiada no cajado e uma expressão quase entediada no rosto.

Então seus olhos mudaram.

O azul intenso de suas íris desapareceu aos poucos, dando lugar a uma profundidade impossível. Era como se pequenas estrelas tivessem surgido dentro de seus olhos, brilhando em meio a uma escuridão infinita.

Oliver sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Por um segundo, teve a sensação absurda de que Elias não estava apenas olhando para a sala.

Ele parecia olhar para tudo.

[MAGIA IRREGULAR DE 6º CICLO – VISÃO VERDADEIRA]

“Encontrei você.”

Elias virou o rosto e encarou exatamente um ponto vazio perto da parede lateral.

Grim estava lá.

O mercenário não havia feito qualquer som desde que seu ataque fora refletido. Seu item ainda o mantinha invisível, e até sua aura havia sido reduzida ao mínimo. No entanto, nada disso pareceu importar diante do feitiço de Elias.

Pela primeira vez desde que aparecera, Grim pareceu hesitar.

Elias ergueu o cajado.

A gema verde na ponta brilhou com força. Acima dela, uma pequena esfera branca se formou, imóvel e silenciosa. A esfera começou a se alongar, e sete pontas surgiram de seu centro, uma após a outra, até formar uma estrela branca e perfeita, com 7 pontas.

Ela não era grande.

Mas a mana reunida em seu interior fez o ar vibrar.

Elias apontou o cajado na direção de Grim.

A estrela de sete pontas desapareceu.

Um raio branco, fino como uma agulha, cruzou a sala em um instante e perfurou o peito do mercenário.

[MAGIA IRREGULAR DE 6º CICLO – ESTRELA DA ALVORADA]

O item de invisibilidade se desativou imediatamente.

Grim voltou a ficar visível, parado por uma fração de segundo com os olhos arregalados. Uma pequena abertura fumegante marcava seu peito. Em seguida, a força deixou suas pernas.

Ele caiu de joelhos.

Sangue escapou de sua boca e se espalhou pelo assoalho. A aura amarelada em torno de seu corpo vacilou, enfraqueceu e se apagou. A luz nos olhos do mercenário parecia desaparecer junto com ela.

“V-você…”

Grim tentou falar, mas sua voz saiu fraca e quebrada.

Elias sorriu levemente.

“Pensou que tinha alguma chance?” perguntou ele. “Você pode até achar que a diferença de um Rank é superável, mas isso não é verdade. A diferença entre o Rank 5 e o 6 já é assustadora. E a diferença entre o Rank 6 e o 7…”

Ele fez uma breve pausa, observando Grim como se estivesse oferecendo uma lição a alguém incapaz de compreendê-la.

“Essa é como a diferença entre o céu e a terra.”

Oliver encarava a cena de longe, incapaz de acreditar no que acabara de acontecer.

Ele tinha visto Grim matar um Lobo Marca Dourada sem dificuldade. O mercenário havia acabado com uma criatura de Rank 2 com um único golpe, como se a besta não passasse de um leve incômodo.

Ainda assim, agora estava de joelhos diante de Elias.

Ferido.

Derrotado em poucos segundos.

Oliver sentiu o estômago se revirar, mas o que mais o abalava não era apenas a força do mago.

Toda a troca entre Elias e Grim não devia ter durado mais do que 5 segundos. Nesse curto período, Elias tinha usado três magias poderosas, de ciclos diferentes, sem cantar um único encantamento ou realizar um gesto de conjuração.

Oliver não conseguia entender como aquilo era possível.

“Magia irregular…” murmurou, ainda ajoelhado enquanto lutava contra a pressão da gravidade.

Elias inclinou a cabeça, como se tivesse ouvido o comentário.

“Isso vai acabar em breve.”

Ele voltou a caminhar em direção a Oliver.

Passou por Grim sem lhe conceder outro olhar. O mercenário tentou se mover, mas seu braço tremeu e caiu de volta contra o chão. Archibald ainda permanecia ajoelhado perto de Erina, incapaz de ajudá-los. Jonathan tinha o rosto pressionado contra o assoalho, enquanto Agatha e Erina estavam esparramadas pelo chão, incapazes de resistir.

Não havia ninguém que pudesse impedir Elias.

Exceto Eliandris.

A elfa deu um passo à frente.

O movimento pareceu arrancar dela toda a força que ainda possuía. Seus músculos tremiam sob a gravidade aumentada, e sangue escorria de um ferimento em seu braço. Mesmo assim, ela se colocou entre Elias e Oliver.

Com a mão firme, Eliandris ergueu a rapieira e apontou a lâmina para a garganta do mago.

“Você não vai encostar um dedo no meu filho!” Ela rugiu, seus olhos cheios de uma fúria feroz. “Só sob o meu cadáver.”