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CAPÍTULO 71 – O PLANO DE ELIAS

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CAPÍTULO 71 – O PLANO DE ELIAS

Elias ficou diante de Oliver.

O garoto mal conseguia erguer a cabeça.

A pressão de [Gravidade Aumentada] mantinha seu corpo ajoelhado entre os escombros. Seus braços tremiam enquanto tentava sustentar parte do próprio peso, e seus joelhos doíam contra o assoalho quebrado.

Mesmo assim, Oliver não olhava para Elias.

Seus olhos estavam fixos em Eliandris.

Sua mãe permanecia caída alguns metros adiante, imóvel desde que o raio de [Estrela da Alvorada] atravessara suas costas. Sangue se espalhava lentamente sob seu corpo, tingindo de vermelho a madeira destruída.

O medo apertou o peito de Oliver.

Então ele viu a alma dela.

As cores ao redor de Eliandris estavam fracas e instáveis, mas ainda existiam. Isso significava que ela estava viva. Seu corpo podia estar imóvel, e sua respiração podia ser fraca demais para ser ouvida àquela distância, mas sua alma ainda não havia desaparecido.

Porém, o brilho diminuía a cada instante.

As cores se tornavam mais opacas, como se uma névoa escura as cobrisse pouco a pouco. Oliver não precisava entender de medicina para perceber o que aquilo significava.

Eliandris estava morrendo.

Ele desviou o olhar para Grim.

O homem também permanecia caído, sem forças para se mover. A ferida em seu peito ainda liberava sangue, e as cores de sua alma enfraqueciam da mesma forma.

Grim estava morrendo também.

Os dois haviam sido atingidos por uma magia de 6º Ciclo, [Estrela da Alvorada]. Só continuavam vivos porque possuíam corpos muito mais resistentes que os de pessoas comuns. Era o esperado de artistas marciais poderosos.

Mas até mesmo eles tinham limites.

Oliver cerrou os dentes.

Ele precisava fazer alguma coisa. Precisava alcançar sua mãe, curá-la ou ao menos afastá-la daquele homem.

Mas nem conseguia se levantar.

No início, quando a [Gravidade Aumentada] havia coberto a sala, Grim e Eliandris ainda conseguiram resistir e lutar de volta. Mesmo sob a pressão esmagadora, seus corpos haviam permanecido firmes por algum tempo.

Agora, depois dos ferimentos causados por Elias, não havia mais resistência.

As outras pessoas presentes também não estavam em uma situação melhor.

Agatha estava completamente pressionada contra o chão. Sua bochecha tocava o assoalho, e ela tentava mover os dedos, mas nem isso parecia possível. A expressão em seu rosto era de desespero.

Jonathan e Archibald ainda tentavam resistir.

Os dois estavam de joelhos, com os braços estendidos contra o chão e os músculos tensos pelo esforço. As veias em suas testas saltavam enquanto buscavam se erguer, mas era inútil. Sempre que conseguiam levantar o corpo alguns centímetros, a pressão os obrigava a baixar novamente.

Erina também estava caída entre os destroços.

Ao vê-la, Oliver sentiu o coração afundar.

Ela era responsável por recitar o encantamento do pergaminho mágico e abrir um caminho para fora daquele lugar. Era a única chance que tinham de escapar de Elias.

Infelizmente, [Gravidade Aumentada] havia esmagado o corpo frágil da cornídea contra o chão antes que ela pudesse terminar qualquer coisa. Erina havia caído de joelhos e, pouco depois, sido pressionada por completo contra o assoalho.

O pergaminho mágico havia escapado de suas mãos.

Ele permanecia aberto a alguns metros dela, preso entre pedaços de madeira quebrada. As letras escritas em sua superfície ainda emanavam uma luz ciano suave, mas estavam longe demais.

Erina tentou alcançar o pergaminho.

Sua mão avançou poucos centímetros antes de tremer e cair novamente no chão.

Sem conseguir ler o encantamento inscrito ali, ela não poderia ativá-lo.

Não havia como fugir.

Oliver voltou a encarar Elias.

O mago o observava com um sorriso tranquilo, como se toda aquela situação fosse apenas o resultado natural de um plano bem executado.

Mas havia algo estranho.

Oliver percebeu que a pressão ao redor de seu corpo era menor.

Ainda era difícil respirar. Seus ossos pareciam pesados, e cada movimento exigia uma força absurda. No entanto, ele conseguia permanecer ajoelhado, enquanto Agatha e Erina estavam completamente esmagadas contra o chão.

Ele chegou a tentar se erguer outra vez.

Seus braços tremeram.

Pouco a pouco, Oliver levantou o tronco alguns centímetros.

Elias não o impediu.

Pelo contrário, parecia que a magia ao redor dele enfraquecia de propósito.

Oliver entendeu.

Elias estava tomando cuidado para não machucá-lo.

Aquilo não lhe trouxe alívio.

Trouxe um medo ainda maior.

Elias caminhou até ele.

Seus passos foram lentos e silenciosos. O cajado batia levemente no chão a cada movimento, e a gema verde em sua ponta refletia a luz que entrava pelas paredes destruídas.

Quando parou diante de Oliver, o mago se abaixou.

Sua mão segurou uma mecha do cabelo do garoto.

Oliver arregalou os olhos.

“O que você…”

Elias puxou.

“Ah!”

Um punhado de cabelos foi arrancado brutalmente de sua cabeça. Oliver gemeu de dor e levou uma das mãos ao local, mas não conseguiu proteger o ferimento.

Elias fechou os dedos ao redor dos fios roxos.

Então se ajoelhou diante dele e sentou-se na posição de lótus.

Ficaram frente a frente.

O sorriso de Elias se alargou.

“Vou descobrir o motivo”, disse ele. “Por que você parece ser especial? Vou descobrir agora.”

Oliver sentiu um arrepio percorrer sua coluna.

Não sabia exatamente o que o mago pretendia fazer, mas reconhecia a intenção em sua alma. Havia branco, a cor de uma concentração absoluta, misturado a tons amarelos de diversão. Para Elias, era tudo uma brincadeira.

Elias era especial entre os magos.

Alcançar o 6º Ciclo já era uma realização rara. Um mago de seu calibre possuía mana verde, magias poderosas e uma compreensão muito superior à de quase todos os praticantes do reino.

Ainda assim, sua verdadeira especialidade não era comum nem mesmo entre aqueles que chegavam tão longe.

Elias pertencia ao Colégio da Adivinhação.

Magos daquele colégio eram conhecidos por sua astúcia.

Sua especialidade não consistia em destruir inimigos com magias grandiosas ou enfrentar artistas marciais em batalhas prolongadas. Eles coletavam informações, interpretavam sinais e enxergavam caminhos que permaneciam ocultos para os outros.

Por isso, um mago da adivinhação raramente entrava em combate sem ter certeza de que poderia vencer.

Elias não era diferente.

Para realizar uma adivinhação sobre alguém, era necessário possuir informações sobre o alvo. Quanto mais detalhes o mago conhecesse, maior seria a chance de obter uma resposta precisa. Um nome, uma aparência, hábitos, vínculos e, principalmente, objetos pessoais podiam tornar o processo muito mais fácil.

Era assim que Elias havia rastreado Orson.

Ele conhecia bem o necromante. Sabia de suas pesquisas, de seus métodos e das pessoas com quem ele lidava. Além disso, possuía os manuscritos que Orson entregara à coroa como resultados de suas investigações.

Com aqueles documentos, encontrar seus rastros depois da fuga não havia sido difícil.

Elias também descobrira que Orson escondia parte de sua pesquisa.

No começo, tudo correra bem.

Sua adivinhação lhe permitia saber onde o necromante estivera e quais passos ele dava. Entretanto, repentinamente, as tentativas de localizar Orson começaram a sofrer interferências. Tornou-se muito mais difícil descobrir sua situação ou prever seus movimentos.

Orson havia encontrado, por sorte ou destino, uma forma de resistir às buscas.

Mas Elias ainda sabia o bastante.

Se Elias tinha conseguido localizar Orson durante tanto tempo, por que não o matara antes?

A resposta era simples.

O objetivo nunca tinha sido matar Orson.

Elias queria a pesquisa do necromante.

Não havia anotações completas em nenhum lugar. Os manuscritos entregues à coroa mostravam apenas resultados parciais e informações que Orson aceitava revelar. O verdadeiro conhecimento, os segredos e os métodos mais importantes continuavam guardados apenas na memória do necromante.

Vasculhar memórias era possível para qualquer mago, desde que se soubesse o feitiço equivalente.

Mas vasculhar as memórias de um necromante especializado em almas era outra questão.

Mesmo sendo mais poderoso, Elias não possuía confiança de que conseguiria concluir o processo. Orson entenderia o que estava acontecendo e poderia destruir a própria alma antes que a busca terminasse.

Memórias estavam ligadas à alma.

E ninguém conhecia melhor os riscos de mexer com uma alma do que um necromante de almas.

Por isso, Elias havia esperado.

Esperado que Orson encontrasse um discípulo.

Esperado que transmitisse seus conhecimentos a alguém mais fraco, alguém incapaz de resistir a uma invasão de memória feita por um mago de 6º Ciclo.

Oliver sentiu o estômago se revirar.

Ele era o discípulo.

Elias não os encontrara por acaso.

Tudo o que acontecera desde o início talvez tivesse sido parte daquele plano.

“Você não entende, não é?” Elias perguntou, ao perceber a expressão do garoto.

Ele segurou os fios de cabelo de Oliver entre os dedos e fechou os olhos.

“Orson era cauteloso demais. Sua mente era uma fortaleza, e sua alma, uma armadilha. Mas ele cometeu um erro ao passar o conhecimento adiante.”

Oliver tentou recuar.

A gravidade ao redor dele aumentou um pouco, impedindo qualquer movimento.

“Não…”

“Fique quieto”, Elias respondeu, sem abrir os olhos. “Não quero danificar suas memórias antes de encontrar o que procuro.”

Mana verde começou a se espalhar pelo corpo do mago.

Ela não explodiu como uma chama nem se concentrou em uma magia destrutiva. Movia-se de maneira lenta e silenciosa, formando fios finos que se erguiam no ar entre os dois.

Os fios se aproximaram da testa de Oliver.

O garoto prendeu a respiração.

Elias iria vasculhar sua alma.

Em busca das memórias.

Em busca da pesquisa que Orson havia deixado.