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CAPÍTULO 72 – REVELAR O OCULTO

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CAPÍTULO 72 – REVELAR O OCULTO

Os fios de mana verde pararam a poucos centímetros da testa de Oliver.

Elias mantinha os olhos fechados.

Sua respiração era calma, mas sua mente trabalhava sem descanso. Para um mago da adivinhação, cada detalhe possuía valor. Os cabelos que segurava entre os dedos carregavam vestígios de Oliver. Aquele pequeno fragmento de seu corpo era uma ligação direta com o garoto.

Era o bastante para começar.

Elias ergueu uma das mãos.

[Habilidade de Assinatura – Revelar o Oculto]

As palavras não foram ditas em voz alta, mas ainda assim ecoaram em sua mente.

Por um instante, nada aconteceu.

Então, as cores do mundo desapareceram.

Elias deixou de enxergar a sala destruída, as pessoas esmagadas pela gravidade e o garoto ajoelhado à sua frente. Tudo foi substituído por uma escuridão profunda, atravessada por incontáveis fios de luz.

Cada fio continha uma possibilidade.

Alguns eram fracos e se desfaziam antes que ele pudesse tocá-los. Outros levavam a memórias sem importância: Oliver correndo pelas ruas de Corval, conversando com Erina, treinando com Orson ou passando noites inteiras estudando para as aulas de Archibald.

Elias ignorou aqueles caminhos.

Ele não procurava pelas memórias de Oliver.

Procurava pela verdade escondida entre elas.

[Revelar o Oculto] era a habilidade que tornara Elias um dos maiores magos do Colégio da Adivinhação. Magias comuns podiam observar o passado e rastrear pessoas, mas sempre existiam lacunas. Informações ocultas, proteções mágicas e mentiras bem construídas podiam desviar uma adivinhação comum.

Sua habilidade de assinatura era diferente.

Ela reunia os vestígios dispersos de uma verdade e os conectava. Quanto mais pistas Elias possuísse, mais próximo chegaria da resposta que desejava.

Ele já tinha as peças.

Agora, bastava montar o quebra-cabeça.

Por que Oliver interferia, de alguma forma, em suas adivinhações?

Por que os rastros de Orson haviam desaparecido durante um período?

Oliver era o motivo de o necromante ter sumido do mapa por tanto tempo?

E, acima de tudo, o que havia de especial naquele garoto?

Elias queria respostas para todas aquelas perguntas.

Sua mente convergiu com os vestígios da verdade.

Fios de luz começaram a se aproximar uns dos outros. Eles se cruzaram, se uniram e formaram imagens fragmentadas diante de seus olhos. Primeiro, Elias viu Orson caminhando pelas ruas de uma cidade desconhecida. Depois, o necromante surgiu dentro de uma casa simples, observando Oliver enquanto o garoto estudava ao lado de uma janela.

As cenas avançaram.

Ele viu as primeiras interações entre Oliver e Orson.

Orson era cuidadoso. Mesmo quando ensinava algo simples, sempre observava o garoto com atenção. Havia cautela em cada palavra do necromante, como se ele temesse que algo invisível estivesse ouvindo a conversa.

Elias seguiu os rastros das memórias e comparou as datas.

Sua expressão mudou.

O primeiro encontro entre Oliver e Orson correspondia exatamente ao período em que suas adivinhações sobre o necromante começaram a sofrer interferências.

Não era uma coincidência.

Oliver estava ligado ao problema.

Mas aquilo ainda não explicava a causa.

Elias aprofundou a habilidade.

As memórias recentes se afastaram. As imagens voltaram no tempo, atravessando os anos que Oliver passara em Corval. Elias o viu jogando Regnum com Erina, dormindo em quarto apertado com sua mãe, conversando e passeando por Corval.

Depois vieram os anos anteriores.

Oliver era menor a cada cena.

Uma criança magra que corria por becos sujos. Um garoto que voltava para casa carregando alimentos baratos.

Depois, ele era um bebê nos braços de Eliandris.

Elias continuou recuando.

Parecia que o nascimento do garoto era o ponto em que algo mudava.

Mas ele ainda não conseguia ver o motivo.

Então, voltou até o início.

No momento do nascimento de Oliver, a visão se estabilizou.

Elias se viu diante de um quarto pequeno e mofado.

As paredes eram cobertas por manchas escuras de umidade. Não havia móveis, armários ou qualquer sinal de conforto. O único objeto no local era uma cama de palha encostada em um canto.

Eliandris estava deitada sobre ela.

Seu rosto estava pálido, e o suor escorria por sua testa. Ela apertava os dentes para conter os gritos de dor, mas estava sozinha. Não havia parteira, curandeiro ou qualquer pessoa para ajudá-la.

Elias observou em silêncio.

O tempo parecia lento dentro daquela memória.

Após longos minutos, o choro de uma criança preencheu o quarto.

Oliver havia nascido.

Eliandris o segurou contra o peito com mãos trêmulas. Lágrimas escorreram pelo rosto dela enquanto olhava para o filho, mas Elias não prestou atenção àquela cena.

Sua habilidade havia encontrado algo.

No instante em que a alma se fundiu ao corpo, dando origem a uma nova vida, uma pequena fissura se abriu na imagem diante dele.

Elias se aproximou.

Por meio daquela fissura, conseguiu vislumbrar a verdade.

Ele viu a alma de Oliver.

E o que encontrou o deixou horrorizado.

Havia diversas inscrições gravadas nela.

Runas mágicas cobriam a essência espiritual do garoto, formando padrões complexos demais para serem compreendidos em um único olhar. Algumas brilhavam em verde, outras possuíam uma luz escura e opaca. Elas não estavam apenas ligadas à alma de Oliver.

Faziam parte dela.

Era como se alguém tivesse manipulado sua própria existência antes mesmo de ele nascer.

“Isso…”

Elias perdeu o fôlego.

Aquilo deveria ser impossível.

Oliver era um recém-nascido naquela lembrança. Não possuía mana, conhecimento ou sequer consciência para realizar algo daquela natureza. Uma alma não podia ser marcada daquela forma sem que o processo destruísse a pessoa por completo.

No entanto, as runas estavam ali.

E ainda funcionavam.

Foi então que uma delas pulsou.

Uma luz verde atravessou a visão de Elias.

A cena do nascimento se despedaçou contra sua vontade.

O mago tentou se afastar, mas não conseguiu. Algo havia percebido sua presença do outro lado da adivinhação. Uma força muito maior que a sua agarrou sua consciência e a arrastou através da escuridão.

Os fios de luz se romperam.

Elias sentiu o mundo girar.

Quando conseguiu abrir os olhos, não estava mais diante de Oliver.

Ele se encontrava em um castelo negro.

Tochas presas em arandelas de ferro iluminavam um corredor amplo com uma luz verde e doentia. O chão de pedra era frio, e o ar carregava o cheiro de mofo, cinzas e algo metálico que Elias não queria reconhecer.

No fim do corredor havia um trono magnífico, feito de ossos.

Crânios de diversos humanoides enfeitavam seus braços e encosto. Entre eles, Elias também reconheceu restos de monstros e feras mágicas. Alguns possuíam chifres, presas enormes ou mandíbulas largas demais para pertencerem a qualquer criatura comum.

Sentado no trono, apoiando o rosto em uma das mãos, estava um elfo.

Ele era pálido e magro. Seus cabelos brancos e longos desciam sobre os ombros como fios de neve, enquanto seus olhos verdes permaneciam fixos em Elias. A luz do corredor tornava sua aparência ainda mais sinistra.

Elias sentiu o corpo tremer.

Ele estava ali.

Não era uma memória.

Não era uma ilusão criada por sua habilidade.

Cada som parecia real. Ele conseguia ouvir o crepitar das tochas, sentir o frio que subia do chão e perceber o cheiro sufocante daquele castelo. Elias baixou os olhos para as próprias mãos.

Elas tremiam sem controle.

Só então percebeu sua posição.

Ele estava ajoelhado diante do elfo.

“O que está acontecendo?” Elias murmurou, ainda incrédulo.

Sua voz saiu baixa e instável.

Ele tentou se levantar.

Não conseguiu.

Uma pressão invisível mantinha seus joelhos presos contra a pedra. Era diferente de seu feitiço [Gravidade Aumentada]. Não esmagava seu corpo nem exigia força física para resistir.

Ela dominava algo mais profundo.

Dominava sua própria alma.

O elfo sentado no trono finalmente falou.

“Tolo, não deveria tentar vislumbrar o que não foi feito para olhos humanos, nem se envolver em assuntos que ultrapassam muito a sua competência.”

A voz era calma.

Ainda assim, dominou todo o ambiente.

Elias sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

Ele queria responder. Queria perguntar quem era aquele elfo e o que ele tinha feito com Oliver. Porém, as palavras ficaram presas em sua garganta.

Pela primeira vez em muitos anos, Elias compreendeu que havia tocado em algo que não conseguia entender.

O elfo de cabelos brancos ergueu a mão.

Então apontou um dedo na direção de Elias.

[Magia de 9º Ciclo – Dedo da Morte]