CAPÍTULO 73 – LAMPEJO DE ESPERANÇA
CAPÍTULO 73 – LAMPEJO DE ESPERANÇA
Elias não havia tocado em Oliver.
Além de arrancar seus cabelos, nada mais aconteceu. Sua alma permanecia intacta, sem qualquer vestígio de invasão. Tudo o que Elias descobriu, tudo o que vira até aquele momento, viera por meio de sua habilidade de assinatura.
[Revelar o Oculto].
Elias estava sentado à frente de Oliver, na posição de lótus, os olhos fechados, o rosto imóvel em uma concentração absoluta. Mesmo assim, o feitiço [Gravidade Aumentada] nunca deixou de fazer efeito.
Todos ali continuavam pressionados contra o chão, mas isso mudou repentinamente.
Elias abriu os olhos.
E seus olhos explodiram.
Os dois globos oculares se romperam ao mesmo tempo, transformando-se em poças escuras que escorreram por seu rosto. Elias começou a gritar e se levantou. Um grito desesperado, agudo, que ecoou por toda a sala destruída.
O efeito da [Gravidade Aumentada] se desfez no mesmo instante.
Todos os orifícios da cabeça de Elias sangravam. Os olhos, o nariz, os ouvidos e até a boca. Ele não tinha mais olhos, apenas dois buracos vazios escorrendo sangue quente.
Elias se contorceu e caiu de joelhos, vomitando sangue sobre o próprio colo. Seu estado era deplorável, mas ele ainda estava vivo.
A pressão que mantinha todos presos ao chão desapareceu.
Archibald foi o primeiro a reagir.
Ele se lançou na direção do cajado, que estava a poucos passos dele, e o segurou com as duas mãos, já começando a conjurar. Jonathan seguiu o mesmo exemplo, levantando-se com dificuldade e erguendo seu próprio cajado.
Erina rastejou até o pergaminho caído.
Suas mãos tremiam enquanto o seguravam, mas ela começou a recitar as palavras escritas ali, sua voz falhando entre uma sílaba e outra. Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido com Elias, ninguém entendia a origem daquele horror repentino, mas nenhum deles cogitou deixar aquela chance escapar.
Oliver observava tudo com o coração disparado.
Ele olhou para Eliandris e Grim.
Os dois continuavam incapacitados, seus corpos imóveis entre os destroços. As cores de suas almas ficavam cada vez mais fracas, mais apagadas, como velas prestes a se extinguir. Oliver sentiu um aperto no peito ao perceber o quão pouco tempo ainda restava para eles.
Não havia tempo a perder.
Agatha foi a única que não hesitou.
Aproveitando a confusão, ela se levantou, correu até a porta e desapareceu por ela, afastando-se do conflito sem olhar para trás.
“AAAAAAAA, desgraçado!”
Elias ainda se contorcia de dor, sua voz rouca de tanto gritar. Ele havia sido vítima de uma magia de 9º Ciclo, mas nem mesmo magias daquele nível eram onipotentes. A distância extrema entre o conjurador e o alvo o havia salvado, ao custo de ferimentos terríveis. Ele havia sobrevivido, mas de forma alguma havia saído ileso.
A dor lancinante dominava cada pensamento em sua mente.
Ele estava cego.
Mesmo assim, ainda conseguia raciocinar, ainda conseguia se perguntar quem havia feito aquilo.
“O Imperador da Morte…” Elias gemeu entre uma convulsão e outra, sua voz mal saindo de sua garganta ensanguentada. “O Imperador da Morte… só pode ser ele.”
Cada palavra parecia arrancada à força de seus pulmões.
[Magia de 1º Ciclo – Mísseis Mágicos]
[Magia de 3º Ciclo – Morte por Congelamento]
Jonathan e Archibald atacaram ao mesmo tempo, sem hesitar.
Incrivelmente, mesmo cego, Elias ergueu um [Escudo de Força] diante de si a tempo de bloquear os mísseis mágicos de Jonathan. As pequenas esferas de energia se chocaram contra a barreira translúcida e se dissiparam sem causar dano algum.
Mas a [MORTE POR CONGELAMENTO] não teve o mesmo destino.
Elias sentiu o ar gelado invadir seus pulmões, um frio que parecia se espalhar por dentro de seus ossos. Seus movimentos começaram a ficar mais lentos, suas articulações enrijecendo a cada segundo.
Então ele fez algo.
[Magia de 4º Ciclo – Fornalha]
A maior arma dos magos sempre fora sua versatilidade, e Elias parecia sempre ter a magia certa para o momento certo. A temperatura da sala subiu de forma abrupta, o calor brotando do próprio corpo de Elias como se ele tivesse se tornado uma fornalha viva, combatendo diretamente o frio da magia de Archibald.
Foi então que Oliver se levantou.
Ele suspirou, encarando a cena à sua frente.
“Mestre, segure ele por alguns segundos…”
“Oliver, o que você está dizen-” Archibald tentou completar a frase, mas ao olhar nos olhos de seu aluno, um arrepio percorreu sua espinha inteira.
Havia algo diferente ali.
Uma determinação que ele nunca vira antes.
“Confie em mim.”
Archibald apenas assentiu. Ele não compreendia o motivo, não sabia o que Oliver pretendia fazer, mas o garoto parecia absolutamente confiante. Diante daquilo, decidiu confiar em seu aluno.
Elias, Archibald e Jonathan se envolveram em um combate direto.
Infelizmente, Jonathan precisou recuar pouco depois. Seu reservatório de mana era baixo demais para sustentar um confronto daquela intensidade, e ele simplesmente não tinha condições de continuar lutando por muito tempo.
Mesmo cego, Elias ainda conseguia reagir bem.
Seu sentido mais importante havia deixado de existir, e ainda assim ele lutava como se pudesse enxergar cada movimento de seus oponentes. Era uma situação desesperadora para Archibald.
Infelizmente para Elias, seu próprio fluxo de mana parecia errado, distorcido, e seus músculos pareciam doer a cada movimento que ele fazia.
Archibald observou veias negras se espalhando pelo rosto de Elias, subindo por seu pescoço como raízes doentias sob a pele.
Oliver precisava virar o jogo.
Elias ainda lidava com as magias de 3º Ciclo de seu mestre com uma facilidade preocupante. Era apenas questão de tempo até que Archibald perdesse aquele duelo. Erina continuava recitando as palavras do pergaminho, sua voz cada vez mais rouca, mas ela ainda estava longe de terminar.
Oliver havia adquirido um vasto conhecimento através das memórias de Orson.
Entre elas, estava o funcionamento das magias irregulares, ou ao menos a lógica que existia por trás delas.
Ele fechou os punhos.
Era hora de usar sua magia autoral.
[Relâmpago].
Oliver respirou fundo, sentindo a mana correndo por suas veias como um rio prestes a transbordar. Ele precisava ir além do que já havia feito antes, além de qualquer limite que impusera a si mesmo.
Precisava elevá-la a um nível extremo.