CAPÍTULO 74 – O PREÇO DA VIDA
CAPÍTULO 74 – O PREÇO DA VIDA
Magia regular era, por natureza, limitada.
Um mago de 1º Ciclo jamais conseguiria conjurar uma magia de 2º Ciclo ou superior, e isso não era uma questão de talento, mas de equilíbrio. Toda magia regular era, no fundo, um pedido. Um pedido direcionado à deusa da magia, feito em troca de mana e, em certos casos, de um componente material específico. Era ela quem concedia o poder, e era ela também quem decidia os limites daquele poder. A deusa jamais permitiria que alguém alcançasse algo que ainda estivesse fora de seu alcance.
Magia irregular, por outro lado, não seguia essa lógica.
Contanto que houvesse mana suficiente, um mago podia conjurar magias muito acima de seu próprio ciclo. Afinal, magia irregular nada mais era do que o ato de dobrar o mundo à própria vontade, usando a mana como instrumento. Não havia pedido, não havia intermediário. Havia apenas vontade e força bruta, a troco apenas da compreensão do fenômeno envolvido.
Era exatamente nisso que Oliver estava apostando.
Ele possuía 15 pontos de mana. Uma reserva absurda para qualquer padrão, mas ainda assim finita. Quão poderosa seria uma magia que consumisse cada gota daquela reserva de uma só vez? Provavelmente, várias vezes mais forte do que qualquer magia comum de 1º Ciclo. Mas seria o bastante contra o que estava diante dele?
Oliver tinha dúvidas.
E foi por causa dessas dúvidas que ele decidiu recorrer ao conhecimento recém-adquirido através das memórias de Orson, para elevar sua magia ainda mais além.
Ele concentrou eletricidade na palma da mão, como já havia feito tantas vezes antes. O alvo já estava definido em sua mente, energia positiva se acumulando lentamente no corpo de Elias. [Relâmpago ] estava pronto para ser lançado.
Mas dessa vez, Oliver não lançaria a magia como sempre fazia.
Ele imaginou os elétrons em sua mão se multiplicando, imaginou o relâmpago crescendo além de qualquer limite razoável, e ordenou que ele aumentasse. Como se respondesse diretamente à sua vontade, a eletricidade contida em sua palma começou a crepitar com mais intensidade, mais energia se acumulando a cada instante. Oliver sentiu sua mana sendo consumida numa velocidade assustadora, um ritmo que ele jamais havia experimentado antes. Ainda assim, não havia espaço para hesitação. Ele não podia falhar.
Sua reserva foi drenada quase por completo.
“Acho que ainda devo ter 1 ponto de mana restante. Vou guardá-lo.”
Oliver não esvaziou sua mana até o último resquício. O esgotamento total trazia consequências severas, e ele sabia disso melhor do que ninguém. Por isso, reservou deliberadamente um único ponto, o suficiente para não desmaiar ali mesmo. Seu controle sobre a própria mana já era preciso o bastante para sentir cada fração daquela reserva.
O relâmpago em sua mão era, sem dúvida, poderoso. Ele sentia aquilo em cada fibra do corpo, e todos ao redor também perceberam, os olhares se voltando para o brilho crepitante que dançava entre seus dedos.
Mas ainda não era o suficiente.
“Precisa ser mais forte.”
Oliver testemunhara incontáveis magias trocadas entre Elias e Archibald durante aquele combate. Pelo que conseguia perceber, seu [Relâmpago] estava próximo do 3º Ciclo, talvez até dentro dele. O problema era que Elias havia bloqueado, sem grande dificuldade, várias magias de 3º Ciclo lançadas por Archibald. Diante disso, Oliver sabia, com uma clareza gélida, que aquilo simplesmente não seria suficiente. Ele precisava de algo mais.
O problema era que não havia mais mana.
Sua reserva estava praticamente esgotada, restando apenas aquele único ponto guardado com cuidado. Ele precisava de outra fonte de energia, e as memórias de Orson lhe mostraram exatamente onde procurar: a alma também podia servir como combustível.
Oliver decidiu, então, consumir a própria alma em troca de mais poder de fogo. Mais especificamente, consumiria sua própria vida útil.
Havia uma analogia muito clara guardada nas memórias de Orson.
O corpo e a alma estavam ligados por uma corrente, e essa corrente representava a vida útil de uma pessoa. Quando ela se rompia, quando a vida útil chegava ao fim, a alma se soltava do corpo e a vida se encerrava ali mesmo. Oliver pretendia desgastar essa corrente propositalmente, arrancando pedaços da própria vida em troca de mais mana para alimentar sua magia.
Ele não tinha certeza absoluta de como fazer aquilo. Mas sabia, ao menos, que era possível.
Fechou os olhos por um breve instante e imaginou sua própria vida útil como uma corrente física, sólida, presa ao seu corpo. Imaginou aquela corrente começando a ceder, elo por elo, se desprendendo devagar, deixando a ligação entre corpo e alma cada vez mais frágil. Ao mesmo tempo, imaginou sua reserva de mana sendo preenchida por aquilo que escapava da corrente.
Parecia simples demais para funcionar. Oliver não tinha nenhuma garantia de que aquilo daria certo.
Para sua própria surpresa, tudo pareceu fluir exatamente como ele havia planejado.
Oliver sentiu sua reserva de mana se enchendo novamente, ao mesmo tempo em que despejava ainda mais mana dentro da magia [Relâmpago]. Sua reserva esvaziou e se encheu inúmeras vezes seguidas, um ciclo vertiginoso de consumo e reposição. O relâmpago em sua mão crepitava com violência crescente, e a sala inteira parecia carregada de energia estática, os cabelos de todos ali começando a se arrepiar.
Bzzt dzzt dzzt.
Elias conseguia ouvir aquele som. Um crepitar baixo, constante, que parecia rastejar por trás de sua percepção. Ele não sabia identificar exatamente o que era, mas um instinto antigo, quase animal, lhe dizia que algo extremamente perigoso se aproximava. Ele precisava resolver aquilo de uma vez por todas, antes que fosse tarde demais.
[Magia de 3º Ciclo – Bola de Fogo]
Elias decidiu, então, explodir toda a sala.
Já que não conseguia identificar a origem exata daquele perigo, [Bola de Fogo] cumpriria bem esse papel. Ele mesmo seria atingido pela explosão, mas já havia preparado uma contramedida para se proteger do próprio ataque.
Infelizmente para ele, seu fluxo de mana estava lento demais, distorcido pelo veneno que corria em suas veias, resquício da magia de 9º Ciclo da qual tinha sido alvo, o que aumentava consideravelmente o tempo necessário para concluir a conjuração.
[Magia de 3º Ciclo – Contramágica]
Archibald percebeu a brecha na hora. Sem pensar duas vezes, usou quase toda a mana que lhe restava para lançar [Contramágica], interrompendo a formação da [Bola de Fogo] antes que ela pudesse sequer tomar forma.
Aquilo comprou um tempo precioso para Oliver.
Ele continuava alimentando o [Relâmpago], sem parar sequer por um segundo. O processo de converter vida útil em mana havia se mostrado surpreendentemente intuitivo, quase natural demais para algo tão perigoso. Oliver sentia, com clareza perturbadora, exatamente quanta vida ele estava consumindo. Anos inteiros de sua existência escoando para longe, como areia entre os dedos, sem qualquer possibilidade de retorno.
Enquanto continuava alimentando a magia, Oliver percebeu que havia alcançado um certo limite. Não importava quanto mais ele insistisse, aquela magia não cresceria além daquele ponto.
“Isso tem que servir.”
Ele olhou para a própria mão, onde o relâmpago crepitava com uma intensidade quase insuportável. Oliver sentia que mal conseguia mantê-lo contido ali, como se segurasse uma tempestade inteira na palma da mão. Aquilo precisava ser liberado imediatamente, antes que escapasse de seu controle por completo.
Elias sentiu a urgência crescendo no ar.
Archibald mal conseguia resistir à sua investida contínua.
[Magia de 5º Ciclo – Estrela da Alvorada]
A reserva de mana de Elias ainda era enorme, mas não era infinita. Já não lhe restava o suficiente para conjurar magias de 6º Ciclo, e por isso ele recorreu a uma versão inferior de sua magia mais poderosa: [Estrela da Alvorada].
[Magia de 2º Ciclo – Escudo de Gelo]
Para o azar de Archibald, mesmo aquela versão enfraquecida foi mais do que suficiente. A estrela de sete pontas se transformou num raio compacto e certeiro, perfurando o peito de Archibald antes que ele pudesse reagir. Seu [Escudo de Gelo] se estilhaçou sem sequer desacelerar o impacto, e ele também não tinha mais mana disponível para conjurar qualquer outra magia de 3º Ciclo.
“Mestre!”
Jonathan gritou ao ver o peito de Archibald sendo atravessado, seu corpo cambaleando para trás, os olhos arregalados de horror.
Foi nesse instante que Oliver se colocou entre eles, encarando Elias de frente.
Bzzt dzzt dzzt.
200 anos de sua própria vida haviam sido consumidos para dar forma à magia mais poderosa que Oliver conseguiu conjurar.
[MAGIA IRREGULAR DE 6º CICLO – RELÂMPAGO]
“Desgraçado, você vai pagar por tudo que fez conosco!”
Oliver gritou, estendendo a mão na direção de Elias.
Elias não conseguia mais distinguir para onde fugir. Ele se virou, tentando correr, tentando conjurar qualquer magia de movimento que lhe permitisse escapar dali, mas seu fluxo de mana estava lento demais, quase paralisado. Inúmeras veias negras se espalhavam por todo o seu corpo, subindo pelo pescoço e pelo rosto como raízes apodrecidas sob a pele.
O relâmpago deixou a mão de Oliver.
Não havia mais crepitar. Havia apenas um único instante de luz absoluta, um clarão branco-azulado que engoliu a sala inteira e rasgou o ar como se o próprio tecido do mundo tivesse se aberto ao meio. O som veio um instante depois, um estrondo que não parecia trovão, mas o rugido de algo primordial sendo libertado, sacudindo pedras, vidro e ossos com a mesma indiferença. Paredes inteiras se desintegraram no caminho daquele feixe abrasador, pedra transformada em pó incandescente, o próprio ar parecendo se contorcer e queimar diante da passagem daquela linha reta e implacável de pura destruição. Onde o relâmpago tocou, nada restou além de um rastro carbonizado, fumegante, como se a realidade tivesse sido riscada por uma unha em brasa.
Elias não teve tempo sequer de gritar.
Seu corpo simplesmente deixou de existir, vaporizado num piscar de olhos, convertido em cinzas incandescentes que se dispersaram no ar antes mesmo de tocarem o chão. Não sobrou nada reconhecível. Nenhum vestígio, nenhum resquício, apenas o eco abafado daquele trovão se dissipando lentamente pelas ruas da destruída vila de Corval. Ao menos aquelas que ainda existiam.
Elias estava morto.