CAPÍTULO 75 – REDENÇÃO
CAPÍTULO 75 – REDENÇÃO
Alguns instantes antes, Alexander ainda seguia ordens.
Elias determinara que nenhum civil da vila sobrevivesse. Nenhuma testemunha, nenhum rastro, nenhuma história para ser contada depois. Alexander mal havia sobrevivido à explosão gerada por Orson. Seu braço direito fora destruído até a altura do ombro e a perna direita simplesmente não existia mais abaixo do joelho.
Ainda assim, ele se movia.
[Voar] sustentava seu corpo mutilado no ar, compensando com mana aquilo que os próprios membros já não conseguiam fazer. Elias conjurara o feitiço sobre ele momentos antes, resolvendo com um gesto simples o problema que a amputação deveria ter representado.
Alexander se afastou do centro da explosão.
Ali, não havia mais ninguém vivo para matar. Apenas cascalho, fumaça e um silêncio pesado. Ele seguiu para a parte da vila que a devastação ainda não havia alcançado, deslizando baixo pelo céu como um falcão.
As pessoas ali ainda tremiam.
Ninguém sabia o que estava acontecendo. Os moradores comuns de Corval só conheciam explosões distantes, gritos abafados e o cheiro de fumaça carregado pelo vento. Ninguém ali fazia ideia da escala real do que havia arrasado o coração da vila.
Quando Alexander desceu do céu, um silêncio apreensivo tomou conta das ruas.
Não demorou muito para que aquela apreensão se mostrasse justificada.
Alexander desferiu o primeiro golpe sem qualquer aviso.
Homens, mulheres, crianças, idosos. Nenhum deles foi poupado. Ele avançava pelas ruas estreitas com a espada erguida, cortando tudo o que encontrava pela frente, sem hesitar, sem parar para respirar. Gritos se espalhavam entre as casas, seguidos quase imediatamente pelo silêncio abrupto de mais uma vida interrompida.
Em meio ao massacre, alguém não fugiu.
Isso, por si só, despertou a curiosidade de Alexander.
O minotauro Asterion era dono da única padaria da vila. Media mais de 2m de altura, o corpo largo e musculoso preenchendo o vão da rua quase por completo, os chifres curvos raspando o beiral de um telhado baixo enquanto avançava. Ainda vestia o avental sujo de farinha do próprio ofício, e empunhava, com as duas mãos enormes, um cutelo de açougueiro grande o bastante para abater um boi de uma só vez.
Ele investiu contra Alexander sem qualquer hesitação.
“Eu sou Asterion!”
O grito ecoou pela rua como um desafio, quase como se aquele nome sozinho devesse significar alguma coisa.
Alexander moveu a espada num golpe único, rápido e reto, cortando de cima para baixo.
O minotauro foi partido ao meio antes mesmo de completar a investida.
As duas metades do corpo caíram para lados opostos, o cutelo escapando da mão morta e batendo no chão com um estrondo metálico.
“Asterion, hein?” Alexander observou o cadáver partido, uma sobrancelha erguida. “Que diabos foi isso? Ele achou que tinha alguma chance?”
Ninguém respondeu.
Ninguém mais restava para responder.
Alexander seguiu adiante.
Enquanto pessoas continuassem vivas, a vila ainda poderia ser reconstruída. Mas, com cada civil que caía sob sua espada, essa possibilidade desaparecia junto. Já não havia mais lugar algum a ser salvo.
A resistência real surgiu pouco depois, quando um pequeno grupo de aventureiros de rank baixo se interpôs em seu caminho.
Para o azar deles, Alexander ainda era um artista marcial de rank 5. Mesmo ferido, mesmo com a aura reduzida a uma fração do que costumava ser, aquilo ainda era mais do que suficiente para matá-los um a um. O aventureiro mais forte do grupo não passava de um rank 2. Não teriam chance alguma. Ainda assim, resistiram com uma bravura que Alexander não esperava encontrar.
Foi então que algo deu errado.
[Voar] deixou de funcionar.
Alexander sentiu o próprio corpo perder a sustentação no meio de um golpe, o equilíbrio despencando junto com a magia que o mantinha de pé.
“Senhor Elias perdeu a concentração?” Alexander cambaleou, tentando entender o que havia acontecido. “O que diabos está acontecendo?”
Os aventureiros que ainda resistiam não desperdiçaram a oportunidade.
Perceberam de imediato que Alexander havia perdido o equilíbrio, que já não conseguia contra-atacar com a mesma precisão de antes. Sem uma perna, sem um braço e agora sem a mobilidade que a magia lhe garantia, ele foi empurrado para a defensiva, algo que jamais deveria ter acontecido contra oponentes daquele nível.
Ele resistiu, aparando golpes com dificuldade crescente, buscando o momento certo.
Alexander sabia que só teria uma chance.
Reuniria toda a aura que ainda lhe restava num único golpe devastador, capaz de acabar com todos aqueles aventureiros de uma só vez.
Foi então que o mundo mudou.
Um clarão branco-azulado engoliu parte do céu, seguido por um estrondo que não parecia trovão algum, mas algo mais antigo e primordial.
Alexander, não muito longe dali, testemunhou uma linha de destruição cortando o horizonte.
Fosse o que fosse aquilo, atingiu em cheio a barreira erguida por Zordhan, perfurando através dela. Onde antes existia uma parede intransponível de energia, agora havia uma brecha aberta, um caminho de fuga para qualquer um que ainda estivesse vivo em Corval.
Uma dúzia de aventureiros ainda cercava Alexander.
Todos estavam momentaneamente distraídos pelo raio que cruzara os céus.
Alexander foi o primeiro a se recuperar do próprio estupor.
Aproveitou a brecha sem hesitar, investindo o restante de sua aura numa única técnica.
[ 4ª Técnica da Academia Berserker – Quebra Montanhas ]
A espada desceu com violência total, batendo contra o chão de terra batida. O impacto se espalhou em ondas, levantando poeira, rachando a rua em várias direções e arremessando os aventureiros mais próximos para longe, seus corpos se partindo contra paredes e destroços.
Quando a poeira começou a subir, Alexander já não tinha mais aura alguma.
Ele pulou em um pé só, buscando apoio, e se recostou contra a parede mais próxima, o corpo tremendo de exaustão.
Os aventureiros haviam sido exterminados.
Mas Alexander também não era mais capaz de continuar aquele massacre.
Ele olhou para a própria mão, a única que ainda lhe restava.
Sabia exatamente como funcionava o trabalho de um executor real. Já havia feito coisas piores do que aquela em outras ocasiões, sempre justificando cada ato com o peso de uma ordem vinda de cima. Mas, dessa vez, algo dentro dele simplesmente quebrou. Matar tantas pessoas inocentes, apenas para cumprir uma ordem, ainda deixava um resquício de humanidade em algum canto esquecido de si mesmo gritando.
Ele fechou os olhos por um instante, tentando não pensar em nada.
Quando a poeira de sua própria técnica finalmente baixou, contrariando qualquer expectativa razoável, havia um sobrevivente.
Um homem de meia-idade, o corpo em frangalhos, mal se sustentando em pé. Era o único artista rank 2 entre os aventureiros que haviam se atrevido a enfrentá-lo.
Alexander percebeu a mudança antes mesmo de processar o que ela significava.
A aura ao redor do homem já não era roxa.
Agora, ardia num vermelho intenso, pulsando como uma ferida recém-aberta.
Ele havia usado a intensidade daquele confronto para forçar a própria barreira, rompendo para o rank 3 num único instante desesperado, e agora estava frente a frente com um Alexander completamente sem aura.
Alexander sorriu.
Não era um sorriso de desafio, nem de desdém. Era algo mais simples do que isso.
Aceitação.
A espada do homem desceu, cortando o pescoço de Alexander num único golpe limpo. Sua cabeça se soltou do corpo e rolou pela rua empoeirada, o resto de si tombando logo em seguida.
A expressão em seu rosto, mesmo depois de tudo, era de felicidade.
Alexander estava feliz. Feliz que alguém tão ruim quanto ele, alguém que causara tanto mal a tantas pessoas ao longo da vida, tivesse finalmente encontrado a própria punição.
Alexander estava morto.
…
Os cabelos de Oliver ficaram brancos.
Ele sentiu, com uma clareza fria e distante, que sua expectativa de vida havia sido reduzida drasticamente. Mas aquele não era o momento de se preocupar com isso.
Uma letargia profunda tomou conta de todo o seu corpo, um peso que parecia se infiltrar em cada músculo, em cada osso. Mesmo assim, ele se arrastou até sua mãe e se ajoelhou ao lado dela.
Lágrimas escorriam pelo rosto de Oliver.
Eliandris estava morrendo bem diante de seus olhos, e não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer para impedir aquilo. Ele segurou a mão dela com força, como se pudesse, através daquele gesto simples, transferir para ela um pouco da vida que acabara de sacrificar.
Olhando para o lado, viu Grim na mesma condição.
Ele também morreria em breve, se nada fosse feito.
Quanto a Archibald…
Archibald estava morto.
Ele não possuía o corpo resistente de um artista marcial, nada que pudesse suportar o impacto certeiro de [Estrela da Alvorada]. Sua morte havia sido quase instantânea, um fim rápido demais para alguém que dedicara tanto de si àquele combate.
Oliver não conseguiu nem processar aquilo direito.
Erina continuava recitando as últimas palavras do pergaminho.
Ela não olhou para o resto da sala, não se permitiu distrair, mesmo com toda a comoção ao seu redor, mesmo com os corpos, o sangue e o cheiro de morte que pairava no ar. Sua voz seguia firme, arrastando cada sílaba até o fim.
Não demorou muito para que uma luz ciano brotasse do pergaminho.
Ela cresceu rapidamente, consumindo o papel por inteiro, até inundar toda a sala destruída com seu brilho frio.
[Magia de 7º Ciclo – Teleporte]
O cenário ao redor de Oliver mudou num piscar de olhos.
Repentinamente, ele sentiu frio.
Olhou ao redor, tentando entender onde estavam.
Havia muita… neve?