CAPÍTULO 76 – CICATRIZES (Fim Volume I)
CAPÍTULO 76 – CICATRIZES (Fim Volume I)
Neve.
Havia neve por todos os lados, cobrindo o chão numa camada espessa e imaculada, intocada por qualquer pegada além das que eles próprios haviam acabado de deixar. O céu estava claro, de um azul pálido e frio, e o sol brilhava alto sobre a paisagem sem aquecer absolutamente nada. Não havia árvores por perto, apenas uma planície branca que se estendia até onde a vista alcançava, ondulando suavemente em pequenas colinas cobertas pelo mesmo manto reluzente.
Era, de um jeito estranho, bonito para o momento em que se encontravam.
Ao longe, quase no limite do horizonte, uma coluna fina de fumaça subia reta em direção ao céu antes de se dissipar no ar parado. Talvez fosse a chaminé de uma casa, talvez de uma vila inteira escondida atrás de alguma colina. Fosse o que fosse, aquilo significava uma coisa: havia civilização por perto. Pessoas vivendo suas vidas normalmente, sem fazer ideia do que havia acabado de acontecer a um mundo inteiro de distância dali.
Oliver sentiu o frio antes mesmo de conseguir processar qualquer outro pensamento.
Era um frio diferente de tudo que já conhecera, um frio que mordia a pele exposta e parecia se infiltrar direto nos ossos. Sua respiração se transformou em uma nuvem branca diante do rosto, e seus dedos, ainda entrelaçados com os de sua mãe, começaram a formigar de dormência. Os cabelos brancos que agora cobriam sua cabeça balançavam levemente com o vento fraco que cortava a planície.
Ele mal tinha forças para se importar com isso.
Momentos atrás, Erina ainda recitava as últimas palavras do pergaminho recuperado do cofre da família de Eliandris. Alguns magos dedicavam a vida inteira ao estudo da arte de armazenar magias, e o pergaminho mágico nada mais era do que o resultado disso: uma magia guardada dentro do papel, esperando para ser libertada. Era diferente do pergaminho que Lilian entregara a Oliver, aquele continha apenas instruções, um simples guia sobre como conjurar determinado feitiço. O que Eliandris trouxera do próprio cofre familiar era outra coisa inteiramente: a magia em si, selada e pronta para ser usada por qualquer um que soubesse recitar as palavras corretas.
Archibald tivera um trabalho imenso para remover o selo daquele pergaminho. Depois de removido, bastaria que alguém pronunciasse o encantamento certo para que a magia guardada ali dentro se libertasse por completo.
Era um item extremamente precioso, ainda mais considerando que armazenava uma magia de nível transcendente.
A transcendência separava o joio do trigo. Não havia maneira conveniente de explicar a mudança qualitativa que ela representava, apenas o fato de que um ser transcendente dava um passo além da própria mortalidade, abandonando aquela casca frágil em direção a algo mais próximo da divindade. Magias de 7º Ciclo eram, por definição, magias transcendentes, incontáveis vezes mais poderosas do que qualquer feitiço de 6º Ciclo jamais poderia ser.
A magia contida naquele pergaminho era um [Teleporte]. Poderia levar cerca de uma dúzia de pessoas que o conjurador desejasse para qualquer lugar do mundo em que ele já tivesse estado antes.
Num momento de necessidade absoluta, Archibald entregara o pergaminho a Erina, pedindo que ela completasse a magia e os levasse para o mais longe possível de Corval.
Erina pensara em sua terra natal ao pronunciar as últimas palavras. E, a julgar pela neve, pelo silêncio e pela distância impossível daquela fumaça no horizonte, eles estavam, de fato, muito longe. Erina levara 4 anos inteiros de viagem até alcançar Corval, anos atrás. Ninguém que estivesse em Corval chegaria àquele lugar tão cedo, e muito menos saberia para onde eles haviam ido.
Eles estavam seguros.
Mas segurança, naquele momento, parecia uma palavra vazia demais para significar qualquer coisa.
Erina se aproximou lentamente do corpo de Archibald, os pés afundando na neve fresca a cada passo. Quando finalmente se ajoelhou ao lado dele, não conseguiu mais conter o choro. As lágrimas escorreram livres pelo seu rosto, pingando sobre a neve e desaparecendo instantaneamente, absorvidas pelo branco impassível ao redor.
O amor entre eles fora curto. Mas havia sido intenso, real, do tipo que não precisa de anos para se provar verdadeiro. Archibald realmente pretendia levá-la para longe de Corval, construir com ela uma vida nova, pedi-la em casamento assim que estivessem em segurança. Erina teria vivido feliz ao lado dele, mas aquele sonho se despedaçara junto com o peito do mago de meia-idade, e ele já não estava mais ali para cumprir promessa alguma.
Erina segurou a mão fria de Archibald entre as suas, e por um longo momento, não conseguiu fazer mais nada além de chorar.
Foi Oliver quem, por fim, a chamou de volta.
Erina se levantou, ainda enxugando o rosto com as costas da mão, e os dois caminharam juntos até onde Eliandris estava deitada sobre a neve, um círculo vermelho se espalhando lentamente ao redor de seu corpo, tingindo o branco puro de um vermelho profundo, impossível de ser ignorado.
O feitiço [Estrela da Alvorada] era preciso. Elias havia mirado com exatidão, perfurando diretamente o coração de mana de Eliandris. Não havia como reverter um ferimento daquela natureza, e o corpo dela sabia disso melhor do que qualquer outra pessoa ali. Eliandris estava morrendo, e estava morrendo rápido.
Oliver se ajoelhou ao lado dela, o corpo tremendo, embora já não soubesse dizer se era por causa do frio ou por causa do que estava prestes a testemunhar.
Ele possuía algumas memórias de magia de cura, fragmentos que herdara das lembranças de Orson. Mas eram apenas fragmentos, técnicas que ele jamais praticara, movimentos de mana que seu corpo ainda não sabia executar com a fluidez necessária. E mesmo que, por algum milagre, conseguisse reproduzi-las ali mesmo, seria o bastante?
Um ferimento daquela gravidade não se resolvia apenas com poder bruto. Exigia também conhecimento, um domínio preciso da anatomia envolvida, o tipo de habilidade que levava uma vida inteira de estudo para ser dominada. Um mestre em magia de cura talvez conseguisse fazer alguma coisa. Mas não havia nenhum mestre ali. Só havia um garoto assustado, ajoelhado na neve, sem nada além de fragmentos de um conhecimento que não era realmente seu.
“M-Mãe…”
A voz de Oliver saiu quebrada, presa entre soluços que ele já não conseguia controlar. Suas lágrimas caíam quentes contra a neve gelada, e ele segurou a mão de Eliandris com as duas mãos, como se aquilo pudesse, de alguma forma impossível, impedir o que estava prestes a acontecer.
A alma de Eliandris enfraquecia a cada segundo que passava.
Ela mal conseguiu abrir os olhos, as pálpebras tremendo com o esforço, mas conseguiu. E olhou diretamente para Oliver.
“Meu filho…” A voz saiu fraca, quase um sussurro perdido no vento frio. “Eu tenho muito orgulho de você. Por favor, cuide da tia Erina, e cuide de você mesmo também. Por favor… viva.”
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro, o mesmo tipo de sorriso que Oliver conhecia desde que se entendia por gente. Depois, seus olhos se voltaram, com esforço, para a mulher ajoelhada ao lado dele.
“Erina… você foi, com certeza, a melhor amiga que eu tive em toda a minha vida. Por favor, cuide do meu filho.”
Erina não conseguiu responder com palavras. Apenas assentiu, os lábios tremendo, e se inclinou para abraçar Eliandris com todo o cuidado que o corpo ferido permitia. Oliver se juntou ao abraço um instante depois, o rosto enterrado contra o ombro da mãe, os três formando um único nó de dor e amor em meio à neve.
Eles choravam, mas Eliandris ainda sorria.
O corpo dela perdeu a vida pouco depois, ali mesmo, envolto pelos braços das duas pessoas que mais amava naquele mundo. Antes que o silêncio final tomasse conta de tudo, porém, ela ainda conseguiu sussurrar suas últimas palavras.
“Eu amo vocês… eu vou cuidar de vocês, não importa de onde eu estiver…”
Oliver sentiu, mais do que viu, o instante exato em que o brilho da alma de sua mãe começou a se apagar. Aquilo era algo que só ele, entre todos, conseguia realmente enxergar, a cor gradual desaparecendo, a luz se esvaindo devagar até não sobrar nada além de um vazio quieto onde antes existira uma vida inteira. No mesmo instante, o próprio olhar de Oliver pareceu perder um pouco de sua cor, como se uma parte dele também tivesse morrido ali, junto com ela.
Restava apenas um corpo, agora. Frio, imóvel, deitado sobre a neve manchada de vermelho.
Eliandris estava morta.
Oliver alcançou a Gaiola de Almas, os dedos tremendo tanto pelo frio quanto pelo desespero. Ele estendeu os sentidos, tentando captar qualquer resquício da alma de sua mãe antes que fosse tarde demais. Queria prendê-la ali, impedi-la de seguir adiante, impedi-la de se afastar dele para sempre.
Era um ato profundamente egoísta. Oliver sabia disso com total clareza, sabia que o certo, o justo, seria simplesmente aceitar e deixá-la partir em paz. Mas, naquele momento, ele não conseguia se importar menos com o que era certo.
Uma parte distante de sua mente lembrou, quase contra a vontade, das memórias de Orson. De como o próprio necromante fizera exatamente aquilo, décadas atrás, recusando-se a deixar Grace seguir para o além, arrancando-a do ciclo natural da vida só para mantê-la perto de si. Orson jamais soubera dizer, nem mesmo depois de tantos anos, se aquele ato havia sido amor ou profanação. Talvez tivesse sido as duas coisas ao mesmo tempo.
Oliver entendia agora, com uma clareza dolorosa, por que ele fizera aquilo.
Sua intuição de elfo da alma o guiou sem esforço até onde a alma de sua mãe ainda flutuava, suspensa entre dois mundos, ainda não completamente entregue ao pós-vida. Ele conseguia vê-la, uma figura feminina translúcida pairando logo à sua frente, os longos cabelos ondulando devagar numa única direção, movidos por um vento que não pertencia àquele lugar.
“Mãe! Entre na gaiola, eu posso te reviver! Não agora, mas em alguns anos, com certeza! Por favor… não me deixe…”
A alma de Eliandris o observou por um longo instante. Depois, balançou a cabeça espectral, devagar, um gesto tão gentil quanto definitivo. A voz dela chegou até Oliver não pelos ouvidos, mas diretamente dentro de sua mente, tão clara quanto se ela ainda estivesse viva e falando bem ao seu lado.
“Oliver, você absolutamente não deve interferir no ciclo natural da vida. As coisas são do jeito que são por um motivo. Por favor, meu filho, viva bem. Não faça nada perigoso.”
A alma de Eliandris completou, então, a transição para o pós-vida, dissolvendo-se devagar até não restar mais nada visível diante dele.
Oliver era, agora, o mais novo portador da Gaiola de Almas. Um item verdadeiramente poderoso, capaz de aprisionar até mesmo a alma mais relutante em partir. Com sua ajuda, ele poderia ter forçado a alma de sua mãe a permanecer, ignorando completamente a vontade dela.
Ele não o fez.
Por mais que doesse, por mais que sentisse o próprio peito se despedaçando por dentro, Oliver respeitou a decisão de sua mãe.
Ele se ajoelhou por completo sobre a neve, as mãos cobrindo o rosto, e gritou. Um grito que veio do fundo mais profundo de seu ser, arrastado por lágrimas que pareciam não ter fim, um som que se perdeu na planície vazia, absorvido pelo silêncio branco ao redor como se o próprio mundo tentasse abafar sua dor.
…
Não muito longe dali, Grim também se apagava devagar sobre a neve.
Jonathan foi o único a se aproximar dele.
Grim conseguiu erguer os olhos até o garoto e reunir forças suficientes para pronunciar algumas últimas palavras.
“Garoto… seu pai era uma pessoa terrível. Era tão pobre que a única coisa que tinha era dinheiro. Espero que você siga um caminho bem diferente do dele.”
“Senhor Grim…” A voz de Jonathan tremeu, os olhos já marejados. Seu mestre acabara de morrer, e agora o mercenário que sempre aparecia por sua casa também se esvaía diante dele, na neve.
Jonathan nunca fora particularmente próximo de Grim. Mas vê-lo morrer daquele jeito, com aquela mistura estranha de humor e resignação, ainda era algo profundamente triste, quase difícil de suportar.
Grim sorriu e fechou os olhos.
“Não tenho arrependimentos. Vivi a vida ao máximo.”
Aquele sorriso, e aquelas palavras, foram os últimos que ele ofereceu ao mundo.
Grim estava morto.
…
Jonathan, Erina e Oliver ainda estavam vivos. Mas cada um deles havia deixado, ali naquela planície coberta de neve, uma parte enorme de si mesmos: um mestre, um amor recém-nascido, uma mãe.
A neve continuou caindo suavemente, branca e indiferente, cobrindo aos poucos os corpos e o silêncio que restara depois de tudo. Mas a neve não poderia cobrir as cicatrizes deles, os três sobreviventes as carregariam pelo resto da vida.
[ FIM DO VOLUME I – CORVAL ]