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CAPÍTULO 77 – VELÓRIO ( Início Volume II )

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CAPÍTULO 77 – VELÓRIO ( Início Volume II )

A fumaça que Oliver avistara no horizonte era um sinal de civilização. Agora, enquanto caminhavam pela planície coberta de neve, ele começava a perceber que também era o lugar onde Erina havia crescido.

O frio atravessava as roupas que estavam vestindo. O vento soprava sem obstáculos pela Tundra gelada, avermelhando o rosto de Oliver e fazendo seus dedos doerem dentro das mangas. A cada respiração, o ar gelado lhe queimava a garganta, a cada passo, a neve cedia sob os sapatos e tornava o avanço mais lento.

“Voltar para cá depois de todos esses anos…” Erina murmurou.

Havia irritação em sua voz, mas Oliver não sabia dizer se era dirigida à vila ou a si mesma. As lágrimas ainda escorriam pelo rosto dela, e seus olhos permaneciam vermelhos. Jonathan caminhava alguns passos atrás, calado, com a expressão abatida. Ainda tentava compreender tudo o que havia perdido, enquanto mantinha os braços junto ao corpo para se proteger do vento.

Oliver mal conseguia manter o ritmo. O choro vinha em ondas, interrompido por soluços que lhe apertavam o peito e descompassavam sua respiração. As lágrimas esfriavam em seu rosto, e ele precisou esfregá-las com a manga, sem conseguir aquecer a pele. Cada vez que olhava para Erina ou para Jonathan, a realidade voltava a golpeá-lo. Sua mãe não estava mais ali. Archibald e Grim também não. A neve sob seus pés parecia limpa demais para aquele dia.

Quanto mais se aproximavam, mais nítidos ficavam os contornos da vila. Era pequena, ainda menor do que Corval, com casas simples de madeira agrupadas ao redor de caminhos estreitos. A neve cobria os telhados inclinados e se acumulava nos beirais, enquanto uma fumaça fina saía de algumas chaminés. Em Corval, muitas casas combinavam pedra e madeira. Ali, quase tudo parecia feito de tábuas: paredes, cercas e pequenos depósitos, gastos pelo frio e pelos anos. Não havia muralhas ou construções imponentes. Apenas uma vila quieta, escondida naquela paisagem branca, ao lado de um grande lago cristalino e congelado.

Os primeiros moradores que os viram interromperam o que estavam fazendo. Alguns reconheceram Erina e se aproximaram com surpresa e alegria genuínas.

“Erina, você voltou!”

Uma mulher idosa avançou para recebê-la, mas parou ao notar as lágrimas em seu rosto. O sorriso desapareceu, substituído por preocupação.

Outros habitantes permaneceram afastados. Oliver sentiu os olhares pesarem sobre o grupo. Alguns eram apenas curiosos, outros carregavam uma hostilidade difícil de disfarçar. Ele conseguia enxergar as almas das pessoas, e nelas havia nojo.

Em Corval, cerca de 20%  da população pertencia a outras raças. Naquela vila, Oliver ainda não vira ninguém que não fosse humano. Talvez a presença de um meio-elfo e de uma cornídea fosse o bastante para deixar os moradores cautelosos. Mas aquilo que ele percebia em alguns deles não era simples receio.

Era desprezo.

Erina pareceu notar a frieza ao redor, mas não se deteve nela. Enxugou o rosto com a manga e se dirigiu à mulher que a reconhecera.

“Por favor, leve-nos até o Orador da vila.”

A senhora assentiu de imediato. Não fez perguntas. Apenas se pôs a caminhar, guiando-os pelas ruas estreitas enquanto alguns moradores os acompanhavam com os olhos.

Oliver observou as casas à medida que passavam, lutando para manter os dedos flexíveis. A neve escondia parte da madeira envelhecida, mas não conseguia disfarçar os reparos improvisados nas paredes nem as cercas tortas que separavam pequenos quintais. Havia lenha empilhada junto às portas e ferramentas encostadas sob beirais. Apesar do frio, a vila parecia habitada e acolhedora em sua simplicidade. Um lugar onde todos provavelmente sabiam quem havia chegado e quem havia partido.

Foi difícil imaginar Erina crescendo ali. Mais difícil ainda era pensar que ela voltava depois de tantos anos acompanhada de duas crianças.

Não demorou até que a senhora os conduzisse a uma casa de madeira parecida com as demais. Não havia nada que a distinguisse das residências vizinhas. Ela abriu a porta e entrou sem hesitar.

“Aldren, você não vai acreditar em quem voltou.”

O interior era modesto e aquecido por uma lareira. Um homem de meia-idade, de cabelos e olhos castanhos, pele clara e roupas simples, levantou-se de perto da mesa. Tinha a aparência rústica, não parecia alguém que ocupava uma posição importante.

“Erina? É mesmo você?” A voz de Aldren vacilou. “Já faz tantos anos…”

Ela apenas assentiu.

Por um breve instante, uma melancolia silenciosa tomou conta da casa. Aldren olhou para ela como quem reconhecia, ao mesmo tempo, a pessoa que partira e a estranha que voltara. Então seu olhar passou por Oliver e Jonathan.

“O que aconteceu?”

Erina respirou fundo, mas a resposta não veio. Seus dedos se fecharam contra a própria roupa. Oliver viu a dor atravessar seu rosto mais uma vez.

“Eu conto em outra hora”, disse ela, por fim. “Agora, preciso pedir um favor. Alguns amigos morreram durante a viagem. Seus corpos ainda estão próximos, gostaria que fossem enterrados no cemitério da vila.”

Aldren não insistiu. Seu semblante se tornou grave, e ele assentiu devagar.

“Claro. Vamos cuidar disso.”

Antes que pudessem sair, Aldren reparou nas roupas leves e nos dedos avermelhados dos três. Pediu que esperassem perto da lareira e mandou buscar casacos grossos, cachecóis, luvas e botas forradas. As peças não serviam perfeitamente, mas os protegeriam do vento e da neve. Oliver vestiu o casaco com as mãos rígidas, quando o calor começou a voltar aos dedos, ardeu como pequenas agulhas. Erina e Jonathan também se agasalharam em silêncio. O frio ficou menos agressivo, mas nada daquilo aliviou o peso que carregavam.

Foi assim que Oliver soube que aquele homem de aparência simples era o Orador de Wintermere .

A notícia se espalhou depressa. Alguns homens foram chamados para ajudar a levar os corpos até o cemitério, e os preparativos começaram quase sem que Oliver percebesse. As pessoas da vila se movimentavam com discrição. Trouxeram mantas limpas, pás e tábuas para improvisar macas. A senhora que os guiara permaneceu ao lado de Erina, sem tentar consolá-la com frases vazias.

Oliver acompanhou o corpo de Eliandris durante todo o trajeto.

Não queria soltá-la. Sabia que aquele corpo já não era sua mãe, que a alma dela havia partido por vontade própria. Mesmo assim, vê-la ser carregada por outras pessoas fazia tudo parecer definitivo de uma forma que ele não estava preparado para aceitar.

O cemitério ficava numa pequena elevação além das últimas casas. Algumas lápides antigas surgiam entre a neve, inclinadas pelo tempo. As covas foram abertas enquanto o céu começava a escurecer, e ninguém apressou os homens que trabalhavam. O frio ainda se infiltrava pelas roupas e mordia qualquer parte da pele que ficava exposta. Oliver o sentia nos dedos enluvados e no rosto, mas a dor da perda ocupava quase todo o espaço dentro dele.

Quando chegou a hora de baixar os corpos à terra, Erina se aproximou de Eliandris. Tirou uma das luvas para segurar a mão da amiga, o frio lhe mordeu os dedos, mas ela não a soltou. Tentou dizer alguma coisa. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Então se curvou sobre ela, e o choro que tentara conter desde a chegada à vila rompeu de uma vez.

Oliver ficou ao seu lado, os olhos fixos no rosto tranquilo da mãe. As lágrimas embaçavam sua visão e esfriavam depressa nas bochechas. Queria guardar aquele rosto na memória, mas o frio lhe entorpecia as mãos, e a dor tornava difícil manter os pensamentos no lugar. Cada detalhe que reconhecia tornava a despedida mais dolorosa: o cabelo, as feições, as mãos que tantas vezes o haviam segurado quando era pequeno.

“Mãe…”

A palavra escapou num sussurro.

Ele não tinha mais nada a pedir. Já pedira para ela ficar. Já oferecera a Gaiola de Almas e ouvira sua recusa. Eliandris escolhera partir, e Oliver prometera respeitar a vontade dela. Agora, só lhe restava deixá-la descansar.

Erina apertou a mão dele. Os dois permaneceram assim enquanto o corpo de Eliandris era colocado na cova. Oliver não desviou o olhar quando a terra começou a cobri-la. Cada pá parecia afastá-la um pouco mais, até que a neve e o solo esconderam o último vestígio de sua mãe.

Archibald foi enterrado ao lado dela. Erina chorou por ele também, em silêncio, com uma mão sobre o próprio peito. O que viveram juntos fora breve, mas isso não tornava a perda menor. Oliver não sabia o que dizer. Não havia palavras capazes de consertar aquele futuro que os dois tinham imaginado e nunca viveriam.

Jonathan ficou junto à cova de Grim. Manteve os olhos baixos, os punhos fechados dentro das luvas. Embora as últimas palavras do homem tivessem carregado o humor de sempre, Jonathan não conseguiu sorrir ao lembrá-las. Quando a terra cobriu o corpo, ele finalmente abaixou a cabeça. Seus ombros tremeram uma vez, depois outra, sacudidos pelo frio e pelo choro que já não conseguia conter.

Ninguém tentou interromper o silêncio.

Os três túmulos ficaram lado a lado no cemitério de Wintermere . A senhora depositou algumas flores sobre a neve, e Aldren permaneceu por perto, respeitando a dor dos recém-chegados sem exigir explicações. Aos poucos, os moradores que haviam ajudado se afastaram, deixando Oliver, Erina e Jonathan sozinhos diante das sepulturas.

Oliver olhou para os nomes que haviam gravado nas placas provisórias. Eliandris. Archibald. Grim.

Os três estavam mortos. E, ainda assim, o mundo continuava. A fumaça subia das chaminés da vila. Portas se abriam e se fechavam. Alguém acendia uma lamparina em uma casa próxima. Wintermere seguia sua rotina, indiferente ao fato de que Oliver sentia como se tudo tivesse acabado.

Ele segurou a mão de Erina. Ela segurou a dele de volta.

Naquela tarde, Eliandris, Archibald e Grim foram enterrados no cemitério da vila de Wintermere .