CAPÍTULO 78 – LILITH
CAPÍTULO 78 – LILITH
Os pertences dos falecidos ficaram com Erina, Oliver e Jonathan. Ninguém teve coragem de mexer neles naquela noite. As bolsas e os poucos objetos trazidos da foram deixados juntos.
Depois do enterro, Aldren ofereceu sua casa para que os três passassem a noite. Era simples, mas havia espaço e calor. Uma lareira crepitava no cômodo principal, afastando o frio que persistia nas roupas e nos ossos.
Oliver e Jonathan logo foram se deitar. O cansaço do dia anterior e tudo o que havia acontecido os vencera, embora dormir não significasse encontrar descanso. Oliver permaneceu algum tempo de olhos abertos, escutando os estalos da madeira e tentando não pensar nos túmulos do lado de fora.
Perto da lareira, Erina estava sentada à mesa com Aldren. O fogo iluminava o rosto dela, mas não conseguia aquecer a tristeza que ainda carregava.
“Tio Aldren, como está o meu pai?”
O Orador permaneceu calado por alguns instantes. Baixou os olhos para as próprias mãos.
“Depois que sua mãe morreu e você decidiu ir embora, seu pai ficou extremamente triste por alguns anos. Afundou-se ainda mais nas bebidas, nas apostas e nas mulheres. Alguns anos atrás, decidiu partir com uma caravana mercante. Desde então, nunca mais tive notícias dele.”
“Entendo.”
Erina apenas assentiu, mantendo a cabeça baixa.
Oliver ficou quieto na cama. Não conhecia toda a história, mas sabia que Erina havia deixado Wintermere muito jovem. 12 anos antes, aos 15, ela partira com uma caravana mercante e nunca mais voltara. Agora, aos 27, estava de novo em sua terra natal, depois de perder os amigos que a acompanhavam. Sua mãe estava morta. Seu pai também havia desaparecido, embora ainda pudesse estar vivo.
Anos atrás, a doença da mãe de Erina não fizera o pai mudar de atitude. Ele continuara a beber, apostar e traí-la. Quando a mulher morreu, Erina culpou o pai e decidiu ir embora o mais longe que pudesse. Não queria voltar a vê-lo, nem continuar presa à lembrança daquela casa.
Aldren coçou a garganta.
“Preciso te contar uma coisa, entretanto.”
Erina ergueu a cabeça e prestou atenção.
“Alguns anos atrás, uma das mulheres com quem seu pai se relacionava deu à luz uma menina. A mulher não sobreviveu ao parto. Receio que você tenha uma irmãzinha.”
Erina piscou, surpresa.
Cornídeos carregavam uma herança infernal. Eram descendentes de pactos feitos com os corruptores incontáveis milênios atrás, e o sangue deles preservava a linhagem do inferno. Quando um cornídeo tinha um filho, era muito provável que a criança também pertencesse à mesma raça. Essa herança, porém, tornava o parto mais difícil. Não era incomum que mulheres de outras raças morressem ao dar à luz um cornídeo.
O pai de Erina era Cornídeo. Sua mãe, humana.
“Eu tenho uma irmãzinha?” Erina perguntou, ainda sem conseguir esconder o espanto.
“Sim. Lilith está sob os cuidados da tia Hilda.”
Oliver reconheceu o nome. Hilda era a senhora que os recebera na entrada da vila e os conduzira até a casa de Aldren.
Erina ficou em silêncio por um instante. A surpresa cedeu lugar a uma urgência tímida, como se ela receasse que a menina desaparecesse caso demorasse a pedir.
“Por favor, me leve até ela. Gostaria de vê-la.”
“É claro. Posso levar você até lá amanhã, no começo do dia. Por ora, descanse. Você deve estar cansada da jornada. Passou por muita coisa.”
Erina assentiu e se levantou. Antes de ir para a cama, olhou por um momento para o fogo. A luz tremulante desenhava sombras em seu rosto, e Oliver soube dizer o que ela sentia observando sua alma. Curiosidade e medo eram as principais emoções que dominavam Erina naquele momento, Erina parecia ansiar encontrar mais uma parte de uma família que acreditava ter deixado para trás.
…
Na manhã seguinte, Erina e Oliver acompanharam Aldren pelas ruas de Wintermere . Jonathan ficou na casa do Orador para descansar. A luz pálida do dia mal atravessava as nuvens, e a neve permanecia acumulada nos telhados e ao longo dos caminhos.
Oliver observou a vila com mais atenção do que no dia anterior. Enquanto caminhavam, tentou ocupar a mente com detalhes concretos, qualquer coisa que não o levasse de volta aos acontecimentos recentes.
“Pelo número de casas, essa vila deve ter cerca de 200 pessoas. É ainda menor que Corval. Também não vi nenhuma raça diferente de humanos por aqui.”
Apenas um dia havia se passado desde o que ocorrera em Corval. Oliver ainda estava abalado, mas se esforçava para distrair os pensamentos. Contar casas e comparar populações era mais fácil do que encarar o vazio deixado pela mãe.
Pouco depois, chegaram diante de uma casa simples. Hilda os esperava do lado de fora, como se soubesse exatamente quando apareceriam.
“Sejam bem-vindos. Por favor, acompanhem-me.”
Os quatro entraram. O interior era modesto, e alguns passos bastaram para alcançarem um cômodo amplo. No centro da sala, uma criança brincava no chão.
Ela tinha a pele rosada e um par de chifres finos e curvilíneos que se erguiam de sua cabeça. Uma cauda chicoteava o ar com energia, acompanhando os movimentos animados da menina. Seus olhos tinham pupilas vermelhas cercadas por escleras negras.
Era uma Cornídea.
Ao contrário de Erina, porém, não tinha asas.
Hilda chamou a atenção da criança imediatamente.
“Lilith, temos visita. Venha dar oi para sua irmã!”
A garota ergueu os olhos e olhou na direção de Erina.
“Irmã?”
Erina e Lilith se encararam por alguns instantes. A menina parecia tentar encontrar no rosto daquela desconhecida algum sinal que confirmasse as palavras de Hilda.
Erina foi a primeira a se aproximar. Abaixou-se diante da garota e abriu os braços, sem saber ao certo se seria recebida. Lilith hesitou por um instante, então se deixou envolver pelo abraço.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada.
Oliver observou em silêncio. Erina mantinha os olhos fechados, como se temesse que aquele momento desaparecesse caso os abrisse. Lilith, por sua vez, parecia fascinada. Seus olhos percorriam os chifres, as asas e a cauda de Erina, comparando cada detalhe com os próprios.
“Você é muito bonita”, foi a primeira coisa que Lilith disse.
Erina soltou uma risada baixa, ainda com a voz embargada.
“Você também é.”
Lilith tocou de leve uma das asas de Erina, curiosa. Depois olhou para a própria cauda, como se só então percebesse a semelhança entre as duas.
“Você é igual a mim.”
“Sou. Nós somos da mesma família.”
A menina voltou a abraçá-la, dessa vez sem hesitar. Erina apertou-a contra o peito e passou a mão pelos cabelos dela. Havia tristeza em seu rosto, mas também algo que Oliver não via desde que chegaram a Wintermere : um pouco de esperança.
“Você não vai estar mais sozinha, nunca mais”, Erina sussurrou.
Lilith não respondeu. Apenas escondeu o rosto no ombro da irmã.
A menina perdera a mãe antes mesmo de conhecê-la e passara a vida sob os cuidados de outras pessoas. Agora, pela primeira vez, tinha diante de si alguém que compartilhava seu sangue.
Erina afastou-se apenas o suficiente para olhar Lilith nos olhos.
“Eu vim para conhecer você. E, se quiser, podemos passar o dia juntas.”
“Você vai embora depois?”
A pergunta fez o sorriso de Erina vacilar. Ela olhou para Hilda, depois para a menina. Oliver não sabia qual seria a resposta, nem o que Erina faria dali em diante.
Mas Erina segurou as mãos de Lilith entre as suas.
“Não vou deixar você sozinha. Vamos conversar sobre tudo, está bem?”
Lilith assentiu, satisfeita com aquilo por enquanto. Então puxou Erina pela mão, ansiosa para mostrar os brinquedos espalhados pelo chão.
Erina a acompanhou. Pela primeira vez naquela manhã, seu riso encheu a casa.
Oliver ficou perto da entrada, sem interrompê-las. Do lado de fora, a neve cobria Wintermere em silêncio. Dentro da casa, porém, duas irmãs começavam a se conhecer e, por alguns instantes, o passado pareceu pesar um pouco menos.