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CAPÍTULO 79 – BRINCADEIRAS

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CAPÍTULO 79 – BRINCADEIRAS

Enquanto as duas irmãs brincavam juntas na sala, Oliver se juntou a Hilda e Aldren no cômodo ao lado. Os adultos tinham deixado a porta entreaberta, de vez em quando, chegavam até eles as risadas de Lilith e Erina.

Oliver observou a casa simples por um momento antes de voltar a atenção para os anfitriões.

“Por que só existem humanos nesta vila?”

A pergunta saiu sem rodeios. Hilda e Aldren trocaram um olhar, surpresos. Desde que chegara a Wintermere com Erina, o garoto quase não havia falado.

Aldren apoiou os braços nos joelhos e respondeu:

“Este é um assentamento humano. Os primeiros moradores também eram humanos, então não é estranho que seus descendentes sejam iguais.” Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. “Além disso, quase nunca recebemos gente de fora. E não há nada por aqui que convença um viajante a ficar.”

“Entendo.” Oliver lançou um olhar para a sala ao lado. “Lilith deve sofrer bastante por ser a única cornídea da vila, não?”

O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente. Hilda baixou os olhos para as mãos, Aldren deixou de lado o sorriso cordial. Oliver percebeu que havia tocado em um assunto sensível.

“Eu tento não deixá-la sair sozinha”, disse Hilda, por fim. “As pessoas costumam temer aquilo que não conhecem. Ela ainda é só uma criança, mas tenho medo de que alguém a machuque por ser diferente.”

A melancolia na alma de Hilda era nítida para Oliver. Ele desviou o olhar, dando à mulher espaço para recompor-se.

“Os dois parecem ser pessoas sábias e inteligentes.” Oliver avaliou, ao contrário do Orador de Corval, Silas Greymark, eles pareciam pessoas boas e altruístas, com certeza eram bons líderes.

Oliver não sabia com certeza a posição da velha Hilda na vila, mas pelo pouco que ele observou, ela não tinha menos autoridade que o Orador Aldren.

Aldren acompanhou o olhar do garoto até a porta entreaberta.

“Por que não vai brincar com elas? Vejo que a aparência de Lilith não te assusta. Talvez vocês se deem bem.”

“Brincadeiras infantis não me interessam.”

Hilda conteve um sorriso, enquanto Aldren soltou uma risada discreta. Oliver podia ter o corpo de uma criança, mas raramente agia como uma.

“Oliver, venha aqui!”, chamou Erina da sala ao lado.

Ele se levantou e atravessou a porta. Lilith estava sentada no chão ao lado de Erina, cercada por bonecas e pequenos brinquedos. Assim que o viu, a menina arregalou os olhos e apontou para as orelhas dele.

“Você é um elfo!”

“Meio-elfo”, corrigiu Oliver. “As orelhas dos elfos puros são ainda maiores.”

Lilith inclinou a cabeça, examinando uma orelha e depois a outra, como se tentasse imaginar quanto maiores poderiam ser.

“Por que não se junta a nós?”, perguntou Erina, afastando um brinquedo para abrir espaço.

“Tia Erina, você sabe melhor do que ninguém que eu não gosto de brincadeiras.”

“Não foi uma sugestão. Sente-se.”

Oliver ficou imóvel por um instante, surpreso com a ordem. Erina ergueu uma sobrancelha. Ele acabou cedendo e se sentou no tapete, diante da coleção de brinquedos.

Lilith logo escolheu uma boneca de vestido azul e a ergueu para ele.

“Esta é a princesa Lila. Ela mora num castelo e tem que salvar o reino!”

“E como ela vai salvar o reino?”, perguntou Oliver, esforçando-se para parecer interessado.

“Com a ajuda da capitã Marta!” Lilith pegou outra boneca, desta vez com uma capa vermelha. “Ela é muito corajosa.”

“Parece mesmo”, disse ele, examinando a boneca com atenção. “Acho que a capitã Marta sabe lutar melhor do que os guardas do castelo.”

Lilith sorriu, satisfeita por ele levar a história a sério, e começou a explicar quem eram os outros personagens. Oliver escutou e fez perguntas de vez em quando. A brincadeira não o empolgava, mas a animação da menina tornava difícil ignorá-la.

Depois de apresentar quase todas as bonecas, Lilith se sentou de pernas cruzadas e o encarou.

“Quantos anos você tem?”

“Sete. E você?”

“Oito. Sou mais velha que você, então tem que me respeitar. A vó Hilda sempre diz que a gente tem que respeitar os mais velhos.”

Erina soltou uma gargalhada. Oliver olhou para ela, pouco satisfeito com a situação. Tinha sete anos naquele corpo, sua mente, porém, carregava uma vida inteira de lembranças de adulto.

“É verdade”, respondeu ele, contendo um suspiro. “Mas eu sei fazer uma coisa. Você sabe fazer isso?”

Oliver decidiu tentar algo. Ele gostaria de fazer um truque chamativo e inútil. Já havia tido sucesso em outras tentativas de magia irregular, não imaginou sua tentativa agora dando errado.

Ele ergueu a mão e reuniu um pouco de mana na ponta dos dedos. O fluxo era constante, Oliver conseguiu comprimi-lo o bastante para produzir uma sequência de pequenas luzes coloridas. Elas se acenderam e se apagaram no ar, acompanhadas por estalos suaves, semelhantes a fogos de artifício minúsculos.

O ar era um péssimo condutor de eletricidade. Normalmente, as moléculas que o compunham permaneciam neutras, incapazes de transportar uma corrente significativa. Mas isso mudava quando a diferença de potencial se tornava grande o bastante.

Ele concentrou a mana em pontos cada vez menores, forçando pequenas regiões do ar a acumularem cargas opostas. Em seguida, comprimiu o campo elétrico até que se tornasse intenso o suficiente.

Um elétron livre foi acelerado.

Então outro.

As colisões começaram.

Um elétron arrancou outro de uma molécula, os dois foram lançados adiante e fizeram o mesmo com outras. Uma pequena avalanche de partículas carregadas se formou em uma região microscópica do ar.

Por um instante, aquele ponto deixou de ser apenas ar.

Tornou-se plasma.

E o plasma brilhou.

É isso…

Oliver manteve a concentração.

Não precisava de uma descarga grande. Na verdade, uma descarga grande seria justamente o que ele não queria. Bastava permitir que a ionização surgisse por um instante e interrompê-la antes que a energia se acumulasse.

Ele repetiu o processo em vários pontos ao redor da própria mão.

Uma faísca.

Depois outra.

Mais duas.

Pequenos pontos luminosos surgiram no ar, alguns azulados, outros violetas e esbranquiçados. Cada um durava apenas uma fração de segundo antes de desaparecer, deixando para trás um estalo quase imperceptível.

Oliver moveu os dedos.

As pequenas descargas acompanharam o movimento, espalhando-se pelo espaço como um punhado de estrelas minúsculas.

A criança ficou imóvel.

Oliver sorriu.

Era uma magia completamente inútil.

Não poderia ferir ninguém. Não aqueceria sequer uma xícara de água. Todo aquele esforço servia apenas para produzir alguns pontos de luz que desapareciam quase imediatamente.

Mas, naquele momento, isso não importava.

Ele havia conseguido fazer estrelas.

Lilith ficou de boca aberta. As luzes refletiram em seus olhos vermelhos enquanto ela acompanhava cada faísca.

“Uau!”

Oliver deixou as últimas luzes desaparecerem e baixou a mão.

“Quem sabe fazer coisas legais também merece respeito”, disse, como se aquela fosse a conclusão mais óbvia do mundo.

Erina voltou a rir intensamente. Lilith, ainda impressionada, aproximou uma das bonecas dele.

“Então a princesa Lila também vai querer aprender magia.”

“Nesse caso, ela vai precisar de um bom professor”, respondeu Oliver.

“Você pode ensinar!”

Ele olhou para a boneca, depois para Lilith. A menina esperava uma resposta com tanta expectativa que Oliver não teve coragem de recusar.

“Posso tentar.”

Lilith comemorou e retomou a história, agora incluindo magia no destino do reino. Oliver se acomodou no tapete. Ainda preferia conversas e atividades mais sérias, mas, enquanto a menina falava, a tristeza dos acontecimentos recentes parecia ficar um pouco mais distante.