CAPÍTULO 80 – PROMESSA DE DEDINHO
CAPÍTULO 80 – PROMESSA DE DEDINHO
No cômodo ao lado, Aldren e Hilda interromperam a conversa quando um brilho colorido escapou pela porta entreaberta.
“O que foi isso?”, perguntou Hilda.
“Eu ia perguntar a mesma coisa”, respondeu Aldren.
Os dois se aproximaram da porta. Do outro lado, ouviram Lilith soltar uma exclamação maravilhada. Pequenas luzes cintilavam ao redor de Oliver, acendendo e desaparecendo como estrelas ao alcance das mãos.
Hilda levou os dedos aos lábios, surpresa. Aldren também ficou em silêncio por alguns instantes, observando o espetáculo.
“Ele está usando magia?”, murmurou ela.
“Parece que sim.”
Uma porção de perguntas surgiu na mente dos dois. Quem era aquele menino, de onde vinha, e por que um mago ou feiticeiro tão jovem estava viajando com Erina? Ainda assim, Lilith ria com tanta alegria que Hilda hesitou em interromper. Aldren percebeu a decisão dela e assentiu de leve.
“Perguntamos depois”, disse ele.
Hilda voltou para junto dele, mas continuou lançando olhares à porta. Do outro lado, a aventura da princesa Lila e da capitã Marta ganhava novos rumos a cada faísca que Oliver fazia surgir.
“Agora a capitã Marta tem poderes mágicos!”, anunciou Lilith, erguendo a boneca de capa vermelha.
“Só por um tempo”, explicou Oliver. “A magia dela acaba quando as luzes desaparecem.”
“Então ela precisa salvar o reino depressa!”
“Essa parece uma boa estratégia.”
Erina acompanhava a brincadeira com um sorriso. Oliver fazia perguntas sobre o reino e os inimigos, e Lilith respondia com seriedade, como se comandasse uma verdadeira missão. Quando a menina se confundia no meio da história, ele a ajudava a encontrar um novo caminho para a capitã Marta.
As luzes voltaram a brilhar, desta vez em volta da boneca. Lilith bateu palmas, mas logo um bocejo escapou de seus lábios. Ela esfregou os olhos e, mesmo assim, apertou a boneca contra o peito.
“Acho que a capitã Marta precisa descansar”, sugeriu Hilda, que havia aparecido à porta.
Lilith balançou a cabeça, teimosa.
“Não quero. Ela ainda precisa salvar o reino.”
“Mas até os heróis precisam dormir”, disse Erina.
“E se os vilões atacarem enquanto ela estiver dormindo?”
Oliver olhou para a boneca em sua mão, ponderando a questão.
“A princesa Lila pode ficar de guarda. A capitã Marta já fez bastante por hoje.”
Lilith considerou a ideia. Seus olhos estavam quase fechados, mas ela ainda lutava para mantê-los abertos.
“Você volta para brincar comigo outra hora?”, perguntou, num tom mais baixo.
“Volto”, respondeu Oliver. “A gente pode continuar a aventura.”
“Promete?”
“Prometo.”
Oliver estendeu o dedo mínimo. Lilith entrelaçou o dela no dele, com um sorriso sonolento.
“Promessa de dedinho não pode ser quebrada”, declarou ela.
“Entendido, capitã.”
Hilda a pegou no colo. Lilith ainda tentou protestar, mas apoiou a cabeça no ombro da cuidadora antes de terminar a frase.
“Boa noite, capitã Marta”, despediu-se Oliver.
“Boa noite… Oliver”, murmurou Lilith, já quase dormindo.
Hilda a levou para o quarto. Erina começou a recolher as bonecas, enquanto Oliver observava o próprio dedo mínimo, como se ainda sentisse ali o peso daquela promessa.
Quando Hilda voltou, encontrou Erina junto aos brinquedos. Oliver permanecia sentado no tapete.
“Erina”, começou Hilda, falando num tom baixo, “aquele garoto é um mago? Ou talvez um feiticeiro?”
Oliver ergueu os olhos para ela. Por um instante, apenas a encarou, surpreso por ser discutido como se não estivesse ali.
“Eu estou bem aqui”, disse ele. “Podia simplesmente perguntar para mim.”
Hilda piscou, pega de surpresa. Erina conteve um sorriso.
“Tem razão. Desculpe, Oliver. Então, o que você é?”
“Um mago de 1º Ciclo”, respondeu ele. “Jonathan também.”
“Jonathan?”, repetiu Hilda. “O outro garoto?”
“Sim. Ele é um pouco mais velho do que eu.”
“E você já consegue fazer tudo aquilo com apenas 7 anos?” Hilda olhou para os dedos dele, como se ainda esperasse ver as luzes surgirem.
“Não é tão impressionante quanto parece”, respondeu Oliver. “É apenas um truque barato, não serve para muita coisa.”
“Lilith achou impressionante”, observou Erina.
Oliver desviou o olhar para as bonecas espalhadas pelo tapete.
“Ela gostou.”
Ele havia passado tanto tempo com Erina e Archibald que quase se esquecera de como era ser tratado como uma criança. Para eles, sua idade nunca apagava o que sabia ou o que podia fazer. Hilda, por outro lado, parecia surpresa com cada resposta e, ainda assim, tinha confiado a ele a alegria de Liith sem hesitar.
“Obrigada por brincar com ela”, disse Hilda. “Fazia tempo que eu não a via tão feliz.”
Oliver ficou quieto por um momento.
“Eu prometi voltar.”
“Então vou cobrar essa promessa”, disse Hilda, com um sorriso afetuoso.
“Pode cobrar.”
Erina terminou de guardar os brinquedos e lançou a Oliver um olhar divertido.
“Parece que agora você tem uma missão.”
“Salvar o reino?”, perguntou ele.
“Não. Voltar para brincar com Lilith.”
Oliver soltou um suspiro, mas não contestou. Afinal, uma promessa de dedinho não podia ser quebrada.
…
No caminho de volta à casa de Aldren, o grupo passou diante de uma construção imponente. Ela se destacava das demais casas da vila, tanto pelo tamanho quanto pelo estado de conservação.
Erina diminuiu o passo para observá-la.
“Tio Aldren, essa casa ainda está à venda?”
Aldren acompanhou o olhar dela até a construção.
“Nunca deixou de estar. Foi erguida quando a vila foi fundada, mas custa mais do que a maioria dos moradores poderia pagar.”
Oliver também examinou a fachada. A casa parecia grande demais para uma vila tão pequena.
“Quanto estão pedindo por ela?”, perguntou.
“100 peças de ouro.” Aldren suspirou. “É bem menos do que ela vale, para ser sincero. Mas, se conseguíssemos vendê-la por esse preço, o dinheiro ajudaria bastante a vila.”
Oliver não demorou a responder:
“Então eu vou comprá-la.”
Aldren parou no meio do caminho e voltou-se para ele, sem esconder a surpresa.
“Você está falando sério?”
“Estou.” Oliver sustentou o olhar dele. “Se esse dinheiro pode ajudar a vila, não vejo motivo para deixar a casa vazia.”
Erina olhou de Oliver para Aldren, como se ainda esperasse que um dos dois explicasse melhor aquela decisão. Aldren, porém, continuou encarando o menino, atônito.
Quando chegaram à casa, os pertences de Eliandris, Archibald e Grim ainda estavam guardados ali. Entre eles havia uma bolsa de couro negro com o dinheiro que Eliandris havia “pego” de Balthazar em Corval.
Oliver e Erina se aproximaram para conferir o conteúdo. Ao verem a quantia, os dois arregalaram os olhos.