Do Diário de uma Suculenta (e outras testemunhas verdes)
Do Diário de uma Suculenta (e outras testemunhas verdes)
Dia 15 de julho
Meu nome é Suculenta. Não tenho um nome bonito como "Rosa-do-deserto" ou "Lírio-da-paz" – sou apenas uma suculenta gordinha, de folhas carnudas, que Utahime Iori ganhou de presente de uma aluna grata. Fico no parapeito da janela do escritório dela, na escola de feitiçaria. Minha vida é pacífica: sol da manhã, água às quintas, e a voz rouca dela cantarolando músicas antigas enquanto classifica relatórios.
Mas tudo mudou quando ele começou a aparecer.
Satoru Gojo.
Ah, se minhas folhas pudessem murchar de vergonha só de lembrar. Ele entra sem bater, senta na mesa dela com as pernas cruzadas (deslocando meu vaso algumas vezes), e diz coisas como:
— Utahime, você está mais bonita que a primavera. E olha que eu odeio primavera, dá alergia.
Ela sempre responde com um "cala a boca, Gojo" e um tapa no ombro dele. Mas eu vejo. Eu vejo o leve rubor que sobe no rosto dela, mesmo quando ela vira para a janela e finge que está irritada.
As outras plantas do escritório – a samambaia pendurada e o cacto no canto – também percebem. A samambaia balança os frondes como se dissesse: "Eles são ridículos." O cacto, mais direto, apenas pensa: "Espeta ele, Utahime. Espeta."
Mas ela nunca espeta. Ela só suspira e diz:
— Se você está aqui, é porque não tem nada melhor para fazer. Por que não vai atormentar o Megumi?
— Porque o Megumi não fica vermelhinho quando eu chego perto — ele responde, e aí a Utahime joga uma borracha nele.
Perfeito. Eu amo esse drama.
Dia 20 de julho – Tempestade à tarde
Hoje houve um confronto. Não com maldições – entre eles.
Ela estava regando a samambaia (que, convenhamos, é muito dramática – precisa de umidade constante, senão murcha e faz birra) quando ele apareceu com uma caixa de bombons.
— Eu trouxe para a minha cantora favorita.
Utahime congelou. A samambaia quase caiu do suporte.
— Gojo, quantas vezes eu já disse que não sou sua? — ela disse, com a voz tremendo um pouco.
— Você é minha amiga, Utahime. E ponto. — Ele colocou a caixa sobre a mesa. — Mas se você quiser ser mais, é só pedir.
Ela ficou em silêncio. Eu, do parapeito, segurei minhas folhas bem firmes para não cair de nervoso.
Então ela pegou a caixa, abriu, comeu um bombom e disse:
— Você é um idiota.
— Mas você gosta de idiotas.
— Não gosto.
— Mentirosa.
Ela não respondeu. Mas comeu outro bombom. E, quando ele saiu, ela encostou a testa na janela, bem perto de mim, e sussurrou:
— Por que tem que ser tão difícil?
Ah, Utahime. Eu sou só uma suculenta, mas até eu sei: amor é que nem luz do sol. Às vezes queima, às vezes faz florescer. Mas sempre faz crescer.
Dia 27 de julho – Dia de Levar as Plantas para Passear
Hoje é o dia.
Utahime apareceu no escritório com uma bolsa e me pegou no colo.
— Vamos dar uma volta, suculenta. Você precisa ver o sol de verdade.
Eu fiquei radiante (literalmente). Ela me levou para o jardim da escola, e lá estava ele. Gojo. Deitado na grama, com os óculos escuros, parecendo um modelo de revista. Ele abriu um sorriso quando nos viu.
— Até que enfim você traz a planta para conhecer o exterior. Eu já estava pensando em batizar ela de "Utahime Jr."
— Ela se chama Suculenta. E não é sua.
— É minha sim. Tudo que é seu é meu, lembra?
Ela sentou ao lado dele, me colocou no chão entre os dois. Eu senti a grama, o vento, o cheiro de terra molhada. Mas mais que tudo, senti a presença dele. Ele tirava os óculos e olhava para ela de um jeito que até a samambaia ficaria sem fôlego.
— Utahime — ele disse, mais baixo agora. — Você me deixa levar ela para passear amanhã?
— Ela não é um cachorro.
— Mas eu quero um motivo para voltar a te ver amanhã. E depois de amanhã. E todos os dias.
Ela respirou fundo. Eu vi suas mãos trêmulas tocarem a terra perto de mim.
— Satoru…
— Diz meu nome de novo.
— Se você não parar, eu vou te amaldiçoar.
— Você já me amaldiçoou. No momento em que me olhou pela primeira vez.
Folhas de cacto, que homem dramático.
Mas Utahime riu. Um riso genuíno, daqueles que ela esconde atrás da mão. E, quando ele se inclinou para roubar um beijo, ela não desviou. Ela apenas fechou os olhos.
Eu, modesta suculenta, fui a única testemunha daquele beijo ao pôr do sol. A samambaia estava longe demais para ver. O cacto, nem se fala.
E, quando eles se separaram, Gojo olhou para mim e disse:
— Você também ganhou um pouco de sol, hein, Suculenta? Tá mais verdinha.
— Ela sempre foi verde, idiota.
— Mas agora brilha mais. Igual você.
Ah, Satoru Gojo. Você pode ser um completo imbecil, mas entende de amor mais do que qualquer mestre de jujutsu.
Dia 2 de agosto – Cinzas de manhã
O desafio acabou. Utahime fechou o caderno e guardou o celular. Eu esperava que o clima voltasse à normalidade – sol, água, e as visitas diárias de Gojo com seus bombons e piadas infames.
Mas a normalidade não veio.
Ele não apareceu ontem. Nem hoje.
E Utahime... ela não cantarolou. Ela apenas ficou sentada, olhando para a caixa de bombons vazia, com os dedos tamborilando na madeira da mesa. A samambaia, sentindo a tensão, contraiu seus frondes como quem encolhe diante de uma tempestade. O cacto, silencioso, apenas observava.
– Utahime — sussurrei em pensamento, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir. — Você está preocupada.
Ela estava. Eu via nos olhos dela, na forma como mordia o lábio inferior. Mas ela não disse nada. Apenas pegou a bolsa, ajustou o quimono e saiu para mais um dia de aulas.
Foi quando o telefone tocou. Ela atendeu, e a voz do outro lado – grave, tensa – disse algo que fez o sangue escoar do rosto dela.
– O Gojo? — ela perguntou. — Ele está... O quê?
Eu, do parapeito, senti o ar mudar. Até a samambaia parou de balançar.
– Que maldição especial de grau S? — Utahime apertou o celular contra a orelha. — E ele foi sozinho? Mas... — ela fez uma pausa. A voz engasgou. — Certo. Estou indo.
Ela desligou e, por um instante, ficou imóvel. O sol da manhã batia em seu rosto, mas não a aquecia. Havia algo gelado ali, um medo que eu nunca tinha visto antes.
– Ele sempre faz isso — murmurou para ninguém, ou talvez para mim. — Sempre vai na frente. Sempre se coloca no perigo porque acha que é invencível.
Ela apertou os olhos e, antes de sair, colocou a mão sobre o meu vaso.
– Se ele não voltar, eu... — Ela não terminou a frase. Apenas saiu correndo.
Dia 3 de agosto – A espera
Ela voltou no meio da noite. A lua estava alta, e o escritório estava escuro quando a porta se abriu devagar. Utahime não acendeu a luz. Ela apenas caminhou até a janela, deixou a bolsa cair e se sentou no chão, com as costas apoiadas na parede.
Eu a observei. Seu cabelo estava desfeito, suas vestes sujas de fuligem e sangue seco. Mas não era sangue dela. Era dele.
– Ele está vivo — ela disse, a voz rouca, como se precisasse ouvir aquilo em voz alta para acreditar. — Está no hospital do clã Gojo. Disseram que ele usou energia amaldiçoada em excesso. Que se queimou por dentro para proteger os outros.
A samambaia tremeu. O cacto ficou em silêncio absoluto.
Utahime apoiou a cabeça nos joelhos e, pela primeira vez desde que eu a conheci, ela chorou.
Não eram lágrimas de frustração ou raiva. Eram lágrimas de um medo tão profundo que parecia envenenar o ar. Eu, modesta suculenta, senti a umidade do seu choro escorrer até a terra do meu vaso, como se ela me regasse com sua dor.
– Ele não pode morrer — ela sussurrou. — Ele não pode. Porque se ele morrer, o que sobra? O que sobra de mim?
Ela levantou o rosto e olhou para a lua, e eu vi algo que nunca tinha visto antes em Utahime Iori: uma fragilidade que ela escondia atrás de sorrisos amargos e tapas na nuca do Gojo.
– Eu passo anos fingindo que o odeio — continuou ela. — Anos fingindo que a presença dele me irrita, que ele é um incômodo, que eu preferia que ele sumisse. Mas a verdade... a verdade é que ele é a única luz que ilumina esse mundo sombrio de merda.
Ela riu, um riso amargo e molhado.
– E agora ele está lá, deitado numa cama de hospital, porque achou que podia enfrentar uma maldição sozinho. Porque sempre acha que precisa carregar o mundo nas costas. O idiota.
Eu queria poder estender uma folha e tocar sua mão. Mas sou apenas uma planta. O que posso fazer senão testemunhar?
– Utahime — a samambaia parecia querer dizer. — Vá vê-lo.
Mas Utahime já estava se levantando. Ela limpou o rosto com a manga do quimono, e a máscara de "professora forte e impassível" voltou a se encaixar.
– Amanhã cedo vou lá — disse ela, mais para si mesma do que para o universo. — E quando ele acordar, vou dar um tapa tão forte nele que ele vai sentir até na próxima encarnação.
Um sorriso triste. Mas um sorriso, afinal.
Dia 4 de agosto – O encontro no quarto de hospital
Eu não fui levada. Claro, uma suculenta não entra em UTI de feiticeiros. Mas Utahime, ao voltar, me contou tudo enquanto me colocava no parapeito para tomar o sol da tarde.
O quarto era branco. Muito branco. E Gojo estava lá, com os olhos vendados, mas não por estilo – dessa vez, porque a luz o machucava. A maldição atacou sua percepção sensorial, disseram os médicos. Ele passaria alguns dias sem usar os Seis Olhos plenamente.
Ela entrou e ficou parada na porta. Ele, mesmo ferido, a sentiu.
– Utahime — ele disse, a voz mais fraca do que o normal. — Você veio. Sabia que você viria. Apostei com o Shoko que você não viria, mas eu ganhei. Sempre ganho.
Ela não riu. Ela andou até a cama, sentou ao lado e, em vez de dar o tapa prometido, apenas segurou a mão dele. A mesma mão que conjurava vermelhos e azuis, que matava maldições com um estalar de dedos – agora fria, trêmula, humana.
– Satoru — ela chamou, sem o sobrenome. Sem o tom de briga. Apenas o nome, como se fosse uma oração.
Ele abriu os olhos sob a venda, e embora não pudesse ver direito, ele virou o rosto na direção dela.
– Você está tremendo — ele disse. — Por que está tremendo?
– Porque você é um idiota — respondeu ela, a voz embargada. — Porque você quase morreu. Porque se você morresse, eu...
– Não ia morrer — interrompeu ele, com um sorriso fraco. — Você está aqui. Você é minha boa sorte, Utahime. Enquanto você estiver viva, o Satoru Gojo é imortal.
Ela apertou a mão dele com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
– Não diga essas coisas. Não brinque com isso.
– Não estou brincando.
Silêncio. O sol entrava pela janela do hospital, e Utahime inclinou a cabeça, encostando a testa na mão dele. Sussurrou:
– Você sempre faz isso. Sempre vai na frente. Sempre carrega tudo sozinho. Mas você não precisa, Satoru. Não precisa ser o herói solitário. Eu estou aqui. Posso não ser forte como você, mas... posso ficar ao seu lado. Posso segurar sua mão enquanto você descansa.
Ele ficou em silêncio por um longo momento. Depois, sua mão livre subiu até o rosto dela, tocou sua bochecha.
– Você é mais forte do que qualquer um, Utahime. Porque você ama mesmo sabendo que pode perder. Isso exige uma coragem que eu nunca tive.
Ela riu, dessa vez um riso verdadeiro, entre lágrimas.
– Quem diria. O Satoru Gojo, confessando fraquezas.
– Só para você — ele disse. — Sempre só para você.
Dia 5 de agosto – O retorno
Gojo recebeu alta no quinto dia. Utahime foi buscá-lo. E, quando ele entrou no escritório dela, eu quase soltei minhas folhas de emoção.
Ele estava mais pálido, mais magro, e ainda usava uma venda mais grossa. Mas o sorriso estava lá.
– Olha só — ele disse, parando em frente ao parapeito. — Suculenta. Cuidou bem dela, Utahime?
– Ela cuida de mim — respondeu Utahime, surpreendentemente honesta. — Ela ouve todos os meus segredos.
Gojo se virou para ela, e mesmo cego parcialmente, seus olhos encontraram os dela.
– Então ela sabe que você me ama.
– Ela sabe — Utahime respondeu, sem desviar. — E sabe que você é um idiota. Mas eu também. Acho que somos dois idiotas.
Ele estendeu a mão para ela, e ela a tomou.
– Vamos passear com a Suculenta? — perguntou ele. — O desafio acabou, mas o sol de agosto ainda está aí.
Ela concordou. E, enquanto ela me pegava do parapeito, a samambaia balançou em aprovação. O cacto, com sua sabedoria espinhosa, pensou: "Finalmente."
Querido diário – O que eu aprendi
Meu nome é Suculenta. E agora entendo o que Utahime quis dizer com "mais sol, menos drama".
O drama não é a briga. O drama é o silêncio entre um "oi" e um "tchau". O drama é o medo de perder alguém que você ama, e a coragem de amar mesmo assim.
O sol não é apenas a luz do dia. É a presença de quem você escolhe, mesmo quando o mundo está escuro.
Eles ainda discutem. Ainda jogam borrachas. Mas agora, quando Utahime se vira para a janela, Gojo está sempre lá. E quando ele sai para uma missão, ela não fica mais paralisada pelo medo.
Ela reza. E ele volta.
Porque o amor, mesmo visto pelos olhos de uma suculenta, é a maior técnica amaldiçoada de todas: a que nos faz querer viver, mesmo sabendo que um dia vamos morrer.
E isso, meus caros leitores, é mais forte que qualquer azul ou vermelho.
Fim (ou talvez não, porque agosto só começou).