Música silenciosa
Música silenciosa
Eu estava cansado. Muito cansado. A vontade de perecer me acompanhava a cada instante, mas parecia que eu não conseguia sequer reunir força de vontade para me matar e acabar com aquele sofrimento.
De vez em quando, pensava comigo mesmo: será que a minha morte me despertaria daquele pesadelo? Essa ideia assombrava a minha mente todos os dias. O suicídio, que antes era uma opção, havia se tornado algo que eu nunca alcançaria.
Lutava incessantemente, sem saber ao certo quantos anos haviam se passado. Dez? Vinte? A sensação era de uma luta constante, e o mesmo roteiro sempre se repetia, mesmo em locais diferentes, desde que tudo aquilo começou.
Mais uma vez, encontrava-me numa era diferente. Era difícil dizer. O mundo atual estava destruído, com prédios em ruínas, não muito diferente do meu antigo mundo. Ao observar os arranha-céus desmoronados, lembrava-me de Nova York.
Nunca estive naquele país, mas aquela estátua com o rosto de uma mulher, elevando alguma coisa na mão, lembrava-me muito a Estátua da Liberdade. O que mais me dava certeza, porém, era a coroa de sete pontas. E, sem querer ser machista, eram poucas as estátuas de mulheres que eu conhecia.
No entanto, tudo estava acabado. Parecia que séculos haviam se passado para que tudo estivesse tão deformado.
E lá estavam eles, os humanos cantores. Cantavam incessantemente para me abater.
E de onde eu poderia estar a observar? Bem, estava sentado num banco de praça que, com um peso maior que o meu, cairia para trás. Antes que pudesse me levantar, meus olhos, já cansados, olharam para baixo e me lembraram da minha primeira rejeição.
Droga… por que sentei aqui ?
Vocês já devem ter passado por isso, não é? Na adolescência, exclusivamente na puberdade. Diferente da minha versão atual, que aparenta ter um rosto de alguém que nunca tirou folga durante meses, aquela minha fase esboçava energia.
Bom, eu não era muito bonito, mas a minha aparência um pouco acima da média me deixava confiante. Com um cabelo preto emoldurava o meu rosto e olhos negros que fixavam a mulher se aproximando de mim.
Esquece? Não temos tempo para contar a história da minha primeira confissão num banco de praça, não é? Visto que eles estavam cada vez mais perto.
Dezenas de humanos deformados com várias notas musicais escritas na sua pele. Sempre tentei entender essas coisas no corpo deles, mas nunca cheguei a uma conclusão.
As suas bocas sempre estavam se mexendo, como se fosse um profissional cantando. Eu diria que era a única coisa normal nesse tipo de seres modificados.
Logo, aconteceria de novo. Talvez desta vez fosse mais rápido. Olhei ao redor e percebi que já acontecia. Os humanos deformados não entendiam por que suas músicas não me afetavam. Sempre foi assim, milhares e milhares de vezes.
— Ups!
Nem sei o que eu disse. Fazia tanto tempo que não sentia a sensação de ouvir uma boa música. Eu adorava escutar meus raps geeks enquanto dedilhava minha guitarra. Aquilo era excitante, mas agora só sentia um vazio.
De repente, o primeiro deles começou a correr em minha direção. Era ligeiramente gordo, e sua figura grotesca balançava de maneira desajeitada enquanto vinha me atacar.
Como percebeu que seus cantos não funcionavam, partiu para a agressão. Lá se ia o provérbio: se palavras não resolvem, a violência é a resposta.
Aquela coisa, com o corpo a pesar mais de cem quilos, pulou em minha direção. Eu, que não era idiota, pulei para o lado. Mesmo que, por um momento, tivesse pensado que morrer pisoteado não seria tão ruim, como sempre, minha vontade de lutar era maior.
Lá se vão as memórias da minha primeira rejeição.
Lembro-me de quando comecei a lutar com esses seres humanos nus. Se não me engano, foi na época em que eu estava deitado na minha cama e algo grande e gordo pulou sobre mim. Dei sorte naquele dia; aquilo aconteceu justamente no momento em que eu despertava.
Apertei firmemente minha espada japonesa, mais propriamente uma katana. Pelo tamanho do inimigo, aquele comprimento era suficiente. Corri em sua direção com a cara de quem comeu rato e não gostou.
Pulei alto, sentindo a adrenalina percorrer meu corpo e me pedir para cortar. O ser deformado cheirava mal pra caralho. Parecia que a pessoa não via um chuveiro desde os tempos das cavernas. O cheiro de seu suor era horrível, mas aquele era um pouco diferente. Sua genitália cheirava pior ainda, um odor com o qual eu ainda não havia me acostumado.
Por causa desses cheiros, desenvolvi um método de respiração que me permitia, em vez de respirar somente pelo nariz, respirar pela boca. Ao descobrir que aquilo funcionava bem, pratiquei até conseguir respirar pela boca e lutar ao mesmo tempo por longos períodos, sem perder o fôlego.
O deformado me encarou com seus olhos vazios. Em seguida, desferi um corte vertical contra ele e gritei:
— Dó!
Infelizmente, meu corte não funcionou. Como sempre, a ressonância que senti no meu corpo foi como bater ferro contra ferro, e a vibração se propagou pela minha pele. Era desconfortável no início, mas, após tantas milhares de vezes, eu me acostumei. Cheguei até a achar aquela sensação gostosa.
— Mi!
De novo, falhou. Toda vez era assim. Para cada humano deformado, havia uma sequência de notas musicais que eu precisava seguir. Eram sete no total, e eu tinha que descobrir a sequência de cada um. Às vezes, era necessário atingi-lo milhares de vezes até acertar a combinação certa.
Conseguem entender, não é? Aquilo era angustiante, pior do que a minha primeira desilusão amorosa. Diziam que ninguém vencia um homem paciente, mas eu já estava de saco cheio de repetir a mesma coisa tantas vezes.
E, como eram muitos inimigos, eu não podia perder de vista o ser que havia começado a cortar. Como não tinha uma ótima memória, se outro deformado me atacasse e perturbasse minha paz durante minutos ou até horas, provavelmente esqueceria daquele com quem eu poderia já estar avançado nas notas musicais.
O esforço contínuo, a repetição interminável de cortes, tudo isso pesava sobre mim. Perdia a conta de quantas vezes começava a sequência correta apenas para ser interrompido por outro ataque e forçava-me a recomeçar.
Era extremamente, extremamente frustrante. Pior que ver sua namorada te traindo com outro, ainda colocar a culpa em você e, para piorar, virar piada entre os amigos.
— Si!
Dessa vez, funcionou. Consegui cortar o demônio. Mas o corte não era como se fosse em um humano de verdade. Era mais parecido com aqueles jogos de RPG em que é preciso atacar várias vezes até o monstro ficar finalmente sem HP. A diferença é que você sente a pele do ser sendo cortada, mesmo que não seja de verdade.
— Dó!
Errei a sequência e senti aquela vibração gostosa. Teria que tentar novamente. Droga! De novo e de novo! Era exaustivo, mais do que o cansaço físico. Minha mente estava tão fatigada quanto meu corpo, mas não havia como parar. Algo me impulsionava, como se eu estivesse amaldiçoado a viver aquele pesadelo.
Às vezes, pensava que já havia morrido nessas sequências, mas o mundo seria resetado para antes de eu cometer tal idiotice e tiraria aquilo da minha cabeça. Isso explicaria bem o motivo de eu perder essa vontade toda vez.
Desistir simplesmente não era uma opção para mim. O sistema não permitiria.
Dias haviam se passado lutando contra aqueles seres deformados. Às vezes, eu precisava fugir e enfrentar um de cada vez, visto que ainda era humano e não tinha como acertar sequências em vários deles. Não tinha memória fotográfica, mas nunca esqueci as coisas mais dolorosas da minha vida.
Eu queria ter matado o meu patrão…
Finalmente, após intermináveis batalhas, matei o último. Quando a sequência estava completa, o humano desaparecia, mas mais lentamente do que os outros. Era como se estivesse a farmar aura antes de morrer. Em seus rostos, havia sempre uma expressão de tristeza, um vislumbre fugaz da essência humana antes da derrota.
Apertei os olhos e senti a familiar sensação de mudança iminente. Era sempre a mesma coisa. Algo estava prestes a aparecer, algo que nunca mudava. Sim, eu já começava a sentir aquela sensação. Minha visão estava mudando de lugar. Não era como se eu fosse teleportado, mas sim como se o local ao meu redor estivesse a se transformar.
O mundo começava a desabar, ao virar pixels e desaparecia aos poucos, revelando um horizonte sem fim, onde nem mesmo minha visão melhorada alcançava.
Agora, encontrava-me em um espaço totalmente vazio e branco. As paredes e o chão não tinham textura ou cor, apenas uma vastidão imaculada. Várias telas de sistema apareceram em minha visão, a flutuar no vazio, mostrando as missões que havia completado recentemente e as que ainda tinha que terminar.
Local da missão: New York
Inimigos: 78
Dificuldade: E.
Setenta e oito inimigos? Bem, não havia contado, então não sabia ao certo, mas estava de acordo com o que eu imaginava. De todos os locais por onde passei, o máximo que havia alcançado era D, que, em termos de ser problemático, não era muito diferente do E. A única diferença era que havia mais inimigos.
No entanto, algo estranho aconteceu. Enquanto observava as telas, elas começaram a diminuir. A princípio, eram numerosas e opressivas, mas, gradualmente, foram se reduzindo até ficarem mais gerenciáveis.
Até aquele que acabei de completar desapareceu. Aquilo era estranho. Não tinha certeza, mas as missões que desapareciam eram aquelas bem antigas, algo em torno de um mês. Dessa vez, porém, foi diferente. Somente as missões que não havia feito permaneceram.
Todas as informações sobre as que estavam incompletas sempre apareciam como desconhecidas.
Local da missão: Desconhecido
Inimigos: Desconhecido
Dificuldade: Desconhecido.
E isso eu entendia o motivo de ser assim. Acho que o sistema não sabe muito sobre minhas missões até ele mesmo vê-las com os próprios olhos, bem… a partir da minha visão.
Agora era o momento de ver os meus dados.
Abrir sistema.
Nome: Nito
Classe: Espadachim.
Habilidade: Imune a sons.
Sim, nada havia mudado. A tela sempre permanecia simples, e logo viria o que eu mais odiava: a restauração.
Eu, que possuía um rosto franzido e uma pele mais pálida do que o normal, odiava aquela sensação. Meu corpo e minhas vestimentas de terno social, típicas de um assalariado, se regeneravam.
Resumindo: eu era restaurado, o cansaço desaparecia e minha vontade de continuar se renovava. Até a sujeira das minhas roupas e da minha pele clara era removida.
Em seguida, fui enviado para um novo local para enfrentar mais humanos deformados.
A sensação de mudança estava de volta. O ambiente ao meu redor se ajustava, e eu sabia que a batalha estava prestes a começar novamente. A luta continuaria, e eu estava pronto para enfrentá-la, apesar da repetição interminável daquele ciclo.
— Quê?
Que local seria aquele?
Muitas pessoas passavam ao meu redor, mas ninguém me atacava; estavam apenas a me observar. Olhei ao redor e reconheci o lugar.
Pessoas atravessavam a passagem de pedestres enquanto um número verde, em um poste, diminuía aos poucos até chegar a zero. À minha direita, havia um edifício de dois andares, onde várias pessoas entravam e saíam. E, à minha esquerda… aquilo despertou minha memória. Era um dos locais que eu mais frequentava para pegar o ônibus e ir para casa.
Era a Estação do Oriente, em Lisboa, onde eu estava antes de desaparecer.
Isso queria dizer que meu sofrimento havia acabado?
Uma sensação de alívio tomou conta de mim. Lágrimas começaram a se acumular em meus olhos e desceram lentamente até caírem no chão.
As pessoas me olhavam com dúvida; eram a prova viva de que, dessa vez, eu estava realmente no meu mundo. Limpei o rosto, mas as lágrimas não paravam.
Mas eu não me culpava. Foram eras de sofrimento que valeram a pena.
Ao me sentir mais calmo, pensei comigo mesmo:
Mãe, eu voltei!
No entanto, ao começar a andar, uma pessoa me atravessou. A sensação de pavor retornou, e congelei na hora. Toda aquela esperança começou a diminuir consideravelmente.
Olhei para trás ao ver as pessoas me atravessando e me perguntei por que haviam me encarado antes. A resposta veio fácil. Meu corpo estava parado exatamente onde um homem estava, provavelmente a cantar alguma coisa.
Droga…
Achei que meu sofrimento havia terminado, mas estava errado. Após tudo pelo que passei, fazia muito tempo que uma lágrima não escorria dos meus olhos. Com o rosto amargo e uma pergunta que atormentava minha mente, eu disse:
— Que mundo é esse?
Voltei a olhar ao redor, até que senti um tremor no chão. Piorava cada vez mais, como se alguma coisa estivesse a se aproximar.
Posicionei-me e coloquei minha espada na forma de katana. Não demorou muito para eu ficar surpreso com o que vi.
O edifício Vasco da Gama estava sendo destruído de dentro para fora.
Eu mesmo não acreditava no que via. Aquilo nunca tinha acontecido antes. A coisa era grande; parecia mais um ogro. Sua pele era verde, e seu rosto era feio demais, mais parecido com a feição de um porco.
E, para piorar, era enorme. Chutando, devia ter uns cinco metros de altura e carregava consigo uma arma de madeira na mão. Começou a balançá-la, e vários humanos eram mortos.
Fiquei em dúvida se aquele ogro estava no mesmo plano que eu. Será que ele estaria me vendo? Parecia que não tinha escolha senão testar.
Teria que lutar com aquela aberração.
— Nodachi!!!
Minha espada começou a mudar para uma maior, visto que aquela carne era perfeita para isso. Mudei de posição, como se fosse o Sephiroth se preparando para correr e solar o inimigo.
Bem, o que posso dizer? Minha esperança morreu naquele dia. Simplesmente aceitei que o mesmo destino já havia sido selado, que eu havia morrido, ido para o inferno e aquele era o meu castigo.
Meu conselho para vocês: não sejam pecadores como eu.
E um conselho para mim mesmo? Bem…
— Foda-se este mundo de merda!!!
De vez em quando, pensava comigo mesmo: será que a minha morte me despertaria daquele pesadelo? Essa ideia assombrava minha mente todos os dias. O suicídio, que antes era uma opção, havia se tornado algo que eu nunca alcançaria.
Lutava incessantemente, sem saber ao certo quantos anos haviam se passado. Dez? Vinte? A sensação era de uma luta constante, e o mesmo roteiro sempre se repetia, mesmo em locais diferentes, desde que tudo aquilo começou.
Mais uma vez, encontrava-me em uma era diferente. Era difícil dizer. O mundo atual estava destruído, com prédios em ruínas, não muito diferente do meu antigo mundo. Ao observar os arranha-céus desmoronados, lembrava-me de Nova York.
Nunca estive naquele país, mas aquela estátua com o rosto de uma mulher, elevando alguma coisa na mão, lembrava-me muito a Estátua da Liberdade. O que mais me dava certeza, porém, era a coroa de sete pontas. E, sem querer ser machista, eram poucas as estátuas de mulheres que eu conhecia.
No entanto, tudo estava acabado. Parecia que séculos haviam se passado para que tudo estivesse tão deformado.
E lá estavam eles, os humanos cantores. Cantavam incessantemente para me abater.
E de onde eu poderia estar a observar? Bem, estava sentado em um banco de praça que, com um peso maior que o meu, cairia para trás. Antes que pudesse me levantar, meus olhos, já cansados, olharam para baixo e me lembraram da minha primeira rejeição.
Droga… por que sentei aqui ?
Vocês já devem ter passado por isso não é? Na adolescencia, exclusivamente na puberdade. Diferente da minha versão de agora que aparenta ter um rosto de alguém que nunca tirou folga durante meses, aquela minha fase estava a esboçar energia.
Bom, eu não era muito bonito, mas a minha aparencia um pouco acima da media, me deixava confiante. Com um cabelo preto emoldurava o meu rosto e olhos negros que fixava a mulher se aproximando de mim.
Esquece? Não temos tempo para contar a historia da minha primeira confissão num banco de praça não é? Visto que eles estavam cada vez mais pertos.
Dezenas de humanos deformados com várias notas musicais escritos na sua pele. Sempre tentei entender essas coisas no corpo deles, mas nunca cheguei a uma conclusão.
As suas bocas sempre estavam a se mecher, como se fosse um profissional cantando, eu diria que era a unica coisa normal nesse tipo de seres modificados.
Logo, aconteceria de novo. Talvez desta vez fosse mais rápido. Olhei ao redor e percebi que já estava a acontecer. Os humanos deformados não entendiam por que suas músicas não me afetavam. Sempre foi assim, milhares e milhares de vezes.
— Ups!
Nem sei o que eu disse. Fazia tanto tempo que não sentia a sensação de ouvir uma boa música. Eu adorava escutar meus raps geeks enquanto dedilhava minha guitarra. Aquilo era excitante, mas agora só sentia um vazio.
De repente, o primeiro deles começou a correr em minha direção. Era ligeiramente gordo, e sua figura grotesca balançava de maneira desajeitada enquanto vinha me atacar.
Como percebeu que seus cantos não funcionavam, partiu para a agressão. Lá se ia o provérbio: se palavras não resolvem, a violência é a resposta.
Aquela coisa, com o corpo a pesar mais de cem quilos, pulou em minha direção. Eu, que não era idiota, pulei para o lado. Mesmo que, por um momento, tivesse pensado que morrer pisoteado não seria tão ruim, como sempre, minha vontade de lutar era maior.
Lá se vão as memórias da minha primeira rejeição.
Lembro-me de quando comecei a lutar com esses seres humanos nus. Se não me engano, foi na época que eu estava deitado na minha cama e algo grande e gordo pulou sobre mim. Dei sorte naquele dia; aquilo aconteceu justamente no momento em que eu estava a despertar.
Apertei firmemente minha espada japonesa, mais propriamente uma katana. Pelo tamanho do inimigo, aquele comprimento era suficiente. Corri em sua direção com a cara de quem comeu rato e não gostou.
Pulei alto, sentindo a adrenalina percorrer meu corpo e me pedir para cortar. O ser deformado cheirava mal pra caralho. Era como se não tomasse banho havia eras. O cheiro de seu suor era horrível, mas aquele era um pouco diferente. Sua genitália cheirava pior ainda, um odor com o qual eu ainda não havia me acostumado.
Por causa desses cheiros, desenvolvi um método de respiração que me permitia, em vez de respirar somente pelo nariz, respirar pela boca. Ao descobrir que aquilo funcionava bem, pratiquei até conseguir respirar pela boca e lutar ao mesmo tempo por longos períodos, sem perder o fôlego.
O deformado me encarou com seus olhos vazios. Em seguida, desferi um corte vertical contra ele e gritei:
— Dó!
Infelizmente, meu corte não funcionou. Como sempre, a ressonância que senti no meu corpo foi como bater ferro contra ferro, e a vibração se propagou pela minha pele. Era desconfortável no início, mas, depois de tantas milhares de vezes, eu me acostumei. Cheguei até a achar aquela sensação gostosa.
— Mi!
De novo, falhou. Toda vez era assim. Para cada humano deformado, havia uma sequência de notas musicais que eu precisava seguir. Eram sete no total, e eu tinha que descobrir a sequência de cada um. Às vezes, era necessário atingi-lo milhares de vezes até acertar a combinação certa.
Conseguem entender, não é? Aquilo era angustiante, pior do que a minha primeira desilusão amorosa. Diziam que ninguém vencia um homem paciente, mas eu já estava de saco cheio de repetir a mesma coisa tantas vezes.
E, como eram muitos inimigos, eu não podia perder de vista o ser que havia começado a cortar. Como não tinha uma ótima memória, se outro deformado me atacasse e perturbasse minha paz durante minutos ou até horas, provavelmente esqueceria daquele com quem eu poderia já estar avançado nas notas musicais.
O esforço contínuo, a repetição interminável de cortes, tudo isso pesava sobre mim. Perdia a conta de quantas vezes começava a sequência correta apenas para ser interrompido por outro ataque e forçava-me a recomeçar.
Era extremamente, extremamente frustrante. Pior que ver sua namorada te traindo com outro, ainda colocar a culpa em você e, para piorar, virar piada entre os amigos.
— Si!
Dessa vez, funcionou. Consegui cortar o demônio. Mas o corte não era como se fosse em um humano de verdade. Era mais parecido com aqueles jogos de RPG em que é preciso atacar várias vezes até o monstro finalmente ficar sem HP. A diferença é que você sente a pele do ser sendo cortada, mesmo que não seja de verdade.
— Dó!
Errei a sequência e senti aquela vibração gostosa. Teria que tentar novamente. Droga! De novo e de novo! Era exaustivo, mais do que o cansaço físico. Minha mente estava tão fatigada quanto meu corpo, mas não havia como parar. Algo me impulsionava, como se eu estivesse amaldiçoado a viver aquele pesadelo.
Às vezes, pensava que já havia morrido nessas sequências, mas o mundo seria resetado para antes de eu cometer tal idiotice e tiraria aquilo da minha cabeça. Isso explicaria bem o motivo de eu perder essa vontade toda vez.
Desistir simplesmente não era uma opção para mim. O sistema não permitiria.
Dias haviam se passado lutando contra aqueles seres deformados. Às vezes, eu precisava fugir e enfrentar um de cada vez, visto que ainda era humano e não tinha como acertar sequências em vários deles. Não tinha memória fotográfica, mas nunca esqueci as coisas mais dolorosas da minha vida.
Eu queria ter matado o meu patrão…
Finalmente, após intermináveis batalhas, matei o último. Quando a sequência estava completa, o humano desaparecia, mas mais lentamente do que os outros. Era como se estivesse a farmar aura antes de morrer. Em seus rostos, havia sempre uma expressão de tristeza, um vislumbre fugaz da essência humana antes da derrota.
Apertei os olhos e senti a familiar sensação de mudança iminente. Era sempre a mesma coisa. Algo estava prestes a aparecer, algo que nunca mudava. Sim, eu já começava a sentir aquela sensação. Minha visão estava mudando de lugar. Não era como se eu fosse teleportado, mas sim como se o local ao meu redor estivesse a se transformar.
O mundo começava a desabar, ao virar pixels e desaparecia aos poucos, revelando um horizonte sem fim, onde nem mesmo minha visão melhorada alcançava.
Agora, encontrava-me em um espaço totalmente vazio e branco. As paredes e o chão não tinham textura ou cor, apenas uma vastidão imaculada. Várias telas de sistema apareceram em minha visão, a flutuar no vazio, mostrando as missões que havia completado recentemente e as que ainda tinha que terminar.
Local da missão: New York
Inimigos: 78
Dificuldade: E.
Setenta e oito inimigos? Bem, não havia contado, então não sabia ao cert, mas estava de acordo com o que eu imaginava. De todos os locais por onde passei, o máximo que havia alcançado era D, que, em termos de ser problemático, não era muito diferente do E. A única diferença era que havia mais inimigos.
No entanto, algo estranho aconteceu. Enquanto observava as telas, elas começaram a diminuir. A princípio, eram numerosas e opressivas, mas, gradualmente, foram se reduzindo até ficarem mais gerenciáveis.
Até a que eu acabei de completar desapareceu. Aquilo era estranho. Não tinha certeza, mas as missões que desapareciam eram aquelas bem antigas, algo em torno de um mês. Dessa vez, porém, foi diferente. Somente as missões que não havia feito permaneceram.
Todas as informações sobre as que estavam incompletas sempre apareciam como desconhecidas.
Local da missão: Desconhecido
Inimigos: Desconhecido
Dificuldade: Desconhecido.
E isso eu entendia o motivo de ser assim. Acho que o sistema não sabe muito sobre minhas missões até ele mesmo vê-las com os próprios olhos, bem… a partir da minha visão.
Agora era o momento de ver os meus dados.
Abrir sistema.
Nome: Nito
Classe: Espadachim.
Habilidade: Imune a sons.
Sim, nada havia mudado. A tela sempre permanecia simples, e logo viria o que eu mais odiava: a restauração.
Eu, que possuía um rosto franzido e uma pele mais pálida do que o normal, odiava aquela sensação. Meu corpo e minhas vestimentas de terno social, típicas de um assalariado, se regeneravam.
Resumindo: eu era restaurado, o cansaço desaparecia e minha vontade de continuar se renovava. Até a sujeira das minhas roupas e da minha pele clara era removida.
Em seguida, fui enviado para um novo local para enfrentar mais humanos deformados.
A sensação de mudança estava de volta. O ambiente ao meu redor se ajustava, e eu sabia que a batalha estava prestes a começar novamente. A luta continuaria, e eu estava pronto para enfrentá-la, apesar da repetição interminável daquele ciclo.
— Quê?
Que local seria aquele?
Muitas pessoas passavam ao meu redor, mas ninguém me atacava; estavam apenas a me observar. Olhei ao redor e reconheci o lugar.
Pessoas atravessavam a passagem de pedestres enquanto um número verde, em um poste, diminuía aos poucos até chegar a zero. À minha direita, havia um edifício de dois andares, onde várias pessoas que entravam e saíam. E, à minha esquerda… aquilo despertou minha memória. Era um dos locais que eu mais frequentava para pegar o ônibus e ir para casa.
Era a Estação do Oriente, em Lisboa, onde eu estava antes de desaparecer.
Isso queria dizer que meu sofrimento havia acabado?
Uma sensação de alívio tomou conta de mim. Lágrimas começaram a se acumular em meus olhos e desceram lentamente até caírem no chão.
As pessoas me olhavam com dúvida eram a prova viva de que, dessa vez, eu estava realmente no meu mundo. Limpei o rosto, mas as lágrimas não paravam.
Mas eu não me culpava. Foram eras de sofrimento que valeram a pena.
Ao me sentir mais calmo, pensei comigo mesmo:
Mãe, eu voltei!
No entanto, ao começar a andar, uma pessoa me atravessou. A sensação de pavor retornou, e congelei na hora. Toda aquela esperança começou a diminuir consideravelmente.
Olhei para trás ao ver as pessoas me atravessando e me perguntei por que haviam me encarado antes. A resposta veio fácil. Meu corpo estava parado exatamente onde um homem estava, provavelmente a cantar alguma coisa.
Droga…
Achei que meu sofrimento havia terminado, mas estava errado. Depois de tudo pelo que passei, fazia muito tempo que uma lágrima não escorria dos meus olhos. Com o rosto amargo e uma pergunta que atormentava minha mente, eu disse:
— Que mundo é esse?
Voltei a olhar ao redor, até que senti um tremor no chão. Piorava cada vez mais, como se alguma coisa estivesse a se aproximar.
Posicionei-me e coloquei minha espada na forma de katana. Não demorou muito para eu ficar surpreso com o que vi.
O edifício Vasco da Gama estava sendo destruído de dentro para fora.
Eu mesmo não acreditava no que estava a ver. Aquilo nunca tinha acontecido antes. A coisa era grande; parecia mais um ogro. Sua pele era verde, e seu rosto era feio demais, mais parecido com a feição de um porco.
E, para piorar, era enorme. Chutando, devia ter uns cinco metros de altura e carregava consigo uma arma de madeira na mão. Começou a balançá-la, e vários humanos eram mortos.
Fiquei em dúvida se aquele ogro estava no mesmo plano que eu. Será que ele estaria a me ver? Parecia que não tinha escolha senão testar.
Teria que lutar com aquela aberração.
— Nodachi!!!
Minha espada começou a mudar para uma maior, visto que aquela carne era perfeita para isso. Mudei de posição, como se fosse o Sephiroth se preparando para correr e solar o inimigo.
Bem, o que posso dizer? Minha esperança morreu naquele dia. Simplesmente aceitei que o mesmo destino já havia sido selado, que eu havia morrido, ido para o inferno e aquele era o meu castigo.
Meu conselho para vocês: não sejam pecadores como eu.
E um conselho para mim mesmo? Bem…
— Foda-se este mundo de merda!!!