Capítulo 33. Dedos Dourados 11
Capítulo 33. Dedos Dourados 11
Pelk observava a maga com o canto dos olhos enquanto a auxiliava no trabalho, ativando um dos títulos de posse noite adentro na torre norte.
— Se você tem medo do secto mágico de Ecala Moon, posso entrar em contato com o meu tutor em Horplac — comentou Ling, acolhendo o rapaz.
O escriba refletia com seriedade. Estava em dúvida se deveria ou não considerar essa possibilidade e devotar sua vida ao caminho da magia.
Ling tocou o braço de Pelk; ele sentiu que ela estava quente e acolhedora.
— Viu! Um dos privilégios de sermos magos. A mana nos aquece nos dias frios — brincou a mulher, que, apesar do semblante cansado, parecia contente com a presença do jovem.
Quantos turnos já haviam passado desde que conhecera a maga? Pelk perdeu a conta, mas aos poucos sentia que o vínculo entre eles se fortalecia cada vez mais.
Conversavam sobre o trabalho, a magia, as palavras de poder e o passado.
Ela relatou como descobriu a própria situação, quando ainda contava com apenas quatro anos de idade, e levantou voo dentro de um turbilhão de vento, indo parar no topo de uma árvore e quase matando a mãe de susto.
Ao contrário do costumeiro “rapto” e afastamento dos familiares, em Horplac, o internato de magia permitia a visita rotineira de todos aqueles que eram próximos dos jovens magos. Devidamente agendada, é claro.
Mas, mesmo com o acolhimento familiar, por ser uma das poucas meninas do local, Ling sentia-se deslocada e, apesar das capacidades de aprendizado, seus professores costumavam dar mais atenção aos meninos do que a ela.
— Um dia, durante o treino de concentração, consegui conjurar uma magia sem perder o foco por mais de uma ampulheta, e mesmo assim quem foi elogiado foi Huiliang — reclamou a maga.
— Também fui a única que conseguiu emanar mana e utilizar três conversores de uma vez. Quer ver? — provocou ela, com orgulho.
E, provando sua habilidade única, com o auxílio de Pelk, que segurava as folhas, Ling preencheu e ativou com controle fino três títulos de posse ao mesmo tempo.
Cativado pela acidez doce da maga, Pelk deixou escapar seu sonho de viajar livremente pelo mundo. Mas conteve-se ao relatar o fato de que o plano estava sendo colocado em prática por ele e seu melhor amigo.
— Por que escolheu trabalhar como tabeliã aqui em Om? — perguntou Pelk, buscando conhecer melhor a maga.
Ling enrubesceu levemente e um sorriso tímido cruzou seus lábios. Ela olhou para o rapaz, mas em seguida desviou os olhos.
— Estou juntando recursos. O valor superior do ouro de Palard, quando convertido para a moeda de Horplac, me convenceu a escolher essa ocupação.
O escriba sentiu a hesitação na voz da amiga, e, movido pela curiosidade, continuou:
— Precisa de muito? O que pretende fazer com o que acumular?
Ainda sem encarar Pelk, com as mãos levemente trêmulas tocando o cristal do conversor, a maga respirou devagar. Depois de uma longa pausa, respondeu:
— Não muito. Quero trabalhar com engenharia mágica. Aqui posso treinar o controle da mana e ter acesso aos livros das runas. Entende?
— O que um engenheiro mágico faz exatamente? — perguntou o escriba, que começou a se inquietar com o comportamento da moça. Ele sabia que a magia tinha aplicações em obras do governo, serviços públicos e pesquisas das mais diversas, mas não entendia o motivo de mudar-se para outro estado para aprofundar os estudos no assunto.
A mulher ainda evitava olhar para Pelk. E, pela primeira vez desde que a conhecera, ele a viu cortar o fluxo de mana para o título de posse no meio do carregamento.
— Muitas coisas — disse a tabeliã, sem alterar o tom da voz. — Em Horplac estão construindo estradas para canalizar mana, e, a partir disso, é possível ativar medidas de rastreio das cargas comerciais que transitam por elas — comentou Ling, tentando se concentrar e iniciar o fluxo de mana novamente.
— E você? Como pretende realizar o seu sonho de viajar pelo Reino Antigo? — perguntou a maga, passando a responsabilidade de confessar os desejos íntimos a Pelk.
O rapaz coçou a cabeça com a mão livre enquanto carregava de mana um dos documentos e, de súbito, resolveu provocar a tabeliã, sondando como ela reagiria.
— Roubando o Estado — respondeu o escriba, em um tom de zombaria.
Ling finalmente olhou na direção do Dedo Dourado, que estava ao seu lado. A surpresa de quem acreditou no que ouviu revestia seu semblante cansado.
— O quê? — questionou ela, dilatando as pupilas.
…
Benk desenhava mais um selo mágico sob a luz limitada do dormitório. E, com alívio, comentou sobre a visita à senhora Hord, que, aparentemente, não suspeitava ou sequer imaginava que alguém havia invadido a sua residência. Mas ela tinha dado falta do livro. Isso o escriba omitiu.
— E os gatinhos? — perguntou Pelk, com certo apego residual em relação aos felpudos.
— Ah, mais saudáveis, impossível — afirmou o amigo.
Com ceticismo na voz, o mago perguntou:
— Será que dessa vez vai funcionar? — referindo-se ao selo em que Benk trabalhava.
Já ciente do estresse desencadeado pelos seus experimentos, o escriba resolveu desconversar.
— E como está sua nova amiga? Ling, certo? — indagou Benk, sem real interesse.
Pelk não respondeu.
Benk esperou.
A garganta do mago não obedeceu aos comandos do rapaz.
— Pelkdoc?
O escriba parou o traço do selo e focou sua atenção no amigo. Como Pelk estava sentado no canto da cama contra a parede, e a luz era insuficiente, não pôde discernir qualquer expressão que ele estivesse demonstrando.
— Ela ficou curiosa sobre o alojamento dos órfãos — confessou o mago, por fim.
— Souh? — perguntou Benk, que há algum tempo não demonstrava a apreensão que agora preenchia suas palavras.
— Sim.
— E o que disse para ela? — perguntou, abaixando o tom da voz.
Pelk ajeitou o corpo sentado no colchão fino, fazendo ecoar o rangido de sua cama na penumbra do cômodo.
— Concordei.
— Com o que?
— Em apresentar o alojamento de Souh — disse o mago, com o arrependimento e a dúvida pressionando-lhe o peito.
— Hum… — soltou Benk.
— E agora? — perguntou Pelk.
O escriba levantou-se e sondou a torre norte pela janela. A luz tênue dos tabeliães no trabalho noturno era uma velha companheira que nunca lhe fizera mal.
— Bem, é um orfanato. O que uma visita às humildes dependências desse prédio pode oferecer?
O mago apenas permaneceu em silêncio.
— Mas por que ela tem interesse em conhecer isso aqui? — perguntou Benk, e a sua questão era mais do que coerente.
O som da respiração de Pelk reverberou na penumbra.
— Acho que ela se preocupa comigo — teorizou o mago em voz alta.
Benk voltou a sentar-se e a configurar o selo em que trabalhava.
— Um amigo a mais é um amigo a mais, Pelk. Vamos testar isso aqui — convidou o escriba com uma energia fulgurante escapando de sua convicção.
Pelk posicionou o conversor, recebeu o selo e prontamente o carregou com mana.
Benk, agora já sem qualquer receio em suas ações, com a mão firme pressionou o papel sobre a roseta recém-arrumada da porta, dobrando em seguida, sem floreios, o canto do selo e ativando-o.
Um clack leve foi ouvido por ambos. Finalmente, sem qualquer dano ou efeito adverso, a porta se abriu, destrancada como se a própria chave tivesse sido utilizada para abri-la.
Benk sorriu satisfeito. Pelk respirou aliviado.
— Próxima etapa, amigo. Agora é o momento de avançar — concluiu Benk, relaxando os músculos das costas.