Capítulo 36. Dedos Dourados 14
Capítulo 36. Dedos Dourados 14
O dia chegou. Um turno após o reconhecimento, requisitando mais uma folga, ou melhor, duas, Benk saiu ao fim da tarde completamente preparado, já sabendo que não voltaria naquela mesma noite para o dormitório; isso caso tudo desse certo, ou não.
E o toque de recolher? Era a questão e o primeiro desafio que ecoava em sua mente. Tudo planejado, nada executado. Digo, ele sabia o que fazer.
Depois da décima nona parte do dia, qualquer pessoa que transitasse sem o adequado consentimento pelas ruas da cidade de Om era convidada a acompanhar o guarda patrulheiro que a encontrasse para prestar esclarecimentos. O que Benk poderia dizer em tal situação? Estou invadindo o cofre nacional por motivos particulares no meio da madrugada?
— Acho que não — sussurrou para si mesmo, evitando imaginar a cena, o escriba.
Após uma rápida passada em uma loja de roupas no centro comercial da cidade, ele guardou a recém-adquirida capa preta de tonalidade fosca na boa e velha sacola de couro. Vestimenta noturna de camuflagem adquirida. Certo?
E rumou para o parque arborizado que se localizava na extremidade oposta ao museu, nos limites externos dos muros palacianos.
Conforme o crepúsculo convidava a noite e os transeuntes voltavam a suas casas para o repouso merecido, Benk discretamente deslizava entre as árvores ornamentais em busca de um arbusto que pudesse abrigá-lo por algumas ampulhetas. Mergulhou em meio às azaleias volumosas e ali permaneceu em completo silêncio, sob os galhos, folhas e flores.
A escuridão gradualmente se estabeleceu. O escriba aguçou os sentidos ao máximo, ajeitou os óculos e abriu a sacola. A noite fria aveludada estava recoberta por densas nuvens e, por bem ou por mal, o escriba sorriu mesmo sem quase conseguir distinguir exatamente o que estava manuseando entre os dedos.
Sentiu o frasco da cola e os maços de selos que estavam separados por cordões com nós de identificação distintos, cada qual para cumprir uma função.
Vestiu a capa e cobriu o rosto com o capuz.
Segundo os testes preliminares, teria pouco mais do que cinco ampulhetas antes que o efeito da mana se esvaísse. Precisava ser rápido, milimetricamente preciso e ousado até cruzar o limite da prudência.
Colou os selos sobre as botas, calças, braços, tronco, capa, roupa e corpo. Sabia que a iluminação pública dos cristais de luz era tênue e constante; teria que torcer para que as sombras, a distância e a desatenção dos guardas e da patrulha fossem generosas com a sua empreitada.
Agachado, Benk lentamente se arrastou através do parque, ouvindo o farfalhar das folhas e dos galhos, mas principalmente o coração, que acelerava a uma velocidade que o fez temer, por um instante, que ele pudesse colapsar ou morrer.
O parque estava vazio; os insetos e o vento disputavam para preencher os ruídos noturnos. Ele agradeceu pela derrota sonora e continuou a se esgueirar na orla das árvores enquanto se aproximava da rua. Caminhou abaixado na direção oposta, se afastando ao máximo do palácio real até encontrar uma clareira que ladeava a primeira estrutura de pedra nessa extremidade do parque. A parede de uma propriedade indistinta.
Ativar ou não os selos? Sua pergunta cutucava a ansiedade enquanto se lembrava de alguns dias antes. O selo colado sobre a superfície da madeira da cômoda e sua mão freneticamente a atingindo, sem que esta manifestasse som algum. Até que, momentos depois, o som retornou. Quanto maior a intensidade do estímulo, mais rápido o som retornava. Melhor adiar a ativação o máximo que conseguir.
Contornou pelo fundo a residência e deparou-se com as ruas urbanas. Elas estavam vazias. Daquela distância, calculou que se encontrava a aproximadamente mil e seiscentos pés do palácio, e apesar da iluminação pública, deduziu que podia cruzar para o outro lado.
Reuniu toda sua audácia, respirou até o limite dos pulmões, sondou com atenção todos os sons e todas as formas. Benk saltou para a rua e movimentou as pernas o mais rápido que conseguiu, esvoaçando com passos macios no trecho menos iluminado até cruzar para a outra margem e esgueirar-se pelo vão úmido dos estabelecimentos locais.
O museu ficava um pouco mais abaixo na rua; a melhor alternativa era uma abordagem pela rua de trás, e não pela principal, que tinha como destino a entrada do palácio.
Ouviu o eco das botas que amaciavam o chão de pedra e o leve tilintar do metal das armaduras dos patrulheiros. Ao menos três homens, imaginou . Recobriu completamente o corpo com a capa e encolheu-se rente ao chão. O beco onde estava compartilhou a escuridão com o jovem escriba.
Chegou o momento de ativá-los.
Dobrou a ponta dos selos que estavam colados sobre várias partes do corpo e da roupa. Tentou falar em voz alta, sussurrando. As palavras saíram, mas os ouvidos nada receberam. E percebeu que sentir o coração mudo, vibrando no peito, lhe era, de certo modo, reconfortante.
Com atenção redobrada, o vulto encapuzado deslizou pelas calçadas. Agilidade, ímpeto e absoluto cuidado.
Quando chegou próximo à escultura de um dos lendários Cavaleiros-Dragão, também conseguiu avistar ao longe um dos guardas em prontidão na parte dos fundos da Casa da Moeda.
Caminhou pela lateral do museu agachado entre as sombras, até encontrar a estátua certa. O grande matador de dragão portava em suas costas um gigantesco machado de mármore, que era exatamente o que Benk precisava para lançar a sorte.
Escalou a estátua, prendendo os dedos nas fendas da armadura marmórea e, momentos depois, já estava postado sobre a massiva cabeça do lendário guerreiro. Vislumbrou o parapeito e a borda do teto do prédio histórico. Quem mandou ostentar a imagem icônica do passado a ponto de competir com a própria altura do prédio? — zombou Benk, sem conseguir ouvir a própria voz.
Estava a mais de sete metros do chão, mas para alcançar o beiral, precisaria pular.
Apoiou os pés na borda do machado e, com um impulso nunca antes executado, saltou e agarrou a borda, chocando a parte inferior do corpo contra a parede.
Benk ouviu um barulho. O vidro de cola em sua bolsa atingiu uma das hastes de ferro que usava para abrir fechaduras. Seu estômago congelou. Não coloquei um selo na bolsa. Verbalizou baixinho para verificar se os demais selos estavam ativos.
Por mais sutil que o ruído tivesse sido, os ouvidos atentos dos guardas ao fundo da Casa da Moeda o escutaram.
Vozes indistintas conversavam sobre o barulho enquanto assumiam posição de atenção. Um dos homens começou a caminhar para averiguar.
Benk escalou com alguma dificuldade a parede do telhado, sabendo que qualquer queda seria a primeira e a última.
Acima da estrutura, respirou e, novamente, agradeceu, mas, dessa vez, devido ao fato de a altura do sistema monetário superar em grau de importância o legado histórico. Um andar a mais que, por um certo ângulo, impedia que os guardas palacianos pudessem ver, mesmo do alto de suas torres, a posição em que ele se encontrava.
Rapidamente abriu a bolsa, puxou um dos poucos selos de silenciamento que sobraram, dobrou a ponta, ativando-o, e recolocou-o no fundo dela. Deduziu que seria o suficiente.
Escalou com cuidado o telhado do museu, cruzando de um lado ao outro o prédio, sem se preocupar com qualquer outra coisa que não fosse a pressa. No mesmo ritmo em que avançava, abaixo, um dos guardas sondava os arredores laterais de onde escutara o ruído.
Sem hesitar, Benk calculou que a distância de um prédio a outro podia ser superada com um salto. Tomou impulso e, cruzando o ar noturno, o semblante gatuno envolto pelo silêncio e camuflado entre o tecido escuro, já se encontrava agarrado à borda do prédio monetário.
Deslizou no pouco espaço arquitetônico que comportava seus pés, agarrado com força ao peitoril de uma das janelas do quarto andar, permitindo que o corpo comandasse os instintos enquanto descia gradualmente de andar a andar, agarrado à parede, em direção ao fundo do prédio da Casa da Moeda.
Um pequeno pátio utilizado para carregar e descarregar fardos era protegido por guardas, mas estes estavam um pouco afastados, próximos ao segundo portão que dava acesso à rua, esperando o colega que acabara de sair para averiguar o barulho recente.
Benk puxou dois selos da bolsa e uma pequena pedra. Com um dos selos preso aos lábios e outro na mão esquerda, olhou para baixo, no mesmo instante em que deixou o corpo despencar em direção ao chão, girou o braço e arremessou com força a pedra que portava na mão direita.
Sua presença inaudível atingiu dolorosamente o chão de pedra, e instantes depois, enquanto seu vulto sombrio se levantava, ignorando a dor, ambos os guardas foram surpreendidos com um barulho ao longe, do outro lado da rua. Encararam com seriedade a origem do som, mas não entenderam o que o havia gerado.
Apenas isso, essa distração mínima, foi mais do que o suficiente para que o escriba, na penumbra, colocasse sobre a porta dois selos: um que, ao ser ativado, absorveu qualquer ruído que a estrutura viesse a emitir; e um outro que, forçando o movimento dos pinos internos da fechadura, destrancou a porta lateral de serviço sem que esta pudesse resistir ao comando mágico.
Benk esgueirou-se porta adentro, fechou-a e soltou a respiração, surpreso e incomodado tanto pela dor que sentia em sua perna quanto pela agressiva e tola ação que acabara de executar. Tentou se acalmar, levantou-se e apoiou o selo silenciador, pressionando-o contra a porta reforçada com a testa.
Tateou o interior da bolsa e a primeira coisa que encontrou foram as hastes metálicas. Sem enxergar absolutamente nada, sentiu a fechadura e inseriu os objetos no orifício da tranca. A concentração era tanta que mal conseguiu controlar o pensamento ou o que suas mãos estavam fazendo. Agiu puramente no instinto enquanto sentia o metal ceder e o giro do mecanismo trancar a porta.