Capítulo 39. Dedos Dourados 17
Capítulo 39. Dedos Dourados 17
A peculiaridade desse prédio, entre tantas, é que o teto do térreo é alto, mas o do primeiro andar parece ser mais compacto, e o do segundo, igualmente, se aproxima ainda mais do chão.
Benk procurou; encontrou as escadas e subiu velozmente para o terceiro andar, ainda não explorado. Com certo alívio, percebeu que sim, o teto parecia mais baixo.
Pouco importa o que fazem aqui. Sondou toda a vasta área, sem atentar para qualquer coisa que não fosse a entrada para o andar superior. Subiu as escadas, mas dessa vez uma porta bloqueou o acesso.
Examinou o cilindro do miolo; não era uma porta comum.
Era parecida com a porta que guardava o cômodo do orbe. Respirou fundo e torceu para que a fechadura fosse equivalente; não havia tempo nem recursos para compor um selo novo, teria que confiar que o mesmo selo de abertura já testado conseguisse dar conta do recado.
O escriba pressionou o selo silenciador contra a superfície maciça e, na expectativa de que a sorte estivesse ao seu favor, ativou o selo de abertura. A porta se abriu, oferecendo a Benk a oportunidade de encontrar uma rota de fuga no quarto e último andar da Casa da Moeda.
Trancou novamente a porta e, mesmo com a pouca luz que possuía, foi capaz de entender que esse não era um andar comum. A textura trabalhada da madeira, os móveis, os objetos, tudo se elevava em questão de qualidade. A decoração dos corredores e as salas de confraternização faziam o lugar assemelhar-se muito mais a uma residência particular de alguém importante do que a uma repartição pública administrativa.
Mas não podia se distrair com detalhes insignificantes. O teto, assim como imaginou, era ainda mais baixo; agora estava aconchegantemente próximo o suficiente para que uma pessoa alta, com um salto, pudesse alcançá-lo.
Agora podia enxergar com mais nitidez que os cristais de ventilação estavam conectados a uma tubulação. Ao seguir o encanamento, deparou-se com mais uma porta de envergadura imponente, igualmente protegida por uma fechadura elaborada que impedia a entrada no local.
Será que a carga do selo ainda será suficiente? perguntou-se o escriba angustiado com a possibilidade de que abrir aquela porta não fosse possível.
Retornou pelo percurso que o levou até aquele novo obstáculo, investigou o mais rápido que conseguiu toda a amplitude espacial do andar, mas não encontrou um duto que pudesse sequer tentar adentrar. A questão que ecoava em sua fadiga emocional agora era: realmente existe algum modo de sair daqui por um duto de ventilação?
Sem conseguir elaborar qualquer estratégia consistente, Benk voltou para a porta do escritório final. E, nesse exato instante, o último selo iluminador apagou-se definitivamente.
Acuado e sem alternativas, o escriba executou mais uma vez o já rotineiro procedimento de invasão.
Não precisava sequer fechar os olhos para encarar a escuridão de seu destino caso a porta não abrisse. Com as mãos trêmulas e a respiração ofegante, arremessou a ação à espera de um bom resultado.
Mecanicamente abaixou o trinco da porta e testou. O que mais poderia fazer?
A porta se abriu; seu coração desacelerou e suas expectativas perseveraram.
Ao entrar na sala, deparou-se, surpreso, com a iluminação que adentrava por uma ampla janela ao fundo do cômodo. Era um escritório de grande pompa. Havia diversas estantes, duas grandes mesas e cadeiras de couro da mais alta qualidade.
Olhou para o teto e quase perdeu a força nas pernas ao constatar que a ventilação era semelhante à exterior. Estreito demais. Impossível.
Aproximou-se da janela, quase permitindo que a derrota tomasse conta de suas esperanças, mas o momento da mais intensa melancolia cedeu lugar quase que imediatamente ao alívio mais intenso que já sentira em toda a sua vida.
Essa janela está trancada.
Ao contrário das demais infelizes estruturas decorativas, essa era uma janela de verdade. Algo que estava fechado poderia ser aberto. Certo?
Sem precisar sequer de um comando, suas mãos, munidas das hastes metálicas já tão conhecidas, ignorando qualquer hesitação ou dúvida, imediatamente investigaram a fechadura-padrão que delimitava o acesso entre o interior e o exterior do cômodo.
Um leve click foi satisfatoriamente ouvido. A janela estava aberta.
Benk olhou ao redor enquanto escancarava o caminho da liberdade. Ao sondar a porta e sentir a fria brisa noturna, percebeu que ainda não a havia trancado.
Saltou em direção a ela e, já nem mais se importando se conseguiria ou não trancá-la, tentou, testou e sorriu. Porta trancada.
Com energia renovada, olhou uma última vez ao redor, ativou todos os selos silenciadores previamente recarregados e colados ao corpo, subiu no parapeito da janela do quarto andar, deixou as mãos o pendurarem parede afora, empurrou a janela, encostando-a adequadamente no lugar e, satisfeito pela fuga, não se incomodou com o fato de que era impossível trancar aquela benfeitora por fora. Talvez com um selo, mas daquela posição relativamente fatal em que se encontrava, o risco não valia a pena.
Investigou com os pés o parapeito do andar abaixo. Não o alcançou, mas concluiu que, se conseguisse manter o contato com a parede, era possível equilibrar-se na fresta arquitetônica sem despencar para a morte.
Soltou os dedos e espalmou as mãos na parede, pousou na lateral, abaixou o corpo e deixou-o cair, agarrando-se à estrutura enquanto sustentava o peso do corpo. Sondou os arredores: estava na parte de trás do prédio. Conseguia ouvir os passos abaixo; um pelotão de soldados guardava o perímetro e outros adentravam o prédio no qual estava silenciosamente pendurado.
Aos poucos, esgueirou-se em direção à parede que fazia fronteira com o museu histórico, curvou-se de uma parede a outra e continuou, como um vulto sombrio, deslizando até uma posição adequada. Olhou para trás e calculou: com um salto conseguiria pousar, de maneira nada agradável, no telhado que já tão bem conhecia.
Fixou os pés contra a parede e, com um impulso forte, arremessou-se em direção ao telhado, moldando um breve arco no ar e estatelando-se, dolorosamente, em uma cambalhota mal encaixada, no firme e levemente inclinado protetor da história.
Olhou ao redor e rastejou para entender a situação. Os guardas das ruas estavam atentos, em sua maior parte aglomerados próximos à Casa da Moeda, na parte da frente e atrás. Os arqueiros do palácio, em suas torres de visão limitada, também haviam sido avisados.
Benk refez o caminho exitoso do início de sua invasão, cruzou o telhado e reencontrou o guerreiro marmóreo já escalado pouco tempo antes.
Com a vista privilegiada e os ouvidos atentos, recebeu os ecos dos passos distantes dos patrulheiros. Saltou e agarrou-se à borda de pedra do amplo machado ornamental. Desceu o mais rápido que pôde em direção à viela que ladeava o prédio histórico e escondeu-se nas sombras.
De soslaio, sondou a ausência de qualquer presença patrulheira; com pressa e agilidade, contornou a esquina ao fundo do museu, distanciando-se em direção contrária à Casa da Moeda. O campo de visão dos guardas nos arredores da estrutura monetária estava bloqueado por um dos saudosos Cavaleiro-Dragão, que, além de lendários, propagavam sua presença imponente mesmo milhares de anos após a morte.
Momentos depois, já em outra esquina, Benk utilizou as bordas das paredes a seu favor e, aos poucos, cruzou ruas e vielas afastando-se da região.
Segundo sua estratégia predefinida, o lugar mais seguro para esperar a luz do dia era o depósito de armazenamento dos carros de fogo, pois esgueirar-se por ampulhetas, cidade adentro, além de arriscado, demandaria um esforço desnecessário. O melhor é procurar um abrigo.
Pouco tempo depois, avistou o que desejava. Comparado com o desafio anterior, invadir um galpão comum não representava qualquer dificuldade.
Rapidamente destrancou a grade do pátio, fechou-a e deparou-se com uma ampla região utilizada para armazenamento, manutenção e limpeza dos carros urbanos. Àquela altura da madrugada, o ermo local, onde trilhos e veículos repousavam inertes, era mais do que adequado para passar a noite.
Benk subiu em um dos veículos entre as dezenas que preenchiam a propriedade, sentou-se ao fundo dele e investigou a tampa traseira que dava acesso ao cristal motriz.
O mecanismo era simples: dois cristais, o de ignição e um grande cristal artificial de aquecimento que fervilhava a água na caldeira ao seu redor, fazendo o vapor circular por dutos na parte inferior do veículo, os quais moviam os pistões e o eixo das bielas que ofereciam o avanço nos trilhos da prosperidade locomotiva.
Uma vez ativado, o calor gerado, quer o carro fosse ou não acionado, ofereceria o aquecimento gratificante para o conforto do escriba naquela gélida madrugada da ousadia.
Não posso dormir, muito menos me dar ao luxo de congelar depois do trabalho concretizado.
A paz se manteve; Benk só voltou a se mover quando, pouco antes de o horizonte indicar o princípio da aurora, os funcionários do transporte urbano iniciaram o primeiro turno do expediente.
O escriba desligou o cristal de ignição, afastando-o do de aquecimento, aprumou-se e, mesmo que os cascalhos dos trilhos não permitissem a completa invisibilidade, o ruído cauteloso foi mínimo. Em esquiva protegida pelos carros de fogo ali estacionados, com pouco esforço, conseguiu esgueirar-se através do pátio e sair do campo de visão de qualquer funcionário um pouco mais desconfiado ou menos sonolento.
A vida urbana acordava, mas Benk não tivera permissão para pregar os olhos.