Capítulo 40. Dedos Dourados 18
Capítulo 40. Dedos Dourados 18
O invasor de centros monetários retornou ao alojamento no começo da manhã. Pelk o recebeu calorosamente, sentindo um alívio imenso e indescritível, a ponto de seus braços e pernas tremerem devido à vontade contida de abraçá-lo. Pelk, assim como Benk, também não havia dormido naquela noite e, em meio às perguntas ansiosas, a única resposta ouvida foi: consegui.
Benk simplesmente se rendeu à exaustão.
Pouco depois, Pelk foi obrigado a ir trabalhar; já o ladino das sombras apenas dormiu, ainda sem trazer à tona toda a história dos erros cometidos ou reclamar da dor no corpo devido ao esforço e aos impactos sofridos na madrugada.
A conversa deveria esperar.
Benk acordou no meio da tarde. Analisou mentalmente todos os momentos da ousada invasão e refez, passo a passo, toda sua empreitada. Por mais que seus objetivos tivessem sido concretizados, o instinto ainda formigava em seu âmago.
Olhou para o teto. Não conseguia acalmar-se e, apesar do êxito, sentia que alguma coisa estava errada, que tudo aquilo fora um grande fracasso.
Por precaução, saiu do quarto, vagando pela estrutura que conhecia como a palma da mão e que agora estava pouco movimentada. Os órfãos aprendizes, logo pela manhã, eram guiados aos ofícios onde desenvolviam suas habilidades de trabalho. Dentro do alojamento restavam apenas alguns funcionários da limpeza, do preparo de alimentos e crianças pequenas, sob os cuidados atentos das damas de branco, na ala feminina do prédio.
Levou consigo na bolsa tudo o que poderia ser suspeito.
Os selos, os papéis, a tinta, o grimório, o conversor, suas ferramentas e a capa. Tudo. Conhecia um bom lugar, dentro do armazém de mantimentos do prédio, onde o assoalho estava solto; um espaço ideal para esconder, entre o piso e o solo, os apetrechos acumulados nos estratagemas dele e de Pelk.
Ao fim do dia, ele agradeceu por sua sagrada paranoia.
Escoltado, pálido como um macaco albino dos bosques e suando como um verão do deserto, o amigo escriba retornou. Em seu encalço, dois guardas, um mago e trabalhadores da central de investigação, todos com postura profissional e muito bem vestidos.
— Com licença — disse o mago, tomando a iniciativa, enquanto entrava no quarto de Benk.
— Estamos investigando uma denúncia de um mestre cortador de pedras sobre um roubo de pedras preciosas. Temos aqui um documento de inspeção expedido e assinado pelo grão-chefe comandante da guarda urbana da cidade de Om. É apenas uma visita de averiguação devido ao depoimento de nosso denunciante — proclamou a autoridade.
Benk encarou Pelk e tentou acalmá-lo com os olhos, demonstrando absoluta calma e contenção.
— Fique à vontade — convidou o escriba. — O que aconteceu? — continuou, simulando curiosidade genuína.
— Perdão? — indagou o homem, aprumando a túnica de fino linho azul.
Enquanto os investigadores vasculhavam o alojamento, os olhos de Benk não desviaram o foco da figura de autoridade e, em gestos educados, explicou sua dúvida.
— Digo, o que o traz ao orfanato de Souh, senhor? — perguntou o escriba, sem saber como deveria chamar o homem.
— Edgor. Meu nome é Edgor — respondeu o mago.
— Sou Benk Souh.
O escriba aguardou a resposta da figura que observava seu quarto e, com um aceno, chamou Pelk para perto de si. Esperou o jovem se aproximar, ergueu a mão e deu dois leves tapas nas costas do amigo, tentando acalmá-lo.
— Espero que não tenha sobrecarregado o pessoal devido à minha ausência — disse Benk, interagindo normalmente.
Pelk respirou devagar.
— Ninguém precisa trabalhar quando não está se sentindo bem. Está melhor agora? — perguntou Pelk, seguindo o fluxo da encenação.
— Agora, sim — disse Benk e, mudando de assunto, indagou: — Alguma das crianças fez algo de errado? Roubou alguma coisa?
Enquanto questionava o amigo, Benk sondou o homem parado à porta, esperando que ele esclarecesse melhor a situação.
— Não, acho que é alguém da Câmara Forte…
Edgor pigarreou, cortando a explicação de Pelk.
— Estamos averiguando indícios segundo o depoimento do denunciante. Apenas isso! — disse secamente o inspetor.
Seguindo o fluxo do constrangimento que a presença da autoridade emanava, Benk e Pelk se calaram e esperaram em silêncio, enquanto os homens vasculhavam o quarto e seus pertences. Uma situação naturalmente incômoda, facilmente captada em seus corpos inquietos ou por quem os observasse, mas nada que pudesse determinar real suspeita sobre eles.
Quando terminaram, sem nada encontrar, apenas seguiram para o próximo quarto, sem se importar em arrumar a bagunça que haviam feito.
Antes de sair, Edgor apenas relatou o que mais lhe chamou a atenção.
— Consertem essa porta! — disse ele, ao deixar os escribas a sós.
…
— O que eles sabem? — perguntou Pelk, apreensivo, quando a noite já pesava por completo.
Benk observava a janela. Nos dedos, girava uma moeda para auxiliá-lo na imersão de suas hipóteses.
— Provavelmente muito pouco. Mas é certo que delimitaram as suspeitas à Câmara Forte.
— Ele disse que havia indícios? — indagou Pelk.
E, nesse instante, tanto Benk quanto ele deduziram imediatamente o que isso significava.
— A tinta — disseram em uníssono.
— Você usou a tinta durante a invasão — afirmou Pelk, que já estava ciente de todos os passos do amigo durante sua ousada missão.
— Sim — confirmou Benk, pausando o movimento dos dedos e encarando o dourado que impregnava sua pele.
— Deve ter respingado sem que percebesse — argumentou o mago.
Benk fechou os olhos, praguejando contra o maldito instante em que quase deixou a pena cair durante a invasão.
— Provavelmente é isso — disse, sentindo rancor de si mesmo.
— Eles estão investigando todas as pessoas que têm acesso a essa porcaria, começando por aqueles que não estavam trabalhando no dia, ou seja, eu.
Benk desviou o olhar e recostou o corpo na cabeceira da cama.
— E será que vão descobrir a adulteração do livro de controle? — perguntou Pelk, também deixando o corpo se acomodar na cabeceira da própria cama.
Benk refletiu, enquanto esvaziava o ar dos pulmões.
— Só se duvidarem da própria letra — disse o escriba, sorrindo e demonstrando certo orgulho na voz.
E, depois de mais uma breve pausa, relatou:
— Tinta mágica e invasão do escritório de alguém do alto escalão. Acho que estão olhando para o lado errado — afirmou Benk, mais para si mesmo do que para Pelk.
— Seguimos o plano? — perguntou o mago.
— Seguimos o plano — respondeu o Dedo Dourado.
…
O setor da ala leste estava alvoroçado. Burburinhos corriam pelo ar viscoso de indignação e raiva.
— Reviraram minha casa inteira — comentou Moav para Kabar, que relatou o mesmo.
Gior-joh apresentava um hematoma no lado esquerdo do rosto. Corria o boato de que sua esposa enfrentou o inspetor e ele acabou defendendo-a, a ponto de quase ser retido para prestar maiores esclarecimentos.
Benk e Pelk apenas seguiram o fluxo, concordando com o absurdo da situação. E, nesse mesmo dia, outros trabalhadores, das alas oeste e sul, sofreram constrangimento por parte das forças de investigação.
— Quem em sã consciência roubaria de um mestre das gemas? — questionou Moav, frustrada.
Kabar, que bem conhecia como as forças militares da cidade funcionavam, complementou:
— Meu irmão é soldado; ele diz que a segurança do cofre real é fortíssima. Essa história de roubo não faz sentido.
Benk entrou na conversa para contribuir com o clima de ressentimento.
— E mesmo se for o caso, essa reação é exagerada demais. Reviraram todo o alojamento dos órfãos — relatou o escriba, fazendo corpo mole no expediente devido às dores nos músculos.
— Estão revirando todos os setores também — afirmou Kabar, movendo os braços.
Moav desabotoou o primeiro botão da camisa; seu rosto estava vermelho e sua respiração, acelerada.
— A ala norte eles não investigam. Por que será, não é? — perguntou ela, abaixando a voz e pontuando com acidez o óbvio.
Kabar recuou um passo; Benk resolveu encarar a folha meio preenchida em sua mesa.
A torre dos magos da Câmara Forte estava acima de qualquer suspeita. Ou melhor, qualquer suspeita implicava desvio de quem ousasse colocar em dúvida a integridade dos bons magos tabeliães do reino.
Qual seria o motivo para um nobre mago se interessar por gemas ou pedras preciosas? Ninguém dotado de meio bom senso básico pronunciaria essa questão em voz alta.
O turno conturbado perdurou durante alguns dias até que, aos poucos, os ânimos se acalmaram. Suposições vagavam, conclusões tateavam às cegas, mas a completa ignorância era, no fim, o que imperava sobre quase todos, pois Benk e Pelk sabiam muito bem o que estava acontecendo.
E, falando em magos, enquanto os colegas desabafavam a certa distância, Pelk, que estava envolto em seus próprios pensamentos e conflitos, engoliu em seco.
Na última de suas visitas rotineiras e soturnas a Ling, a maga sugeriu, e ele acatou. O feriado da unificação do reino, um dos poucos dias festejados no Estado de Palard, comemorado em ampla confraternização pública, chegara. Por que não visitar e conhecer a morada de seu pupilo secreto?