Capítulo 41. Dedos Dourados 19
Capítulo 41. Dedos Dourados 19
Exatos três dias após a visita das autoridades ao orfanato, na metade do turno de dez dias, o duplo dia festivo começou.
A cidade estava colorida, com as ruas ornadas com fitas de tecido e papel, desenhos e pinturas homenageando o patrimônio histórico e as figuras emblemáticas e proeminentes do período da unificação. As pessoas vestiam roupas tradicionais de todos os Estados do Reino Antigo, expressando suas raízes e orgulho; conversavam em seus dialetos e idiomas originários em frente às barracas que se espalhavam por toda a cidade para lucrar com as festividades, ou nas praças e ruas públicas, onde os sons de incontáveis melodias ecoavam.
Ling estava vestida com uma linda túnica segmentada em listras douradas e vermelhas sobre um tecido branco reluzente do mais fino cetim de seda, e caminhava ao lado do mais humilde, mas igualmente bem arrumado, escriba da ala leste.
Pelk usava o mesmo colete e paletó que comprara para a missão na casa de Lorem, e estava confiante de que, em uma cidade apinhada de mais de um milhão de moradores, não se encontraria com a respeitável senhora, por acaso.
Conforme avançavam pelas calçadas, o mesmo comportamento das pessoas ao redor se repetia. Afastavam-se cuidadosamente, sem encarar a jovem mulher de óculos semicirculares, cabelo trançado e habilmente preso a coroar as laterais e a parte de trás da cabeça.
— As pessoas estão nos evitando — comentou Pelk, observando o pequeno e delicado nariz da instrutora. — Tem certeza de que deveríamos andar juntos em público? — perguntou o jovem, abaixando a cabeça.
— É sempre assim, se um dia vestir a túnica, receberá os mesmos olhares — professou a maga. — E não se preocupe, não existe nenhuma lei que impeça os magos de socializar com qualquer pessoa que desejarem — respondeu, sorrindo com gentileza a Pelk.
Para ele, aproveitar o festival acompanhado de uma moça era uma absoluta novidade; normalmente, Benk estaria caminhando ao seu lado, entretido com qualquer bugiganga que não compraria, mas que ambicionava entender como funcionava ou era feita.
Ling, no entanto, parecia mais interessada na culinária típica vendida nas barracas tradicionais.
Mordiscar um espeto de peixe cozido a vapor, oriundo das técnicas do Estado de Midfig, ou beber uma cerveja fermentada ao estilo de Vort Dorf fazia-lhe brilhar os olhos.
Quando se deparou com a culinária típica de seus conterrâneos de Horplac, Ling quase exigiu que Pelk experimentasse, convidando-o a descobrir o sabor das especialidades, como a torta de laranja-pera, ou o enrolado de carne de boi recoberto por massa grossa de trigo empanada.
Para além de qualquer magia, ela era uma mulher gentil e uma agradável companhia. Dividir com ela o lendário espaguete de Ecala Moon, almoçando sentados em uma mesa no meio da rua, era uma experiência que Pelk não tinha capacidade de antever ou imaginar.
— Já pensou na proposta que lhe falei? — perguntou Ling, sentindo a brisa fria do meio-dia.
Pelk ajeitou-se na cadeira, tamborilou os dedos impregnados de dourado na mesa e encarou a maga com as palavras prontas em sua mente.
— Por mais que eu fosse seu protegido e discípulo, a ordem dos magos não me deixaria viver livremente — afirmou o escriba, com convicção em seu argumento.
Ling apoiou o rosto nas mãos, pensativa.
— Não entendo a liberdade que busca, Pelk. Qual futuro enxerga como escriba aqui na capital? — perguntou, olhando nos olhos do rapaz. — Viajar pelo mundo é um caminho possível para um mago, e você é um mago.
O rapaz sustentou o olhar dela por um instante.
— Eu não quero isso — confessou o escriba. — Eu só quero poder escolher o que fazer com a minha própria vida — concluiu Pelk, abaixando o rosto e sentindo o ceticismo invadir sua determinação.
— Um mago errante? Ou um escriba em cárcere do Estado? — contrapôs Ling, expressando amargura na voz.
A melodia vibrante das cordas de um alaúde não muito distante preencheu a hesitação dos magos à mesa.
— O secto nunca permitiria um mago errante — afirmou Pelk.
Ling ergueu a cabeça e, enquanto se concentrava em uma gota d’água que deslizava de seu copo para repousar na mesa, declarou:
— Por vezes, eles não têm escolha — disse a mulher, endireitando a postura.
Pelk recobrou a energia que deixara escapar e esticou os ombros.
— Como na época da praga dos Drak? — perguntou o mago, decidindo tomar um gole da cerveja amarga de Ecala Moon que estava à sua frente.
A maga sorriu, seguiu o escriba ao sorver o líquido e, não apenas confirmou, como acrescentou:
— São poucos, mas existem os que vagam investigando as anomalias da magia no mundo — disse Ling, apresentando a possibilidade.
— Vinculados à guilda? — indagou o escriba, conectando as informações.
— Sim — confirmou novamente a mulher.
…
Benk escolheu usar os dias de festival para descansar no alojamento, uma das poucas folgas gratuitas que o Estado de Palard proporcionava.
Sentado em sua cama, investigava as conjurações do grimório, tentando compreender a importância e o peso de cada palavra de poder. Ele sabia que a magia não era uma escolha do conjurador, mas um consentimento do próprio mundo que invadia a consciência dos magos.
Aquelas palavras determinavam o significado intrínseco do movimento do mundo, tecendo o que se podia entender como a própria realidade.
As questões universais e particulares da existência se chocavam em sua mente inquieta. O que é a vida, afinal? De onde surgiu a energia que preenche todas as coisas? Quem rege o ciclo e o movimento do clima, dos astros? O que é o Abismo? Quem sou eu?
A história do mundo foi incansavelmente investigada pelos Drak, e ele sabia que um dos objetivos dos antigos alquimistas era controlar a permanência da vida. A imortalidade.
A situação absurda e incompreensível da figura do grande Rei, o homem que caminhava pelo continente há milênios, o primeiro Cavaleiro-Dragão e o primeiro mago da história, desafiava qualquer suposição lógica estabelecida na realidade. Essa figura lendária era objeto de profunda inquietação e curiosidade. Benk, assim como os antigos pesquisadores acadêmicos que moldaram a vida, ansiava por respostas.
Pelk, igualmente frustrado pelas questões nebulosas da existência, consultava Ling para tentar ao menos vislumbrar o que significava ser um mago.
Já cruzavam a porta, entrando no alojamento de Souh, e a pergunta do jovem era certeira: por que conseguimos sentir e ler o mundo desse jeito?
Ling, que durante anos conviveu com o cultivo das habilidades de conjuração, não sabia a resposta. Ela podia apenas relatar as hipóteses mais aceitas. Uma delas era a de que os Dragões concederam aos humanos o dom do poder. Outros acreditavam que o Abismo era o centro da força que reverberava as palavras da criação. Existiam os que creditavam o mérito ao astro de fogo que fornecia luz, vida e calor ao globo. Ou mesmo à lua, como regente do fluxo, atrelada à sua irmã gêmea, a esfera mágica gigantesca que emanava o brilho sagrado no eclipse do Abismo, o qual acontecia pontualmente a cada cem anos; uma erupção colossal de mana que renovava o ciclo e concedia a bênção da imersão.
Ninguém possuía a resposta definitiva, mas os adeptos de qualquer uma das hipóteses negavam a descrença para pregar a verdade última da criação.
Religião. Ling não se submetia a nenhuma, muito menos ao culto do grande Rei Vermelho, o Deus vivo que regia o povo há milênios.
Benk ouviu as vozes se aproximando e os passos no assoalho de madeira; prontamente escondeu o livro mágico sob o colchão de sua cama.
Pelk, consternado, debatia o quão sem sentido era conceder a um homem o controle do destino de um povo. Por mais implacável e poderoso que ele fosse, um homem é apenas um homem.
Benk os recebeu na porta do quarto.
— O que estão conversando? — perguntou ele, apresentando um sorriso simpático no rosto.
— Olá, sou a Ling — apresentou-se a mulher ao lado de Pelk, conhecendo finalmente o melhor amigo e tão estimado companheiro de seu pupilo secreto.
Benk inclinou a cabeça em cumprimento cortês e, ao se recompor, sondou a presença da íntegra maga, que não demonstrava qualquer insegurança na postura esguia e autoconsciente.
O tecido vibrante de suas vestes deslizou pelo braço até o contorno da mão, enquanto a estendia ao escriba.
— Você é alta! — afirmou Benk, constatando que, para fitar os olhos da moça, precisava inclinar o pescoço.
Ling riu e Pelk refletiu, encabulado, sobre o óbvio que nunca havia colocado em palavras.
— Talvez você é que seja baixo — provocou a mulher, divertindo-se com a situação.
— Esse é o nosso quarto — apresentou Pelk, convidando Ling a entrar. — Não tem nada de especial. Mas talvez a vista seja algo que lhe interesse — disse o mago, instigando a convidada.
Ling entrou no cômodo. Hesitou, desviou a atenção por um instante, olhou ao redor e, caminhando até a janela, compreendeu as palavras de Pelk.
— Vista privilegiada do meu escritório — zombou ela. Mas, nesse instante, o rosto da maga demonstrava certo incômodo ansioso, e não a leveza do bom humor.
Benk percebeu a nuance no semblante da convidada.
— Já almoçaram? — perguntou o rapaz. — Se não, recomendo experimentar a culinária tradicional de nosso estimado orfanato — convidou o escriba, falando sério, apesar da escolha das palavras.
— Almoçamos no festival — respondeu Pelk. — Mas é uma boa oportunidade para experimentar o estimado chá de cerejas de nossas gloriosas mães — relatou o jovem, que, assim como Benk, emanava seriedade real e respeito em suas intenções e expressão. Ambos eram gratos pelo acolhimento que sempre receberam das funcionárias e funcionários do local; o mais próximo de um lar e de uma família que podiam conhecer e vivenciar.
— Aceito — respondeu Ling, com um meio sorriso encabulado. — Poderia, por favor, me trazer um pouco, Benk, se não for incômodo? — solicitou a maga.
O escriba assentiu com um gesto de cabeça e uma verbalização afirmativa, porém estava ciente de que a demanda da maga não era inocente, mas sim estratégica: até onde ele realmente deveria interferir ou não na amizade dos dois? Tudo aquilo era uma situação nova e desprovida de referências.
Momentos após sua partida, a pergunta latente, feita em tom complacente, mas com clareza absoluta, foi enunciada:
— Onde conseguiu obter um grimório, Pelk? — questionou Ling.
— Que grimório? — indagou o mago, sem entender o que sua benfeitora estava dizendo.
E, pelo tom e sinceridade explícitos na resposta impulsiva do rapaz, a mulher percebeu o erro de cálculo.
Ele não sabe!