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Capítulo 42. Dedos Dourados 20

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 42. Dedos Dourados 20

O clima no cômodo estava pesado; por um lado, a maga não encontrava meios de recuar da afirmação que seu inquérito impaciente havia trazido à tona. Por outro, Pelk, assolado pela informação secreta, estava mergulhado em sentimentos e pensamentos que embrulhavam o seu estômago e faziam sua cabeça girar em piruetas que despencavam impotentes contra o chão da inconclusão.

Benk retornou, trazendo os copos equilibrados em uma bandeja de madeira que, por mais estáveis que pudessem estar, ondularam ao se deparar com o olhar dissimulado e penetrante recebido ao entrar no quarto. Uma acusação inaudita de uma culpa herdada. Pelk desviou os olhos do amigo; Ling, não.

A escolha da mulher era escancarar a situação e descobrir a verdade ou curvar a percepção e ignorar o evidente que apenas seus sentidos poderiam captar.

O escriba respirou, tateou o instinto e pinçou na sagacidade o que poderia tê-lo colocado como protagonista de informações desconhecidas.

Com destreza, ofereceu ao amigo e à visitante o líquido quente de aroma convidativo, deixando o orbe das pupilas sondar a disposição dos objetos do quarto. Nada estava fora do lugar.

O silêncio tinha que ser quebrado; a pergunta era qual dos três tomaria a iniciativa de fazê-lo, e o que exatamente seria dito quando o fizesse.

Imerso em dilemas, Pelk não podia iniciar uma acusação ou requisitar esclarecimentos de Benk, ou mesmo aprofundar uma conversa que colocaria o amigo em risco ou vulnerabilidade, para além de ele mesmo estar exposto a um fato comprometedor de cumplicidade. Tudo isso se dava em face de uma maga que, por mais receptiva que fosse, não gozava da confiança ou intimidade para confissões que não implicavam apenas o segredo descoberto, mas outros tantos que estavam guardados, e agora ameaçados, ou pior, até mesmo já desvelados pela maldita percepção que ele não possuía.

Benk vasculhava a memória vaga de sua atenção, por vezes negligente, ao escutar o que o amigo lhe confessava, mas uma coisa ele ouviu com clareza e subestimou em ingenuidade completa. A maldita capacidade de descobrir que Pelk era um mago, essa mulher consegue sentir a magia!

Ele controlou a vontade de bater com a cabeça contra a parede e não deixou transparecer uma ruga sequer no rosto, enquanto suas vísceras se contorciam em ódio dentro do pântano em que estava afundando nesse exato instante.

Ling suspirou em completa condescendência. Quem era ela para julgar o que quer que acontecesse nesse mundo insano à sua volta?

Olhou nos olhos de Benk e pronunciou o código dos espíritos livres:

— Trabalho gera recurso, recurso gera serviço, serviço gera trabalho.

O escriba, como bom leitor que era, imediatamente reconheceu a citação do berço rebelde.

— Trabalho gera trabalho — respondeu, sustentando o olhar da mulher.

E Pelk, que, apesar de não ter lido a história da fundação dos estados, também conhecia a anedota, completou:

— Não precisamos do recurso.

Benk sorriu, ainda receoso.

— Gujav Bow? — perguntou ele à mulher e esperou a resposta.

Ling balançou a cabeça, sem acreditar no que estava fazendo.

— Meu nome é trabalho. Seu nome é trabalho, Horplac — respondeu ela, terminando a citação.

O Estado de Gujav Bow foi fundado pelo camponês de mesmo nome há mais de quatro mil anos, na mesma época em que a sua melhor amiga, Horplac, uma aristocrata de coração gentil, liderou o partido democrata, avultou os ânimos da população e instituiu, pela primeira vez na história do Reino Antigo, uma república democrática de voto universal.

Gujav, por outro lado, motivado por ideais mais austeros e seguido pelos trabalhadores comunitários, negou a criação de qualquer ordem ou comando, abraçando o que chamava de vida comum. “O mundo é feito pelo e para o trabalho.” Suas palavras, seguidas à risca, negavam qualquer governo ou controle, e os adeptos, respaldados pela simpatia e respeito do Rei Vermelho, estabeleceram-se ao norte de Palard, fundando o primeiro Estado sem governo na história do Reino Antigo.

Benk sentou-se em sua cama e, já sabendo a resposta à sua próxima pergunta, ainda assim a pronunciou:

— O que você sabe? — disse sem meias palavras.

Ling seguiu o tom e declarou abertamente:

— Você tem um grimório.

— Você é uma maga? — provocou o escriba, exigindo que a mulher reforçasse sua posição.

A maga comprimiu os lábios finos e ajeitou os óculos no rosto.

— Sou de Horplac, meu nome é trabalho — respondeu, confirmando que, apesar de ser maga, acima de tudo era uma simpatizante dos revolucionários.

Mas, em resposta à ousadia e pressão do jovem, Ling questionou:

— O que vocês estão fazendo?

E seu olhar voltou-se para Pelk, que estava ao seu lado, requisitando dele uma explicação adequada e um esclarecimento definitivo sobre o que estava acontecendo.

…

Após um certo tempo de meias palavras, Pelk, com o consentimento do amigo, e o próprio Benk explicaram, sem conseguir manter o segredo, o que estavam colocando em prática.

Ling se esforçou para conter o espanto e mais ainda para controlar as estruturas de sua base moral, agora contaminada pela cumplicidade com os desvios da legalidade que os escribas estavam desenvolvendo.

Depois de ouvir sobre roubos, invasão, falsificação e planos de desvios financeiros, manteve um silêncio constrangedor enquanto organizava os sentimentos. Ela entendeu que Pelk a usara como fonte de informação e descobrira que agora podia destruir a vida dos dois com um estalar de dedos.

Ling retirou os óculos e colocou as mãos sobre o rosto, forçando a garganta a engolir em seco mais de uma vez. Benk manteve a postura contida, controlando os pés para que não se mexessem freneticamente, e Pelk pressionou o estômago, que doía devido ao nervosismo que resolveu ali concentrar-se.

— O grimório pertence à senhora Hord? — perguntou a maga, quebrando o silêncio, mas ainda sem olhar em direção a nenhum deles.

— Sim — respondeu Benk, frustrado com o deslize que o expôs e irritado tanto pelo fato de ter extraviado o grimório quanto por Pelk ter descoberto a existência do livro.

Benk levantou-se e começou a caminhar em círculos pelo quarto.

— Como consegue senti-lo? — perguntou o escriba, curioso em relação à percepção da maga. — E como sabe que é um grimório? — completou, parando o movimento das pernas.

Ling olhou para o rapaz; o rosto dela estava vermelho e o coração acelerado. Depois, desviou os olhos para onde o livro estava escondido.

— As palavras vibram; existe uma sutil distorção na mana ao redor desses livros. É uma marca única — relatou ela, com a voz cansada.

Benk ergueu o colchão e, enquanto puxava o calhamaço mágico de seu esconderijo, lançou mais uma dúvida:

— Consegue distinguir daí o conteúdo das magias?

A mulher balançou a cabeça, negando a questão.

— E você, consegue entender as palavras de conjuração? — interpôs ela.

O escriba abriu o livro de letras vermelhas.

— Consigo ler, mas não tem como entender o que realmente dizem. Não sem manifestar o que descrevem. Você consegue?

A curiosidade em sua voz era nítida: qual seria a potência da magia daquelas palavras? Qual a amplitude do poder que agora segurava nas mãos?

Ling pediu o livro ao escriba. Ele o entregou.

Pelk, ao lado da mulher, olhou de relance e, ao bater os olhos nos traços vermelhos, conseguiu imediatamente distinguir o percurso da conjuração, como se as palavras invadissem a língua e abraçassem a consciência. Apertou os próprios braços e conteve o ímpeto de enunciar os ecos refletidos naquelas folhas de papel.

A maga percebeu a oscilação do pupilo.

— Sente o chamado? — perguntou ela, direcionando a atenção para Pelk.

— O que é isso? — perguntou ele, sem compreender o que estava sentindo.

— Quanto mais antigo o grimório, mais a mana se concentra e maior é o encanto que causa. As palavras anseiam por serem lidas — explicou ela.

Instintivamente, ele se afastou do grimório mágico.

— O que sentiu não foi nada comparado a um dos livros milenares. Esse ainda é bem jovem — concluiu Ling.

— É forte — relatou Pelk.

A maga assentiu e sorriu para ele com uma expressão acolhedora.

Benk, que, mesmo sem ser mago, conseguia compreender a imersão que aquele objeto apresentava, comentou:

— Quanto mais próximo do Abismo, maior a intensidade do chamado, certo?

Ling abaixou os olhos e, novamente, sem dizer nada, confirmou.

— Os rios de mana também exercem influência — complementou Pelk, expondo o que sabia sobre o assunto.

O escriba voltou a sentar-se, encarou a maga e escolheu as palavras para abordar o assunto que realmente importava no momento.

— Agora que está ciente do que estamos fazendo, o que pretende fazer? Poderia manter tudo isso em segredo? — perguntou Benk, com absoluta seriedade.

Ling girou o rosto e encontrou o semblante de Pelk, o que lhe trouxe à tona as recentes lembranças das noites em que ele a ajudava, e ela, por sua vez, o orientava no controle da mana. As conversas, o reconhecimento em seu olhar… e por mais que inicialmente a tivesse usado, ele não precisava continuar lhe fazendo companhia, mas continuou.

— Que escolha eu tenho? — perguntou, mais para si mesma do que para os rapazes.

Pelk, que sentia mais culpa que constrangimento, olhou para Benk, buscando algum tipo de sustentação no amigo. Encontrou o já tão conhecido olhar firme e sagaz, a expressão de impetuosidade e lealdade que tanto admirava. Ele sabia que o amigo não desejava prejudicar Ling, mas também estava ciente das prioridades que eles haviam estabelecido quando escolheram o caminho que estavam trilhando.

Com cautela no tom da voz, Pelk revelou o que já há algum tempo elaborava em seu íntimo:

— Poderia nos ajudar! — afirmou, já sabendo da ousadia de tal proposta.

Ele respirou fundo e, percebendo o espanto e a contrariedade no olhar da mulher, completou:

— Acha que o que estamos fazendo é errado?

Antes que Ling tecesse qualquer resolução em palavras, Benk, consternado com a situação, não conteve o repúdio.

— Pelkdoc! Isso é absurdo. Quer colocar em risco tudo o que conseguimos?

Era raro o escriba demonstrar abertamente sua reprovação com tamanha intensidade. Por mais que fossem amigos — e mesmo que ele não tivesse percebido —, isso afetou mais Ling do que o próprio Pelk.

— Ela é de confiança — argumentou o mago, defendendo sua posição.

— Isso não importa! Ela é maga. O que quer que ela faça? Que dê baixa no documento de posse na torre norte? — questionou Benk, perdendo ainda mais a compostura.

— Melhor ela do que um escriba qualquer! — exclamou Pelk.

Benk sentiu o orgulho, que costumeiramente desprezava, crescer dentro de suas vísceras.

— Um escriba qualquer? Sério mesmo? O que acha que fazemos todos os dias durante todos esses malditos anos? — perguntou, encrespando a voz.

— Nós não somos tabeliões da torre! — retrucou Pelk.

Mas por mais que ele tivesse um ponto relevante, Benk manteve sua convicção.

— Que se parta o que não somos! Temos que terminar o que começamos, não jogar tudo a perder por um capricho qualquer — sustentou o escriba.

Pelk, tentando controlar a frustração e tomando cuidado para não exagerar na intensidade, continuou:

— Não é um capricho! Ela já sabe e é a única que pode nos ajudar!

— Não precisamos de ajuda! — retrucou Benk.

E antes que Pelk respondesse, Ling, cansada daquela discussão fútil, cortou o assunto:

— Calem a boca! — exigiu ela, com firmeza.

Em seguida, levantou-se com autoridade e, colocando-se entre os dois, declarou:

— Não importa o que eu sou. Se uma maga qualquer, uma mulher ou tabeliã da torre norte. Se precisam de ajuda, o que quer que planejem ou que envolva a torre norte, se eu estiver à frente, o risco é zero — determinou a mulher.

E antes que os escribas pudessem argumentar qualquer coisa, ela esclareceu:

— O que buscam é a liberdade. E por mais que não concorde com os meios que estão utilizando, não posso negar que os compreendo.

— O que quer dizer? — perguntou Benk, ainda sem entender aonde Ling queria chegar.

Pelk, por sua vez, apenas observou a expressão desconcertada da tutora.

A maga balançou a cabeça, consternada com a situação em que estava se colocando.

— É apenas um capricho qualquer — respondeu, colocando a própria descrença em palavras.