Capítulo 43. Dedos Dourados 21
Capítulo 43. Dedos Dourados 21
Como esperado, no último dos dez dias burocráticos do turno, surgiu na mesa de Benk o documento requisitando a abertura de uma conta bancária em nome de Ben Bolphgor e outra para seu irmão de mesmo sobrenome.
— Até aqui, tudo bem — suspirou o escriba, aliviado.
A demanda atendia pelo nome de “ rotina”; estava dentro do sistema, era oficialmente um requerente do indispensável documento que regia as transações financeiras e o equilíbrio fiscal de todo o Reino.
Com a pena em mãos e a tinta calibrada, elaborou o padrão já calcificado em seus músculos. As runas teceram o caminho e as palavras determinaram a identidade burocrática e autêntica sobre o papel, mas um detalhe saltava aos olhos de qualquer depurador habituado a lidar, assim como ele, com esses já tão tediosos procedimentos.
Na curva das palavras rúnicas e dos símbolos conectores e validadores, uma frase deslocada somava-se ao campo do excesso:
… Aqui a parte do justo herdeiro incluso na autoridade que pertence ao fragmento equivalente em mérito recebe o mínimo que o regulador (com)partilha por centésimo o serve.
No molde do documento, a inserção agora conectava o que Benk chamava de justiça tributária . Já Pelk a apelidou de divisão dos lucros . Para os entendidos mais atentos, era apenas um desvio monetário.
Chamem do que quiserem; se o resultado se provar em êxito, duas verdades se apresentam: alguém está roubando os recursos do povo do reino e agora ele e Pelk entraram para o seleto clube dos estelionatários.
E havia um detalhe que Benk, se um dia confessasse seu ato, faria questão de esclarecer. Apenas partilhamos do pão que já caiu da mesa, se é que me entende.
Documentos adequadamente formulados, mas agora o corpo precisava iniciar sua função em vida, ou melhor, em mana.
Pelk confiava que Ling ativaria os títulos de posse, mas Benk, por sua vez, bateu o pé contra essa sugestão. “Já temos um mago”, declarou, encarando o amigo e encarregando-o dessa responsabilidade.
O caminho do escriba aumentou a complexidade da tarefa, e o trâmite das folhas que deveriam ser encaminhadas diretamente para as mãos que as esperavam na torre norte, acomodara-se no fundo da acolhedora e solícita bolsa de couro de Benk.
No alojamento, Pelk utilizou o conversor de mana naquela noite, e as folhas-mãe e filha dele e de Benk manifestaram a conexão com o mundo.
No entanto, um pequeno detalhe imediatamente saltou aos olhos de ambos.
— Benk, o campo de recursos, o que é isso? — perguntou o mago, apreensivo.
Observando com atenção, o escriba percebeu duas coisas. Uma era que sua suposição estava absolutamente correta, já a outra se atualizava de tempo em tempo, aleatoriamente. Números discretos que moldavam a forma das runas no campo de valores totais.
— Isso é dinheiro, Pelk. Estamos recebendo frações de alguma movimentação financeira — relatou Benk, em um misto de felicidade e preocupação.
— Quer dizer que parte do desvio está sendo encaminhado para nossa conta? — disse Pelk, não acreditando totalmente no que seus olhos estavam enxergando.
O escriba esperou os números se atualizarem, e depois continuou esperando, até que, novamente, o valor mudou.
— Seis décimos de bronze — proferiu ele, levando as mãos à testa. — Está funcionando, Pelk. Estamos recebendo algum tipo de fração das movimentações financeiras de algum lugar do Reino.
— E agora? — perguntou o mago, não conseguindo assimilar a amplitude daquela informação.
Benk tamborilou os dedos na pequena mesa ao centro do quarto. O fato de os valores não estarem zerados, e, pior, estarem em constante atualização, era um problema.
— Se encaminharmos isso ao setor de despacho e eles perceberem que as contas estão sendo movimentadas com as folhas-mãe e filha uma ao lado da outra…
— Vão perceber imediatamente que tem algo de errado! — completou Pelk, compreendendo a situação. — Não dá pra seguir assim — concluiu, seguindo a mesma linha de pensamento que Benk, ao lado, também trilhava.
— Tem como resolver isso? — perguntou o mago, enquanto forçava a mente em busca de uma solução.
Benk cerrou os punhos; a frustração por chegar tão longe e encontrar mais um maldito obstáculo nublava sua razão. Internamente, queria gritar de raiva, quebrar alguma coisa e, ao mesmo tempo, resolver a porcaria que maculava a expectativa que nutria e conquistara a cada passo de sua progressão até chegar aonde estava.
Pelk compartilhava o sentimento, e presenciar a expressão amarga do amigo naquela gélida noite da estação fria — a pessoa da qual costumava depender e na qual depositava o peso que ele sozinho não conseguiria carregar — angustiava-o. Precisava encontrar um jeito de ajudar Benk, e, claro, de resolver os problemas que também lhe diziam respeito.
— Não tem como utilizar a folha-filha sem que a folha-mãe esteja arquivada no Banco Central do Reino? — perguntou o mago, desejando que a resposta não fosse a que já conhecia.
Benk balançou a cabeça, irritado. O sistema estava amarrado para que só pudessem utilizar a Casa da Moeda caso a localização da folha-mãe estivesse sob a tutela do governo.
— Não tem como; a porcaria do orbe sabe onde o título de posse está. Ninguém consegue escapar dos olhos do sistema — amaldiçoou Benk, transbordando a raiva acumulada pelas correntes invisíveis que o prendiam.
Pelk respirou fundo; ele sabia que essa folha de papel rúnico era inútil se o seu proprietário não tivesse acesso à Casa da Moeda mais próxima.
Focou no documento à sua frente, que se atualizou novamente; ergueu o papel, girou o verso e observou a runa de controle.
— O que runas regem, runas alteram… — sussurrou sem grande convicção.
Benk ecoou as palavras do mago, erguendo os olhos para o documento que Pelk segurava.
— O que runas regem, runas alteram! — confirmou o escriba, recobrando a clareza nos pensamentos.
…
Ao chegarem para trabalhar no dia seguinte, Benk e Pelk demonstravam, sem qualquer escolha ou intenção, a exaustão de uma noite em que o sono foi proibido de concretizar sua missão. Vararam a madrugada em completa imersão, debatendo quais seriam as palavras certas para driblar os números que dançavam sobre o papel.
No ímpeto, executaram o que nunca antes haviam tentado: atualizar as runas de uma folha de posse ativada — uma manobra que Pelk logo constatou como imprudente, pois, quando Benk colocou a pena dourada no documento, o fluxo de mana imediatamente se desestabilizou.
Ele impediu a mão do escriba prontamente e sugeriu algo que também não imaginava que fosse possível: controlar a mana com o conversor em sincronia, estancando o seu fluxo e posteriormente o liberando, ao literalmente guiar sobre a tinta a energia que não apenas distorcia, mas reprogramava toda a identidade do título, no exato instante em que Benk tecia as palavras de atualização.
Ao fim e ao cabo, ambos estavam exaustos e, absolutamente maravilhados, ao verem que as folhas-mãe e filha tinham respondido tão perfeitamente ao arriscado procedimento ali inaugurado.
No íntimo, Pelk estava ansioso e empolgado para contar à Ling que tudo o que ela lhe ensinara resultara em uma inovação que, provavelmente, ninguém na história havia antes tentado.
Com o atraso de um dia, chegaram às mãos da tabeliã assistente os documentos, entregues por seu primeiro e único pupilo que, erroneamente, se enganou e colocou na mesma caixa de Loabek títulos que na verdade pertenciam ao departamento de Norgta.
Incompetências à parte…
— Olá, jovem escriba — disse a maga, recebendo o Dedo Dourado enviado pelo encarregado Gior-joh à torre norte para entregar o encaminhamento burocrático.
Após uma respeitosa resposta do convidado, Ling colocou a caixa sobre o balcão, coletou as duas folhas-mãe equivocadamente entregues sob seus cuidados e acompanhou o escriba dois lances escada abaixo, enquanto este retornava ao seu posto de trabalho, e ela, por sua vez, deveria colocar os arquivos na pilha certa para que fossem despachados para o próximo setor.
— Deu tudo certo? — perguntou a maga, discretamente.
Pelk sorriu, sem conseguir esconder a satisfação e o cansaço moldados nas olheiras que contornavam seus olhos.
— Veja você mesma — convidou o rapaz.
Ling analisou o documento e, sem esforço, percebeu o desvio do padrão tão corriqueiro e imutável, com o qual lidava todos os dias.
— Dá pra perceber — sussurrou ela, lendo brevemente as distorções presentes no papel.
…Que de tempo em turno grade o que revela em receptividade e só seja o que é no momento em que o chamado requisitar que se apresente ao par e demonstre o que contém a contemplação da forma. Númere.
Ling parou de descer os degraus. Encarou Pelk com um misto de deslumbre e apreensão.
— Vocês… — começou a elaborar, mas no mesmo instante seus olhos se encontraram com os do assistente responsável pelo departamento de Norgta, que estava próximo à porta quando reconheceu a voz da mulher.
— Ling — chamou o homem.
— Huiliang — respondeu a tabeliã, corando levemente.
O mago de cabelos lisos e compridos também cumprimentou o escriba próximo à colega de profissão.
Pelk, surpreso pela presença do homem e tentando lembrar-se de por que aquele nome lhe era familiar, apenas engasgou sem conseguir responder adequadamente à cortesia do mago.
Olhou em direção à tutora, e o que lhe era nebuloso tomou forma na memória enquanto, pela primeira vez, observava os olhos firmes dela cederem ao que descreveria como afeto.
— Jovem — chamou a maga, sem olhar na direção dele ou alterar a postura. — Obrigada pelos documentos — agradeceu. E, sem sinalizar ou gesticular, apenas andou em direção ao colega tabelião, indicando que o assunto entre ela e o escriba já havia terminado.