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Capítulo 44. Dedos Dourados 22

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Capítulo 44. Dedos Dourados 22

— Como está o trabalho no seu setor? — perguntou o homem, recebendo a mulher que já há tanto tempo conhecia.

Sem olhar para trás, Ling adentrou o departamento de Norgta, uma sala semelhante à sua e equivalente em tamanho, com o espaço organizado metodicamente e sem qualquer mudança relevante, segundo o que a sua percepção lhe informava.

— Certamente mais corrido do que aqui — afirmou a maga, que, assim como ele, tinha noção de que um dos piores departamentos da torre norte era o de Loabek, seguido pelos de Palard e de Ecala Moon. Norgta, por sua vez, era conhecido como um dos medianos, onde a carga de trabalho não extrapolava o horário de expediente.

— Imagino — concordou o mago. — Documentos enviados por engano novamente? — perguntou, ao observar a colega sustentar na mão os títulos de posse.

Ela sorriu, abaixou os olhos e, com timidez e um tom de voz propositalmente doce, confirmou:

— Acontece com frequência. Dessa vez o encarregado percebeu no ato da entrega — informou ela, balançando as folhas de modo a evitar que ele pudesse perceber qualquer coisa diferente por acidente.

Ling inclinou o corpo para frente, encarando algo que supostamente chamou sua atenção, fingiu surpresa ao enxergar um tabuleiro de Dong e caminhou em direção às peças soltas na mesa.

— Estão com tempo livre, hein? — zombou a mulher, olhando para Huiliang e depois para o senhor Tingzu, que imediatamente parou o que estava fazendo e, constrangido, cumprimentou a maga.

— Fique à vontade, minha dama — disse o mago líder, que, apesar da situação, deixou o sarcasmo guiar suas palavras.

Do outro lado da sala, Forlyt, um senhor um pouco menos idoso e um tanto quanto mais sério, apenas acenou para Ling, sem lhe dar real atenção.

— Posso pegar um desses? — perguntou a tabeliã, apontando para o caramelo incrustado em cereja, um doce típico de Palard.

O assistente franziu a testa e hesitou; Tingzu, por sua vez, apenas riu sem nada dizer.

Ling, percebendo a abertura, pegou dois, levou um à boca lentamente, sondando os olhos de Huiliang por um momento. Ele respirou com mais intensidade, demonstrando irritação.

— Me entregue os documentos, Ling — pediu o homem, andando em direção à colega.

Ela recuou dois passos. Girou o corpo e observou as caixas bem organizadas nas estantes, balcão e mesas.

— É aqui, certo? — perguntou ela, aproximando-se e passando os dedos por uma das caixas.

— O quê? — questionou Huiliang, confuso com a pergunta da mulher.

Ling estalou os lábios, repreendendo o homem de cabelos longos.

— Você acha que eu deixaria trabalho para os outros? — provocou a maga.

— Como? — respondeu o homem, ainda mais confuso.

Ling olhou os títulos de posse ativados dentro da caixa e o registro de encaminhamento para o setor de despacho das folhas-mãe.

Colocou uma das folhas entre as demais, correu o dedo por outra caixa, parou, respirou fundo e se concentrou.

Huiliang se aproximou da mulher, já perdendo levemente a paciência.

— Estão ativadas? — perguntou ele, deixando a cortesia ceder espaço para a autoridade.

A maga fechou a cara, apertou os olhos e forçou a indignação na expressão do rosto.

— Já falei que não jogo trabalho para os outros — disse ela, devolvendo o mesmo tom de voz que recebeu do mago.

Os olhos de ambos se encontraram, desafiando um ao outro. Huiliang conhecia bem aquela situação, a mulher que conjurava com perfeição e raiva, desafiando todos aqueles que a ignoravam. Sentiu o velho desprezo reacender dentro de si enquanto controlava os pensamentos para não proferir os insultos que começavam a ganhar espaço em sua mente.

— Ling … — chamou mais uma vez, encrespando a voz.

Nesse mesmo instante, com o braço esquerdo em arco, a mão da mulher aproximou-se do rosto do colega, levando consigo na ponta dos dedos o caramelo.

— Aqui — disse ela, chamando sua atenção e fazendo-o virar o rosto para, invasivamente, receber nos lábios o doce que nem sequer desejava.

Por reflexo e instinto, acabou abrindo a boca, permitindo que ela o colocasse ali; constrangido, surpreso e no limite da educação, piscou fundo tentando controlar os sentimentos que fervilhavam contaminados pelo contrastante sabor que invadia as papilas de sua língua.

Ling, enquanto a mão esquerda pairava próxima à face do homem, deslizou o braço direito, esticando o pulso, os dedos e os sentidos, para depositar a folha de posse mãe na caixa ao lado do arquivo das folhas de posse filhas; sem desviar o olhar, sem hesitar e sem respirar, ela cumpriu o seu objetivo de despachar a carga e a responsabilidade que anteriormente havia colocado sobre si mesma.

— Melhor agora? — perguntou a mulher, afastando-se do colega de aura ameaçadora.

— O quê? — questionou novamente Huiliang, mastigando a cereja com intensidade e revolta.

Ling lhe direcionou um meio sorriso provocador, enquanto balançava a cabeça e respirava o mais calmamente que conseguia.

— Seu humor! — zombou mais uma vez a maga, e sondou com o canto dos olhos se o mago líder ou Forlyt apresentavam qualquer comportamento suspeito.

Percebendo que ambos a ignoravam, como costumeiramente o faziam, acalmou-se. Agradeceu aos colegas pela cereja e direcionou-se para a saída do departamento, evitando olhar para a expressão de ódio que Huiliang lhe dirigia.

— Ling — chamou uma última vez o mago, que a conhecia desde que entraram para o internato mágico de Horplac.

— Tenha um bom trabalho, Huiliang — respondeu a mulher, que caminhou para fora e começou a subir os degraus, mantendo a postura até que pudesse permitir que seu rosto voltasse à cor vermelha que ela tanto detestava em si mesma.

…

Benk esgueirou-se para fora do salão dos escribas, matando o tempo do trabalho com a apreensão que o forçava a questionar se tudo estava correndo bem com Pelk e Ling. Ele sabia que invadir a torre norte não seria uma tarefa simples, ainda mais pelo fato de o local possuir apenas uma entrada e saída, funcionários de rotinas imprevisíveis e habilidades desconhecidas; mas deixar o trabalho sob os cuidados de uma quase desconhecida proporcionava-lhe dores abdominais e o ímpeto de mover as pernas.

Observava sorrateiramente os arredores, próximo à porta do banheiro, quando percebeu Pelk retornando da missão de entrega. Chamou-o discretamente, convidando-o para o local, que, fortuitamente, além dele próprio, estava vazio.

A expressão confusa e desorientada no rosto do amigo não o surpreendeu, mas ele desejava saber imediatamente o que estava acontecendo.

— Conseguiu? O que ela está fazendo? — sussurrou o escriba, no mais baixo tom, devido à acústica amplificadora do lugar.

Pelk, irritado e cansado, encostou-se na parede e olhou para cima: um teto alto, levemente mofado, de uma antiga estrutura de sustentação de pedras e vigas de madeira que precisavam de melhores cuidados.

— Pelk — insistiu Benk, sem paciência para observações casuais.

O jovem o encarou e balançou a cabeça, confirmando em palavras, logo em seguida, tudo o que conseguia descrever:

— Não sei; entreguei para ela — sussurrou o mago. — Não adianta perguntar, ela vai fazer o que tem que fazer.

Apesar da expectativa positiva oferecida em sua fala, o mago manteve o olhar vago e distante, destoando completamente daquelas palavras, a ponto de levar Benk a duplicar a ansiedade dentro de si, em vez de acalmá-la.

— Isso não tá funcionando! — exclamou o escriba, que, no íntimo, quase não conseguia controlar a vontade de subir aquela torre por conta própria e inventar qualquer desculpa absurda e suspeita para invadir o departamento dos tabeliães.

— Não invente nada — desencorajou Pelk, percebendo o ânimo do amigo e prevendo o que passava por sua cabeça. — Melhor voltarmos ao trabalho — sugeriu o mago, emocionalmente perturbado, porém mais concentrado na imagem recente das costas de Ling entrando na sala de Norgta do que na ferida aberta de absoluta insegurança e desconfiança que Benk transmitia quando não conseguia ter as rédeas nas mãos.

Inconformado e rangendo os dentes, Benk saiu do banheiro, seguido por Pelk, cada qual carregando uma aflição particular que não perdurou em paz por muito tempo, pois, ao adentrarem o salão dos escribas, ouviram por alto o relato de Moav a Kabar; e um nome conhecido sequestrou suas introspecções sem que pudessem escapar.

— … Lorem me disse que conversou com aquele inspetor sobre o sumiço de um livro.

— Quem? — perguntou Kabar, sem entender a qual inspetor a mulher estava se referindo.

— O Edgor — disse ela. — Parece que alguém da Casa da Moeda está requisitando que investiguem.

— Era um livro tão importante assim? — perguntou o supervisor.

— Não sei, mas parece que também estão movendo os livros das bibliotecas — comentou Moav. — Ficou sabendo de alguma coisa?

Kabar tensionou os dedos sobre a mesa da mulher, aproximando-se da escriba.

— Meu irmão comentou que os magos estão alvoroçados. Tem alguma coisa aí — relatou ele, discretamente.

— Conversou com o Gior-joh? — perguntou a mulher, sabendo que o colega estava sob monitoramento constante.

Kabar olhou ao redor, percebendo que o homem estava distante.

— Ele não quer se envolver com nada disso, só quer que o deixem em paz — informou o supervisor.

Benk sentou-se em sua cadeira, agora com novas inquietações girando em sua já abalada conjectura mental. Pelk também seguiu para o próprio posto de trabalho, fitando com o canto dos olhos a expressão do amigo, que, por mais que se esforçasse, fracassava em passar tranquilidade. E ele mesmo duvidava que estivesse tendo mais êxito do que Benk em lidar com os sentimentos nessa situação.

Ambos sabiam, mesmo sem ter que se comunicar um com o outro, que precisavam conversar com Ling, agora com mais urgência ainda do que há alguns instantes