Capítulo 45. Dedos Dourados 23
Capítulo 45. Dedos Dourados 23
Pouco antes do fim do expediente daquele dia, os supervisores do setor de runas da ala leste, entre eles Gior-joh e Kabar, anunciaram o comunicado expedido pelo diretor-geral do departamento.
Excepcionalmente, durante os próximos dois dias, todos estavam liberados de suas obrigações; deveriam retornar às atividades apenas no dia seguinte à pausa.
Apesar de o motivo não ter sido esclarecido, quase todos os dedos dourados receberam a notícia de bom grado, mas Benk e Pelk apenas engoliram em seco ao se depararem com algo que nunca haviam presenciado antes: dois dias de folga surpresa e gratuitos.
— Pelk — chamou Benk, puxando o amigo de canto, mas antes que precisasse indicar sua intenção de ser guiado até a torre norte, o mago antecipou:
— Eu sei — disse ele, observando os colegas se retirarem para o corredor a caminho de suas respectivas residências.
Passados alguns instantes, depois de fingirem organizar os papéis e as gavetas de suas mesas, sob o olhar de Kabar, que estava responsável por trancar o salão, ambos saíram em direção ao banheiro, desviaram levemente o rumo e, como costumeiramente Pelk fazia, adentraram a única sala do almoxarifado que nunca era trancada e que armazenava os papéis que seriam posteriormente utilizados no setor.
Esperaram em silêncio até que os passos do corredor se distanciassem e, quando Pelk percebeu que estava tudo bem, esgueirou-se em direção ao acesso da ala norte, local tradicionalmente pouco movimentado.
Benk apenas o seguiu, pacientemente.
A torre norte estava mais silenciosa do que o normal. Cada lance de escadas foi cruzado diligentemente até chegarem ao sexto andar, em frente à porta do departamento de Loabek, onde Ling trabalhava.
Pelk estranhou o fato de encontrar a porta fechada, pois todas as outras vezes em que a visitara, ela estava aberta. E, ao tentar abrir o trinco, notou que estava trancada.
Benk, percebendo a situação, questionou:
— Isso é normal? Se batermos na porta, ela nos atenderá?
O mago não sabia o que responder; bateu na porta e atentou para qualquer possível som dentro do local.
— E se outros magos estiverem com ela? — perguntou Benk, lançando uma hipótese incômoda e problemática. Como explicariam para qualquer outro que os encontrasse o que estavam fazendo ali, ou quais assuntos tinham a tratar com a tabeliã?
Atingido por essa constatação, Benk recuou dois passos; Pelk, igualmente ciente do risco, fez o mesmo.
— Melhor voltarmos outro dia — sugeriu o mago. O escriba refletiu sobre as possibilidades inconvenientes, assentiu e, prontamente, sem que precisassem ponderar por um instante sequer, ambos desceram as escadas, frustrados por não conseguirem pôr a limpo as dúvidas que os perturbavam.
Caminharam até o alojamento, o qual ficava a poucos minutos da Câmara Forte. Ao chegarem ao quarto, protegidos pela privacidade, respiraram fundo antes de darem início à análise da situação.
— Acha que vai dar tudo certo? — perguntou Benk, sentando-se em sua cama.
Pelk olhou pela janela, contemplando a torre onde Ling trabalhava.
— Se ela conseguiu colocar o documento na caixa de encaminhamento, acredito que sim — respondeu o mago, convicto.
— Se chegar à ala oeste, eles apenas direcionam os arquivos para o Banco Central — confirmou Benk.
— E as folhas-filhas? — perguntou Pelk, também sentando-se e esticando as pernas para aliviar o estresse.
Benk colocou a mão debaixo do colchão, puxando o grimório, os papéis proprietários e, por tabela, o maço de selos rúnicos confeccionados.
— Certeza de que não tem problema eles não receberem as folhas-filhas para encaminhamento? — questionou o mago, recebendo em mãos os títulos ornados em runas de letras douradas.
Benk observou a torre norte e percebeu que, apesar de o crepúsculo gradativamente tomar posse da luz do dia, nenhuma janela da estrutura distante indicava a presença dos costumeiros magos noturnos.
— São setores encarregados diferentes. Eles não se comunicam — afirmou Benk, rindo baixinho.
Pelk seguiu o amigo no bom humor.
— Temos que agradecer à competência, à presteza e à falta de registros no serviço prestado por nossos companheiros — conclamou o mago, encarando os valores nulos no campo de recursos da folha de posse.
— Sim, e seria um pouco estranho se percebessem que estão despachando um documento de Norgta para a mesma cidade onde estão, no Estado de Palard. Não que isso realmente seja um problema — declarou o escriba, que conhecia bem as dinâmicas burocráticas do prédio onde trabalhava. — Mas fora isso, o que aconteceu na torre no começo da tarde? O que ela fez? — perguntou Benk, adentrando um assunto que precisava ser esclarecido.
Pelk encarou o amigo enquanto engolia a saliva e escolhia como deveria explicar a situação.
Concentrou o olhar nos selos que Benk segurava em mãos e emendou o relato a uma nova constatação inquietante.
— Ling encontrou um colega de profissão que já conhecia do internato de magos. Não gostei de como ela me tratou naquele instante — confessou Pelk. — Como conseguiu recarregar os selos sozinho? — perguntou o mago em seguida, sem conter as palavras.
Benk olhou para o maço de runas em letras douradas que segurava nas mãos. Estava amarrado por um cordame fino de algodão.
— Estão carregados? — questionou o escriba, sem entender o que o amigo estava perguntando.
Pelk esticou o braço, sinalizando para que Benk lhe entregasse os selos. Ele o fez e esperou a avaliação do amigo.
Um por um, o mago olhou atentamente para as linhas douradas e para a leve distorção de mana que reluzia de cada uma. Puxou um dos selos de luz do maço, dobrou a ponta da extremidade que conectava a runa de ativação com a linha de condução e, imediatamente, o selo emanou uma tênue luz.
— Absolutamente carregados — afirmou ele, espantado. Depois que Benk os utilizara em sua incursão pela Casa da Moeda, nunca mais empregaram o conversor de mana para recarregar os selos.
Ainda sem acreditar, mesmo que a prova brilhasse, literalmente, na sua frente, Benk torceu os lábios e balançou levemente a cabeça.
— Intrigante — disse ele, refletindo sobre a situação.
— O que você fez? — perguntou Pelk, encurralado entre a curiosidade e a apreensão.
Benk olhou ao redor e mentalmente reconstruiu, passo a passo, o percurso que os selos trilharam desde a madrugada em que foram utilizados. Alguns estavam danificados pela cola que os prendera às suas roupas, de onde, posteriormente, foram retirados com certa dificuldade. Outros estavam apenas inertes, depois de servirem ao seu propósito. Foram escondidos sob o assoalho no depósito de comida, depois voltaram ao quarto junto ao grimório…
— Ah! — exclamou Benk, surpreso pela própria dedução.
Pelk sondou o olhar do amigo enquanto este se desviava em direção ao grimório.
— O que foi? — indagou novamente o mago.
Benk pediu que Pelk lhe devolvesse o maço de selos.
— A tinta dourada absorve mana, e o grimório distorce a mana ao redor — disse ele, sorrindo e relembrando as palavras da maga.
Pelk coçou o queixo, abismado.
— Quer dizer que os selos tendem a se recarregar sozinhos?
— Sim — confirmou o escriba. — Mas quando estão ao lado do grimório, provavelmente isso é acelerado. Só não sei o quanto — constatou ele, satisfeito com a descoberta.
No entanto, Pelk, ainda incomodado com toda a situação, pressionou:
— Como é que isso funciona?
Em resposta, Benk apenas deu de ombros.
— O mago aqui é você — zombou o Dedo Dourado.