LNCrawler

Capítulo 46. Dedos Dourados 24

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 46. Dedos Dourados 24

Os dois dias de descanso renderam a Benk novas ideias, mas ele estava sem os recursos necessários para colocá-las em prática. Com o resto de tinta que possuía, elaborou o mais simples dos selos, o de luz, e o guardou dentro das páginas do grimório para testar sua teoria.

Pelk, no entanto, utilizou o tempo livre para arejar a mente, ajudou nas tarefas de limpeza e manutenção do orfanato e entreteve-se com as crianças no pátio, ao menos aquelas que não tinham idade suficiente para serem encaminhadas como auxiliares no percurso de domínio de um ofício. Desde cedo já eram consideradas pequenos adultos.

Quando retornaram à Câmara Forte e à rotina diária, o óbvio os esperava: uma sobrecarga de trabalho acumulado que não perdoava os olhos, as costas e os dedos dos escribas, que, por todo o expediente, correram habilmente pelas runas, atando as palavras douradas aos papéis.

Mas, por mais divertido que possa ser trabalhar de sol a sol, ignorando as dores características do entretenimento, em algum momento, a diversão acaba.

— Tentamos novamente? — sussurrou Benk, quando bateu a ampulheta do retorno dos funcionários à casa.

Com um aceno de cabeça positivo, o amigo exausto respondeu:

— Sim.

E, com os mesmos passos cautelosos da outra incursão, trilharam o avanço escada acima para, dessa vez, encontrarem a porta do departamento de Loabek apenas encostada.

Pelk, educadamente, empurrou a porta e sondou o lado interno do local.

Nesse instante, a voz de Ling os recebeu como se já os esperasse, e o som dos saltos ecoou enquanto ela se aproximava. Com um semblante sério e uma energia pesada, convidou ambos para que se acomodassem. Depois que já se encontravam no meio do cômodo, ela fechou a porta e a trancou.

Pelk direcionou a atenção para o rosto da mulher e, mesmo à meia-luz, notou as profundas olheiras que confessavam o seu cansaço. Perante a atenção do mago, ela desviou os olhos.

Antes mesmo que pudessem quebrar o gelo com uma introdução aleatória ou comentário genérico, Ling foi direta ao ponto.

— Benk, certo? Você tem ideia com o que está lidando? — perguntou a mulher. A aura incisiva dela vibrou ao redor da túnica cinzenta que ondulava revestindo seu corpo.

O escriba não cedeu à pressão que ela emanava. Manteve a compostura e chutou um assunto para analisar a reação da mulher.

— Você se refere à Casa da Moeda? Não creio que possuam qualquer indício consistente — afirmou ele, cruzando os braços sobre o tronco.

Ling pestanejou e seus lábios tremeram.

— Ah, nem me lembre, mas não é isso o que eu quero dizer — respondeu ela. — Aquelas runas? Como conseguiu elaborar aquelas runas? — questionou Ling, deixando transparecer, no agudo da voz, a inquietação latente de suas palavras.

Benk franziu a testa, e Pelk quase deixou escapar um comentário de indagação.

— São apenas runas — atestou ele, ajeitando os óculos no rosto.

A maga apertou os olhos, enrugando a face em uma expressão de asco.

— Apenas runas? — bradou ela. E, contendo a voz, mas não os braços, agarrou o colarinho de Benk, que, surpreso, apenas se deixou arremessar contra uma cadeira, sentando-se sem que pudesse escolher.

— Você sabe o que os alquimistas fizeram há dois milênios? Tem ideia do perigo que é moldar as palavras? — questionou ela e, sem deixar que respirassem, continuou:

— Não sei como aprendeu ou consegue tecer as fórmulas. E confesso que o subestimei. Devia ter me surpreendido mais quando relatou a invasão, mas fui tola e apenas aceitei. Fora isso, o mecanismo dos títulos de posse não é tão complexo. Mas, pensando bem, invadir aquele lugar é absurdo. Que tipo de magia você criou? — despejou a maga, de uma única vez, sobre o escriba que estava sentado de maneira desengonçada na cadeira em que ela o empurrara.

Pelk se colocou entre a maga e o amigo.

— Calma, Ling, o que exatamente quer dizer com isso? — apaziguou o mago. — Podemos conversar sem nos exaltarmos.

Seguindo a deixa de Pelk, o escriba contra-argumentou:

— Concordo que a magia oferece riscos, que os Drak alteraram a vida e propagaram a calamidade, mas de que adianta deixar de enfrentar o problema só porque isso é arriscado? — perguntou o escriba, ajeitando-se na cadeira enquanto controlava o ímpeto agressivo nascido do colarinho maculado.

Ling, ainda fora de si, afastou o mago da sua frente.

— Riscos? Eles criaram uma legião de monstros, quimeras. Você sabe o que aconteceu nos vilarejos remotos? Eles envenenaram o mundo inteiro — respondeu a mulher, aumentando o tom da voz.

Benk respirou fundo.

— Eu não sou um Drak! — afirmou com absoluta ênfase.

— Ainda não, mas suas runas carregam essa maldição — lamentou ela.

— Conhecimento não é uma maldição — respondeu com irritação Benk.

Ling retirou os óculos e colocou as mãos sobre o rosto. Deixar as emoções controlarem sua razão não levaria a nada e, no fim das contas, como maga e pesquisadora, negar as palavras do escriba não fazia sentido algum.

— Runas são tão perigosas assim? Mas elas não são utilizadas nos títulos e na fundição de armas? — perguntou o mago, encostando-se na mesa atrás de si.

A mulher, tentando se acalmar, puxou uma cadeira e se forçou a sentar, abaixando a guarda.

— O problema não são as runas, ou outras formas de linguagem, Pelk. É o que é possível fazer com elas — afirmou a maga.

E, antes que os rapazes pudessem expressar novas conjecturas, ela ergueu a mão no ar e curvou o corpo para frente.

— O Rei Vermelho fechou todas as instituições de ensino e pesquisa, aplicou uma reforma completa no sistema de instrução e praticamente forçou o continente inteiro ao analfabetismo — relatou Ling. — São poucas as pessoas que têm acesso ao letramento, vocês sabem disso.

— E somos vigiados constantemente, nem temos permissão para sair de Om — disse Benk, confirmando a perspectiva da maga.

Ela balançou a cabeça e o sarcasmo invadiu sua voz:

— Ninguém mais leva a sério essa gloriosa função. E tudo indica que os magos estão começando a cruzar uma certa linha — confessou a mulher.

— Como assim? — perguntou Pelk, enunciando a mesma dúvida que explodia na mente de Benk.

A mulher abaixou a voz para quase um sussurro.

— Como sempre, o secto de Ecala Moon — acusou ela, com a indignação estampada nos olhos. — Não tenho clareza do que estão fazendo, mas bastou uma janela aberta para que o Alto Mago Monetário entrasse em pânico.

— O que aconteceu? — perguntou Benk, sentindo-se implicado na situação.

— Sir Goclom convocou o Conselho dos Doze. E, pelo que consegui entender, depois de investigarem em múltiplas frentes, descobriram o sumiço de um grimório. A desculpa perfeita. Encaminharam uma convocação geral, forçando todos os magos a obedecerem à autoridade central e oferecerem o controle de qualquer livro em suas posses, até os em fase de confecção. Eles centralizaram tudo sob a proteção dos Gran-Magos — disse Ling, com a revolta correndo junto ao sangue das veias.

— E quem são esses Gran-Magos? — indagou Pelk.

Ao ouvir a pergunta, ela se deu conta de que não havia explicado em detalhes a hierarquia dentro do secto dos magos.

Sem qualquer parcimônia e acalmando-se enquanto falava, relatou que cada Estado do Reino Antigo possuía uma subsede do secto, menos Gujav Bow, e, em cada subsede, havia uma escala de autoridade, seja por status, seja por feitos de prestígio. Na base estavam os aprendizes, normalmente alojados em Ecala Moon; depois os magos de província, alocados em funções administrativas, seguidos pelos magistrados, ocupando a função de manutenção da ordem; os acadêmicos, cujo nome já esclarece a posição que ocupam; e os magos da corte.

Quando chegavam ao patamar final, dividiam-se novamente em um novo escalonamento, sendo, respectivamente, os da baixa, média e alta corte. Acima de todos, estava o representante geral, chamado de Alto Mago, que recebia uma alcunha de responsabilidade. Eram doze no total, cada um pertencente a um dos Estados do Reino Antigo. Os Altos Magos e os magos da Alta Corte eram designados pelo título de Gran-Magos.

Ling era apenas uma maga de província, e o seu mestre tutor, um acadêmico.

— E o que eles ganham com essa ordem de concentrar os grimórios sob o controle da alta cúpula? — perguntou Benk, curioso com a movimentação política dos magos.

A maga endireitou a postura na cadeira e deixou uma certa satisfação escapar no seu sorriso.

— Estão tentando retomar o controle — alegou ela, sabendo muito bem que a velha hierarquia estava ruindo por dentro.

Pelk lembrou-se das palavras da maga no dia do festival.

— Magos errantes? — questionou o aprendiz.

— Bem pior que isso — respondeu a tutora.