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Capítulo 47. Dedos Dourados 25

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 47. Dedos Dourados 25

Benk aceitou o pedido de desculpas da maga; era compreensível ceder ao estresse e perder a cabeça, mas o mais importante era descobrir se ela havia conseguido ou não encaminhar os títulos pelos quais assumiu a responsabilidade.

— E o que aconteceu com a folha-mãe? — perguntou ele, com expectativa desconfiada.

A mulher soltou o ar com força, constrangida e levemente contrariada.

— Não se preocupem com isso! — exclamou a maga.

O aprendiz sorriu discretamente, mas não se conteve em enunciar o que o incomodava.

— E aquele mago? É seu colega de internato? Ele desconfiou de algo?

Novamente, a respiração da mulher se alterou, acelerando em sincronia com seu batimento cardíaco.

— Huiliang? Ele é um incômodo.

No entanto, mesmo que as palavras dela soassem duras, seu olhar vacilou levemente, resistindo por orgulho ao tentar não demonstrar fraqueza.

Não convencido pela resposta evasiva da maga, o escriba levantou-se e, sem pedir permissão, começou a investigar as caixas e as folhas de posse arquivadas nas estantes, supondo, pela quantidade, que muitas delas estavam ali há algum tempo.

— Tem certeza de que deu tudo certo? — pressionou Benk.

Girando o corpo para acompanhar o movimento do rapaz, Ling o encarou com firmeza.

— O que sei é que as fichas foram encaminhadas. Algo mais o incomoda, jovem? — disse a maga, com certa provocação no tom da voz.

Percebendo o atrito desnecessário entre eles, Pelk interveio:

— Temos que dar tempo ao tempo. Se as folhas estão no departamento de Norgta ou se já se encontram na ala oeste, desde que continuem o caminho, não temos motivo para nos preocupar.

— Já devem estar na ala oeste — afirmou a mulher. — Conheço a rotina daqueles magos.

Benk reconheceu a sensatez nas palavras de Pelk e sua própria acidez ao duvidar de Ling.

— Comentou que os magos foram obrigados a entregar seus grimórios? Eles têm esse tipo de força ou controle sobre vocês? — perguntou o escriba, ainda sondando os arquivos nas estantes.

A maga torceu o maxilar, esticou os músculos do pescoço e deixou a cabeça pender para trás para encarar o teto.

— Agora têm — afirmou ela com pesar.

Ling ergueu a manga da túnica que recobria completamente seus braços, revelou o braço esquerdo e deixou os olhos dos rapazes vislumbrarem um bracelete metálico espiralado de cor prata; o objeto estava firme ao redor do pulso e reluzia tanto no metal quanto na gema verde incrustada que o ornava.

— O que é isso? — perguntou Pelk à tutora, enquanto apreciava com apreensão a complexidade da estrutura que ela apresentara.

— O mesmo que os títulos de posse — informou a maga. — Controle. Eles sabem onde e quando estamos tecendo uma conjuração.

— Ao usarmos um grimório, a mana flui de modo completamente diferente em nossos corpos — relatou ela, enquanto tateava com os dedos o metal prateado. — Agora usamos coleiras feitas sob medida. Um presente especial que herdamos dos saudosos alquimistas ao criarem as fórmulas rúnicas.

Benk aproximou-se e, comprimindo os olhos com concentração absoluta, conseguiu distinguir os diminutos entalhes que percorriam a superfície do bracelete.

— Interessante — disse ele, ao deixar as palavras escaparem da boca.

A mulher abaixou a manga de suas vestes, irritada pela colocação elogiosa do escriba ao seu lado.

Notando a própria indelicadeza, Benk afastou-se e, com sinceridade, repetiu o preceito que recentemente seu melhor amigo lhe oferecera:

— O que runas regem, runas alteram — conclamou o Dedo Dourado.

Pelk sorriu, deixando a preocupação desaparecer de seu rosto. A maga, por sua vez, apertou o objeto que a restringia, permitindo que a esperança acolhesse o estresse pelo qual estava passando.

Satisfeito com a mudança nos olhares dos companheiros, Benk introduziu uma questão que inicialmente poderia parecer secundária:

— O que eles estão fazendo com os grimórios confiscados?

Compreendendo a legitimidade da questão, Ling levou a mão direita em direção ao queixo e centrou a memória para enunciar o relato:

— O Forte Norte de Madre Sanor — respondeu a mulher. — A fortificação mais bem guardada da cidade de Om.

— Esse lugar fica perto da nova ponte — disse Pelk.

— Bem perto — confirmou Benk, que, logo em seguida, perdeu completamente o controle da imaginação, enquanto segurava um sorriso de empolgação e entusiasmo.

Ling e o aprendiz não notaram esse pequeno e breve gesto íntimo do rapaz.

…

A maga analisou as runas no metal, percebendo que, por mais que a parte externa estivesse visível, não era possível distinguir a parte interna, bem fixada ao redor do pulso. Precisava de um bracelete que ainda não estivesse selado, como uma preciosidade indigesta, ao seu corpo.

Benk, ciente da situação, esclareceu que, caso ela dispusesse de algum tempo livre, deveria investigar onde exatamente esses adoráveis itens eram confeccionados. E, como Pelk gentilmente descreveu, por não poder auxiliar a tutora: “Infelizmente, isso é coisa para magos.”

No decorrer dos dias e dos turnos de trabalho, a rotina manteve-se impassível, apesar do comportamento um tanto quanto diferente do escriba, que, após a última reunião noturna na torre norte, começou a apresentar uma atitude que levantou a apreensão de Kabar.

— Ei, Pelk — chamou o supervisor, certo dia. — O Benk está bem? Ultimamente ele tem passado um bom tempo no banheiro.

Kabar estava genuinamente preocupado com o estado de saúde do subordinado.

O mago abaixou a pena, olhou nos olhos do homem e respondeu exatamente o que sabia sobre a situação.

— Deve ser algum desarranjo intestinal; ele não está comendo direito — informou ele.

— Se for algo grave, é melhor consultar um herbalista ou um Foro — aconselhou o supervisor.

Pelk concordou com Kabar. Após o expediente, no retorno ao alojamento, precisava perguntar ao amigo o que ele estava sentindo.

Benk, por sua vez, ao menos no alojamento, mantinha a rotina sem qualquer alteração; jantava, tomava banho rapidamente, escovava os dentes e retornava ao quarto, onde folheava livros diversos emprestados da biblioteca ou o grimório de Hord, sempre fazendo algumas anotações pontuais na penumbra antes de dormir.

— Tá tudo bem, Benk? — perguntou o mago quando a noite daquele dia tomou forma.

O escriba reagiu com certa surpresa no olhar. E uma pessoa que não o conhecesse tão bem quanto Pelk deduziria que não havia nada de errado ou estranho quando ele negou qualquer problema.

— Ah! O que está planejando? — inquiriu ele, sondando o amigo. — Já conseguimos os títulos, Benk. Agora é questão de tempo! Temos os recursos e os documentos que precisamos para sumir dessa cidade.

O escriba confirmou e, com um sorriso de triunfo, deu tapinhas no ombro do mago, comemorando o êxito da árdua jornada de anos a fio. Logo, quando atingissem a maioridade e fossem convidados a se retirar do orfanato, migrando para a independência e a autonomia em uma nova casa, aproveitariam a deixa para expandir os horizontes e, ilegalmente, evadirem-se das vistas do Estado rumo ao mundo que tanto os encantava.

Benk, no entanto, trouxe à tona um dilema que ainda não estava resolvido: Ling.

Pelk abaixou a cabeça, tentando esconder o impasse, mas não foi bem-sucedido.

— Ela tem a vida dela, não posso colocá-la em risco. Para magos já vinculados ao secto, e ainda mais, com aquela coleira no pulso, é bem mais difícil — disse Pelk, imerso em amargura.

E, após o acolhimento e o semear de esperanças, de que ao menos aquele bracelete poderia ser alterado, Pelk compreendeu que se houvesse a oportunidade, tentariam ajudar a mulher.

Aceitou as palavras do amigo e, como sempre, o perdoou por sua conduta um tanto quanto misteriosa, mesmo que soubesse que ele estava arquitetando alguma coisa, como de costume.

Benk, por fim, apenas pensou consigo mesmo: Tenho uma nova biblioteca para invadir.