Capítulo 48. Dedos Dourados 26
Capítulo 48. Dedos Dourados 26
A cidade de Om tradicionalmente possuía três grandes bibliotecas.
Uma na área central, chamada de Biblioteca Central de Palard, mista e sob a responsabilidade do secto mágico. Era aberta ao público alfabetizado e aos funcionários da administração pública em geral. No seu interior, existia uma divisão: o pavimento do subsolo inferior do antigo encastelado era exclusivo ao uso dos magos, e o resto da edificação era aberto ao uso irrestrito da população mediante um cadastro.
Já a biblioteca Palaciana era exclusiva aos membros da alta classe e aos magos da corte; seus livros eram restritos, e magos de baixa posição necessitavam de permissão especial para consultá-la.
A terceira também era aberta ao público, mas sua função era a de preservação cultural, sendo exclusiva para visitação e contemplação das obras históricas ali expostas, transmitindo a história do Reino Antigo e armazenando a cultura milenar de todas as civilizações que já existiram e que ainda existem; preservando o registro que deixaram, ou deixam, para as próximas gerações. O manejo do material só poderia ser consolidado sob a supervisão dos funcionários locais, os quais possuíam qualificação no trato delicado que as obras podiam exigir; e por regra irredutível, não era permitido qualquer empréstimo do material ali armazenado.
Benk adentrou os corredores do prédio da antiga biblioteca do secto mágico, lugar vasto de teto abobadado e amplo, certamente um dos mais belos prédios da capital de Om, construído com pedras milenares e repleto de estantes as quais ele conhecia tão bem quanto a palma da própria mão. Ficava a menos de uma ampulheta de distância da Câmara Forte, e estava vinculada ao mesmo setor administrativo e burocrático ao qual ele pertencia. Todos os funcionários letrados do Estado tinham acesso aos andares superiores, onde encontravam uma variedade imensa de livros sobre diversos assuntos e áreas do conhecimento. Um santuário que o Rei Dragão, apesar da virulência despendida em relação às academias, fez questão de preservar. Tudo o que Benk sabia sobre o mundo aprendera ali, um livro de cada vez.
A porta de acesso aos andares inferiores agora não estava mais trancada. O orbe de lacre mágico estava desativado, e o conteúdo histórico e mágico de seu interior havia sido movido para outro local.
Em uma consulta rápida ao bibliotecário apelidado carinhosamente de Mestre das Traças — a quem Benk seguramente poderia considerar um amigo —, o escriba descobriu que toda a parte antes restrita seria agora usada para ampliar a coleção de exemplares de acesso popular. Embora o Mestre desconhecesse o real motivo de tão repentina mudança, Benk certamente sabia muito bem. A biblioteca agora não era mais a casa dos grimórios e livros exclusivos dos magos que ali habitaram por séculos.
A partir daquele momento, a cidade inaugurou uma nova biblioteca, uma de completo e absoluto controle de acesso, que era tão ou até mais restritiva do que a Palaciana: o Forte Norte de Madre Sanor, conhecido como o primeiro castelo da cidade de Om.
Era uma suntuosa estrutura que datava de mais de dez mil anos, conhecida como a mais fortificada defesa já construída em todo o Reino Antigo, ostentando muralhas de cerca de quinze metros de altura, de dupla camada e com torres ainda mais altas cobrindo todo o perímetro.
Uma obra que possuía apenas dois defeitos que a fizeram ser preterida em relação a um novo palácio governamental no centro da cidade: ficava no topo da parte mais elevada da cidade, ao lado do rio Corgo, o que a tornava vulnerável a incursões fluviais, e já não comportava o pessoal da máquina estatal de um reino de população crescente, que só na capital já ultrapassava um milhão de pessoas.
As reformas públicas orquestradas pelo Rei estabeleceram o encastelado como um local para o treinamento e prontidão das forças defensivas da cidade, mas o espaço interno da fortificação atualmente mal era utilizado, o que fez com que o Alto Mago Monetário sugerisse o local como ideal para armazenar e zelar pelo patrimônio mágico de todo o secto do Estado de Palard.
O primeiro castelo da cidade agora era também a quarta biblioteca local, protegida por um corpo militar permanente de veteranos e novatos em prontidão constante, onde os vastos salões inferiores, anteriormente utilizados para armazenar mantimentos e recursos, eram agora a morada de todos os grimórios confeccionados pelos magos, ancestrais e contemporâneos, durante milênios no continente do Reino Antigo.
O mesmo se repetiu em Estados em que o poder do secto ainda ecoava com força, como em Ecala Moon, Midfig e Oabeg.
Apenas um detalhe relativamente insignificante foi ignorado pelos Gran-Magos em sua estratégica resolução: o castelo estava localizado acima de um dos dutos que encaminhavam as águas do sinuoso rio Corgo para o reservatório de tratamento e, depois, para toda a cidade de Om. E Benk sabia disso.
…
O período frio estava chegando ao fim e, com ele, chegaria também a temporada de chuvas e cheias. Benk não tinha tempo a perder; precisava agir ou a oportunidade seria selada pelo volume do rio e o consequente preenchimento dos dutos em sua máxima capacidade.
Tinha que elaborar e concretizar um plano, caso contrário, só teria a mesma oportunidade no ano seguinte. E, de acordo com o cronograma, em duas estações eles alcançariam a maioridade e estariam livres para fugir daquela cidade.
Imaginou as consequências inevitáveis de atrasar a fuga em mais um ano, e isso envolveria um incômodo percurso: primeiro teria que confessar suas intenções e convencer Pelk da importância de sua ambição — sabendo que sua postura não passava de egoísmo —, teriam que prolongar a estadia na cidade, mas em uma casa financiada ou arrendada, o que exigiria o esforço da mudança, a compra de móveis, gastos com alimentação, limpeza, higiene, logística nova de locomoção, e sabe-se lá o que mais… para além do maldito e insuportável estresse do trabalho e da rotina compulsória, e até então vitalícia, que tanto abominavam.
Essa empreitada urgente era uma aposta: ou conseguia desbravar os manuscritos secretos do mundo das runas, ou sua petulância seria varrida por água abaixo.
Enfim, no pior dos cenários a fuga e o custeio da jornada dele e de Pelk já estavam praticamente garantidos, mas sua curiosidade gritava mais alto.
No instante em que Ling relatou o novo local da biblioteca do secto mágico, o ímpeto conectou-se ao instinto e o desejo sobrepujou o controle e o bom senso. Só mais uma vez.
As palavras fixaram-se na sua mente, abraçadas pela constatação teórica de uma ousada abordagem.
O conhecimento armazenado no grimório de Hord — um mago que dedicou a vida às responsabilidades, mas que nunca deixou de lado a paixão pela terra — resultou na confecção de adoráveis magias que acolhiam e zelavam pelo solo, demonstrando também grande admiração pelas pedras. Exatamente o tipo de sustentação sobre a qual um bom e velho castelo que se preze era construído. E, por mais impenetrável e bem guarnecido que o Forte de Madre Sanor pudesse ser, sua estrutura rochosa poderia ser violada.
Benk já sabia qual seria a melhor rota para essa empreitada, mas ainda estava quebrando a cabeça para superar esse sólido obstáculo.
Não sou mago! Amaldiçoou-se em sua mente por não poder usar a chave que segurava nas mãos, para ele, o livro de nada servia como ferramenta; então o que restou foi dar vida à força bruta. Um selo capaz de rasgar as rochas e abrir caminho para a mais insana e ousada ladroagem cometida contra uma biblioteca em toda a história do reino.
…
Os dias passaram, e o comportamento do escriba continuou completamente errático. O que inicialmente era preocupação por parte de Kabar começou a se tornar puro rancor. Não uma, nem duas, nem três. Benk ouviu os gritos do homem diversas vezes; broncas seguidas que aconteciam freneticamente durante todo o expediente, dia após dia.
“Você está gastando tinta demais. O seu cabelo está bagunçado. Sua jaqueta está rasgada. Procure logo um Foro. Não quero ver uma única folha em sua mesa. Vou mesmo ter que chamar o diretor?!”
Benk apenas ouvia calado. O velho Kabar em sua adorável gentileza. Como poderia não cultivar respeito e consideração em relação àquele grande idiota?
— Kabar! — gritou Moav certa vez, colocando-se ao lado do escriba.
A fúria do supervisor ricocheteou comicamente, enquanto ele engolia em seco e recuava dois passos, pressionado pelo olhar intenso da mulher.
— Tá tudo bem, Benk? — acudiu ela, zelando pela integridade do rapaz.
O escriba simplesmente sorriu e, com gratidão, retribuiu com as palavras:
— Está tudo ótimo.
A mulher não entendeu a serenidade e a genuína felicidade que o colega de trabalho transmitia. Na verdade, era um pouco perturbador.
No dia seguinte, Benk resolveu requisitar uma folga.
…
— Não se preocupe, Pelk — disse o escriba, acalmando-o. — E não preciso de uma jaqueta nova! Só está descosturada na parte interna, ninguém deveria perceber… Fora o babaca do Kabar, que procura perna em peixe.
— E quanto dinheiro já caiu na folha de posse? — perguntou o mago.
Benk puxou os papéis debaixo da cama e os entregou ao amigo.
— Umas dez vezes o que ganhamos em uma estação, certo? — indagou ele, acomodando-se na cama para dormir.
Lendo as informações atualizadas no papel, Pelk constatou o fato. Em pouco mais de quatro turnos desde a ativação do documento, cada um deles já contava com a soma de quinze moedas de ouro, cinquenta de prata e trinta e duas de bronze. Levando em conta que ganhavam a cada três turnos cinquenta e uma moedas de prata, e por estação uma de ouro e cinquenta e três de prata, já haviam acumulado o equivalente a pouco mais de dois anos e meio de trabalho cada um. Isso fez com que o mago ficasse boquiaberto durante boa parte da noite, até que, sem perceber, pegou no sono, acordando apenas quando Dona Frida bateu à porta para anunciar que o café da manhã estava pronto.
…
O grimório, assim como haviam constatado há algum tempo, e como Ling esclarecera, distorcia e absorvia a mana ao redor; não obstante, quando perceberam que os selos haviam se recarregado “sozinhos”, uma pergunta martelou na mente do escriba: será que eles podiam ser ativados em sua primeira carga sem a necessidade de que Pelk utilizasse o conversor de mana?
Em segredo, Benk testou a abordagem.
A função do grimório era auxiliar o controle de mana dos magos. Levado pela incontrolável necessidade de desvendar as possibilidades — e incapaz de conter a curiosidade —, ele percebeu, com o resultado final do experimento, que o selo de luz ativou-se normalmente após repousar por um dia dentro do livro. Isso motivou-o a cruzar a margem da sanidade definitivamente.
A pergunta agora não era se, mas o quanto. Um selo, dois, dezenas. Até onde aquele livro poderia oferecer a ele os instrumentos que não abriam portas, mas arrombavam paredes? Após testes secretos que esburacaram o pavimento, Benk, ciente, mas ignorando as palavras de Ling em relação aos perigos da magia, muniu-se de recursos acumulados devido às horas que passou enfurnado no banheiro da Câmara Forte, escondendo, dentro das camadas das roupas, selos e mais selos, e, por fim, investigando a rota e as cercanias do grande rio. Ele estava pronto.
Agora, a única coisa que faltava era agir.

Benk