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Capítulo 49. Dedos Dourados 27

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Capítulo 49. Dedos Dourados 27

Em uma tarde marcada pelo desfecho do período frio, já com um clima mais convidativo e ameno, Benk cruzou a cidade em direção ao Forte Norte de Madre Sanor. A fortaleza ficava nas cercanias de onde ele e Pelk haviam adotado os felinos utilizados no fim da última estação, para distrair Lorem. E apesar de esse evento ter acontecido há pouco mais de cem dias, para ele, aquela empreitada já flamulava como uma eternidade distante. O mundo girava sob engrenagens as quais sentia que podia entender, e por mais prepotente que fosse, após os êxitos recentes, começou a imaginar que poderia controlá-las.

O arco da grande ponte em progresso refletia a cor amendoada do entardecer, enquanto as águas cristalinas do rio Corgo recebiam os feixes de luz que ondulavam rente à sua superfície plácida, delicadamente acariciada por um vento seco que corria livre, carregando consigo as expectativas prósperas da próxima estação.

O escriba caminhava lentamente pela erma calçada que oferecia a contemplação da sinuosa e distante vazão das águas que se estendia pela jusante, ganhando gradualmente velocidade à medida que seu curso se estreitava levemente ao descer o platô colina abaixo, para depois adentrar a planície e além. Acompanhando as águas, na margem oposta, uma vasta mata ciliar separava o perímetro urbano da natureza imaculada.

Conforme as sombras ganhavam forma, contornando pela orla o declive da margem, Benk esgueirou-se e deslizou pela superfície inclinada de pedra até aproximar-se da linha d’água. Uma tênue trilha escavada emergia na borda, rente ao fluxo, seguindo até uma abertura tunelar transversal que acolhia o volume das águas, aproveitando-se do início da inclinação do terreno; a estrutura encaminhava parte da vazão do curso do rio Corgo para dentro do túnel. Esse duto, localizado a dois metros abaixo da calçada, recebia as águas que adentravam a cavidade arquitetônica circular que possuía pouco mais de um metro e meio de diâmetro. No atual nível das águas, um estreito corredor permitia o acesso à entrada do duto que, após poucos passos, apresentava uma barreira de firmes grades compostas por vergões metálicos que bloqueavam o acesso e evitavam a passagem de entulhos eventualmente trazidos pelas águas.

Benk sorriu ao tocar o orifício da fechadura de um pequeno portão de manutenção que, quando transposto, encaminhava a passagem duto adentro. Puxou do bolso um selo rúnico, colou-o na parede da entrada e o ativou.

Apesar de gasta e enferrujada, após ser destrancada, a grade se abriu sem qualquer esforço, permitindo ao escriba contemplar a escuridão interna que ecoava o som das águas. O canal estava repleto de vegetação submersa que filtrava as impurezas, o lodo e a areia, e uma leve inclinação inicial bloqueava eventuais detritos que passassem pelas grades, antes da normalização do curso.

Apesar de não ser muito alto, Benk teve que seguir agachado; com a borda curva da parede ao seu lado e sobre sua cabeça, torcendo seu centro de equilíbrio e puxando-o para o meio do canal, esforçou-se para continuar na pequena mureta, andando com os calcanhares rentes à parede e com as costas curvadas, adaptando-se ao espaço tunelar. Não era fácil manter essa posição, arrastando os pés lentamente enquanto avançava com o corpo de lado pelo túnel adentro.

Não era à toa que o serviço de manutenção dispunha de uma força de trabalho composta por crianças, como ele bem sabia.

As paredes do túnel eram de rochas sólidas polidas pela força das águas, o que facilitava a locomoção devido ao pouco atrito entre a capa que usava e a parede às suas costas; e apesar do incômodo sentido pela coluna, quadril e joelhos, conseguiu manter o avanço pelo túnel, mas não demorou até que o ponto de luz distante da entrada diminuísse de tamanho e o começo da noite gradualmente dissolvesse qualquer vestígio de claridade. A escuridão era plena.

Sacou da bolsa o segundo selo do dia, ativou-o e a luz voltou para acolher o percurso. Segundo seus cálculos e conhecimento, o túnel cruzaria por debaixo da fortaleza depois de cerca de três mil e trezentos pés. O problema era contar aquela distância sem qualquer orientação, mas exatamente para conseguir descobrir onde estava, Benk havia elaborado um selo especial.

Puxou do bolso o selo irmão daquele que colara na entrada do duto, ativou-o e observou a dança das runas contar a distância. Marcava dois mil e sete pés. Esse era exatamente o espaço que separava um selo do outro e, conforme avançasse pelo túnel, o valor aumentaria. Sua única preocupação era seguir até que o valor no papel fosse próximo ao valor estimado da distância da fortaleza para o cais ou a margem do rio.

Continuou avançando gradualmente pelo duto, sentindo o frio gélido e o ar estagnado pressionarem seus pulmões. O cheiro de gases acumulados começou a incomodar suas narinas enquanto a umidade das paredes penetrava o tecido da capa.

Um pouco mais, só um pouco mais , mentalizou o escriba. Ele sabia que aquilo não era nada comparado ao esforço despendido pelas crianças que vagavam por toda a extensão hídrica da cidade, verificando as estruturas de sustentação dos reservatórios e estações de tratamento que ficavam abaixo do solo. Era uma profissão de alto risco, e mesmo com equipamentos apropriados, como cristais de respiração, as chances de fatalidade eram reais.

Benk sentiu o peso de subestimar a dificuldade da incursão. Respirar começou a ficar cada vez mais difícil, e cada metro de avanço cobrava o seu preço.

Compreender o risco envolvido era um princípio básico, e o excesso de afobamento e empolgação — a tolice em forma e consequência — havia se estabelecido.

Tinha duas alternativas. Voltar ou prosseguir. Uma delas poderia ser mortal.

O selo de distância marcava três mil; faltava pouco. Mas precisava ser rápido; a dor começou a se espalhar por seu corpo; sentia os músculos começarem a enfraquecer, a cabeça doía e o pensamento asfixiava.

Três mil e cem, três mil cento e vinte… o selo de luz se apagou. Os dedos trêmulos sacaram não um, mas três deles da bolsa. E essa foi a parte fácil; segurou-os com firmeza, tentando dobrar a ponta para ativá-los, e instintivamente, sem parar as pernas, continuou avançando. Ativou um selo, esforçou-se para ativar o segundo, e continuou avançando, um passo de cada vez. Ignorou a dor; respirar era um capricho que o coração disparado exigia em vão. Ativou o terceiro. Que se faça a posição. A luz plena apresentou os números. Três mil quatrocentos e sete.

Passou do ponto. Que seja.

Abriu as pernas e alcançou a borda no outro extremo do duto; o joelho fraquejou, arqueou o corpo tentando equilibrar-se para não se estatelar sobre a água que corria por baixo de suas pernas e bateu a cabeça com um som oco na parte superior do túnel, o que, paradoxalmente, clareou seu pensamento.

As palavras cravaram um delírio em paralelo aos comandos obedecidos por um corpo errático. O maço de selos de perfuração — a cola… desnecessária —, essa parede molhada serve . Um, dois, três… dez… quinze… vinte e cinco selos… não é suficiente. Trinta… trinta e três… quarenta e dois. A parede direita do túnel estava recoberta por papéis que aderiram à sua superfície.

Com a mente turva e sem entender como conseguira organizar todo o sistema, Benk apenas se surpreendeu. Os selos rúnicos para abrir um buraco tão massivo precisavam trabalhar em conjunto. Cada um agia por conta própria e conectava-se ao subsequente, linhas que cruzavam um caminho, que trilhavam uma verdade e conferiam não um comando, mas uma ordem.

O mosaico estava montado, os selos em quebra-cabeça, encaixados uns nos outros, esperando que o dedo dourado dobrasse a ponta da ignição.

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Pelk