Capítulo 50. Dedos Dourados 28
Capítulo 50. Dedos Dourados 28
As palavras ecoavam em seus ouvidos, seus olhos ardiam, suas pernas tremiam e a memória invadiu sua consciência…
Aquele que repousa é inseparável daquele que se move e da distância à proximidade calcula sua presença…
O selo de medição… — Onde devo perfurar? — perguntou-se o escriba, tateando a parede úmida e buscando o ar rarefeito… Estou no lugar certo?… Colocou a mão sobre o peito sem saber qual das dores precisava ignorar.
Dobrou a ponta do selo na parte mais baixa da parede, próximo à água, que fluía indiferente…
O rastilho mágico cortou pelas linhas seguindo de um selo a outro, dançando, girando e avançando por toda a circunferência disposta na superfície da sólida rocha de granito.
Como uma broca em espiral, a energia penetrou os compostos, ordenando que as impurezas se concentrassem no centro do redemoinho.
…de identidade seja feita a exclusão de quem invade, sou o sólido e puro granito que abraço os meus semelhantes e aos diferentes empurro… afaste-se de mim e ao pó torne em morada no centro que gira, tritura, incandesce e de viscosidade desliza; haja líquido, torne-se cinza…
Benk recuou alguns passos, desequilibrou-se e esforçou-se para não colapsar dentro do duto… Preciso me levantar … sussurrou seu delírio, mesmo que ele nem sequer tivesse tombado.
Enrijeceu os músculos das pernas, forçando as solas dos pés a sustentarem seu peso. Todo o seu corpo sentiu o calor intenso que emanava da magia em ação, moldando a rocha que se tornou escarlate a ponto de obrigá-lo a fechar os olhos. Os gases vaporizados preencheram a já saturada atmosfera do túnel, forçando-o a prender uma respiração que já tropeçava em asfixia.
O óxido de ferro, os anfibólios e os carbonatos concentraram-se na fornalha de detritos, escorrendo de dentro da parede e, ao entrar em contato com a água, evaporaram o líquido que, por sua vez, solidificou o pó e o arrastou corrente adentro.
Enquanto os selos despejavam sua ordem, a rocha vibrava, expelindo o piroxênio e a limonita.
Em segundos, o que levaria horas ou até mesmo dias, escavou-se rocha adentro; um obediente mineral retorcido em suas impurezas e forçado a negar o que dentro dele habitava.
…esteja ciente de que da totalidade ao menos a décima parte lhe invade e não lhe pertence, que berço torne em retorno e ao descanso permaneça a identidade maior, sem nunca tocar a superfície do solo que acima sustenta…
Benk sentia a cabeça girar, as extremidades de seu corpo formigavam e estavam dormentes… Conforme um grande orifício escavado se formava diante dele — metros transversais que subiam, galgando uma circunferência apenas um pouco mais larga do que seus ombros —… Na urgência emergente, o escriba avançou.
O efeito dos selos de mutação rochosa cessou; reféns da própria magia que conjuraram, eles queimaram completamente sem deixar vestígio algum.
Munido dos selos luminosos e em agonia indescritível, Benk começou a se arrastar para dentro da abertura, ignorando o calor quase insuportável que ainda impregnava o local como efeito colateral das impurezas expulsas do granito.
Deslizou o corpo, que logo estava completamente dentro da rocha, avançando com os cotovelos e antebraços por mais de dois metros até encontrar o limite: a parte da rocha que bloqueava o caminho.
Improvisou uma pinça e do bolso puxou outros selos… Nesse instante, a intensidade da dor de cabeça era tamanha que intimamente quase não conseguiu conter o desejo de desistir e ceder ao fim.
Mas faltava pouco.
Colocou sobre a superfície da rocha todos os quatro pedaços de papel, igualmente ordenados e conectados, e sem hesitar ou sequer pensar, deixou o puro instinto agir. Uma mão sustentou os selos contra a rocha e a outra dobrou a ponta de ativação.
A magia percorreu o papel e uma pequena faísca estalou quando a mana da linha dourada entrou em contato com seus dedos igualmente manchados. Sentiu a borda da rocha descolar como uma tampa que, obedientemente, construía uma abertura onde antes havia apenas um limite intransponível.
Benk já nem sequer ofegava… Empurrou a pedra com toda a limitada força dos braços, conseguindo que apenas uma pequena fresta se abrisse; forçou a abertura um pouco mais antes que perdesse completamente a energia e, enquanto o ar puro entrava e reanimava sua já incapacitada organicidade, deixou os olhos pesados fecharem e a consciência ceder impotente à escuridão.
…
Com a respiração pesada, o escriba despertou. Os músculos do corpo inteiro doíam, sua pele estava chamuscada e ardia. Tentou mover-se em direção à brisa fresca que renovava o ar do buraco onde se encontrava, mas a tampa de granito ainda barrava seu caminho.
Com ímpeto, empurrou o bloco de pedra e conseguiu arrastar-se para fora e, ao mesmo tempo, para dentro do recinto. Nesse instante, enquanto se levantava, duas constatações cruzaram sua consciência: uma era que os selos de luz ainda estavam ativos; a outra era que definitivamente estava no lugar certo.
Clareou o pensamento, notando as semelhanças inconfundíveis. A familiaridade era absoluta; indiscutivelmente, era o que ele entendia por uma biblioteca. O lugar estava completamente iluminado. No teto, notou os inúmeros losangos cristalinos de luz, dispostos nas proximidades das paredes rochosas ou pendurados por correntes em gaiolas metálicas de sustentação.
O salão era vasto, composto por corredores artificiais, apinhados de estantes de madeira escura e lustrosa, sustentando incontáveis grimórios que fizeram o coração de Benk disparar em empolgação.
Agradeceu à sorte pelo fato de a saída de seu improvisado túnel não ser bloqueada ao encontrar um fundo “madeiraço” de derrota, mas sim abrir-se no centro de um corredor próximo à parede, no canto de algum lugar daquele vasto ambiente que ansiava por explorar.
Precisava organizar suas prioridades. Sentiu o ar morno acolher e aliviar o sofrimento das feridas recentes; deixou os olhos vagarem, aguçou os ouvidos, concentrou os instintos.
Focou em entender o perímetro, tentando descobrir se alguém além dele estava ali. À sua frente e às suas costas, estantes de mais de dois metros estavam abarrotadas de livros. A poucos passos, uma firme escada de madeira dava acesso às prateleiras superiores de uma das estantes. Notou que, a certa distância à sua esquerda, uma parede limitava o salão; à direita, o corredor seguia longo e continuamente até que, bem ao fundo, mais uma estante determinava uma aparente curva.
O jeito mais rápido de entender este lugar é por cima, deduziu o escriba.
Antes de utilizar a escada e escalar até o topo, usando também as bordas e o apoio das firmes prateleiras, tirou a capa impregnada de pó e cinzas que recobria seu corpo, dobrando-a; abriu a bolsa de couro, retirou os selos silenciadores e pegou a cola. Assim como fizera em sua incursão anterior, imaginou que o silêncio seria seu aliado.
Guardou a capa, bateu a poeira das roupas, ajeitou os óculos e ativou o modo furtivo para, silenciosamente, recolocar o tampo de granito sobre a abertura e, meticulosamente, testar, com êxito, um jeito de abri-la ao improvisar uma alavanca com uma espátula de metal.
Levantou-se, deu alguns passos e alcançou a escada de madeira, mas no ato em que impulsionou o corpo apenas dois degraus acima, sentiu uma intensa dor no peito que o fez parar bruscamente o movimento e abraçar a longarina da escada com o tronco rendido.
Benk, nesse instante, foi definitivamente forçado a reconhecer que não estava em boas condições.

Ling