Capítulo 51. Dedos Dourados 29
Capítulo 51. Dedos Dourados 29
Contendo a ansiedade e compreendendo o preço pago para chegar até ali, Benk subiu devagar a escada até seu fim, o que o elevou a pouco mais de três metros do chão. Quando chegou próximo ao topo, agarrou a parte de cima da estante e, usando as últimas prateleiras dela como apoio, escalou a parte superior.
Do topo do móvel e com a conquista de uma perspectiva total, percebeu que o lugar era ainda maior do que imaginava.
Fileiras intermináveis de receptáculos de papel preenchiam o salão em todas as direções, resguardando em seu interior a produção milenar de toda a literatura mágica que a história dos conjuradores já confeccionara.
Bem ao fundo, um desnível revelava o limite do local, dando acesso ao segundo piso e depois, ainda, a um terceiro; ambos separados por um amplo lance de escadas escavadas na rocha que se estendiam longamente de uma parede a outra, segmentando a câmara em três níveis sustentados por grossos pilares de rocha maciça que estavam dispostos por toda a galeria subterrânea. Sobre a superfície desses sustentáculos, em baixo-relevo, entalhes e gravuras narravam a prosperidade do povo do reino através do tempo.
Benk encontrava-se na borda da região mais baixa do salão, próximo a uma das paredes do fundo.
Mesmo após as primeiras escadas na outra extremidade, o espaço interno da base da fortaleza continuava a ser preenchido pelas estantes e seus respectivos livros. O teto estendia-se ao alto conforme as camadas subterrâneas, distribuindo seu peso sobre vigas rochosas arqueadas, amparadas na parte superior dos pilares. E, conforme o espaço se alongava até o terceiro piso, após um segundo e amplo lance de escadas, finalmente, a amplitude da base do encastelado terminava.
No centro da parede do nível mais elevado, um arco de entrada e uma pesada e ampla porta de madeira davam acesso ao interior do castelo e aos demais cômodos acima.
Se requisitassem uma comparação, Benk poderia facilmente descrever a magnitude daquele espaço como a soma da extensão do orfanato com a do prédio da Câmara Forte em uma única e vasta galeria de casamata.
Certamente, a imponência do Forte Norte de Madre Sanor não deixava a desejar, mesmo em seu mais íntimo interior.
Da posição em que estava, o escriba não vislumbrou a presença de uma alma viva sequer naquele lugar, mesmo que isso não implicasse automaticamente a ausência absoluta de leitores noturnos. O Forte não estava perto do Palácio Real tampouco do distrito administrativo da cidade. No fim, a biblioteca encastelada acima do morro parecia servir muito mais como um calabouço de riquezas do que como um espaço de pesquisa e investigação.
Sob o deslumbre do êxito, o escriba então resumiu a situação do seguinte modo: o rato encontrou o queijo.
…
Depois de retornar ao chão, metodicamente e em absoluto silêncio, Benk caminhou entre os corredores labirínticos de madeira, buscando compreender a organização do lugar. Seu objetivo era claro, mas, tanto para encontrar o que procurava como para sorver a magnânima e empolgante curiosidade, sem pressa, ele estudou as placas dispostas nas estantes e as lombadas dos exemplares escarlates encadernados em couro.
Percebeu que a antiguidade era a regra, seguida da abordagem mágica. Os grimórios milenares variavam entre os campos de estudo da natureza: solo, ar, líquido, combustão, vida, cristais, entre outros. Muitos dos livros dispostos não eram apenas mágicos, eram também diários e biografias de seus criadores.
Benk relembrou o que aprendera sobre a história das eras. O início da primeira era do Reino Antigo foi convencionalmente datado no ano da fundação do Estado de Palard pelo Rei Imortal, em 546, seguindo o Calendário Real do Pacto. O Rei de muitas alcunhas também era, e é, reconhecido como o primeiro mago do mundo. Ao ser conclamado como Rei Supremo do Primeiro Pacto Dracônico, em 632, foi posteriormente também elevado ao status de Rei Mago em 679; e, com o passar dos milênios, durante as guerras de unificação e pacificação do reino, foi aclamado como o Rei Vermelho em 10.171.
Durante os primeiros séculos, em muitos territórios e comunidades, os magos foram vistos como anomalias que traziam a tragédia; por vezes foram perseguidos ou assassinados, ou, como regra, expulsos de suas casas e exilados de suas terras.
Desamparados e excluídos do convívio social, gradualmente aproximaram-se uns dos outros e, durante a primeira era, ao compartilharem experiências em comunidades compostas apenas por magos, que aos poucos se consolidaram no meio do Platô Central do continente, desenvolveram a forma de expressão revolucionária da escrita. Isso por volta de 876 a 890, durante a décima geração dos magos continentais.
Como consequência direta dessa primorosa forma de comunicação, cerca de um século depois surgiu o primeiro grimório, confeccionado pelo mago Moon, o Sábio, em 1.023 do Calendário do Pacto. No mesmo ano, ele fundou a primeira escola de magos da história, ensinando a uma geração inteira os procedimentos para não morrerem enquanto lidavam com a magia. Isso era absurdamente comum; tanto que, por mais de mil anos, ser mago era considerado uma punição e condenação divina à morte.
Os olhos de Benk encontraram a relíquia forjada por Moon ali disposta, nomeada como Os Fundamentos da magia, um estudo sobre a mana , escrita em uma língua que já não era mais falada em nenhuma parte do território do reino, a língua mesforrita do Platô Central.
O grimório era relativamente fino, preservado pela mana que nele ardia há milênios.
Com o exemplar nas mãos, Benk folheou as páginas amareladas de couro de cabra, com bordas irregulares e um forte cheiro preservado de carniça. Ao manusear o objeto, assim como quando interagira com o grimório de Hord, seus dedos sentiram um leve choque.
A técnica arcaica utilizada em sua confecção e escrita ainda não havia sido aprimorada com a mistura de óleos vegetais de estabilização e vernizes de fixação. O aspecto era bruto: sangue vibrante, marrom e podre, que teimava em permanecer nas páginas, concentrando o poder das palavras nelas manifestas.
Não muito distante do livro de Moon, na mesma estante, encontrava-se o livro de Sol, um de seus mais renomados alunos. O rapaz pertencia a uma tradicional família de comerciantes locais, e foi ele o responsável por popularizar a escrita por todas as comunidades por onde passou, incentivando toda uma geração de magos e pessoas comuns a desenvolver o alfabeto mesforrita, adaptando-o para o dialeto de cada local.
Sol era considerado o difusor e o patrono da cultura letrada; devido a seus feitos em vida, a alfabetização e a produção de grimórios explodiram por todos os cantos do continente durante as décadas seguintes.
Eis o resultado, uma biblioteca tal qual esta , refletiu o escriba, folheando o grimório de Sol.
Quando ele morreu, em 1.078, fundaram uma escola em sua homenagem, e essa mesma escola, gerida pela comunidade de Ecala, no Platô Central, deu origem, em 1.765, à fundação da primeira academia mágica e à consolidação do Reino Acadêmico de Ecala Sol.
Uma pena que grande parte desse território tenha sido encoberto pelas águas da chuva da Travessia , lamentou Benk.
O escriba vagou entre as estantes, imerso em respeito e admiração, reconhecendo o empenho dos magos que, durante milênios, registraram as palavras entoadas em suas conjurações nas páginas da história.
Mas o que procurava havia sido confeccionado durante a época em que a paz prosperou, após a unificação do reino, no décimo milênio; período em que todo o conhecimento dos magos havia sido catalogado pelos historiadores — livros esses aos quais Benk tinha acesso na grande Biblioteca Central de Palard e, exatamente por isso, sabia bem o que estava procurando naquele lugar.
Sem permitir que a atenção se dispersasse, o escriba demarcou o pensamento. Precisava localizar o grimório do mago Endriv, que, ao lado de seu amigo Fiphlew, um estudioso comum, no ano de 10.203, desenvolveu e aprimorou o sistema de runas para tentar dar uso prático à magia no dia a dia.
